por Heitor Esperança Henrique
Dentre os viajantes da Idade Média podemos citar diferentes tipos de indivíduos, são eles: os peregrinos, os mercadores, os missionários, embaixadores civis e religiosos, os aventureiros e cavaleiros cruzados. Esses viajantes podem ser de diferentes condições sociais, desde ricos a pobres, às vezes são reis, outras vezes são os embaixadores dos reis, senhores nobres, viajantes que movem o comércio, pastores e viajantes de Deus. Essas viagens eram realizadas por diversas rotas e de diferentes maneiras ao longo da Idade Média. Viajava-se do Ocidente para o Oriente e do Oriente para o Ocidente e também no interior da Europa, com diferentes objetivos. As viagens duravam dias, meses e até anos, devido a dificuldades impostas pela natureza como: mares, montanhas e desertos e dificuldades causadas por ações humanas: protecionismo, nacionalismo, assaltos e corsários. Sempre viajavam em grupos para se auxiliarem na transposição dessas barreiras.
Em alguns casos os viajantes relatavam as suas viagens, permitindo-nos estudar como as mesmas eram realizadas, por quais rotas passavam e quais eram os seus objetivos. Constitui-se assim uma literatura de viagens. Porém devemos analisar minuciosamente esses relatos, muitos deles contém fábulas e histórias de monstros, o que caracteriza a mentalidade do homem medieval. Outras narrações são imaginárias e fictícias como, por exemplo, a “Divina Comédia” de Dante e as viagens de São Brandão, embora com temáticas diferentes.
Os viajantes peregrinos não são de exclusividade da cristandade européia. As viagens também são realizadas nas outras grandes religiões. Os muçulmanos possuem a peregrinação como obrigação imposta pelo Alcorão, já no Cristianismo é uma opção. Luis Bonilla (1965) e Feliciano Novoa (2003) discutem sobre este tipo de viagens. Feliciano Novoa (2003, p.75-85) aborda as peregrinações à Terra Santa até o século VII. A partir da virada no Império Romano de Constantino há um incentivo ás viagens à Terra Santa, a nobreza romana se converte ao Cristianismo, assim uma série de capital é direcionada para as construções de igrejas e templos no Oriente, iniciada por Santa Helena que foi a principal impulsora das construções do Cristianismo na Terra Santa. Podemos destacar alguns viajantes que fizeram essas peregrinações: Melancia, Santa Paula, São Gerônimo. Os motivos que levam esses cristãos a viajarem são múltiplos, antes de tudo, é intensificar sua relação com o divino, aumentar sua fé, orar para pedir ou agradecer alguma graça.
Tanto Luis Bonilla (1965, p.99-105) quanto López Estrada (2003, p.29-37) tratam dos grandes destinos de peregrinação. O mais visitado é Jerusalém, o segundo mais visitado é Roma e depois Compostela. López Estrada diferencia o peregrino que é o viajante que vai a Jerusalém, dos romeiros que são os viajantes que vão a Roma. Já Luis Bonilla focaliza as rotas e os problemas dos peregrinos. Devido à dificuldade e a extensão dos caminhos viajava-se sempre em grupo, o tamanho das viagens também era determinado de acordo com a penitência. A questão da peregrinação está arraigada na mentalidade do homem medieval, não se caracterizou um movimento isolado, eram comuns e estavam associados à cristandade, representou uma aventura com a incerteza da volta, os peregrinos estavam movidos pela fé e pela obrigação de cumprir penitência.
Também temos os peregrinos nobres. Esses viajantes faziam suas peregrinações de forma mais confortável e elegante, estavam sempre acompanhados de seu séquito protetor e ao longo do caminho compartilham com os demais cristãos os desejos de ver com os próprios olhos o cenário da vida de Cristo. Esses viajantes muito usaram das três grandes metas de peregrinação. Alguns desses nobres nunca estavam satisfeitos e viviam sempre em busca de aventura, um exemplo deles é Gilberto de Lannoy, que viajou diversas vezes a Jerusalém e Compostela. (LABARGE, 2000, p.111 – 147)
A historiografia clássica demonstra que durante os séculos VIII e IX, a Europa passou por um momento de isolamento em relação ao Oriente. Através de relatos dos viajantes medievais, entre eles: diplomáticos, peregrinos e mercadores, Michael McCormick (2005) mostra que existia um movimento na Europa e que a mesma se comunicava com demais regiões. McCormick contesta a historiografia ao publicar “Orígenes De La Economía Europea” (Origens da Economia Europeia). Do século VII ao século X havia três grandes realidades: Mundo Árabe, Império Carolíngio e Império Bizantino, que estavam em constante contato. Houve diversos indivíduos que viajaram do Ocidente para o Oriente, 4 exemplos: Amalario, Marino, Wilibaldo e Bernardo. E houve também diversos viajantes que faziam o sentido inverso. Os orientais são ligeiramente mais numerosos que os ocidentais, eram embaixadores e peregrinos, em sua maioria. São exemplos os irmãos Constantino e Metódio e Gregório Akritas. Os embaixadores viajavam a serviço de seus reis ou imperadores para resolverem questões políticas ou econômicas, outros eram missionários, que viajavam com o objetivo de evangelizar. Os embaixadores, peregrinos e missionários quando aristocratas dominam os registros que sobrevivem.
Outro tipo de viajante são os cavaleiros cruzados. Luís Bonilla (1965, p.139-156) discute a peregrinação à Terra Santa antes e durante as Cruzadas. Este mesmo tema também é discutido em um dos capítulos do livro de Margaret Labarge (2000, p.149-173) que leva em consideração os combates religiosos travados por esses cavaleiros, os motivos religiosos e econômicos e alguns cavaleiros que eram movidos pela aventura como foi o caso de Joinville. Outros cavaleiros como Boucicaut estavam motivados pelo desejo de atividade e glória pessoal, foi um homem com muito êxito nos círculos sociais, mas como cruzado foi um desastre. J.R.S Phillips (1994) também vai discutir sobre esses viajantes. A empresa das Cruzadas não prosperou devido ao fato de os europeus não terem criado raízes fixas na Terra Santa. Phillips (1994) leva em consideração a condição social do viajante e o motivo de sua viagem que refletirá diretamente em seus relatos. Ao discutir as rotas de viagens aponta o Mar Mediterrâneo que era a principal rota de comércio europeia por onde passava toda a sua riqueza. Aponta também os missionários que começam a viajar para a Ásia, no século XII e XIII com o domínio mongol. Após perceberem a quantidade de cristãos na Ásia e a ausência de qualquer hostilidade para com eles, estava plantada a semente da evangelização, esses missionários da cristandade ocidental agiram em uma escala nunca sonhada antes.
Esses viajantes ao longo da Idade Média, viajavam por diversas rotas, por terra e por mar. A experiência dessas viagens mostra as dificuldades encontradas pelos viajantes durante as suas empreitadas. Havia sempre a preferência de se viajar em grupo, proporcionando assim mais segurança. Nas viagens por mar era comum a ocorrência de grandes tormentas e, às vezes ,os barcos e equipamentos não estavam preparados para isso. O tempo de duração dessas viagens variava muito devido à diferente velocidade por terra e por mar. (McCORMICK, 2005, p.381-389)
Uma rota muito usada, não só na Idade Média mas também durante a Antiguidade foi a rota da seda, muitas dos viajantes usaram esta via, desde o século I d.C. até o século XV.
A rota da seda constituía uma série de redes de comunicação da China com o Ocidente durante mais de um milênio, a rota por sua vez criou grandes centros de civilização que se entrelaçaram uns com os outros crescendo e declinando segundo a importância dos intercâmbios. Os principais tipos de viajantes que faziam essa rota eram os mercadores, vendendo e comprando mercadorias, principalmente a seda, fazendo movimentar a economia desses centros. Vários viajantes europeus durante a Antiguidade viajaram em direção ao Oriente como exemplos Heródoto e Alexandre, mas nenhum deles chegou tão distante a ponto de conhecer a China, local onde a rota de seda começa a se constituir durante a dinastia Han (206 a.C. - 220d.C.).
Através das viagens de embaixadores e comerciantes da China e da Ásia Central a seda apareceu em Roma. Os povos da Ásia Central (partos e cusitas) foram os intermediários desse comércio entre a China e Roma. Esses povos garantiam por si só o comércio das caravanas desde a Ásia Central. Foram os partos que no século I a.C. mostraram a seda aos romanos. Os romanos nada conheciam sobre a China, quem manteve o segredo da seda guardado por mais de 4 séculos, sabiam apenas que provavelmente se designava o Império dos Qin (221 a.C – 207 a.C.) no extremo Oriente. (GOULIN, 2002, p.31-36)
É difícil estabelecer um itinerário da rota da seda, pois eram diversos caminhos onde se transportavam tanto seda como especiarias, papel e porcelana, favorecendo não só os intercâmbios mercantes como também os intelectuais, técnicos e religiosos. Nomes de rios, montanhas, planícies, cidades, províncias e países mudaram diversas vezes, devido a isso a dificuldade de se traçar um mapa da rota da seda.
Durante várias vezes ao longo da História a rota da seda foi administrada por diversos povos. Na Antiguidade o comércio passava pelas mãos dos partos e cusitas, do século VII em diante passou pelos mercadores do islã, suas caravanas eram conhecidas como “naves do deserto”, recorriam incansavelmente a rota da seda, algumas delas com até 4.700 camelos, esses muçulmanos eram homens muito habilidosos na arte de comercializar.
Essa rota não se reduziu apenas a um tráfico comercial, o mesmo caminho era usado por peregrinos, facilitando a importantes religiões terem chegado à China: Budismo, Mazdeísmo, Maniqueísmo e o Cristianismo.
Dentre os viajantes medievais, Marco Polo era uma das figuras mais famosas, que era um exemplo característico de mercador veneziano no final do século XIII que também passou por diversos pontos da rota da seda. Nenhum mercador europeu cujo nome se conheça havia estado em Pequim antes de seu pai e seu tio, Niccolo e Matteo Polo em 1265, Marco Polo vai à China na segunda viagem dos Polo em 1271.
A família Polo era uma família de mercadores, possuíam uma associação familiar, muito comum na Itália dentro de um contexto de forte poder genovês no comércio. Os irmãos Polo, pai e tio de Marco em torno de 1260 partem pela primeira vez ao Império Mongol, quando voltaram à Europa estavam como mensageiros do Grande Khan, retornam à Ásia em 1271, agora com Marco Polo presente. Marco Polo parte com 17 anos e permanece por muito tempo na China como homem do Império Mongol regressando à Europa com 41 anos de idade.
Marco Polo deixou um relato de suas passagens pelo Império Mongol, foi um livro produzido em parceria com Rustichello de Pizza quando os dois se encontraram presos. O Livro das Maravilhas de Marco Polo é o assunto principal que John Larner trata em “Marco Polo Y El Descubrimento Del Mundo” (Marco Polo e o Descobrimento do Mundo). Larner (2001) analisa como se deu a produção do Livro das Maravilhas, usa dos dois grupos de manuscritos: grupo A e Grupo B para seus estudos, pois o manuscrito original não mais existe. O objetivo principal é demonstrar a importância do livro de Marco Polo para os seus contemporâneos, analisar os conhecimentos que existiam no mundo antes de Marco Polo, e as transformações ocasionadas pela disseminação de seu livro. O livro foi ditado, mas é muito provável que Marco Polo tenha feito suas anotações pelos lugares onde passou, possui muita influência mongol, há uma grande admiração pelo Império dos Khan. Larner analisa o quanto esse relato da passagem de Marco Polo pelo Oriente foi aceito pelas pessoas que liam o livro. Havia uma maior aceitação pela classe popular e uma desaprovação pelos eruditos devido algumas passagens fantasiosas. Após a publicação o livro teve uma grande divulgação que depois de algum tempo foi superada pela obra de John de Mandeville, um livro de viagem fictícia que possui informações mais contundentes em relação ao Livro das Maravilhas de Marco Polo. Mandeville usa de levantamentos, fontes e dados de outras obras para produzir o seu livro de viagem, mas isso sem viajar. A maravilha que procedia os mitos e ficções foi uma tentação que acompanhou não só Mandeville mas também outros viajantes medievais, fazendo-os produzirem relatos fictícios e imaginários.
A diversidade de viajantes na Idade Média era grande, se dividia em diferentes classes que ditavam os objetivos das viagens. Resumindo, os peregrinos viajavam a lugares santos motivados pela fé, os missionários pelo espírito de evangelização, embaixadores por questões políticas e acordos econômicos e os aventureiros por curiosidade. Nesse período as grandes regiões do mundo estiveram em pleno contato e movimento devido à ação desses indivíduos, que enfrentaram imensas dificuldades impostas pela ação da natureza e pela ação humana. (McCORMICK, 2005, p.215 e p.260). As pessoas estavam em constante movimento na Idade Média.
REFERÊNCIAS:
BONILLA, Luis. Los Peregrinos: sus Orígenes, rutas y religiones. Madrid: Almagro, 1965.
GOULIN, Julián Muñhoz. La Ruta De La Seda. Madrid: Acento: 2002.
LABARGE, Margaret Wade. Viajeros medievales: los ricos y los insatisfechos. Madrid: Nerea, 2000.
LARNER, John. Marco Polo Y El Descubrimiento Del Mundo. Barcelona, Buenos Aires, Mexico: Paidós, 2001.
LÓPEZ ESTRADA, Francisco. Libros de viajeros hispânicos medievales. Madrid: Ediciones Laberinto, 2003.
McCORMICK, Michael. Orígenes De La Economía Europea. Barcelona: Crítica, 2005.
NOVOA, Feliciano (Coord.). De Finisterre a Jerusalén. Egeria y los primeros peregrinos cristianos. Santiago de Compostela. Xunta de Galícia, 2003.
PHILLIPS, J.R.S. La expansion medieval de Europa. Fondo de Cultura Economíca: 1994.



