por Edison Lucas Fabricio Sobre o autor[1] “Nós, os historiadores, temos uma grande pretensão: de sejamos que o conhecimento produzido possa mostrar como o homem e as sociedades humanas já foram completamente diversos dessa atual em que vivemos e que muitas vezes jul gamos ser o único modelo existente desde sempre”. Regina Horta Duarte Palavras iniciais Este trabalho busca contextualizar as impressões de viajantes e colonos sobre a natureza no Vale do Itajaí no final do século XIX e início do século XX, procura discutir a influência da sensibilidade e do imaginário românticos sobre a construção imagética da natureza e compreender as percepções da incipiente modernidade, bem como suas marcas na natureza. A construção de imagens do Brasil desde o período colonial foi fortemente marcada pelo edenismo. Sérgio Buarque de Holanda em “Visão do paraíso – Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil”, já havia assinalado a visão paradisíaca provocada pela América portuguesa nos viajantes europeus.[2] Essa construção se acentuou, sobretudo, no século XIX e aconteceu, em grande medida, pelos relatos de viajantes franceses, alemães, ingleses e tantos outros que pelas florestas brasileiras passaram. Certamente eles contribuíram para alimentar o imaginário europeu sobre a vida nos trópicos. Esses olhares eram marcados por uma constante tensão entre o mundo europeu civilizado e a “rude e bárbara” realidade brasileira, tão distante do ideal refinado de civilização. Assim, os olhares e percepções de viagem acabaram por constituir um enaltecimento da natureza e na mesma medida uma depreciação da população autóctone. O Vale do Rio Itajaí[3], localizado ao nordeste da Província de Santa Catarina, também foi marcado por esses olhares estrangeiros. A partir da colonização européia, promovida pelo alemão Hermann Otto Blumenau, em meados do século XIX, a região passou a receber colonos, viajantes, correspondentes de jornais, etc. Um deles, Robert Gernhard, ex-redator do jornal “Reform” de Joinville, relatou suas memórias num livro comemorativo ao cinqüentenário de Blumenau e Joinville. Esse viajante, como outros, tinha a intenção de contar o que se passava nas colônias alemãs do sul do Brasil para seus conterrâneos interessados em imigrar. Na terra abençoada do sul do Brasil, à noite brilha o Cruzeiro do Sul, com seu encantamento mágico, e de dia o sol subtropical. Mas não faltam as sombras, não tenho intenções de encobri-las, elas aparecem onde devem onde devem aparecer, porém não turvam o aspecto global.[4] As sombras, que não chegavam a turvar o aspecto global da colonização, seguramente se referiam às promessas feitas e não cumpridas aos imigrantes, às expectativas frustradas e às dificuldades em relação ao exercício da cidadania, etc. Mas as maravilhas do mundo natural ali estavam para atenuarem a dureza da vida colonial. A região subtropical com seu clima saudável, sem montanhas subalpinas, oferece condições para a colonização. Aos turistas abastados recomendo uma viagem de recreio para o Paraná, Santa Catarina ou Rio Grande do Sul. A viagem num vapor de linha é excitante, a alimentação a bordo é excelente, as tempestades são raras e os navios são confortáveis. Aqueles que têm recursos, gostam da natureza e do estudo de terras além-mar, ficarão recompensados. [5] No século XIX as pessoas que tinham problemas de saúde eram incentivadas a passar férias nas montanhas, florestas e junto aos rios. Assim, podemos falar na invenção do lazer terapêutico junto ao ambiente natural.[6] Mas não era somente o clima subtropical que atraia pessoas abastadas para o sul do Brasil. Romantismo e natureza, a nostalgia de um tempo perdido Durante o século XIX o estudo da natureza transformou os trópicos num “livro de curiosidades” e a publicação da obra de Charles Darwin, A origem das espécies, contribuiu sobremaneira para tal. Além dele, Alexander von Humboldt, Friedrich von Martius e Auguste de Saint-Hilaire, são os nomes europeus mais conhecidos dessa empresa especulativa nos trópicos. [7] Para Mirian Moreira Leite é possível falar em “constelações”, uma vez que muitos viajantes naturalistas trabalhavam com grande número de colaboradores.[8] O Vale do Itajaí não estava desprovido de sua estrela, a figura expressiva de Fritz Müller, que se instalou em Blumenau e por alguns anos exerceu a função de naturalista viajante à serviço do Império Brasileiro. Leitor de Karl Marx e colaborador de Charles Darwin, Müller achou na floresta a liberdade que seu ateísmo aspirava. O clima asfixiante da religiosidade luterana de seu lar, somado às informações dos trópicos, fornecidas por ilustres frequentadores de sua casa, como Alexander Von Humboldt, criou em Müller um desejo pela floresta sul-americana. Fritz Müller, pode-se dizer, foi um enamorado da natureza dos trópicos. Sua formação naturalística, bastante sólida, convidava-o a perscrutar os mínimos pormenores de animais e plantas, com os quais enriqueceu os quatros vigorosos tomos de sua obra.[9] Assim, a floresta do Vale não estava à margem da modernidade filosófica européia. Através de Fritz Müller a natureza do Vale do Itajaí entrou na ordem do discurso científico do século XIX. Segundo a historiadora Márcia Naxara, nesse período ocorreu a construção de uma nova relação dos homens com a natureza, que, por um lado, procura a descoberta e o conhecimento dos seus segredos pela ciência, objetiva e classificadora, e, por outro, vivencia-a através de uma sensibilidade aguçada pela emoção, do corpo e da alma. [10] Essa exploração cientifica é inseparável do advento do “espírito do capitalismo”, que contribuiu para o fim da deificação da natureza. Max Weber chamou esse fenômeno de “desencantamento do mundo”, dessa forma, o ambiente natural passou a ser explorado com mais intensidade. Mas, não devemos reduzir o fenômeno da destruição da paisagem natural somente a elementos econômicos, a cultura judaico-cristã ocidental sempre preconizou o predomínio humano sobre as outras espécies. A naturalização de tal idéia era baseada, em partes, no primado da superioridade e singularidade do homem, afinal, desde Aristóteles, o homem não era apenas um animal superior, mas racional e feito à imagem e semelhança de Deus. [11] No século XIV houve mudanças vertiginosas nessa concepção. Os filósofos modernos, Galileu, Leibniz e Descartes, rejeitavam a idéia que o mundo havia sido criado para uso exclusivo do homem, a supremacia humana passou a ser questionada. A ciência nesse período feriu profundamente o orgulho humano, o homem não passava de um elemento nesse imenso conjunto da natureza. O homem destronado encontrou-se na posição de lutar pela sua própria preservação, uma espécie de “direito natural” o impelia a se afirmar sobre as outras espécies. Essa empresa afirmativa viu-se diante de uma natureza que devia ser transformada em cultura. As matas envoltas em um ar misterioso, por vezes sinistro, eram lugares de feras e não de homens. Assim, a derrubada e a domesticação das matas representaram o triunfo da civilização sobre a natureza.[12] A imigração européia colocou em curso um “processo civilizador” no Vale do Itajaí. Assim, o indígena devia dar lugar ao homem branco, a floresta ao campo. Para Keith Thomas, a construção idealizada da vida no campo torna-se mais compreensível se colocarmos em evidência a cidade. No Renascimento já se associava a cidade à civilidade, mas, todavia, antes do século XIX “tornava-se lugar-comum sustentar que o campo era mais bonito que a cidade. [...] Em parte, essa convicção se devia à deteriorização do ambiente urbano. [...] para os citadinos o campo ia se tornando cada vez mais como um lugar de repouso e refrigério. [13] Criou-se uma dualidade, o campo era o lugar privilegiado para o cultivo da virtude, já a cidade estava associada ao vício. Há nessa afirmação uma conotação religiosa, diríamos romântica, pois nessa percepção o próprio campo representava o encontro com o divino. O campo era projetado como um lugar ausente de tensões sociais e da “selvagem” corrida pelo lucro, depositava-se nele expectativas resignadas, mistificadoras e escapistas. Um paraíso idílico imune às investidas da cidade. “Por sentimentais que sejam, tais sensibilidades refletem o desconforto gerado pelo progresso da civilização humana; e uma relutância a aceitar a realidade urbana que caracteriza a vida moderna”. [14] Essa repulsa à modernidade foi construída, em grande medida, pelo romantismo. O romantismo, enquanto movimento cultural, produziu uma das maiores críticas à modernidade capitalista, que fria e demasiadamente cultivava a razão iluminista. No âmbito literário Novalis, Goethe e Schiller são seus grandes vultos. Palavras como sentimento, misticismo, natureza, introspecção ganharam grande importância. Contemplar o crepúsculo ou a aurora era atitude de repúdio ao “desencantamento do mundo” aplicado por um legado racionalista que vai docogito cartesiano e atinge seu auge na sociedade industrial. A visão romântica do mundo, enquanto “estrutura mental coletiva”, representa uma crítica à modernidade capitalista. ... essa crítica está ligada à experiência de uma perda: no real moderno, algo de precioso foi perdido, simultaneamente, ao nível do indivíduo e da humanidade. A visão romântica é caracterizada pela convicção dolorosa e melancólica de que o presente carece de certos valores humanos essenciais que foram alienados. [15] As visões de natureza de muitos viajantes foram marcadas pelo romantismo. A instrumentalização do olhar viajante requeria a observação de alguns cânones, pois era necessário ter certa sensibilidade para apreciar o mundo natural. Assim, o conhecimento histórico e literário era fundamental. Goethe era uma das referências obrigatórias. Sigamos seu personagem Werther. Quando o vale em derredor de mim exala seus vapores, e, no fastígio, o sol chameja nas enormes franças e impenetráveis das florestas, e somente alguns poucos raios se insinuam no sacrário do seu interior, quando repouso sobre a relva junto ao regato que desliza, e de mais perto miríades de ervinhas se tornam visíveis aos meus olhos, e incontáveis e indecifráveis formas de gusanos, de insetos pululam mais próximo do meu coração, sinto a presença então do Onipotente, que nos criou à sua imagem, e sinto o sopro do Criador, que entre delícias perenes nos mantém.[16] Para os românticos a natureza e o universo deveriam ser tomados em sua unidade, assumindo uma realidade mística, a natureza era a expressão visível do Eterno, sentir-se parte da natureza era reencontrar o contato com a “grande alma do mundo”, “... em meio à qual o homem se perde, tornando-se minúsculo e impotente, de forma que ressalte sua pequenez. Imagem poderosa para se pensar a relação homem-natureza de um ponto de vista romântico. [17] Um indício da sensibilidade romântica de alguns imigrantes alemães pode ser percebido no texto do historiador Marlon Salomon. O autor assinala que, dentre os poucos bens trazidos da Alemanha, pelos colonos, havia os livros: “estes eram nossos melhores amigos no mato: Goethe, Schiller, Feuchtersleben, Zschokke, etc. graças a Deus que eu havia trazido todos comigo”.[18] Num paraíso idílico, um rio de palavras O Rio Itajaí certamente era um dos maiores encantos apontados pelos viajantes na vida subtropical. Segundo Genrhard O rio apresenta um belo panorama. Suas águas límpidas correm larga, profunda e majestosamente calmas no meio de uma densa floresta. As esbeltas palmeiras balançam ao vento sobre o leito do rio. [...] Em fevereiro, o Rio Itajaí é indescritivelmente belo e quando a floresta está florida, milhares de colibris e borboletas voam por entre os cálices das flores absorvendo o orvalho. [...] O leito do rio se estreita correndo por entre rochas negras, formando numerosas cachoeiras pequenas. O cenário grandioso não cansa o observador, que pode contemplá-lo da margem calma e sombreada. [19] O viajante esforçava-se para usar as palavras mais adequadas na descrição. Sua sensibilidade captava a natureza como um belo quadro, de onde se podia observar várias perspectivas. No período, qualquer cena chamava-se paisagem “por recordar uma vista pintada. Era pitoresca por se parecer com uma pintura”. [20] O rio ainda poderia trazer reminiscências da Alemanha[21] e não raro surgiam comparações do rio Itajaí com o Reno. Hugo Zoeller, viajante a serviço do jornal “Koelnischer Zeitung”, esteve no Vale do Itajaí em 1882 para registrar suas impressões. Esta viagem feita por uma região montanhosa com lindas florestas ainda em partes nativas, se desenrola numa variada paisagem. [...] O rio, ao estreitar-se, mostra uma curva fechada onde entre lindas encostas verdes, se forma uma paisagem suave e agradável. Em outras regiões do Reno, entre Bohn e Colônia, se repete o mesmo. [...] A sede de Blumenau é aprazível, num cenário especial com florestas, montanhas e que recebe um colorido especial com o majestoso Itajaí e seus numerosos afluentes. [22] Wilhelm Lacmann foi outro viajante que esteve no sul do Brasil nos anos de 1903 e 1904. Lacmann foi um dos viajantes que mais tempo ficou nas colônias alemãs, sua descrição da floresta foi meticulosa e detalhada. Nas suas páginas ele convidava seus leitores para uma caminhada, Acompanhem-me, leitores, numa caminhada: a floresta subtropical envolve-nos maravilhosamente. Ali um palmito esbelto eleva sua copa contra o céu; lá estão cedros, tajubas, figueiras, canelas e outras mais com seus troncos fortes. São gigantes orgulhosos da selva! Entre eles crescem um emaranhado de outras árvores com todas as variações do verde, entrelaçadas por trepadeiras, como grossos cabos esticados e lá adiante um mata-pau abraça mortalmente uma árvore. [...] A floresta esta cheia de vida! Centenas de vozes ecoam do grito rouco do tucano ao martelar dos pica-paus, do grito agudo do papagaio até o sussurro dos minúsculos beija-flores e mariposas brilhantes voando junto às flores. Esses seres coloridos causam uma maravilhosa impressão. Citando Buffon: “São uma obra prima da natureza”. [23] A caminhada, a qual nos convida Lacmann, se desenvolve entre as mais variadas espécies da flora e da fauna, tal percurso, feito imaginariamente, visava incitar a sensibilidade dos leitores, “a floresta está cheia de vida!”. Aqui animais e vegetais ganhavam sentimentos e expressões humanas: as árvores eram orgulhosas, o palmito era esbelto, os beija-flores sussurravam. Mas nosso viajante não queria somente impressionar seus leitores com a sua capacidade estilística, para mostrar que não estava alheio à produção cientifica ele citou Buffon, um dos naturalistas mais louvados do século XIX. Outro viajante que relatou sua experiência na mata foi Hugo Zoeller. Sigamos a descrição: Eu encontrei no mato somente beija-flores verdes, papagaios de cor verde e cinza, periquitos, arapongas, lagartos, sapos boi (do tamanho de um gato) e rastos recentes do cervo maturo e escutei uma vez ao longe o bramido dos monos, mas o que mais me agradou foi a visita de um lindo representante dos jardins e das florestas brasileira em meu quarto. [...] Era um beija-flor verde e branco do tamanho da falange do meu dedo. Foi atraído pelas flores e quando fechei a janela ficou meu prisioneiro. Os animais são muito ariscos na época de seu acasalamento; procuram-se e facilmente morrem de saudades, tanto assim que logo devolvi a liberdade. [24] A floresta impressionava a todos os viajantes. Mas a vida de um colono na floresta era cheia de dificuldades, muitos se desiludiam com a dureza do empreendimento colonizador. Alguns imigrantes depositaram muitas expectativas sobre a vida na floresta, mas quando aqui chegaram, e se depararam com as condições desfavoráveis, a melancolia e a saudade da velha pátria os consumiram. Muitos, ao chegarem na floresta dão sinais de decepção e desabafam: “Não imaginei que fosse assim!” [...] Muitos vieram imaginando encontrar o céu na terra ao lerem sobre a grande variedade de frutas, beleza da paisagem e abundancia de caça na floresta. [...] Aqui eles encontram ranchos de palmito dos que vieram antes e florestas impenetráveis que esperam ser derrubadas pelo seu machado. [25] Para Hugo Zoeller, os colonos que estivessem interessados em imigrar deveriam despir-se de todo o romantismo da vida na floresta. “Todo aquele que sonha com a vida romântica da floresta deve imaginar o quanto será difícil acostumar-se à saborosa carne do gambá ou do lagarto”. [26] Mas a desilusão dos trópicos atingia apenas alguns poucos colonos. Havia pessoas satisfeitas e bem sucedidas na colônia. O sucesso de tais pessoas, segundo Zoeller, devia-se ao fato de já estarem acostumadas com a vida agrícola que levavam na Alemanha. Nas casas dos colonos encontramos gente satisfeita. Ex-jardineiros, criados, pessoas com mão forte e calejadas se dão bem aqui. Pessoas que na Alemanha viviam entre o campo e a cidade, e imigraram levados por ilusões utópicas, encontram grandes dificuldades. Os homens sempre encontram compensação quando têm sucesso no seu trabalho árduo; mas as mulheres dificilmente se acostumam com a vida da colônia. São consumidas pela saudade da velha pátria, e frequentemente levam uma vida deprimida até a morte. Principalmente quando tem certo grau de cultura e instrução, necessitam de contato social com a vizinhança, o que se torna difícil aqui! Sofrem na solidão da floresta![27] Há nas palavras desse viajante uma espécie de confronto entre a natureza e a cultura, sua concepção estava vinculada a uma visão clássica que associava a cultura somente ao espaço urbano, como se o espaço privilegiado da cultura fosse somente a cidade. Assim a vida na floresta, principalmente para as mulheres, era inóspita, deprimente e solitária. Para Zoeller não era somente o beija-flor que, preso à civilização, morria de saudade, também as mulheres presas à vida rude da floresta eram consumidas pela saudade. Hermann Baumgarten, redator do Jornal “Blumenauer Zeitung”, na edição comemorativa aos cinqüenta anos da colônia Blumenau não fugiu do tema da colonização. Sua impressão da concretização do projeto colonizador era um tanto dramática. Quanto aos colonos, Alguns faleceram antes de se abrigarem em seu próprio telhado. Outros faleceram insatisfeitos com o que lhes proporcionou a floresta sul-americana, desiludidos dos ideais que os atraíram para a floresta virgem. Queriam fugir da vida moderna com sua agitação constante e foram levados de volta às velhas profundidades. [28] As palavras de Baumgarten são reveladoras. Para o jornalista a vinda dos imigrantes, em grande medida, ocorreu por uma espécie de fuga da agitação da vida moderna. Aqui podemos confirmar a relação de confronto entre o romantismo e a modernidade. Obviamente, a fuga da modernidade não era a causa principal da imigração para o Império brasileiro. As dificuldades econômicas que se abatiam sobre a Europa no século XIX obrigaram muitos “pobres diabos” a cruzar o oceano em busca de uma vida melhor nos trópicos. Nas suas cavalgadas pelo sul do Brasil Lacmann expressa toda a nostalgia desse tempo perdido, um tempo dilacerado pela modernidade. A vida lá no além mar, debaixo de palmeiras e pinheiros é na realidade uma “vida alemã”. Mas é uma vida que ficou muito atrás em relação à nossa. Lembra as condições que existiam na Alemanha em tempos que já se foram. No Brasil o viajante encontra uma romântica lembrança das velhas estradas alemãs, ao cavalgar entre as extensas regiões de colonização de Dona Francisca ou no Rio Grande do sul, onde nenhuma linha de estrada de ferro, nenhum automóvel transita pelas estradas, e onde encontra cavaleiros, pesadas carroças com carga, e de tempo em tempo encontra um fino senhor viajando em um carro de mola. Também não falta a figura do caminhante. Vieram da Alemanha muitos “pobres diabos” e como não possuem cavalo, caminham centenas de milhas à procura da sua felicidade. E a impressão da vida romântica de tempos passados volta, quando paramos numa hospedaria: o peão toma as rédeas da montaria e o hospedeiro leva-nos à sala nobre. [29] As palavras de Lacmann refletem um desejo pela vida simples da colônia. Simulacro de uma Alemanha romântica que já não mais existia, a colônia representava um remanescente a salvo da ingerência da racionalização e potencialização da técnica imposta pela modernidade capitalista.[30] O sinal marcante era a inexistência de automóveis e ferrovias na região. Para Michael Löwy e Robert Sayre os românticos manifestam, muitas vezes uma profunda hostilidade a tudo o que é mecânico, artificial, construído. Nostálgicos da harmonia perdida entre o homem e a natureza à qual dedicam um culto místico, eles observam com melancolia e desolação os progressos do ma quinismo, da industrialização, da conquista mecanizada do meio ambiente. [31] Modernidade e natureza A modernidade aparece como um projeto irresistível, titânico, vulcânico, avassalador. Nela são questionados todos os vínculos sociais e as tradições. Nas palavras de Marx, eternizadas por Marshall Berman, a modernidade é o período onde “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Ela é norteada “pelo terror da desorientação e da desintegração, o terror da vida que se desfaz em pedaços”. [32] Baumgarten conseguiu perceber bem essa mudança radical operada no inicio do século XX e não sem nostalgia retratou a ruptura. Passou a época romântica do trabalho colonizador. Aos descendentes que aqui cresceram, a saudade das noites escuras da Floresta Negra, dos vinhedos, das cachoeiras do Nekar, que os velhos avós, saudosos relembravam, já é incompreensível. E, incompreensível são os motivos que levaram os velhos a cruzar o mar. As tradições caem no ostracismo, tornam-se nebulosas e logo uma época triste e pesada bate às portas nas mais distantes colônias da floresta. [...] A concorrência ferrenha, a luta de todos contra todos, não poupará o pacífico Vale do Itajaí. O primeiro apito da locomotiva será o sinal anunciando uma nova era. Estamos próximos a ela! [...] Avante Blumenau! [33] O “pacífico Vale do Itajaí” não estaria à salvo das forças modernizadoras. Não levaria uma década para que os ícones da modernidade, a locomotiva e o automóvel, por aqui aparecessem. Como a força da modernidade era irresistível, o que restava era saúdá-la. Uma nova era estava chegando e a natureza não estaria isenta de suas conseqüências. Mesmo Zoeller, já em 1886, havia relatado o manejo do solo feito pelos colonos: “No início das colônias de Blumenau dominou o sistema da pura exploração do solo. A floresta foi destruída pelo machado e pelo fogo. O solo foi cultivado por alguns anos até o seu esgotamento”. [34] Ora, construiu-se uma imagem, segundo a qual, a natureza era uma barreira para o desenvolvimento econômico. A mata deveria ser derrubada, a natureza deveria ser sujeitada ao domínio humano. *** Para concluir, sempre provisoriamente, nos perguntamos: em tempos de embates políticos em torno de códigos ambientais e florestais, a história ainda pode inspirar romantismos que busquem a unidade entre o ser humano e a natureza no Vale do Itajaí? Se sim, podemos afirmar com o mestre Marc Bloch, que além de divertir ela “serve à ação”. Referências Bibliográficas BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar; a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1986. BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. CARVALHO, José Murilo de. O motivo edênico no imaginário social brasileiro.Revista Brasileira de Ciências Sociais. 1998, vol.13, n.38. Disponível emhttp://www.scielo.br. Acesso: 20/04/2009. DUARTE, Regina Horta. História & natureza. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.(História & reflexões ; 9). GERNHARD, Robert. Impressões de viajantes. O Município de Blumenau (1900). In:Blumenau em Cadernos. Tomo XXXIX, Nº 11/12, Novembro/Dezembro de 1998. págs. 47-80 GOETHE, Johann Wolfgang von. Os sofrimentos de Werther. 8º ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do paraíso – Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 2000. LACMANN, Wilhelm. Cavalgadas e impressões no sul do Brasil (1906). In:Blumenau em cadernos. Tomo XXXVIII, Nº 11/12, novembro/dezembro de 1997. págs. 9-55. LEACH, Edmund. “Natureza/cultura”. In: Enciclopédia Einaudi, vol. 5. Anthropos – Homem. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1985, pp. 67-101. LOWY, Michael, SAYRE, Robert. Revolta e Melancolia: o romantismo na contramão da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1995. ALENCASTRO, Luiz Felipe de; RENAUX, Maria Luiza. Caras e modos dos migrantes e imigrantes. In: NOVAIS, Fernando A (coord.). História da vida privada no Brasil. Império. 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[3] Atualmente a região do Vale do Itajaí esta dividida em Alto Vale, sendo o município pólo Rio do Sul, Médio Vale, com Blumenau como município pólo, e Baixo Vale, tendo Itajaí como município referência. Cf. SIEBERT, Claudia Freitas. Estruturação e desenvolvimento da rede urbana do Vale do Itajaí. Blumenau: Ed. da Furb, 1996, p. 15. [4] GERNHARD, 1901, p. 48. [5] Idem, p. 51 [6] RAUCH, 2001, p. 91-136 [7] Sobre os naturalistas viajantes ver: GUIMARAES, Manoel L. S. História e natureza em von Martius: esquadrinhando o Brasil para construir a nação. História, ciências, saúde – Manguinhos. 2000, vol. 7, nº. 2 pp. 391-413; KURY, L. ‘Viajantes-naturalistas no Brasil oitocentista: experiência, relato e imagem’. História, ciências, saúde – Manguinhos. Vol. VIII (suplemento), 2001. pp. 863-80. [8] LEITE, M. L. M. ‘Naturalistas viajantes’. História, ciências, saúde – Manguinhos. I (2): Novembro de 1994 / fevereiro de 1995. pp. 7-19 [9] SAWAYA, 2000, p. 58. Entre as lembranças conservadas no museu que leva seu nome erguem-se dois imponentes araribás. [10] NAXARA, 2004, p. 436. [11] THOMAS, 1988, p. 37 [12] Segundo Edmund Leach “... a partir do século XVII o ‘espírito’ e a ‘matéria’ tinham-se tornado entidades separadas, e o mundo mecânico, objetivo, físico, é identificado com anatureza, em oposição potencial com o universo das construções do espírito humano, consideradas estas mais tarde, em termos genéricos, como fazendo parte do ‘mundo da cultura’”. LEACH, Edmund. “Natureza/cultura”. In: Enciclopédia Einaudi, vol. 5. Anthropos – Homem. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1985, p. 68. [13] THOMAS, p. 290-5. [14] Idem, p. 302. [15] LÖWY; SAYRE. 1995, p. 40 [16] GOETHE, 2000, p.47. [17] NAXARA, 2004, p. 438 [18] AMONN apud SALOMON, 2002, p. 44 [19] GERNHARD, 1901, p.53-4. [20] NAXARA, 2004, p. 435. [21] Falamos da Alemanha num sentido bastante abrangente, em 1850 quando os primeiros colonos imigram para a região do Vale do Itajaí a Alemanha ainda não era uma nação unificada. A unificação só ocorreu na década de setenta do século XIX, acirrada pelos sentimentos e disputas nacionalistas com a França. [22] ZOELLER, 1882, p. 140, 142. [23] LACMANN, 1906, p. 52, 53 [24] ZOELLER, 1886, p. 146. [25] LACMANN, 1906, p. 45. [26] ZOELLER. 1886, p. 55. [27] ZOELLER, 1886, p. 54. [28] BAUMGARTEN apud GERNHARD, 1901, p. 74. Grifo meu. [29] LACMANN, 1906, p. 30, 31 [30] Aqui é pertinente registrar a expressão “As falsas Europas: colônias alemãs no sul do Império” de Luiz Felipe de Alencastro e Maria Luiza Renaux. [31] LÖWY; SAYRE, 1995, p. 63 [32] BERMAN, M. Tudo que é sólido desmancha no ar; a aventura da modernidade.São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p. 13. [33] BAUMGARTEN apud GERNHARD, 1901, p. 75. Grifo meu. [34] ZOELLER, 1886, p. 34.
27.9.09
Natureza, sensibilidade romântica e modernidade nos relatos de viajantes e colonos do Vale do Itajaí



