2.9.11

Constituição de 1967 – EMC nº 01-69

Por Emerson Santiago
A de 17 de outubro de 1969, auge do regime militar brasileiro, a Constituição de 1967 recebe uma nova redação através da Emenda Constitucional número 1. Tal emenda, decretada pela Junta Militar que no momento governava o Brasil (composta por Augusto Hamann Rademaker Grünewald, Aurélio de Lyra Tavares e Márcio de Souza e Mello, ministros da marinha, exército e aeronáutica, respectivamente) mudou substancialmente a redação da esmagadora maioria dos dispositivos da Constituição de 1967, para adequá-los às medidas de exceção que o governo vinha decretando, dando assim um ar de legalidade a todo aquele cenário de perseguição, censura e repressão promovido pelo regime, com destaque para os infames Atos Institucionais.

Por esse motivo, sempre há uma certa dúvida acerca da natureza da medida promulgada pelos militares em 1969: seria e Emenda 1 na verdade uma constituição nova, por reformar substancialmente àquela de 1967, ou na verdade uma “releitura” mais favorável à política dos militares, adaptando a lei às suas medidas arbitrárias? É praticamente pacífico entre a maioria dos especialistas que, o que foi promulgado em 1969 não foi uma nova constituição, mas apenas uma reinterpretação daquela em vigor. Assim, quando do estabelecimento da atual constituição, em 1988, o que foi revogado na verdade foi a Carta Magna de 1967 com sua “interpretação” de 1969.

Há entendimento diverso deste, como por exemplo aquele elaborado pelo professor José Afonso da Silva, que entende que, por se tratar de texto completamente reformado, incluindo aí até mesmo a denominação formal da carta (a constituição de 1967 recebeu o nome de “Constituição do Brasil”, enquanto que na Emenda 1 de 1969, o nome do documento mudou para Constituição da “República Federativa do Brasil”), trata-se realmente de nova constituição, mesmo considerando-se que o instrumento que tornou isto realidade foi uma Emenda Constitucional, veículo completamente impróprio para a tarefa.

De qualquer modo, merecem destaque três alterações promovidas pela citada emenda constitucional:

  1. Estabelecimento de eleições indiretas para o cargo de Governador de Estado
  2. Ampliação do mandato presidencial para cinco anos
  3. Extinção das imunidades parlamentares.

Estes dispositivos, de um modo ou de outro deixam bem claro a intenção dos militares de “torcer” a letra da lei para que ela ficasse mais simpática aos seus objetivos, caso flagrante das disposições como a das eleições indiretas para governador de estado e a da supressão da imunidade parlamentar. A disposição do mandato presidencial, por exemplo, seria alterada posteriormente pelo presidente Ernesto Geisel, aumentando o mandato do presidente seguinte de cinco para seis anos, outra flagrante manobra política, procurando estender ao máximo possível o predomínio dos militares no círculo do poder, em especial do grupo simpático ao presidente Geisel, do qual o presidente seguinte, João Batista Figueiredo fazia parte.

A Emenda de 1969 trazia ainda a manutenção do Ato Institucional número 5, que permitia ao presidente o fechamento do CongressoNacional, Assembléias Estatuais e Câmaras Municipais, além de suspender direitos políticos e cassar mandados efetivos; admissão da pena de morte para casos de subversão; a disposição de que somente brasileiros ou estrangeiros residentes no país poderiam adquirir terras no Brasil; o estabelecimento da Lei de Segurança Nacional, que restringia as liberdades civis, além da Lei de Imprensa, que estabeleceu a Censura Federal, atuante em todas as mídias e manifestações artísticas e culturais no país.

Bibliografia:
LINDEMBERG, Antonio Henrique. Histórico das Constituições Brasileiras. Disponível em: . Acesso em: 18 ago. 2011.

Constituições anteriores . Disponível em: . Acesso em: 18 ago. 2011.

JANSEN, Thiago. 17 de outubro de 1969 – Promulgada a Constituição de 1969. Disponível em: . Acesso em: 18 ago. 2011.

Fonte:

http://www.infoescola.com/historia-do-brasil/constituicao-de-1967-emc-n%C2%BA-01-69/

Guerra Irã-Iraque

Por Emerson Santiago
É historicamente conhecido como Guerra Irã-Iraque o conflito que por cerca de 8 anos, mais precisamente de 1980 a 1988, envolveu as duas nações do Oriente Médio, e terminou com a vitória do Iraque.

Irã e Iraque possuem diferenças históricas. Apesar de ambos seguirem a religião muçulmana, a corrente majoritária no Iraque e na maioria dos países árabes é a sunita, enquanto que no Irã predomina o xiismo, ambos diferindo basicamente em relação à questão da linha sucessória do profeta Maomé. Além disso, o Iraque é um país de língua árabe, e o Irã possui a sua própria língua, o persa. Os regimes políticos também são bastante distintos: enquanto o Iraque mantém até hoje um governode inspiração ocidental e secular, o Irã é um regime controlado por líderes religiosos, os aiatolás, altos dignitários do segmento xiita do islã.

O conflito inicia-se a 17 de setembro de 1980, quandoSaddam Hussein utiliza uma antiga disputa de fronteiras com o pretexto de invadir o país vizinho. Seu objetivo era enfraquecer o movimento fundamentalista que varria o Irã, pois temia-se que a recém-proclamada revolução, que derrubou o governo pró-ocidente do Xá Reza Pahlevi viesse a contaminar o regime instalado no Iraque, também pró-ocidente.

Inicialmente, o conflito pendeu para o lado iraniano, reforçado com as armas vendidas pelos Estados Unidos naquilo que ficou conhecido como o escândalo Irã-Contras. Logo, porém, a superioridade e a experiência das forças iraquianas pesou para o lado destes, pois muitos dos oficiais iranianos com prática acabaram perseguidos pelo novo regime dos aiatolás.

Apesar da ajuda clandestina dos americanos, os países que apoiavam formalmente o esforço de guerra iraniano eram a Líbia e Síria, enquanto que o Iraque tinha o respaldo oficial de países como Arábia Saudita e Estados Unidos.

O conflito terminaria a 20 de agosto de 1988, resultando em um considerável enfraquecimento do regime iraniano, que apesar disso, conseguiu manter intacta sua revolução. Aparentemente, Saddam Hussein obteve o que queria, ou seja, inibir a influência iraniana na região, além de obter um predomínio militar, acumulando grande número de tanques, artilharia, aviões de combate e militares altamente treinados.

Realmente, tudo parece apontar para esse cenário, porque, um ano após terminado o conflito, o Iraque pareceu querer “experimentar” seu poderio militar adquirido, aplicando-o ao pequeno vizinho mais ao sul, o Kuwait. Enfim, o Iraque saiu com maiores vantagens político-militares do conflito, mas não houve uma vitória decisiva, que aniquilasse o inimigo.

Estima-se que deste conflito resultaram 1 milhão de mortos, 1 milhão e meio de feridos de ambos os lados, e tudo isso a um custo total de 150 bilhões de dólares.

Bibliografia:
Guerra Irã-Iraque. Disponível em: http://www.militarypower.com.br/frame4-warIraIraque.htm . Acesso em: 18 ago. 2011.
Ilustração: http://users.rcn.com/mwhite28/iraniraq.htm

Fonte:

http://www.infoescola.com/historia/guerra-ira-iraque/

De onde vem a palavra nerd?

por Artur Louback Lopes

Nerd é uma gíria e, como a maioria das gírias, é difícil dizer quem a inventou. Há várias teorias. A mais comum é que a palavra foi lançada pelo escritor americano Theodore Seuss Geisel (Dr. Seuss), que criou livros infantis clássicos como If I Ran the Zoo ("Se Eu Dirigisse o Zoológico"), de 1950, no qual apresenta um personagem meio esquisitão chamado justamente Nerd. Em 1951, a revista Newsweek publicou uma matéria sobre os costumes dos jovens na cidade de Detroit, na qual dizia que os jovens "quadrados" (conservadores) estavam sendo chamado de nerds. Se os dois fatos têm alguma relação, é difícil de dizer, mas, ao que parece, a palavra não se popularizou ainda nos anos 50. "Quando eu era jovem, em Nova York, as pessoas que gostavam muito de estudar eram chamadas de egg heads (cabeças de ovo)", diz o lingüista John Robert Schmitz, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), hoje com 70 anos, que cogita outra origem para a palavra. "Existe no idioma inglês a gíria nurt, que designa pessoas loucas. Nurt pode ter originado a palavra nurd, usada com o mesmo sentido de nerd", diz Schmitz. Há ainda os que defendam que N.E.R.D era a sigla que funcionários da companhia canadense de telecomunicações Northern Electric Research and Development (ou Nortel) levavam no bolso da camisa. No Brasil, o termo se popularizou com o filme a Vingança dos Nerds, de 1984, no qual um grupo de CDFs decide peitar os jovens mais populares da faculdade.

Fonte:

http://mundoestranho.abril.com.br/materia/de-onde-vem-a-palavra-nerd


Plano de Aula - A música Índios de Renato Russo e a conquista do Novo Mundo

Renato Russo foi o intérprete e autor da canção Índios
Renato Russo foi o intérprete e autor da canção Índios

Índios - Legião Urbana - Composição: Renato Russo

Quem me dera, ao menos uma vez, ter de volta todo o ouro que entreguei a quem conseguiu me convencer que era prova de amizade se alguém levasse embora até o que eu não tinha.

Quem me dera, ao menos uma vez, esquecer que acreditei que era por brincadeira que se cortava sempre um pano-de-chão, de linho nobre e pura seda.

Quem me dera, ao menos uma vez, explicar o que ninguém consegue entender: que o que aconteceu ainda está por vir e o futuro não é mais como era antigamente.

Quem me dera, ao menos uma vez, provar que quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o bastante e fala demais por não ter nada a dizer.

Quem me dera, ao menos uma vez, que o mais simples fosse visto como o mais importante... Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente.

Quem me dera, ao menos uma vez, entender como um só Deus ao mesmo tempo é três e esse mesmo Deus foi morto por vocês – é só maldade, então, deixar um Deus tão triste.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho. Entenda – assim pude trazer você de volta pra mim, quando descobri que é sempre só você que me entende do início ao fim.

E é só você que tem a cura para o meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi.

Quem me dera, ao menos uma vez, acreditar por um instante em tudo que existe e acreditar que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes.

Quem me dera, ao menos uma vez, fazer com que o mundo saiba que seu nome está em tudo e mesmo assim ninguém lhe diz ao menos obrigado.

Quem me dera, ao menos uma vez, como a mais bela tribo, dos mais belos índios, não ser atacado por ser inocente.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho. Entenda – assim pude trazer você de volta pra mim, quando descobri que é sempre só você que me entende do início ao fim.

E é só você que tem a cura para o meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi.
Nos deram espelhos e vimos um mundo doente... tentei chorar e não consegui.

Professor,

  • Trabalhe a canção no formato musical e distribua a letra da música para cada aluno. Ele escutará a canção, acompanhando com a letra, o que evitará sua dispersão.
  • Lembre-se de dizer aos alunos que a música pode ser uma forma de denúncia social.
  • Explique qual é o objetivo de trabalhar essa canção e em qual contexto histórico ela poderá ser inserida. O título da música já seria uma resposta. A letra da música Índios, composta por Renato Russo, aborda os temas da conquista do Novo Mundo e o processo de dominação dos nativos que viviam na América portuguesa e hispânica.
  • Ajude-os a interpretar a música, mostrando a riqueza da composição e dos recursos estilísticos do autor.
  • Peça ao seu aluno que grife as partes da música que ele acredita fazer referência ao tema “Conquista do Novo Mundo”.

A letra da música Índios possibilitará várias abordagens para o tema da conquista do Novo Mundo, veja:

• Os conquistadores chegaram e usaram a amizade como estratégia de dominação. Os nativos foram receptivos, a princípio, pois tudo era novo para eles. Os conquistadores se aproveitaram disso e exploraram de forma intensa toda a riqueza mineral que esses nativos possuíam. Faziam trocas por objetos que não tinha nenhum valor.

• Depois da chegada dos conquistadores, o mundo desses nativos jamais foi o mesmo. As transformações ocorridas com a chegada dos europeus não beneficiaram os povos conquistados; ao contrário, os dilaceraram. Os europeus trouxeram várias novidades como o espelho, o cavalo, armas de fogo, o aço, mas trouxeram também doenças às quais o índio não tinha nenhuma resistência.

• A catequização dos nativos com a imposição do catolicismo e a resistência à dominação europeia. Os nativos não foram passivos, foram enganados até certo ponto. A violência física foi exercida de forma brutal tanto quanto a violência simbólica.

• Os nativos que aqui já viviam eram os verdadeiros donos dessas terras, mas não foram respeitados e vistos como semelhantes pelos europeus em nenhuma situação. Para os europeus eles eram selvagens, bárbaros, por isso cabia aos brancos civilizá-los, ou melhor, domesticá-los.

• A atual situação do índio nas Américas.


Por Lilian Aguiar

Fonte:

http://educador.brasilescola.com/estrategias-ensino/a-musica-Indios-renato-russo-conquista-novo-mundo.htm

Dia do Historiador

O dia do historiador foi instituído é comemorado dia 19 de agosto


O mês de agosto nunca mais será o mesmo! A partir desse ano, os historiadores de plantão poderão comemorar no dia 19 de Agosto sua tão digna profissão. O dia 19 foi escolhido em homenagem ao nascimento de Joaquim Nabuco – 19/08/1849. Nabuco foi diplomata, poeta, orador e memorialista durante o Império e, apesar de nascido em família escravocrata, se opôs à escravidão em muitos de seus escritos. Do seu nascimento até 2009, ano em que a lei foi aprovada, passaram-se 161 anos; antes tarde do que nunca, afinal: “um povo sem história, é um povo sem memória”. Abaixo um trecho da lei:


LEI Nº 12.130, DE 17 DE DEZEMBRO DE 2009.


Institui o Dia Nacional do Historiador, a ser celebrado anualmente no dia 19 de agosto.
O VICE–PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no exercício do cargo de PRESIDENTE DA REPÚBLICA. Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1o É instituído o Dia Nacional do Historiador, a ser celebrado anualmente no dia 19 de agosto.
Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Sobral Pinto (1893-1991)

Sobral Pinto, um advogado cultivador das liberdades democráticasAmpliar

  • Sobral Pinto, um advogado cultivador das liberdades democráticas

Advogado que, esgotados todos os recursos normais, usou a Lei de Proteção aos Animais para defender um prisioneiro comunista na época do Estado Novo, Heráclito Sobral Pinto foi um cultivador das liberdades democráticas.

Nasceu em Barbacena (MG), no dia 5 de novembro de 1893. Quando tinha 13 anos, sua família se mudou para Nova Friburgo (RJ), onde estudou no Colégio Anchieta, uma instituição de jesuítas que iria marcar para sempre sua vida de católico fervoroso. Em 1917 formou-se em direito pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Tinha apenas 31 anos, em 1924, quando assumiu a Procuradoria Criminal do Governo Arthur Bernardes. Quatro anos depois renunciou ao cargo por motivos pessoais. Anticomunista, Sobral Pinto foi o advogado indicado pela OAB para defender, no Tribunal de Segurança Nacional do Estado Novo, os comunistas Luiz Carlos Prestes, líder do levante de 1935, e o alemão Harry Berger, que foi torturado na prisão, onde era tratado como um animal.

Sobral tornou-se amigo de Prestes. Anos mais tarde, comentaria, brincando: “Prestes tentou converter-me ao comunismo. Eu tentei convertê-lo ao catolicismo. Nenhum dos dois conseguiu.” Durante a fase ditatorial de Getúlio Vargas, escrevia cartas abertas para protestar contra a situação. O católico devoto que fazia papel de coroinha nas missas da capela próxima de sua casa, no Rio de Janeiro, também foi advogado de outras ilustres figuras da História, como o escritor Graciliano Ramos e os ex-governadores Miguel Arraes e Carlos Lacerda.

Defendeu, ainda, a legalidade das posses dos presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart. Mas também tomou partido de gente do povo: defendeu um quitandeiro contra o presidente do Tribunal de Segurança Nacional, Barros Barreto, que não tinha pago uma conta na quitanda e ainda mandara prender o dono do estabelecimento. No primeiro momento, Sobral foi a favor do golpe militar de 1964, mas quando percebeu que o Brasil havia caído numa ditadura, se manifestou contrário. Por isso, foi detido em 1968.

Durante o interrogatório, ouviu de um coronel que tentava justificar o regime: “Doutor Sobral, estamos implantando uma democracia à brasileira”. Ele, então, respondeu: “Existe peru à brasileira, mas não existem soluções à brasileira. A democracia é universal, sem adjetivos.” Em 1984, durante um comício da campanha Diretas Já!, no Rio, pediu silêncio e leu o artigo da Constituição que proclama: Todo poder emana do povo e em seu nome é exercido. Foi ovacionado pela multidão. Desde 1956, quando uma de suas sete filhas morreu, ficou de luto e só se apresentava em público vestido de terno preto. Morreu em 1991, aos 98 anos.

Fonte:
Livro 100 Brasileiros (2004)

CULTURA: FUNCIONAMENTO E MUDANÇA

1. INTRODUÇÃO

Nos últimos séculos o termo cultura passou a se apresentar com mais freqüência em debates e questionamentos diversos, ou até mesmo como fonte para explicação de vários fenômenos contemporâneos, alguns até reincidentes, mas que em outrora foram explicados por outras analises.
Essa fase que se faz necessário o emergir da cultura, vista com olhos bastante diferente daqueles que primeiramente a analisaram, deve-se ao fato da necessidade de explicar uma serie de fatos que, antes explicados por uma corrente positivista, tornavam-se “limitados a contribuição para a ciência”.

A partir do seculo XIX surge na Europa uma corrente filosófica positivista, na qual trabalhava com os fenômenos das manifestações de forma positiva e objetiva, preocupados em transparecer os fatos tais como eram, desconsiderando qualquer tipo de influencia externa, assim como se propunham a analisar os fenômenos naturais, de forma imutável onde “sempre uma coisa vem depois da outra”. Essa forma de se fazer ciência foi fundamental para o avanço intelectual , mas em certo momento deixou de ser suficiente para explicar todos os fenômenos sócio-culturais.

O paradigma positivista então passou a ser alvo de várias controvérsias, e assim dando lugar a outras formas de se pensar e analisar o ser humano nas suas ações. A NHC- juntamente com a micro-história, abre um leque de possibilidades de novas analises para sujeitos históricos, personagens que sempre se permaneceram em anonimato devido a produção historiográfica oficial ser de caráter excludente.

Toda essa etapa em seu curso deu origem a uma forma diferenciada se fazer história, pois passa a considerar não só o que esta escrito no papel, mas a analisar entre linhas o esta dizendo , fazendo uso daquele ao qual, ao meu ver, não permite haver apenas um conceito de cultura, que é a subjetividade , haja visto que a construção da cultura depende tanto do todo como do individual e nesse individual, não há a mínima possibilidade de definir ou estabelecer comportamentos humanos, pois o homem é um ser imprevisível por natureza.


CULTURA: FUNCIONAMENTO E MUDANÇA

A muito a ser discutido sobre o processo cultural pelo quais inúmeras sociedades passam e vem passando ao longo dos anos de existência, isso de forma ininterrupta, pois todas as culturas estão sempre em movimento, embora em algumas esse processo se apresente de forma bastante lenta. Em outras esse processo se apresenta de marcante onde se pode encontrar em cada membro e em todos os membros estão presentes os valores culturais. Umas se mantém um sentimento de fidelidade e cristalizado como se fossem valores eternos e imutáveis, em outros produzem peças artesanais, comidas, até mesmo a linguagem passa por modificações.

É de fato difícil e até mesmo arriscado, estabelecer as fronteiras entra culturas estáveis e culturas em mudanças, considerando que todas as culturas estão em movimento, determina-se então, que cultura em mudança serão aquelas nas quais as mudanças culturais ocorrem de forma aceleramento do ritmo. Para aquelas na qual o processo e mais lento, considera-se cultura em funcionamento.

Herskovits considera como parte extremamente influente do instalar-se de um desses dois momentos da cultura – funcionamento e mudança- em sociedades, o processo de enduculturação, sendo inclusive o primeiro a utilizar o termo para designar os comportamentos individuais aos padrões da cultura de uma sociedade, ainda na fala dele;

“ Os aspectos da experiência de aprendizagem que distinguem o homem das outras criaturas, e por meio das quais, inicialmente, e mais tarde, na vida consegue ser competente em sua cultura, pode chamar-se endoculturação. Constitui essencialmente um processo de consciente e inconsciente condicionamento que se efetua dentro dos limites sancionados por determinados aspecto de costume. Por esse processo não só se consegue toda adaptação à vida social, como também todas aquelas satisfações, que, embora fazendo naturalmente parte da experiência social, derivam mais da expressão individual que da associação com outros no grupo”.


O processo de endoculturação começa após o nascimento da criança, e se evolui com forme o seu amadurecimento psicológico, haja visto que a cultura não é transmitida de forma biológica, mas sim por processos culturais. Para Titiev o ser humano nasce 100% biológica, e assim começa a receber após o seu nascimento, uma serie de informações e comportamentos padronizados ao qual tem que assimilar o Máximo, ao ponto de inverter a condição de cem por cento biológico para cem por cento cultural. Mello acredita ser impossível se alcançar os cem por cento cultural, isso por que a condição biológica sempre estará presente, embora todo recém nascido caminhe no sentido cultural.

Emílio Durkheim, em sua teoria do controle social, afirma que a cultura é uma forma de se manter o controle social, como uma arma indispensável para a vida em sociedade, justificando a forma como no processo de endoculturação é imposta para a criança. Não importa o que se faça ou por quem se faça, por mais que se pense que uma atitude é tomada sem nenhum tipo de influência, de forma mais racional possível, cada ação do ser humano e influencia direta do processo de endoculturação ao qual sofreu na infância, está presente e ativa no inconsciente humano.

Este processo de endoculturação, para Mello , é dividido em três momentos, onde no primeiro, na condição de criança até a juventude, o homem é comparado a uma esponja aceitando praticamente todas as mensagens da cultura, considerado até mesmo sem personalidade. No segundo momento, a maturidade, aceita-as em função da cultura interiorizada, partindo então para a reformulação. A terceira é a velhice, onde raramente aceita uma reformulação, a cultura interiorizada está cristalizada e impermeável as novas sugestões da cultura provocadas pelas novas situações.

Contudo pode-se ter uma breve analise do processo de interação da cultura para com novos indivíduos que nela surgem constantemente, a cultura individual, no processo de maturidade, pode modificar os processos culturais, havendo mudanças de forma mais acelerada, fazendo e refazendo novas leituras socioculturais, sempre fazendo uso de uma ligação do homem de forma individual e de forma coletiva, no sentido mais plural possível, sem se dispor da relação do homem de hoje com toda a sua essência.


NOTA SOBRE O ETNOCENTRISMO

Dá-se o nome de Etnocentrismo à atitude dos grupos humanos de supervalorizar seus próprios valores, sua própria cultura. O fenômeno do etnocentrismo manifesta-se de várias formas, podemos sentir quando as pessoas ridicularizam as outras ou tem um comportamento de superioridade e credibilidade perante a própria cultura.

Outro fato interessante é o de que na cultura ocorre o fenômeno de mudanças e que também é verdade que o uso gera o sentimento de posse, um exemplo disso é a industrialização que levou mais de duzentos anos nos países industrializados foi feita no Brasil em pouco mais de meio século e isso foi efeito da difusão cultural. Outros exemplos de etnocentrismo é o nacionalismo, o culto ao futebol, a admiração da mulata entre outros.
“O que se pode dizer é que nenhum povo que não acredita em si e em suas potencialidades é capaz de grandes realizações, um grupo humano que não cultiva o etnocentrismo possivelmente não possui sua própria cultura.” (MELLO, 1987 p.91)

PROCESSO CULTURAL: ASPECTOS DIACRÔNICOS

Poucos são os estudos sobre mudança cultural, já que os estudos estão sempre direcionados para as culturas primitivas e isoladas. No Brasil, grande parte dos estudos etnológicos está sendo dedicado para o processo de aculturação e de contatos culturais, um exemplo disso é como a cultura do índio esta modificada.
Dois estudos dão embasamento em torno do problema da mudança: a orientação marxista e a orientação Weberiana.

No estudo de Marx existem quatro principais contribuições: em primeiro lugar ele afirma que há a evidência a permanência dos conflitos em qualquer sociedade, em segundo compreendeu que os conflitos sociais geram dois grupos opostos, em terceiro que o conflito é o motor da história e que dentro deste fato há em quarto fatores estruturais da mudança social que são: forças exógenas, que vêm do exterior, influências do meio físico por exemplo. E forças endógenas da mudança que são engendradas pelo próprio funcionamento na estrutura, influências internas.

Já no estudo de Max Weber, procura demonstrar como os valores culturais podem determinar um tipo de economia. Um exemplo na orientação que ele propõe é a ética protestante onde a falta de confiança era resultado da falta de fé e isso implicava na rotina daquele grupo.
Os dois estudos são importantes e fica claro que a questão de mudanças e transformações culturais mesmo vistos de maneira distintos, por um lado econômico e cultural agem sobre a sociedade.

INVENÇÃO E DESCOBERTA

A endoculturação garante a continuidade da cultura, pois é um processo cultural responsável pela padronização do comportamento humano através da transmissão dos valores culturais. Mas qual o fenômeno que promove a mudança e a transformação da cultura? É a invenção e a descoberta.
Toda cultura e todos os seus valores um dia forma inventados ou descobertos pelo homem, é importante enfatizar que o processo de endoculturação como o da invenção são processos universais da cultura , isto é, processo comum a qualquer cultura particular , seja moderna ou primitiva.
Assim, para diferenciar a descoberta da invenção , a descoberta é todo acréscimo de conhecimento e invenção é toda nova aplicação de conhecimento.

DIFUSÃO CULTURAL

Entende-se por difusão cultural como sendo o processo de propagação de elementos de uma cultura para outra, encontrando no contato o fator indispensável para essa dinâmica. No entanto esse processo não ocorre de forma homogênea e nem regular, pois depende de fatores que possam proporcionar a relação entre os agentes culturais, em se tratando desses fatores podemos citar o determinismo geográfico e o desenvolvimento tecnológico dos meios de comunicação.

Como já foi abordado, o contato é o fator principal dentro o processo de difusão cultural, pois ele disponibiliza a uma sociedade ou grupo cultural, o conhecimento referente aos elementos que compõe a cultura do outro. O determinismo geográfico proporciona um processo de difusão entre grupos os culturais pertencentes a um mesmo espaço geográfico, onde o grupo que se encontra mais próximo ao ponto de origem a um determinado traço cultural está mais receptível ao processo de difusão.

No entanto com o desenvolvimento tecnológico dos meios de comunicação, que em conseqüência disso gera uma grande velocidade na propagação das informações, vem possibilitar um maior contato entre as sociedades, sem que estas possam estar ligadas pelo espaço geográfico, um exemplo a que podemos citar para melhor entender essa dinâmica foi à tragédia ocorrida no Rio de Janeiro, onde um jovem com características típicas de um terrorista extremista do Oriente Médio entrou em uma escola, e em uma atitude insana alvejou dezenas de crianças, evento não muito comum a cultura brasileira.

A difusão cultural é um dos fenômenos que mais chama a atenção dos antropólogos na atualidade, pois se torna cada vez mais raro a existência de grupos isolados, como diz MELLO:

“Não pode haver difusão de elementos de uma determinada cultura se ela for completamente isolada. Por outro lado, o não isolacionismo é uma tendência encontrada em todas as sociedades até hoje conhecidas. São imemoráveis as noticias de contatos entre os povos. (MELLO, 1987 p.104)

Mello reafirma que a difusão cultural não pode haver sem que haja um contato, no entanto a aceitação e a assimilação dos elementos que compõe a cultura do outro é relevante a vontade do indivíduo, podendo ele adotar ou não os aspectos culturais tidos em questão.

Segundo Lowie existem os centro de difusão, que servem para identificar os pontos de origem de determinado traço cultural, no entanto a complexidade ocorre em demonstrar o direcionamento de um determinado traço, devido a isso os antropólogos buscam demonstrar esses fenômenos de forma separada: O Fenômeno do Paralelismo e o Processo de Aculturação.

O Fenômeno do Paralelismo refere-se a invenções ou inventos ligados a grupos culturais relacionados ou paralelos, esse processo busca explicar a origem de expressões populares, ditados e provérbios, através de pesquisas sobre as tradições orais, no entanto a complexidade nos leva a um estudo voltado para história de uma determinada cultura, a exemplo a cultura brasileira , que em sua formação cultura recebeu a influência de vários grupos culturais, tais como portugueses, franceses, italianos, africanos e isso se comprova em vários setores da cultura brasileira, porém são nas expressões populares onde surgem as mais
diversas dúvidas a respeito do ponto de origem, vejamos alguns exemplos:
 Filhos criados, trabalhos dobrados (corresponde também a espanhóis e italianos);

 Nada como um dia após o outro (há correspondente no espanhol);
 Descobri um santo para cobri outro (correspondente no francês);
Como vimos através dos exemplos acima citado o processo de difusão demonstra algumas complexidades no que desrespeito as semelhanças entre culturas, porém esse processo obedece a uma dinâmica que pode ser explicada através de um fenômeno que ocorre dentro do processo de difusão cultural, nesse caso referimo-nos ao Processo de Aculturação.

Com base nos estudos de Herskovits o conceito de aculturação pode ser definido como: “Em resumo, por conseguinte, a difusão, nesses termos, é o estudo da transmissão cultural consumada; enquanto que Aculturação é o estudo da transmissão cultural em andamento”.

Na citação de Herskovits o processo de aculturação está relacionado à fase posterior ao contato, onde o grupo social está assimilando os aspectos culturais do outro, valendo lembrar que o Processo de Aculturação difere do Processo de Endoculturação, onde o primeiro está lidado ao individuo, enquanto o segundo refere-se a coletividade. Desse modo podemos dar como exemplo o processo de aculturação indígena no Brasil, pois em relação a outros elementos culturais que também fizeram parte da formação cultural brasileira, a exemplo dos portugueses e africanos, que de certa forma foram assimilados pela cultura brasileira, a cultura indígena não teve o mesmo foi tão assimilada, pelo contrario o contato com os brancos acarreta vário problemas, que podem até levar a extinção da cultura indígena.

Segundo Darcy Ribeiro hoje no Brasil as culturas indígenas são identificadas pelo grau de contato e de integração, dessa forma existem os grupos isolados, os de contatos intermitentes, os de contato permanente e os integrados. Os grupos isolados são aqueles casos raros marcados pelo não contato com os brancos; os intermitentes são os casos onde há um contato mais de forma esporádica; os permanentes onde o contato é mais intenso; e os integrados onde o processo de difusão já foi concluído.

Cultura e ambiente

Desde 1878 usa-se o termo ecologia para designar o ramo da ciência que estuda as relações dos seres vivos e suas casas e essa relação entre o meio geográfico e o homem vai influenciar diretamente no comportamento dos seres que ali residem. Existe uma relação de dependência e harmonia tamanha que alguns seres vivos não sobrevivem se retirados de seu habitat. Mudando da visão macro e olhando diretamente para os povos que ocupam as mais diferentes regiões do planeta, a primeira impressão é que as diferenças entre eles se dão sumariamente por causa da diferença cultural. A facilidade de adaptação do homem faz com que ele ocupe quase todas as regiões do planeta, porém, existe uma maior concentração onde o clima é mais favorável ao desenvolvimento em função de fatores como tecnologia e conhecimento.

O homem diferencia-se na postura, nos gestos, no modo de falar, agir, nos hábitos e nos costumes. As dificuldades de uma região ficam marcadas nas linhas de expressão do povo, nas feições da face e no corpo sofrido. O homem carrega em si as raízes do ambiente que se envolve. Alguns elementos culturais não se desenvolvem em ambientes desfavoráveis ao passo que outros afloram sem que ao menos seja esperado. O solo, o clima e demais condições do meio ambiente influenciam diretamente no desenvolvimento de um povo já que é do solo que tiram seu sustento. As condições geográficas vão influências em todos os ramos da sociedade, no idioma, na política, na religião, na produção agrícola no estilo das casas, ou seja, define os costumes e o modo de agir de todo um grupo social.

É importante lembrar que ter condições favoráveis não significa que o um povo irá se desenvolver, um ambiente rico e favorável oferece um leque bem maior de possibilidades de desenvolvimento, de encaminhamento da cultura ao passo que ambientes pobres minimizam as possibilidades de desenvolvimento cultural de um povo e até torna-os previsível em seus comportamentos culturais. Não é que o ambiente limite o grau cultural de um povo, pode-se dizer no máximo que o ambiente limita ou favorece o afloramento dessa cultura, ou seja, não basta ter as ferramentas, é preciso saber usá-las.

O domínio do homem sobre a natureza o torna muito mais dependente. O homem moderno não se vê sem poder fazer utilização da eletricidade, computadores, automóveis e de telefones celulares. Existe uma relação total de dependência, não só com meio ambiente e sim com a cultura que lhe impõe que se você não utiliza artifícios para tornar a vida mais cômoda e ágil, você está ultrapassado e antiquado. Contata-se assim que o ambiente é indispensável para que exista cultura e para que esta possa se desenvolver, pois, é do ambiente é o berço do desenvolvimento cultural dos povos e o conhecimento acumulado, ou seja, a experiência é o fator determinante para que exista um maior aproveitamento do meio ambiente ocupado.

Cultura e personalidade

A formação da personalidade depende de alguns fatores que podem ser analogamente ligados à matéria prima da personalidade, como os elementos físicos, o temperamento e a inteligência que em grande parte é passado por uma relação de hereditariedade. Embora essa personalidade que se forma no seio familiar seja importante, não é exclusivamente responsável pela formação da personalidade de um ser, o ambiente ou a sociedade em que esse ser está inserido vai exercer muita influência na sua formação. A escola, as amizades e o tipo de sociedade que esse ser está inserido vai exercer muita força sobre essa formação de personalidade.

Uma das definições de personalidade a coloca como um conjunto de qualidades mentais do individuo, isto é, a soma total de suas faculdades racionais, percepções, idéias, hábitos e relações emocionais condicionadas. A dificuldade de se definir personalidade está no fato de que hora vê-se o individuo como ser individual ora como unidade social.

Comportamento individual é a particularidade de cada um, seu jeito de ser, modo de agir, já o comportamento como unidade social está relacionada com o que a sociedade espera de você, do modo que esperam que você haja e comporte-se no meio social conforme normas e leis, ou seja, padrões a ser seguidos pelos pertencentes desse meio.

Fonte: http://www.webartigos.com/articles/74705/1/DINAMISMO-CULTURAL/pagina1.html#ixzz1WpxcSD5D

Absolutismo Francês

O Absolutismo trata-se de um Estado forte, centralizado e duradouro que tomou a forma de monarquia nacional. A França foi o único país onde o absolutismo da Idade Moderna melhor se desenvolveu. O processo de formação do Estado centralizado francês teve início com os governantes capetíngios, no século X. Foi durante a crise sucessória capetíngia,de 1328, que a família Valois assumiu o trono francês, gerando confrontos e disputas com a Inglaterra. Com a Guerra dos Cem Anos esses confrontos foram interrompidos.

O processo centralizador foi retomado no século XVI, teve o contexto marcado por disputas religiosas. Esses conflitos envolviam a burguesia, nobreza e populares e se referia à fragmentação de poder e à imposição de limites ao poder real. As lutas se intensificaram no governo de Carlos IX, envolvendo a burguesia calvinista e a nobreza católica. O auge desse conflito foi a noite de São Bartolomeu, 24 de agosto de 1572, quando milhares de protestantes foram massacrados em Paris. As lutas prosseguiram no governo de Henrique III, só que agora envolvendo Henrique de Gisé, nobre católico, e Henrique de Navarra. Os partidários do nobre protestante saíram vitoriosos da “Guerra dos Três Henriques”, dessa forma inauguravam a dinastia Bourbon.

No governo de Henrique IV, ocorreu a pacificação do país, com a conversão ao catolicismo, com o decreto de liberdade de culto aos protestantes, por meio do Edito de Nantes. Porém, nos governos seguintes ocorreu a retomada dos conflitos ocasionando o declínio da França e a ascensão da Inglaterra como potência européia.

Fonte: http://www.eugostodehistoria.com/?p=1046


China ainda sob o signo de Mao, 35 anos após o fim da Revolução Cultural

Fachada de um prédio coberta com propaganda pró-regime em 1967, em Pequim, durante a Revolução Cultural

As Guardas Vermelhas impuseram uma reviravolta cultural cruel e profunda. Ainda hoje, sociedade chinesa oscila entre culto maoísta, nostalgia de tempos melhores e incapacidade de elaborar o próprio passado.

Durante dez anos, de 1966 a 1976, as assim chamadas Guardas Vermelhas lideraram a Revolução Cultural da China, aterrorizando a nação. Sua meta era erradicar o pensamento confuciano tradicional, a fim de difundir a ideologia de Mao Tsé-tung.

Ao fim dessa época, três números dão uma ideia da ação dos guardas vermelhos: 100 milhões de chineses foram submetidos a chicanas e humilhações no contexto do movimento de massa; 20 milhões perderam a vida; e 800 bilhões de iuanes – cerca de 87 bilhões de euros – foram jogados pela janela.

Inúmeros monumentos culturais foram destruídos e obras literárias foram queimadas. É praticamente impossível calcular esses prejuízos em dinheiro.

Antes e depois de Mao

Mao Tsé-tung no início da Revolução CulturalMao Tsé-tung no início da Revolução CulturalPara Song Yongyi, professor da California State University e colaborador do Dicionário Histórico da Revolução Cultural, o maior dano cometido nesse contexto foi a aniquilação dos valores morais. "Os chineses dão grande valor às relações familiares. Durante a Revolução Cultural era comum os pais serem denunciados pelos filhos e casais se denunciarem mutuamente ao sistema. Os valores tradicionais mais fundamentais se perderam."

Apesar dos numerosos efeitos negativos acarretados pela revolução, o historiador Xu Youyu, de Pequim, aponta também aspectos positivos da campanha comunista. Afinal de contas, ela revelou todas as falhas do sistema político vigente e os erros dos governantes. "Sem o quase colapso da economia e da Justiça, a República Popular provavelmente não teria adotado o caminho da política de reforma e abertura", declarou Xu à Deutsche Welle.

A morte de Mao, em 1976, marcou o fim da Revolução Cultural e o princípio de uma nova era. Milhares de detratores do líder, até então rotulados como antirrevolucionários, foram pouco a pouco reabilitados. Aqueles que haviam sofrido todo esse tempo sob o cruel movimento político, agora tinham coragem de expressar sua raiva. Insígnias maoístas, assim como tudo que recordasse a Revolução Cultural, foram vendidas para o ferro-velho. Alguns anos antes, isso teria sido punido com a morte.

O líder vive

Porém Mao nunca desapareceu realmente, nem do palco político, nem da sociedade chinesa. Seu retrato de proporções gigantescas continua pendendo sobre o portão da Praça da Paz Celestial. A efígie do líder igualmente ilustra a cédula de 100 iuanes. A ideologia de Mao continua sendo disciplina obrigatória nas universidades chinesas.

Crianças chinesas exibem a Crianças chinesas exibem a "Bíblia de Mao""Depois de 1978, considerou-se seriamente retirar o retrato de Mao", diz o professor de sinologia Daniel Leese, de Freiburg . "Na época, com muita propriedade, Deng Xiaoping observou que traria mais problemas retirá-lo do que mantê-lo."

Na União Soviética fora possível execrar Stalin porque ainda havia Lenin. Mas, na China, Mao Tsé-tung não era substituível, diz o autor do livro Mao Cult. Rhetoric and Ritual in the Cultural Revolution (Culto a Mao: Retórica e ritual na Revolução Cultural). O líder morto era o próprio símbolo do partido e do domínio comunista. Até hoje, o Partido Comunista da China se legitima através de Mao.

"Canções vermelhas" e nostalgia


Mas não é apenas o partido a instrumentalizar o líder, de forma bem calculista. Também entre a população se percebe uma renascença da cultura maoísta. Nos últimos anos, cada vez mais coros amadores cantam "canções vermelhas" – velhas melodias socialistas da era Mao – nos grandes parques da capital. Segundo Leese, o motivo de tal expressão de nostalgia é a saudade dos velhos tempos.

O gritante abismo atual entre pobres e ricos faz sobretudo os cidadãos mais idosos pensarem na época em que todos eram igualmente pobres. Para Xu, trata-se também de uma expressão da insatisfação popular e de uma crítica ao governo atual. Embora o povo goste de cantar essas canções, há muito não mais concorda com a ideologia que elas propagam.

Ainda hoje, continua sendo impossível criticar abertamente a ideologia comunista, ou se ocupar criticamente com a era Mao na China. Da mesma forma, a pesquisa histórica sobre os anos da Revolução Cultural segue sendo vedada.

Xu Youyu foi diversas vezes convocado a apresentar-se à polícia devido a suas atividades científicas. Também Song Yongyi, ele próprio ex-integrante da Guarda Vermelha, foi preso durante uma viagem de pesquisa pela China em 1999. Hoje ele vive nos Estados Unidos.

Atualmente, Song trabalha para elaborar diversos bancos de dados sobre as fases mais importantes da Revolução Cultural. Falando à Deutsche Welle, fez questão de acentuar que ele e outros historiadores simplesmente desejam formar uma imagem da história que seja fiel à verdade: isso é algo que julgam dever às vítimas da Revolução Cultural e às gerações mais jovens.

Autora: Xiegong Fischer

Fonte:DW

22.8.11

Potsdam: o encontro que dividiu o mundo

Na Conferência de Potsdam, os líderes das potências aliadas traçaram as fronteiras do capitalismo e do comunismo. Era o começo da Guerra Fria

Era a primeira vez que o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, o presidente americano Harry Truman e o general soviético Josef Stálin se reuniam depois da derrota alemã, em 8 de maio de 1945. O lugar escolhido: o magnífico Castelo de Cecilienhof, construído em 1917 e composto de 176 aposentos, nos arredores de Berlim. Em sua sala de conferência, no andar térreo, os chefes de estado discutiram o destino da humanidade entre 17 de julho e 2 de agosto. Afinal, terminada a guerra na Europa, os Três Grandes deveriam esboçar o projeto da nova ordem mundial e decidir quais seriam as fronteiras do capitalismo e do comunismo no continente europeu.
A agenda da reunião era conhecida dos Aliados havia pelo menos dois anos. As pautas foram as mesmas que ocuparam os líderes dos três países nas conferências de Teerã (dezembro de 1943) e Ialta (fevereiro de 1945): as indenizações alemãs aos países que enfrentaram Hitler, o controle político da Polônia, bem como a definição de suas fronteiras e a partilha da Alemanha. Mas em Potsdam circunstâncias diferentes deram um novo significado a velhas discussões. “A Segunda Guerra Mundial era o fator que ligava a União Soviética, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha contra um inimigo comum. Com o fim da guerra na Europa, as divergências entre as grandes potências se tornaram cada vez mais claras”, explica Geir Lundestad, professor de história contemporânea da Universidade de Oslo, na Suécia. O nazismo passava para o segundo plano, e cada tema a ser discutido era apenas um pretexto para deter o avanço do capitalismo ou do comunismo. O resultado: as novas fronteiras formalizadas em Potsdam abriram caminho para a Guerra Fria.
Chegando a Potsdam
A reunião dos Três Grandes estava marcada para 15 de julho, mas foi adiada devido a um problema de saúde de Stálin. O líder soviético tinha sofrido um leve ataque cardíaco. Recuperado, foi de trem a Potsdam – já que morria de medo de voar. Chegou apenas em 17 de julho. Isso não abateu seu ânimo. Ele continuava o temível negociador e encontrou seus colegas Truman e Churchill com a mesma tranqüilidade de sempre.
Aliás, o clima de calmaria entre os líderes das grandes potências vencedoras contrastava com o cenário de destruição em Berlim. Durante sua viagem à Alemanha, o presidente dos Estados Unidos pôde relaxar assistindo Alegria, Rapazes!, filme com a “brasileirinha” mais famosa no exterior, Carmem Miranda, a bordo do imponente navio de guerra Augusta. O primeiro-ministro britânico também resolveu espairecer antes de chegar à cidade alemã. Diferentemente de Truman, deixou o cinema de lado e mergulhou na pintura, dando pinceladas em telas que retratavam paisagens bucólicas, bem distantes do desolado quadro europeu do pós-guerra.
Com a chegada de Stálin, no entanto, os líderes foram logo trazendo para a mesa os assuntos que de fato importavam. O general soviético queria o reconhecimento dos governos comunistas nos países por ele libertados, como Hungria, Iugoslávia e Polônia, além de uma gorda indenização alemã – 10 bilhões de dólares –, que financiaria a reconstrução da União Soviética devastada pela guerra. Desejava ainda avançar as fronteiras do estado soviético sobre a Polônia e, como recompensa, dar aos poloneses um naco da parte oriental da Alemanha.
Do outro lado da mesa de negociações, Churchill fazia questão de melar as pretensões soviéticas: nada de reconhecimento aos novos países vermelhos, nem indenização para os bolsos soviéticos e de jeito nenhum dar à Polônia um pedaço de terra alemã. Truman, por sua vez, pouco ligava para o destino dos países periféricos do Leste Europeu: o que o presidente americano queria era evitar a todo custo o avanço soviético sobre a Europa. “O presidente dos Estados Unidos só se interessava em impedir o avanço comunista na Europa Central”, diz Jacob Gorender, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.
O único ponto pacífico para os Três Grandes era a divisão da Alemanha e, em menor escala, de sua ca-pital, Berlim, entre a Grã-Bretanha, a União Soviética, os Estados Unidos e a França. No início, pensava-se numa divisão administrativa e superficial, com a manutenção da unidade econômica do país. Mas, como a história nos mostrou, não foi bem isso o que aconteceu.
Os Dois Grandes
Uma mudança inesperada no script do encontro deu novos rumos às negociações: a conferência terminou mais cedo para o líder britânico. Vencido nas eleições inglesas pela oposição traba-lhista, Churchill deixou Potsdam em 25 de julho e foi substituído, dois dias depois, por Clement Attleen, um orador mais modesto e menos carismático. A retórica aguda e a inflexibilidade do ex-primeiro-ministro, que batia o pé contra as reivindicações soviéticas, tinham truncado as negociações. “Churchill fala o tempo todo”, reclamou Truman em uma das inúmeras cartas que enviou a sua mãe durante o encontro de Potsdam. Sem Churchill e seu fumegante charuto, o caminho estava livre para que Truman e Stálin ficassem cara a cara e resolvessem de uma vez por todas o impasse.
O secretário de estado americano James F. Byrnes, que assessorava Truman, tirou da manga uma solução: os países do Leste Europeu seriam aceitos nas Nações Unidas, as fronteiras da Polônia seriam alteradas conforme o desejo de Stálin, mas a União Soviética não levaria para casa os 10 bilhões de dólares pelos estragos causados por Hitler. A razão da oferta era simples: os americanos sabiam que Stálin jamais abandonaria os territórios ocupados na guerra. Também avaliavam que a indenização iria enriquecer o estado soviético e empobrecer a Alemanha capitalista, que se tornaria suscetível aos ventos comunistas.
É claro que Stálin não iria aceitar tranqüilamente a proposta. Byrnes e Truman a completaram então com o que seria responsável pela divisão alemã por anos a fio: cada potência poderia retirar quanto quisesse de sua zona de ocupação. A unidade econômica da Alemanha seria letra morta, e o ministro de relações exteriores soviético, Viatcheslav Molotov, foi o primeiro a perceber essa proposta: “Isso não significa que cada país terá livre domínio em suas próprias zonas e atuará independentemente dos demais?” Era isso mesmo. A Alemanha seria dividida, e a União Soviética que explorasse à vontade sua parte, uma área rural e miserável que jamais renderia a quantia da indenização. Stálin, aliás, não poderia reclamar muito, pois a essa altura os Estados Unidos já haviam testado a bomba de urânio no deserto do Novo México e inauguravam uma era de “diplomacia atômica”.
Com a divisão do bolo entre a União Soviética e os Estados Unidos, a conferência de Potsdam foi, afinal, bem-sucedida? Depende do ponto de vista. Para o historiador Richard Ned Lebow, da Universidade de Dartmouth, em Hanover, cidade americana no estado de New Hampshire, o encontro evitou o pior. “Potsdam foi um marco na Guerra Fria, pois, junto com Ialta, estabeleceu uma linha divisória na Europa entre as superpotências. Nesse sentido, foi um sucesso porque a ausência de tal acordo tornaria o conflito entre os vencedores muito mais agudo.” Outros estudiosos estranham a contradição de uma conferência de paz ter sedimentado a base para a Guerra Fria. “Como os líderes vitoriosos se reuniram ao fim de uma guerra para garantir a paz futura e não conseguiram, aparentemente Potsdam foi um fracasso”, sintetiza Charles Mee, autor de O Encontro de Potsdam (ed. Círculo do Livro).

Potsdam e a paz: para quem?
A conferência resolveu, de fato, o grande problema dos vencedores: impedir que a União Soviética e os Estados Unidos se engalfinhassem depois de 1945. Mas, para os países periféricos, a situação foi bem diferente. ”Não poderia haver conflito direto entre os grandes, porque viraria a Terceira Guerra Mundial – e seria nuclear. Assim, as lutas entre o capitalismo e o comunismo esquentaram a Guerra Fria em outras partes do mundo”, analisa Jacob Gorender, da USP. A Grã-Bretanha se recusou, por exemplo, a retirar suas tropas na Grécia, depois de Potsdam. Temia que Stálin se apoderasse do berço da civilização ocidental. Como os britânicos estavam à beira do colapso financeiro, pediram aos Estados Unidos que pagassem seus soldados. Por esse forte intervencionismo, a anglofobia segue até hoje como um dos mais fortes sentimentos entre o povo grego. A Polônia, por sua vez, foi um dos principais assuntos em Potsdam – sua fronteira foi deslocada 241 km a oeste. Jogados de um lado para o outro, invadidos por nazistas e comunistas, os poloneses nunca puderam ditar os rumos de sua própria história e, até hoje, não se dão nem com russos nem com alemães.
Os donos do mundo
Churchill: veterano da Primeira Guerra Mundial e escolado nas lutas contra o nazismo desde os anos 30, Winston Churchill era o mais experiente chefe de estado em Potsdam. Sua personalidade marcante, reforçada pelo inseparável charuto cubano, norteava as discussões entre os Três Grandes. Quando ele desatava a falar com elegância e retórica, os outros escutavam com respeito e circunspecção. Foi o inventor da expressão “cortina de ferro”, que mais tarde seria sinônimo para a fronteira política entre os países do bloco comunista europeu e o resto do continente.
Truman: enquanto Churchill e Stálin usavam fardas nos encontros internacionais, Harry Truman comparecia às cúpulas de gravata borboleta. É provável que tenha sido o único a enviar cartas à mãe nos intervalos entre as reuniões de Potsdam. Em uma delas, dizia como era árdua a tarefa de dirigir as discussões: “É tão difícil como presidir o Senado. E Stálin só fica grunhindo, mas a gente sabe o que ele quer dizer.”

Stálin: filho de um sapateiro da Geórgia, Joseph Stálin tinha um jeito todo humilde para as negociações. Não elevava a voz jamais, não se aborrecia nunca, não proferia palavras inúteis nem uma vez. Sempre acompanhado de um maço de cigarros – charutos, como os de Churchill, só em ocasiões especiais –, ele adotava ainda a técnica de nunca dizer não. Sua calma e sua sutileza permitiam que conseguisse o que queria sem passar por teimoso ou turrão. Era um temível negociador.