23.9.13

O Golpe Militar



Introdução:

O golpe liderado pelos militares, que depôs o presidente João Goulart, representou a reação dos setores conservadores da sociedade brasileira à manutenção da política populista no país.



A situação internacional



O "populismo" apresentava sinais de crise já há alguns anos. A política adotada por Getúlio Vargas, de manipular e utilizar as massas trabalhadores para a sustentação do poder e ao mesmo tempo desenvolver a economia nacional, fortalecendo a camada empresarial urbana, desgastara-se desde o final da 2° Guerra Mundial.

A partir de 1945 os EUA recuperaram sua hegemonia mundial. Abalada pela crise de 1929, a economia do grande país capitalista aproveitara-se da Grande Guerra para se recompor e voltava a ditar as regras para o mercado mundial. Os países europeus necessitavam recuperarem-se fisicamente e economicamente e, em grande parte, dependiam dos norte americanos. Do ponto de vista político, desenvolvia-se a Doutrina Trumam, que enxergava na URSS o grande inimigo do desenvolvimento capitalista e dos valores da democracia e foi utilizada para atrair diversos países para a formação de uma aliança anti-comunista, sob comando norte-americano.

A recuperação da economia mundial comandada pelos EUA, privilegiava o capital monopolista das nações desenvolvidas e a concentração de renda, amparada no interesse em impedir a expansão do socialismo na Europa e mesmo na Ásia. Esse comportamento deve reflexos diretos e imediatos sobre os países latino-americanos, muitos dos quais viviam uma fase de desenvolvimento industrial, como o Brasil, e que não se encaixavam nas necessidades da nova ordem pós guerra.

Em um primeiro momento, os países latino-americanos ainda mantiveram uma certa estabilidade financeira, devido ao aumento das exportações de produtos primários para os países que se recuperavam da Guerra, porém essa situação esgotou-se por volta de 1953. A queda dos preços teve grande impacto no setor agrário, que mantinha a estrutura latifundiária e monocultura tradicional e que não foi alterada pelos governantes populistas. A crise no setor primário teve diversas consequências: maior empobrecimento das camadas populares do campo e diminuição da capacidade de importação, atingindo as camadas médias urbanas e principalmente, a capacidade da industria nacional, afetando diretamente a política econômica do governo, baseada no "industrialismo nacionalista". Soma-se a essa situação o aumento da dívida externa e da inflação.



Populismo em crise



A ascensão de Jango a presidencia foi um dos momentos mais claros da crise do populismo. Em agosto de 1961, o presidente Jânio Quadros renunciava, após sete meses de governo. Segundo a Constituição o substituto imediato era o Vice- presidente, no caso, João Goulart. João Goulart ou Jango, foi o pivô da crise final do populismo. Latifundiário do Rio Grande do Sul, ascendeu à política nacional pelas mãos de Vargas, de quem era considerado continuador. Foi ministro do trabalho de Vargas, Vice-presidente de JK e era, em 1961, Vice-presidente da República, representando a política populista do PTB. Visto como esquerdista e portanto uma ameaça, pelos setores mais conservadores, teve sua posse barrada pelas pressões políticas comandadas pelo grande partido de oposição da época, a UDN e pela cúpula militar - general Odylio Denys, Almirante Silvio Heck e brigadeiro Grum Moss. Tal iniciativa era defendida abertamente por setores da imprensa como o jornal O Estado de São Paulo que no dia 29 de agosto afirmava: " ...a solução moral é a desistência espontânea do sr. João Goulart ou então a reforma da Constituição, que retira-se ao Vice-presidente da República o direito de suceder ao presidente..." (1). Ao mesmo tempo formou-se a partir do Rio Grande do Sul, a " Rede da Legalidade" defendendo o cumprimento da Constituição, garantindo a posse de Jango. A saída para tal crise passou longe de uma solução para o problema, enveredando para uma situação conciliatória com a aprovação de uma emenda à Constiuição que instituiu o parlamentarismo no país. Dessa maneira a Constituição foi cumprida com a posse do Vice-presidente e os setores conservadores tiveram seu desejo atendido, pois Jango não seria efetivamente governante do país.



Parlamentarismo



No dia 2 de setembro foi aprovada a Emenda Constitucional, previamente discutida e aceita por Jango, em Paris. Os ministros militares aceitavam também a situação e o novo presidente tomou posse em Brasília no dia 7 de setembro. De setembro de 61 a janeiro de 63 o Brasil viveu sob o sistema parlamentarista. Adotado como medida conciliatória frente a crise provocada pela renúncia de Jânio Quadros, esse sistema mostrou-se ineficiente naquele momento, mesmo porque, os principais líderes políticos e sindicais haviam sido formados dentro da concepção de uma estrutura centralizada, onde o presidente contava efetivamente com poder. No modelo adotado cabia ao presidente a indicação do primeiro ministro e a formação do Gabinete ( conjunto de ministros), que deveria ser aprovado por 2/3 do Congresso Nacional. O primeiro Gabinete foi liderado por Tancredo Neves e reuniu representantes dos principais partidos políticos. Depois desse, mais dois gabinetes foram formadaos em meio a uma crise política que praticamente paralisava a administração pública. Ao mesmo tempo em que procurava mostrar que o parlamentarismo não servia, Jango procurava contornar a grande rejeição ao seu nome no meio militar. Adotou uma política mais conciliatória, chegando a viajar aos EUA, com o intuito de melhorar as relações com aquele país e ao mesmo tempo obter ajuda econômica. O discurso moderado e a paralisia política abriram caminho para a campanha para a antecipação do plebiscito, marcado para 1965. Os setores moderados do PSD, e mesmo da UDN acabaram apoiando a antecipação, que contou ainda com a concordância dos militares.



O Governo de Jango



Os primeiros meses de governo foram acompanhados de grande expectativa. Destacavam-se como ministro Celso Furtado que, no ano anterior havia elaborado um plano de combate a inflação e de recuperação do crescimento, que deveria ser colocado em prática durante os 3 anos seguintes. O Plano Trienal considerava que a inflação era a grande responsável pela estagnação do crescimento, assim como pelo agravamento das tensões sociais. Nesse sentido, o Plano fazia uma análise de toda a conjuntura e salientava a necessidade de um conjunto de reformas que pudessem promover o crescimento e ao mesmo tempo diminuir as contradições sociais. No entanto, os governantes julgavam que a execução do Plano dependeria de apoio internacional, do governo norte-americano, do FMI e mesmo da URSS. As tentativas de negociação com os EUA e com o FMI podem ser consideradas como um fracasso. O pequeno empréstimo vindo dos EUA estava vinculado aos efeitos das medidas antiinflacionárias; a desconfiança em relação ao Brasil era muito grande. Os resultados escassos da política externa foram responsáveis pelo aumento das críticas ao governo, tanto da "esquerda" como da "direita".

A mudança no ministério, inclusive com a saída de Celso Furtado. Enquanto a inflação caminhava, Jango perdia suas bases de sustentação política, tanto de setores moderados do PTB, seu próprio partido, como do PSD ( que aproximava-se do conservadorismo da UDN), assim como da ala esquerda do PTB e das organizações sindicais. A primeira manifestação política que deiuxou evidente a fraqueza do governo foi a Revolta dos Sargentos (12/9/63), quando cerca de 600 soldados tomam prédios públicos em Brasilia, quebrando a hierarquia com o pretexto de contestarem o direito a elegibilidade. Enfraquecido pela crise econômica e pelas pressões internas e externas, Jango voltou-se para os grupos mais a esquerda, aliando-se a Leonel Brizola e Miguel Arraes e buscava apoio nos sindicatos e organizações estudantis.

Em contrapartida, os setores conservadores organizavam-se através do IBAD (Instituto Brasuileiro de Ação Democrática) financiada pela Embaixada dos EUA, e através do IPES, organização do empresariado paulista No dia 13 de março realizou-se o comício da Central do Brasil, onde Jango proclamava as Reformas de Base, decretando o início do processo de reforma agrária. A reação conservadora veio seis dias depois em São Paulo, com a Marcha com Deus e a família pela liberdade, organizada pela Igreja Católica, reunindo as camadas médias.

A postura do Presidente da República frente o "Levante dos Marinheiros" do dia 25 pode ser considerada como a gota d´agua para a organização concreta da conspiração golpista, tendo como articuladores o Marechal Castelo Branco, o General Mourão Filho e o General Kruel, além dos governadores de Minas Gerais, Magalhães Pinto e do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda. Também os governador de São Paulo apoiou o golpe. No dia 30 de março as tropas do General Mourão Filho começam a se deslocar para o Rio de janeiro. É o início do movimento militar, já previsto pelos mais variados setores da sociedade. Jango enviou tropas do Rio de janeiro para conter os militares mineiros, porém, tanto o 1° como o 2° exército aderiram ao movimento.

Em 1° de abril Jango deslocou-se para o Rio Grande do Sul e desistiu de organizar um movimento de resistência, apesar das pressões de Brizola. Em Brasília Auro de Moura Andrade declarou vago o cargo de presidente e seguiu a prática Constitucional, empossando Ranieri Mazzili, que era o presidente da Câmara do Deputados. O governo norte americano foi o primeiro a reconhecer a nova situação.

Consolidava-se a reação conservadora, comandada pelos militares, que eliminavam definitivamente o populismo, abalado há muito tempo por suas próprias contradições internas
(1) citado in História da Sociedade Brasileira, pag. 298, de Francisco Alencar, Ed. Ao Livro Técnico


Fonte: http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=291

Estado de Israel

Por Claudio Recco

Introdução

A ocupação judaica da Palestina começou a ganhar força no final do século XIX, quando o mundo afro-asiático estava sendo partilhado pelas potências imperialistas. Esse processo, denominado Neo-colonialismo, foi característica fundamental do imperialismo, em uma época em que o Petróleo havia se transformado na principal fonte de energia e considerado determinante para o desenvolvimento industrial. O controle sobre os acessos e sobre a região do Oriente Médio tornou-se fundamental para as grandes potências capitalistas e o domínio turco-otomano tornou-se inconveniente. Nesse período, parte do mundo árabe-islâmico ainda estava sob domínio do Império turco-otomano.

Portanto percebe-se a Primeira Guerra Mundial e a derrota do Império Turco, como partes de um processo de expansão do imperialismo na região petrolífera do Oriente Médio.

Sionismo

Foi nesse contexto que nasceu na Europa o movimento sionista, articulado por lideranças da comunidade judaica internacional, com objetivo de construir um lar nacional judeu na Palestina. Tal movimento iniciou-se quando o escritor austríaco de origem judaica Theodor Herzl publicou o livro "O Estado Judeu", fato que impulsionou a realização do primeiro congresso sionista mundial em 1897.

Após a Primeira Guerra Mundial, os ingleses comprometeram-se a ajudar os judeus a construir um Estado livre e independente em território palestino, buscando, assim, enfraquecer os árabes e conquistar vantagens econômicas na região, pois apesar de possuírem religião e cultura típicas, as principais comunidades judaicas se desenvolveram no ocidente, integradas ao modelo de desenvolvimento capitalista definido a partir da Revolução Industrial européia, ao contrário dos povos árabes.

Durante o domínio britânico sobre a região, os ingleses permitiram a compra de terras na Palestina por ricos judeus de todo mundo que começaram a reocupar a região. Entre os anos 1930 e 1940, intensificou-se consideravelmente a imigração judaica para a Palestina.

Palestina

Os atuais conflitos que assolam a Palestina têm diferentes motivos. O fator predominante é o interesse econômico que envolve as potencias capitalistas, interessadas em controlar essa região estratégica, aliadas ao Estado de Israel. Outro fator relaciona ao território: israelenses e palestinos lutam para assegurar terras sobre as quais, segundo eles, têm direito milenar e deve-se considerar ainda a questão cultural e à imposição de valores ocidentais às milenares tradições orientais.
As tensões perduram há séculos. Expulsos da Palestina pelos romanos já no século 1 da Era Cristã, os judeus acalentaram durante séculos o sonho de retornar à "Terra Prometida", enfrentando todo tipo de discriminação e perseguição. Todavia, o território, durante sua ausência, foi ocupado por outros povos que, igualmente, sentem-se no direito de nele permanecer de modo autônomo.
O descontrolado ingresso de judeus na Palestina acarretou sérios problemas já às vésperas da Segunda Grande Guerra: as áreas de assentamento judeu e palestino não foram delimitadas e grupos de características étnicas e religiosas tão diferentes tiveram que compartilhar o mesmo território, de onde resultam graves hostilidades entre ambos.

Anti-semitismo
Alvos da crescente animosidade cristã, insuflada pela propaganda religiosa ao tempo das Cruzadas, os judeus das diversas cidades alemãs foram obrigados a se confinar num mesmo bairro para escaparem das perseguições e massacres coletivos (pogroms). Isolados em guetos, fiscalizados e taxados, os judeus diferenciaram-se do restante da população, tornando-se estrangeiros de fato, tanto assim que no século XIII começaram a falar uma forma especial de alemão, que se transformou num idioma original, o iídiche. Este isolamento despertou a fantasia popular que passou a acusá-los de práticas religiosas demoníacas, responsabilizando-os por crimes e epidemias.

Em 1848, os liberais exigiram a supressão das discriminações e foram bem-sucedidos. Os judeus participaram ativamente do movimento político; colaboraram nas eleições e promoveram demonstrações em Frankfurt. Por volta de 1860, pronunciaram-se abertamente pela unificação. Entusiasmados pelo progresso e estimulados pela política de Bismarck, os alemães aceitaram as modificações."

A desigualdade presente em lei deixou de existir em todo o território nacional em 1871.

Na prática, contudo, os judeus continuaram excluídos dos cargos militares e administrativos importantes, sendo compelidos às atividades pouco consideradas pelos alemães: jornalismo, política, profissões liberais, comércio e finanças.

O anti-semitismo voltou a ganhar força quando a depressão econômica de 1873 atingiu a Alemanha, castigando camponeses e grandes proprietários agrícolas, revoltados contra uma minoria beneficiada pela rápida industrialização. Aos poucos o ódio contra os judeus, transformados em símbolo do capitalismo apátrida e egoísta, tornou-se tema eleitoral de diversos partidos políticos, suplementado por teorias raciais popularizadas e simplificadas, no início do século XX, em jornais e pequenas brochuras.

A derrota militar das antigas classes dirigentes na Primeira Guerra e o surgimento da República favoreceram os judeus. As barreiras contra sua participação em certas profissões e funções públicas caíram, simultaneamente à proibição de emigrarem para as cidades. Todavia, num período marcado pelas duras condições do armistício, com inflação galopante e tentativas revolucionárias da extrema-esquerda, a rápida ascensão dos judeus apontava-os como os beneficiários da vitória dos Aliados.
No clima passional criado pela derrota, o racismo reapareceu com força. Os generais alemães publicaram suas memórias, culpando os israelitas pela ruína da Alemanha e responsabilizando-os por incutir no povo um sentimento de fraqueza e inferioridade. A campanha anti-semita intensificou-se em toda parte, nos movimentos da juventude, nas associações de antigos combatentes e nas agremiações profissionais.
"Em março de 1920, Kapp, um alto funcionário, tenta um golpe de Estado; domina a capital por algumas horas e apresenta um programa, que preve a expulsão dos judeus que entraram na Alemanha depois da guerra.

Holocausto

A palavra “Holocausto” é utilizada desde a década de 1980 para designar o extermínio em massa de minorias étnico-religiosas, deficientes, homossexuais e opositores políticos do regime nazista, destacando-se o extermínio de cerca de seis milhões de judeus, na Segunda Guerra Mundial.

O termo tem sua origem na palavra greco-latina holocaustum e significa "totalmente queimado" ou "vítima de um incêndio". Em Israel, até hoje é utilizado o termo secular hebraico Shoah, que significa "destruição" ou "catástrofe", inserido na Declaração de Independência do Estado de Israel, em maio de 1948.

Sob a doutrina racista do III Reich, cerca de 7,5 milhões de pessoas perderam a dignidade e a vida em campos de concentração, especialmente preparados para matar em escala. Para os nazistas, aqueles que não possuíam sangue ariano não deveriam ser tratados como seres humanos. Estima-se que entre 5,1 e 6 milhões de judeus tenham sido mortos durante a Segunda Guerra, o que representava na época cerca de 60% da população judaica na Europa.

Um ano após Hitler ter assumido o poder foram baixadas leis anti-judaicas iniciando o boicote econômico. Após a expulsão dos judeus poloneses da Alemanha, um jovem repatriado, Herschel Grynspan, assassinou em Paris o secretário da embaixada alemã, Ernst von Rath. Isso detonou entre os dias 9 e 11 de novembro de 1938 uma série de perseguições que ficaram conhecidas como a Noite dos Cristais. Centenas de sinagogas foram incendiadas, 20 mil judeus foram levados a campos de concentração e 91 foram mortos, segundo informações de fontes alemãs. Cerca de 7 mil lojas foram destruídas e os judeus ainda foram condenados a pagar uma multa de indenização de 1,5 bilhão de marcos.

Revisionismo

Se é verdade que o holocausto representa uma das maiores atrocidades do século XX, também é verdade que passou a ser explorado por grande parte da comunidade judaica internacional, que apela para o sentimentalismo para reforçar uma visão de “vítima” dos judeus, que requerem suas compensações. Desde então, a política sionista do Estado de Israel se baseia nessa tendência e procura reforçar os direitos dos judeus, particularmente no que toca à Palestina.

Por outro lado nas últimas décadas do século XX nasceu o “revisionismo”, a negação do holocausto, uma tentativa de achar uma legitimação acadêmica, ignorando seletivamente evidências e que sugere uma grande conspiração judaica que inventou o massacre e suas evidências, da qual todos os historiadores são coniventes e cúmplices. O objetivo real do "revisionismo" do holocausto é fazer do Nacional Socialismo uma alternativa política aceitável novamente.

ONU
Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a morte de milhões de judeus pelos nazistas, os britânicos delegam à Organização das Nações Unidas (ONU), a tarefa de solucionar os problemas entre árabes e judeus na Palestina. Sem consultar previamente a população da Palestina, em 29 de novembro de 1947, a resolução 181 da Assembléia Geral das Nações Unidas, considerando que a guerrilha e terrorismo de organizações judias ameaçavam a paz, decide pela divisão do território em dois Estados: os judeus receberiam 57% do território, enquanto que os árabes (que constituíam a maioria) ficariam com 43%. O Estado judeu (Israel), foi criado em 1948, mas o árabe jamais o foi, sempre impedido pela ação comum de Israel com os Estados Unidos, em total desrespeito a resoluções das Nações Unidas.

Em 14 de maio de 1948, David Bem-Gurion declarou a fundação do Estado de Israel, não aceita pelos Estados árabes limítrofes mais o Iraque, que no mesmo dia atacaram o recém fundado país, iniciando a primeira guerra árabe-israelense, que terminou em 1949 depois de seis meses, com a derrota da Liga Árabe (Egito, Síria, Líbano, Transjordânia e Iraque), Israel estendeu seus domínios sobre a Galiléia e o deserto de Neguev. Pelos acordos de paz de 1949, a Transjordânia anexou a Cisjordânia, incluindo Jerusalém oriental, formando o reino Hachemita da Jordânia, enquanto que o Egito passou a administrar a faixa de Gaza.

Conflitos árabe-israelenses

A vitória de Israel e a imediata ampliação de seu território em cerca de 6 mil Km quadrados a mais do que o previsto pela ONU em 1947, provocou a fuga de um milhão de pessoas, dando início à Questão Palestina (luta contra a ocupação israelense e pela criação de um Estado palestino livre e soberano).

Mais três guerras seguiram-se entre as décadas de 1950 e 1970. Em 1956, o Egito presidido pelo arabista Gamal Abdel Nasser nacionalizou o canal de Suez (controlado pela Inglaterra), impedindo o seu uso por navios israelenses e isolando o porto de Eliat, maior receptor de petróleo para Israel na época. Israel declarou guerra ao Egito, ocupando a península do Sinai, a faixa de Gaza e reabrindo o porto de Eliat, enquanto o canal de Suez era atacado pela França e pelo Reino Unido. As forças dos três países foram obrigadas a se retirar, sob pressão da ONU, dos Estados Unidos e da União Soviética, fazendo com que Israel recuasse às fronteiras estabelecidas em 1949.

Em 1959 foi criada a Al-Fatah por Iasser Arafat, com objetivo de articular a luta armada para criação de um Estado palestino e em 1964 foi criada a Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

Em 1967, após mobilização de tropas árabes nas fronteiras de Israel, iniciou-se a Guerra dos Seis Dias, com o ataque de Israel ao Egito, Jordânia e Síria, conquistando a faixa de Gaza, Cisjordânia, colinas de Gola (da Síria) e o deserto do Sinai (do Egito). Apesar das resoluções da ONU, Israel não retirou suas tropas da Cisjordânia e da faixa de Gaza e instalou uma administração militar nos territórios palestinos ocupados, iniciando a implantação de colônias judaicas na região. Os palestinos ficaram confinados a apenas cerca de 25% das terras determinadas pela ONU quando da partilha da Palestina em 1947.

A terceira guerra árabe-israelense ocorreu em 1973 durante o feriado judeu do Yom Kippur (Dia do Perdão), quando Egito e Síria fizeram uma ofensiva surpresa que encontrou um contra-ataque fulminante e vitorioso por parte de Israel.

Em 1977, Israel iniciou conversações com o Egito, que intermediadas pelo presidente dos EUA, Jimmy Carter, culminaram na assinatura do acordo de Camp David (1978), pelo qual Israel se retirava do Sinai e o Egito se tornava o primeiro país do mundo árabe a reconhecer o Estado de Israel.

Expansionismo de Israel no Líbano

Com a desocupação do Sinai no sul, o expansionismo de Israel volta-se para o norte, com a invasão do Líbano em 1978, condenada pelo Conselho de Segurança da ONU, determinou a retirada israelense imediata e incondicional de todo território libanês até as fronteiras internacionalmente reconhecidas. A ONU constituiu também, uma força multinacional encarregada de auxiliar o governo do Líbano e restabelecer a paz e segurança na região. Além de não acatar a resolução da ONU, Israel consolidou sua ocupação, patrocinando a formação de uma milícia de mercenários cristãos.

A ocupação do Líbano foi ampliada em 1982, com o avanço de tropas até a capital Beirute, que provocou grande mortalidade e destruição, fez aumentar ainda mais a resistência árabe. Nessa ocasião ocorreu o massacre de mais de 2 mil palestinos nos campos de refugiados de Sabra e Chatila localizados numa região de Beirute controlada por Israel e pelas milícias cristãs libanesas do Exército do Sul do Líbano.

Com a resistência do povo do Líbano, Israel retirou-se parcialmente, recuando até o sul do país, continuando, contudo, a ocupar 10% do território libanês.

A correlação de forças no Líbano encontrava-se polarizada por muçulmanos apoiados pela Síria, que ocupava parte do país, e cristãos apoiados por Israel, que ocupava outra porção do território. A retirada de Israel, foi feita somente em 1985, mantendo, porém, cerca de mil soldados no sul. O povo desses territórios ocupados revoltou-se contra a tortura, a humilhação e a destruição de seus lares, formando a resistência libanesa, que encontrava amparo nas leis internacionais.

Em 1993, combatendo os guerrilheiros do Hisbollah, Israel bombardeou o Líbano, matando 130 libaneses e três anos depois, na operação intitulada Vinhas da Ira, contra o Hisbollah, morreram pelo menos mais 200 pessoas.

Imperialismo

Desde sua fundação, com apoio significativo da Inglaterra dos Estados Unidos, o Estado de Israel é o principal aliado das grandes potencias ocidentais na região do Oriente Médio. Essa situação é perceptível nos mais variados conflitos da região, que contaram e contam com a presença constante de tropas estadunidenses, mas também do ponto de vista comercial.

As comemorações dos 60 anos do Estado de Israel contaram com a histórica presença de um governante alemão, que pela primeira vez discursou no Parlamento do país. Nas palavras da Primeira ministra alemã Ângela Merkel:

"O assassinato em massa de seis milhões de judeus, feito em nome da Alemanha, trouxe sofrimento indescritível ao povo judeu, à Europa e a todo o mundo. O shoah (termo usado pelos israelenses para designar o Holocausto) enche os alemães de vergonha", disse.

"Eu me curvo diante dos sobreviventes e diante de todos os que os ajudaram a sobreviver. O rompimento com a civilização trazido pelo shoah não tem paralelos. Deixou feridas que ainda são sentidas hoje."

A Alemanha é o principal parceiro de comércio de Israel na Europa e tem as mesmas preocupações de Israel no que diz respeito ao programa nuclear do Irã.

* Texto publicado originariamente no livro "História em Manchete - no vestibular", publicado em 2008

Fonte: http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=1270

Colônia de Exploração



A empresa açucareira representou o modelo colonial exploratório no Brasil.

O desenvolvimento da prática mercantil empreendeu mudanças profundas no cenário econômico europeu. O avanço do comércio estabeleceu o fortalecimento da burguesia enquanto classe econômica. Paralelamente, os Estados Nacionais em formação percebiam que o desenvolvimento das práticas mercantis pavimentava a sustentação financeira dos governos por meio da arrecadação de impostos.

Nesse contexto, o desenvolvimento de ações monopolistas em outras regiões do planeta se transformou em ponto fundamental da atividade comercial. Em alguns casos, estes Estados Nacionais buscavam formas para controlar exclusivamente prósperas rotas comerciais que interligavam o mundo Ocidental e Oriental. No século XVI, com a descoberta do continente americano, a exploração dos vastos territórios também inseriu a colonização neste contexto econômico.

O desenvolvimento da colonização empreendeu um fato histórico que demarcou a entrada definitiva dos europeus na América. Nesse sentido, com a chegada dos colonizadores europeus, foi organizada formas de uso e domínio dos territórios. No caso do Brasil, percebemos que a Coroa Portuguesa reservou ao espaço colonial brasileiro a condição de colônia de exploração. Dessa forma, quais seriam as implicações ligadas a essa política empregada?

De forma geral, as colônias de exploração tinham seu espaço ocupado por indivíduos que representavam o interesse da metrópole no território colonizado. Nesse sentido, as leis, obrigações, impostos e instituições presentes na colônia zelavam por interesses que só tinham relações diretas com as demandas do Estado que as controlavam. Em tal âmbito, os moradores da colônia usufruíam de pouca ou nenhuma autonomia para elaborar e impor direitos que se remetiam a seus interesses próprios.

No que se refere à economia, a administração colonial buscava se instalar prontamente nas regiões que ofereciam melhores condições ao desenvolvimento de uma atividade econômica rentável. O investimento na atividade econômica costumava se vincular a alguma outra atividade comercial que oferecia retorno imediato e atendesse à demanda do mercado externo. Dessa forma, as necessidades econômicas locais eram facilmente lançadas ao segundo plano.

Com o surgimento de uma sociedade mais ampla e complexa na colônia, observamos que as situações de conflito acabaram abaladas a mando metropolitano. No século XVIII, podemos destacar que o desenvolvimento do pensamento liberal e a própria Revolução Industrial também favoreceram a desarticulação dos pactos coloniais. Assim, movimentos de orientação separatista gradualmente desarticularam o sustentáculo das colônias de exploração na América.


Por Rainer Sousa

Fonte: http://www.brasilescola.com/historiab/exploracao.htm

A Igreja Católica no Brasil


A Igreja Católica está presente na história brasileira desde a chegada dos portugueses, contribuindo para a formação cultural, artística, social e administrativa do país.


Você já se perguntou por que a maioria das cidades brasileiras foi construída em volta de uma igreja? Ou por que grande parte dos feriados é dedicada a santos? Para tentar responder a estas questões, é necessário entender a influência religiosa católica no Brasil. Ainda no começo do século XXI, dentre as religiões professadas pela população brasileira, oCatolicismo continua a ter o maior número de seguidores entre os habitantes do país. Tal predominância é decorrente da presença da Igreja Católica em toda a formação histórica brasileira.


A chegada de membros do clero católico ao território brasileiro foi simultânea ao processo de conquista das terras do Brasil, já que o reino português tinha estreitas relações com a Igreja Católica Apostólica Romana. A missa celebrada na chegada de Pedro Álvares Cabral, em 1500, foi imortalizada por Victor Meirelles no quadro Primeira Missa no Brasil. A presença da Igreja Católica começou a se intensificar a partir de 1549 com a chegada dos jesuítas da Companhia de Jesus, que formaram vilas e cidades, cujo caso mais célebre é a cidade de São Paulo.


O quadro de Victor Meirelles retrata a influência da Igreja Católica desde o início da conquista dos territórios brasileiros

Vários outros grupos de clérigos católicos vieram também à colônia portuguesa com a missão principal de evangelizar os indígenas, como as ordens dos franciscanos e dos carmelitas, levando a eles a doutrina cristã. Esse processo se interligou às próprias necessidades dos interesses mercantis e políticos europeus no Brasil, como base ideológica da conquista e colonização das novas terras. As consequências foram o aculturamento das populações indígenas e os esforços no sentido de disciplinar, de acordo com os preceitos cristãos europeus, a população que aqui habitava, principalmente através de ações educacionais.

Nas artes, a mais notória contribuição da Igreja Católica na história do Brasil foram as produções artísticas barrocas, que tiveram como principal expoente o artista plástico Aleijadinho. Essas obras podem ser encontradas nas cidades de Salvador, Diamantina, Outo Preto, Recife e Olinda. Por outro lado, o contato do catolicismo com as religiões africanas produziu sincretismos religiosos, uma mescla das religiões que originou o candomblé, por exemplo.

As relações entre Igreja Católica e Estado foram estreitas no Brasil tanto na colônia quanto no Império, pois, além de garantir a disciplina social dentro de certos limites, a igreja também executava tarefas administrativas que hoje são atribuições do Estado, como o registro de nascimentos, mortes e casamentos. Contribuiu ainda a Igreja com a manutenção de hospitais, principalmente as Santas Casas. Em contrapartida, o Estado nomeava bispos e párocos, além de conceder licenças à construção de novas igrejas.

O cenário mudou com a nomeação do Marquês de Pombal, que afastou a influência da Igreja Católica da administração do Estado. Após sua morte, os laços voltaram a se estreitar, perpassando por todo o período imperial brasileiro no século XIX. Com a proclamação da República em 1889, houve a separação formal entre Estado e Igreja Católica, mas sua presença continuou ainda viva, como comprova a existência de várias festas e feriados nacionais, como as festas juninas e o feriado de 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do país.

Contrariamente às diretrizes da direção da igreja, vários grupos religiosos atuaram politicamente, lutando pelas melhorias das condições de vida da população explorada do país. Existiram vários exemplos ao longo da história brasileira, entre eles, podemos citar a Revolta de Canudos no fim do século XIX, ou mesmo no último quarto do século XX, quando os grupos ligados à Teologia da Libertação conseguiram formar alguns movimentos sociais, como o MST, através da ação nos Conselhos Eclesiais de Base (CEB’s).


Por Tales Pinto

Fonte: http://www.brasilescola.com/historiab/igreja-catolica-no-brasil.htm

Rasputin, o monge louco da Rússia

Por Tales Pinto

Uma das figuras mais enigmáticas que ficou atrelada à história do último imperador da dinastiaRomanov foi sem dúvida Rasputin. Exercendo uma forte influência sobre o czar Nicolau II e, principalmente sobre sua esposa, a czarina Alexandra Feodorovna, o místico mujique é apontado por alguns historiadores, por exemplo Alain Frerejean, como o homem mais poderoso da Rússia nos últimos anos da dinastia.


Nicolau II e a czarina Alexandra foram influenciados por Rasputin em seus últimos anos de reinado

Nascido Grigori Iefimovitch Novikh, talvez na segunda metade da década de 1860, em um vilarejo na Sibéria, foi apelidado de Rasputin, possivelmente em decorrência de suas práticas sexuais na adolescência, já que o nome tem a mesma raiz que a palavra raspoutny, que significa depravação. Dentre suas práticas místicas incluíam-se a participação nas reuniões dos khlysty, membros de uma seita que unia religião e erotismo. Nos cultos realizados em igrejas abandonadas, homens e mulheres se entregavam a danças, com vestes transparentes, que acabavam quase sempre em transes e orgias.

A fama de assediar as mulheres acompanhou Rasputin durante toda sua vida, chegando a ser apontada como o motivo de aproximação com a czarina Alexandra. A afirmação não pode ser comprovada, mas a sua influência tem origem nas curas que realizou sobre Alexis, herdeiro de Nicolau II. Alexis era hemofílico, e as orientações de Rasputin para tratamentos distintos dos dados pelos médicos surtiam efeitos na melhora da criança. Tal situação proporcionou a ele grandes poderes políticos delegados pela czarina, chegando a assinar e transmitir petições de promoções e nomeações, além de, em alguns casos, nomear ministros.

A trajetória deste camponês pobre siberiano, que depois de ter afirmado ter visto a Virgem Maria no campo e iniciado uma peregrinação por mais de dez meses, passando por vários mosteiros, proporcionando um pequeno conhecimento da escrita e também de práticas rituais religiosas, causou forte oposição dos nobres da corte do czar, em decorrência do poder que exercia sobre a família real.

As ameaças de morte eram constantes e não tardou para que se colocassem em prática as intenções de acabar com Rasputin. Na noite de 29 para 30 de dezembro de 1916, o místico caiu em uma armadilha criada pelo príncipe Félix Iussupov, auxiliado pelo grão-duque Dimitri Pavlovitch, o deputado Purichkevitch, o tenente Sukhotin e o médico Lazovert. Em uma suposta festa na casa do príncipe, Rasputin sofreu algumas tentativas de envenenamento que não foram capazes de matá-lo, sendo os organizadores da ação homicida obrigados a alvejar de balas o mujique, e o jogar nas gélidas águas do Rio Neva, em São Petersburgo.

Dois dias depois encontraram o corpo mutilado e coberto de gelo, mas com as mãos erguidas, como se estivesse tentando se soltar das cordas que o amarravam. A autópsia do corpo indicou a presença de água no pulmão, que funcionou como um reforço à fama de místico, pois mesmo envenenado e alvejado, a causa de sua morte havia sido o afogamento e o frio.

Suas últimas conversas com Nicolau II apontava para o perigo de desmoronamento da monarquia russa com as consequências da participação na I Guerra Mundial, e das disputas pelo poder existentes na corte. Meses após sua morte, a dinastia dos Romanov foi derrubada na Rússia, iniciando a revolução que resultou na formação da URSS. Seria isso um sinal de profecia ou de análise social por parte de Rasputin?

Fonte: http://www.historiadomundo.com.br/russa/rasputin-o-monge-louco-da-russia.htm

Os usos da madeira na Idade Média


Velha carroça de madeira, semelhante às utilizadas na Idade Média

Por Tales Pinto

Durante o período conhecido como Alta Idade Média, que compreendeu as ações dos homens no continente europeu entre os séculos V e XI, a madeira exerceu uma importante função na produção material da vida dos homens medievais.

Extraída principalmente dos bosques que circundavam as áreas habitacionais e de cultivo agrícola, a madeira era utilizada para diversas funções. Os bosques incluíam-se nas áreas denominadas comoincultos, alcunha dada por não haver atividade humana no trabalho da terra, sendo espaço de caça e de extração vegetal e mineral. Ao fazer uma compilação das referências dos usos da madeira nos estudos dos diversos especialistas da Idade Média, o historiador português João Bernardo aponta diversos usos para a madeira durante esse período:

Como combustível, ela era utilizada nas manufaturas para a produção metalúrgica, de sal, do vidro, da cerâmica, além de cal e gesso; no ambiente doméstico, como na cozinha, para o aquecimento e para a iluminação. As cinzas serviam de matéria-prima para a produção de sabão e detergentes, tinturaria, fabricação de vidros e fertilizantes.

Na construção de edifícios, ela estava presente em fortificações, paliçadas, pontes, navios e outros meios de transporte. A madeira era também utilizada para a confecção de inúmeros instrumentos de trabalho agrícola, como arados. Mobiliário e utensílios utilizados no cotidiano, como os destinados à alimentação e a diversos outros usos, tinham a madeira como matéria-prima. Até os instrumentos militares tinham partes que eram fabricadas a partir da madeira.

O historiador francês Marc Bloch chegou a afirmar que a Idade Média viveu sob o signo da madeira, tamanha era a dependência dos homens e mulheres medievais em relação a essa matéria-prima. Inclusive na estética das edificações, havia afirmações que as construções em madeira eram mais belas que as construídas de pedra.

Essa dependência levou João Bernardo a escrever que por ocupar o lugar central na vida produtiva medieval, possivelmente não teria “existido nenhum outro sistema tecnológico tão inteiramente dependente de um material único”1, sendo utilizado para uma gama tão vasta de atividades. O historiador ainda contrapõe as teses ecologistas, contrárias à produção capitalista, que criticam o uso do carvão e do ferro como causadores iniciais dos desequilíbrios ambientais provocados pela civilização industrial, ao fato de que os materiais adotados nos primórdios do capitalismo eram uma reação ao esgotamento da madeira nos bosques europeus.

Dessa forma, as novas matérias-primas e técnicas contribuíram para a diminuição da extração madeireira nas áreas florestais, ao passo que diminuíram a dependência em relação à madeira como principal matéria-prima do sistema tecnológico medieval.



[1] BERNARDO, João. Poder e Dinheiro. Do Poder Pessoal ao Estado Impessoal no Regime Senhorial, séculos V-XV. Parte I. Porto: Afrontamento, 1995. p. 320-322.

Fonte: http://www.historiadomundo.com.br/idade-media/os-usos-da-madeira-na-idade-media.htm

Revolução Alemã de 1918-1919


Rosa Luxemburgo foi uma das principais figuras da Revolução Alemã, participando ativamente da Liga Spartacus.*

Por Tales Pinto

A Revolução Alemã de 1918-1919 está diretamente ligada à Primeira Guerra Mundial, às divisões que se desenvolveram dentro do Partido Social Democrata Alemão (SPD) desde fins de 1915 e à Revolução Russa de 1917.

A deflagração da guerra, com a Alemanha sendo um de seus principais protagonistas, e o apoio de grande parte do SPD à concessão de créditos de guerra ao II Reich criaram divisões internas no partido. Uma minoria que foi crescendo ao longo dos anos opunha-se à concessão dos créditos de guerra, afirmando que tal política beneficiava apenas a burguesias dos países beligerantes, ao colocar os trabalhadores dos países envolvidos no conflito mundial para lutarem entre si. A base dessa defesa era a necessidade de manter os laços internacionais dos operários.

Novos partidos surgiram das divisões internas do SPD. Em janeiro de 1917, foi formado pela ala esquerda do SPD o Partido Social Democrata Alemão Independente (USPD), que iria tentar fortalecer as ações operárias contra a guerra e pela melhoria da qualidade de vida. Dento do USPD havia a Liga Spartacus, liderada principalmente por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo. Além disso, havia um grupo de delegados revolucionários que mantinha certa independência em relação ao partido, sendo formado por operários berlinenses que participaram das primeiras movimentações operárias durante o início da Primeira Guerra Mundial.

Porém, o desenrolar das ações revolucionárias fez com que o próprio USPD se dividisse, dando origem a um novo partido formado pela Liga Espartaquista, denominado Partido Comunista Alemão (KPD), formado a partir de finais de 1918.

A Revolução Russa de 1917 exerceu também considerável influência sobre os operários e soldados alemães ao criar o sentimento de possibilidade de realizarem um processo revolucionário que derrubasse o capitalismo. Essa perspectiva ficava ainda mais forte à medida que as condições sociais decorrentes da fome e do frio, causadas pela participação da Alemanha na I Guerra Mundial, atingiram cada vez mais profundamente a população. Um grande contingente de soldados passou a abandonar a frente de guerra, enfraquecendo o exército alemão.

Mas a característica mais importante da Revolução Alemã de 1918-1919 foi a constituição de inúmeros conselhos de operários e soldados em diversas cidades alemãs. Decorrentes de inúmeras greves massivas e inspirados possivelmente nos sovietes russos, os defensores do poder radicado nesses conselhos chegaram a proclamar em novembro de 1918, em Berlim, uma República Socialista. Várias outras cidades tiveram como base do poder, durante algumas semanas, os conselhos de operários e soldados.

No entanto, o fortalecimento das movimentações operárias e a ameaça ao poder constituído fizeram com que a repressão das forças militares alemãs se intensificasse. Com as seguidas derrotas na linha de frente, o poder do Imperador Guilherme II, do II Reich, desmoronou pela ação dos conselhos, em 09 de novembro de 1918. Mas, posteriormente, emergiu uma República comandada principalmente pelos social-democratas do SPD. Apesar de se definirem como um partido dos trabalhadores, os social-democratas comandaram a repressão sobre os conselhos de trabalhadores e soldados.

O apoio à ação dos Freikorps buscava enfraquecer o movimento de base dos trabalhadores. Esses corpos militares foram formados após a desestruturação do exército, em decorrência da derrota na Primeira Guerra Mundial, a partir de oficiais conservadores e militares antirrevolucionários. Os Freikorps entraram inclusive em confronto com os marinheiros amotinados em Kiel, onde foram formados conselhos de marujos que destituíram seus oficiais e tomaram suas armas e embarcações.

Por uma série de motivos, o movimento revolucionário foi se enfraquecendo. A divisão entre os partidos de esquerda e a falta de uma perspectiva de constituição de um poder alternativo à República por parte dos conselhos de trabalhadores e soldados foram apontados por historiadores e militantes como os motivos da derrota da Revolução Alemã de 1918-1919.

No início de 1919, os ataques dos Freikorps passaram a ter êxito, prendendo e matando milhares de trabalhadores envolvidos nas lutas. Os casos mais notórios ocorreram com os líderes espartaquistas Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo. Presos, foram assassinados em 15 de janeiro de 1919. Essa onda repressiva conseguiu frear o movimento, apesar das lutas pela constituição de Repúblicas baseadas nos conselhos surgirem em diversas localidades alemãs até maio de 1919.

A consolidação do poder do SPD na recém-formada República de Weimar conseguiria acabar com o movimento revolucionário. Novas lutas desenvolver-se-iam ainda em 1920 e 1921, mas sem a mesma força e ímpeto dos anos anteriores.

Fonte: http://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/revolucao-alema-de-1918-1919.htm

Regimento Do Pau-Brasil - 1605 Documento Histórico



Eu Ei-rei. Faço saber aos que este Meu Regimento virem, que sendo informado das muitas desordens que lia no certão do páo brasil, e na conservação delle, de que se tem seguido haver hoje muita falta, e ir-se buscar muitas legoas pelo certão dentro, cada vez será o damno mayor se se não atalhar, e der nisso a Ordem conveniente, e necessaria, como em cousa de tanta importancia para a Minha Real Fazenda, tomando informações de pessoas de experiência das partes do Brasil, e comunicando-as com as do Meu Conselho, Mandei fazer este Regimento, que Hei por bem, e Mando se guarde daqui em diante inviolavelmente.



Parágrafo 1`. Primeiramente Hei por bem, e Mando, que nenhuma pessoa possa cortar, nem mandar cortar o dito páo brasil, por si, ou seus escravos ou Feitores seus, sem expressa licença, ou escrito do Provedor mór de Minha Fazenda, de cada uma das Capitanias, em cujo destricto estiver a mata, em que se houver de cortar; e o que o contrário fizer encorrerá em pena de morte e confiscação de toda sua fazenda.



Parágrafo 2`. O dito Provedor Mór para dar a tal licença tomará informações da qualidade da pessoa, que lha pede, e se delia ha alguma suspeita, que o desencaminhará, ou furtará ou dará a quem o haja de fazer.



Parágrafo 3`. O dito Provedro Mór fará fazer um Livro por elle assignado, e numerado, no qual se registarão todas as licenças que assim der, declarando os nomes e mais confrontações necessarias das pessoas a que se derem, e se declarará a quantidade de páo para que se lhe dê licença, e se obrigará a entregar ao contractador toda a dita quantidade, que trata na certidão, para com elia vir confrontar o assento do Livro, de que se fará declaração, e nos ditos assentos assignará a pessoa, que levar a licença, com o Escrivão.



Parágrafo 4`. E toda a pessoa, que tomar mais quantidade de páo de que lhe fôr dada licença, além de o perder para Minha Fazenda, se o mais que cortar passar de dez quintaes, incorrerá em pena de cem cruzados, e se passar de cincoenta quintaes, sendo peão, será açoutado, e degradado por des annos para Angola, e passando de cem quintaes morrerá por elle, e perderá toda sua fazenda.



Parágrafo 5`. O provedor fará repartição das ditas licenças em o modo, que cada um dos moradores da Capitania, a que se houver de fazer o corte, tenha sua parte, segundo a possibilidade de cada um, e que em todos se não exceda a quantidade que lhe for ordenada



Parágrafo 6`. Para que se não córte mais quantidade de páo da que eu tiver dada por contracto, nem se carregue à dada Capitania, mais da que boamente se pôde tirar delia; Hei por bem, e Mando, que em cada um anno se faça repartição da quantidade do páo, que se ha de cortar em cada uma das Capitanias, em que há mata delle, de modo que em todo se não exceda a quantidade do Contracto.



Parágrafo 7`. A dita Repartição do páo que se ha de cortar em cada Capitania se fará em presença do Meu Governador daquelle Estado pelo Provedor Mór da Minha Fazenda, e Off iciaes da Camara da Bahia, e nelia se terá respeito do estado das matas de cada uma das ditas Capitanias, para lhe não carregarem mais, nem menos páo do que convém para benefício das ditas matas, e do que se determinar aos mais votos, se fará assento pelo Escrivão da Camara, e delles se tirarão Provisões em nome do Governador, e por elle assignadas, que se mandarão aos Provedores das ditas Capitanias para as executarem.



Parágrafo 8`. Por ter informação, que uma das cousas, que maior damno tem causado nas ditas mattas, em que se perde, e destroe mais páos, é por os Contractadores não aceitarem todo o que se corta, sendo bom, e de receber, e querem que todo o que se lhe dá seja roliço, e massiço do que se segue ficar pelos mattos muitos dos ramos e ilhargas perdidas, sendo todo elle bom, e conveniente para o uso das tintas: Mando a que daqui em diante se aproveite todo o que fôr de receber, e não se deixe pelos matos nenhum páo cortado, assim dos ditos ramos, como das ilhargas, e que os contractadores o recebão todo, e havendo dúvida se é de receber, a determinará o Provedor da Minha Fazenda com informação de pessoas de crédito ajuramentadas; e porque outrosym sou informado, que a causa de se extinguirem as matas do dito páo como hoje então, e não tornarem as árvores a brotar, é pelo mão modo com que se fazem os cortes, não lhe deixando ramos, e varas, que vão crescendo, e por se lhe pôr fogo nas raizes, para fazerem roças; Hei por bem, e Mando, que daqui em diante se não fação roças em terras de matas de páo do brasil, e serão para isso coutadas com todas as penas, e defesas, que estas coutadas Reaes, e que nos ditos córtes se tenhão muito tento a conservação das árvores para que tornem a brotar, deixando-lhes varas, e troncos com que os possão fazer, e os que o contrário fizerem serão castigados com as penas, que parecer ao Julgador.



Parágrafo 9`. Hei por bem, e Mando, que todos os annos se tire devassa do córte do páo brasil, na qual se perguntará pelos que quebrarão, e forão contra este Regimento.



Parágrafo 10`. E para que em todo haja guarda e vigilância, que convém Hei por bem, que em cada Capitania, das em que houver matas do dito páo, haja guardas, duas delias, que terão de seu ordenado a vintena das condemnações que por sua denunciação se fizeram, as quaes guardas serão nomeadas pelas Camaras, e approvadas pelos Provedores de Minha Fazenda, e se lhes dará juramento, que bem, e verdadeiramente fação seus Off icios.



Parágrafo 11`. O qual Regimento Mando se cumpra, e guarde como nelle se contém e ao Governador do dito Estado, e ao Provedor Mór da Minha Fazenda, e aos Provedores das Capitanias, e a todas as justiças dellas, que assim o cumprão, e guarde, e fação cumprir, e guardar sob as penas nelle contheudas; o qual se registrará nos Livros da Minha Fazenda do dito Estado, e nas Camaras das Capitanias, aonde houver matas do dito páo, e valerá posto que não passe por carta em meu nome, e o effeito delta haja de durar mais de um anno, sem embargo da Ordenação do segundo Livro, título trinta e nove, que o contrário dispoem. Francisco Ferreira o fés a 12 de Dezembro de 1605. E eu o Secretario Pedro da Costa o fis escrever "Rey".


Deus - Uma biografia


Pesquisadores revelam que Javé, o grande personagem da Bíblia, não foi visto sempre como Deus único. Antes do Livro Sagrado, ele era só mais um entre muitas divindades. Saiba como Deus conquistou seu espaço no céu. E na Terra.

por José Lopes e Alexandre Versignassi


Deus criou o Universo.
Deus está em todos os lugares.
Deus é a força que nos une.

Cada sociedade vê a figura do Criador à sua maneira. Cada indivíduo, até. Para Einstein, Ele era as leis que governam o tempo e o espaço - a natureza em sua acepção mais profunda. Para os ateus, Deus é uma ilusão. Para o papa Bento 16, é o amor, a caridade. "Quem ama habita Deus; ao mesmo tempo, Deus habita quem ama", escreveu em sua primeira encíclica.

Pontos de vista à parte, toda cultura humana já teve seu Deus. Seus deuses, na maioria dos casos: seres divinos que interagiam entre si em mitologias de enredo farto, recheadas de brigas, lágrimas, reconciliações. Os deuses eram humanos.

Mas isso mudou. A imagem divina que se consolidou é bem diferente. Deus ganhou letra maiúscula na cultura ocidental. Os panteões divinos acabaram. Deus tornou-se único. É o Deus da Bíblia, Javé, o criador da luz e da humanidade. O pai de Jesus. Essa concepção, que hoje parece eterna, de tanto que a conhecemos, não nasceu pronta. Ela é fruto de fatos históricos que aconteceram antes de a Bíblia ter sido escrita. O próprio Javé já foi uma divindade entre muitas. Fez parte de um panteão do qual não era nem o chefe. O fato de ele ter se tornado o Deus supremo, então, é marcante: se fosse entre os deuses gregos, seria como se uma divindade de baixo escalão, como o Cupido, tivesse ascendido a uma posição maior que a de Zeus É essa história que vamos contar aqui. A história de Javé, a figura que começou como um pequeno deus do deserto e depois moldaria a forma como cada um de nós entende a ideia de Deus, não importando quem ou o que Deus seja para você.

Criança
No princípio, Ele não sabia falar. Só chorava, grunhia e balbuciava. Deus era uma criança. Uma não, muitas: um deus era a chuva, outro deus, o Sol, mais outro, o trovão... Os deuses eram as forças por trás de uma natureza inexplicável para os primeiros humanos da Terra. Facetas de divindades borbulhavam em cachoeiras, galopavam com os cavalos selvagens, voavam com o vento, escondiam-se em cada rochedo, bosque ou duna do deserto. E do deserto veio a que daria origem ao Deus para valer.

Deuses nasceram do pôquer. A crença em divindades provavelmente vem da capacidade humana de detectar as intenções das outras pessoas. Somos muito bons nisso desde que surgimos, há 200 mil anos, e precisamos ser mesmo, porque o Homo sapiens sempre levou a vida social mais complicada do reino animal, sempre em comunidades cheias de intrigas, fingimentos, traições. Saber o que se passa na cabeça do outro era questão de sobrevivência - e até certo ponto ainda é.

E a melhor maneira de tentar se antecipar a um adversário nos jogos mentais do dia a dia é imaginar as intenções dele: "O que será que ele pensa que eu estou pensando?" Nosso cérebro é uma máquina de pôquer.

Pesquisadores como o antropólogo francês Pascal Boyer defendem que esse sistema de detecção de intenções pode acabar aplicado a coisas que não têm intenções de nenhum tipo - como a chuva, ou o Sol. A ideia de que há espíritos de toda sorte da natureza seria, assim, um efeito colateral do nosso sistema de detecção de mentes, tão hiperativo.

Por esse ponto de vista, a espiritualidade faz parte dos nossos instintos. É quase tão natural acreditar em divindades quanto comer ou dormir.

Cada fenômeno da natureza, então, representava as intenções de alguma divindade. É como ainda acontece nas tribos de caçadores-coletores de hoje. Entre os índios tupis, os trovões são a raiva do deus Tupã. E fim de papo.

Obras de arte de mais de 30 mil anos atrás dão outra pista sobre essa espiri-tualidade primitiva - que podemos chamar de "infância de Deus" (no caso, dos deuses). Elas mostram seres que misturam características humanas e animais - sujeitos com cabeça de leão ou de rena e corpo de gente, por exemplo.

Acredita-se que essas criaturas híbridas representem um tipo de crença que ainda é comum nas tribos indígenas: a de que não haveria separação rígida entre o mundo dos humanos, o dos animais e o dos espíritos. Seria possível transitar entre essas esferas se você possuísse o conhecimento correto, e, em tese, qualquer falecido, seja pessoa, seja bicho, pode ter um papel parecido com o que associamos normalmente a um deus.

Os deuses abandonam de vez as feições animais quando os bichos se tornam menos importantes no nosso cotidiano. Foi precisamente o que aconteceu quando a agricultura foi criada, há 10 mil anos, no Oriente Médio. Graças a ela, montamos as primeiras cidades. E a nossa espiritualidade progrediria junto: acabaria bem mais centrada nas pessoas que na natureza selvagem.

Há sinais de que ancestrais mortos eram as grandes entidades com status divino nessas primeiras cidades. Um exemplo arqueológico vem de escavações em Jericó, uma das mais antigas aglomerações humanas, que hoje fica no território palestino da Cisjordânia. Os habitantes de Jericó enterravam o corpo de seus mortos, mas guardavam o crânio, que era recoberto com camadas de gesso e tinta, simulando o rosto humano. Assim preparada, a caveira talvez servisse de oráculo doméstico - uma espécie de deus particular para cada família.

Os artesãos de crânios de Jericó não tinham escrita - aliás, passariam mais de 5 mil anos até que essa tecnologia fosse inventada. Quando isso finalmente aconteceu, em torno do ano 2000 a.C., os deus ficaram bem mais sofisticados.

Entraram em cena criaturas ao estilo dos habitantes do Olimpo na mitologia grega. Em parte, alguns deles até eram mesmo personificações das forças da natureza, mas agora eles ganhavam personalidades e biografias complexas.

É aí que está a origem do grande personagem desta história: Javé, uma divindade que provavelmente começou como um deus menor, cultuado por nômades. Bem antes de a Bíblia ser escrita.
Cabeça de leão
Estátuas e pinturas de povos caçadores, que viviam nas cavernas da Europa há 30 mil anos, mostram figuras que misturam formas de homens e de animais. Tudo indica que esses foram os primeiros deuses a habitar a mente humana.


Jovem
O rapaz era uma divindade dos desertos do sul. Junto com seus poucos súditos, chegaria à pulsante Canãa, domínio do deus El, o altíssimo. Ao lado do soberano, a mãe de divindades e homens, Asherah, senhora de tudo o que é fértil, e seu sucessor, Baal, o deus que dava chuvas àquelas paisagens àridas. Tudo na santa paz. Eles só não imaginavam que Javé tramava a destruição deles.

Ele começou de baixo. Era só mais um deus entre vários outros de sua região. Só que na Bíblia Javé é identificado como o Deus único. Hoje, cogitar a existência de outras divindades que teriam convivido com o Senhor da Bíblia é um absurdo do ponto de vista religioso. Mas não do ponto de vista científico. Pesquisadores de várias áreas - arqueólogos, linguistas, teólogos - estão encontrando pistas sobre uma provável "vida pregressa" de Javé. Uma vida mitológica que ele teve antes de seu nome ir parar na Bíblia como o da entidade que criou tudo.

Onde pesquisar isso? A própria Bíblia é uma fonte. O Livro Sagrado não foi feito de uma vez. Trata-se de uma coleção de textos escritos ao longo de séculos. O Pentateuco, os 5 primeiros livros da Bíblia, foi finalizado por volta de 550 a.C. Mas há textos ali de 1000 a.C., ou de antes. E nada disso foi editado em ordem cronológica - em grande parte, a Bíblia é uma junção de textos independentes, cada um escrito em tempos e realidades diferentes.

Como saber a que tempo e a que realidade cada um pertence? Pela linguagem. Pesquisadores analisam as expressões do texto original, em hebraico, e vão comparando com a de documentos encontrados em escavações arqueológicas, cuja datação é fácil de determinar. Com esse método, chegaram a uma descoberta reveladora. Alguns poemas da Bíblia dão a entender que Javé era uma divindade de lugares chamados Teiman ou Paran - dizendo literalmente que o deus veio dessas regiões. E esses textos estão justamente entre os mais antigos - se a língua do livro fosse o português moderno, eles estariam mais para Camões.

Teiman e Paran eram lugares desérticos fora das fronteiras onde viviam os homens que escreveram a Bíblia. Não se sabe exatamente que regiões eram essas, já que os nomes dos territórios vão mudando ao longo dos séculos. "Mas arqueólogos supõem que essa região seja no noroeste da atual Arábia Saudita", diz Mark Smith, professor de estudos bíblicos da Universidade de Nova York. E isso diz muito.

Os autores dos primeiros textos da Bíblia viviam na antiga Canaã - uma região do Oriente Médio onde hoje estão Israel, os territórios palestinos e partes da Síria e do Líbano. Ali se formaram algumas das primeiras civilizações da história, há 10 mil anos. E por volta de 1000 a.C. já era um território disputado (como nunca deixou de ser, por sinal). Estava dividido numa miríade de tribos, as dos israelitas, a dos hititas, a dos jebedeus...

Apesar das rivalidades, todas tinham culturas parecidas. Reverenciavam o mesmo panteão de deuses, por exemplo. Mas Javé, pelo jeito, não era um deles. Teria sido importado das áreas mais desérticas do sul.

Outra evidência disso é a associação de seu nome com os chamados shasu. Shasu é um termo egípcio que significa "nômade" ou "beduíno". Algumas inscrições egípcias mencionam um "Javé dos Shasu".

Uma possibilidade, então, é que nômades do deserto teriam se incorporado às tribos israelitas, trazendo o novo deus com eles. Essa divindade se embrenharia no meio da grande mitologia desse povo: o panteão de deuses cananeus. Mas quem eram essas divindades? As melhores pistas a esse respeito vêm de Ugarit, uma antiga cidade encontrada durante escavações arqueológicas na atual Síria. Ela foi destruída por invasores em 1200 a.C., quando os israelitas ainda eram um povo em formação. As inscrições encontradas ali, então, servem como uma cápsula do tempo. Revelam o contexto cultural em que nasceu a mitologia israelita, mostra como era a mitologia dos antepassados dos escritores da Bíblia. E os deuses em que eles acreditavam seriam fundamentais para a biografia de Javé. O panteão de Ugarit é bem grandinho, mas algumas figuras se destacam. Há o pai dos deuses e dos homens, o idoso, bondoso e barbudo El; sua esposa, Asherah, deusa da vegetação e da fertilidade; a filha dos dois, Anat, feroz deusa do amor; e o filho adotivo do casal, Baal, deus da guerra e da tempestade que morre, ressuscita e derrota as divindades malignas Yamm (o Mar) e Mot (a Morte).

Muitos estudiosos especulam que as tribos is-raelitas originalmente tinham El como seu deus supremo. Afinal, o nome do povo bíblico também termina com o elemento -el. "Esse tipo de nome próprio, conhecido como teofórico (‘portador de um deus’, em grego), costuma dar pistas sobre o ente divino que o dono do nome venera", diz Airton José da Silva, professor de Antigo Testamento da Arquidiocese de Ribeirão Preto.

Mas os indícios a respeito de El vão além da nomenclatura. O deus cananeu também tem uma relação especial com os chefes de clãs, prometendo-lhes uma vasta descendência - exatamente o que Deus faria depois na Bíblia ao selar uma aliança com os ancestrais dos israelitas, Abraão, Isaac e Jacó. "El é o deus desses patriarcas", diz Christine Hayes, professora de estudos judaicos de Yale.
Deus do deserto
Javé pode ter sido uma divindade trazida do deserto por nômades que se embrenharam nas tribos is-raelitas, quando elas ainda estavam em formação na região de Canaã. Aí ele se junta aos deuses cananeus, como Baal e El, o altíssimo.


Adulto
"Israel é a minha herança", brada o impetuoso deus do deserto. Diante dele, a assembleia dos deuses de Canaã se sente cada vez mais intimidada. E, numa escalada de poder sem precedentes, o guerreiro chega a ser considerado idêntico ao próprio El como criador e governador do mundo. A própria esposa do antigo senhor dos deuses passa às mãos do novato.

Uma ameaça pairava sobre os deuses de Canaã. Era a ambição de Javé. O novo deus começou a buscar seu lugar entre as antigas divindades cananeias. E teve sucesso. Com sua personalidade forte, foi ganhando espaço dentro da mitologia israelita, tomando o terreno dos deuses criados pelos povos cananeus.

A maior prova disso está em outro texto poético dos mais antigos da Bíblia, o Salmo 82. Ele nos apresenta o chamado "conselho divino": uma espécie de Câmara dos Deputados dos deuses, na qual eles se reúnem para discutir assuntos importantes - um indício de que o Salmo foi escrito antes do próprio início da Bíblia, que já começa apresentando Javé como Deus único. A ideia, ali, é que El preside o conselho e seus filhos ou subordinados discursam. Lá, Javé aparentemente perde a paciência: "Deus se levanta no conselho divino,/em meio aos deuses ele julga:/"Até quando vocês julgarão injustamente,/sustentando a causa dos injustos? (...) "Eu declaro: embora vocês sejam deuses,/e todos filhos do Altíssimo,/morrerão como qualquer homem". Trocando em miúdos menos rebuscados: "Quem manda aqui sou eu".

É difícil dizer a que período da história israelita corresponde esse momento em que, na imaginação religiosa das pessoas, Javé começou a impor sua vontade perante os deuses cananeus. Talvez o fenômeno tenha a ver com a consolidação de Israel como povo distinto dos demais cananeus: a adoração a uma divindade unicamente israelita pode ter emergido como um elemento-chave nessa consciência "nacionalista" dos ancestrais dos judeus.

Para completar essa nova fase na vida do Senhor, que poderíamos chamar de começo da vida adulta, falta ainda um elemento crucial. Lembre-se do impe-tuoso deus guerreiro Baal. O que parece ocorrer, segundo Mark Smith e outros especialistas, é que Javé se "baaliza", virando uma mistura de El e Baal, com ligeira predominância do segundo.

As evidências: Javé e Baal estão associados a tempestades, vulcões, fogo e terremoto; ambos são guerreiros invencíveis que habitam o alto de montanhas (Baal vive no lendário monte Zafon, Javé, no Sinai). E a semelhança fica ainda mais detalhada.

Na tradição mitológica de Canaã, quem tinha triunfado contra Yamm, o deus caótico do mar, era Baal, mas os textos da Bíblia atribuem essa vitória - adivinhe só - a Javé. Mais sugestivo ainda: alguns Salmos parecem ter sido originalmente hinos a Baal que acabaram adaptados para o culto ao Senhor dos israelitas. Só que Javé vai muito além das intervenções típicas de Baal no mundo. Na mitologia israelita, sua grande vitória não é contra o mar, mas, sim, usando o mar como arma contra o faraó que tinha escravizado o povo hebreu no Egito. Escolhendo o profeta Moisés como seu emissário, conforme conta o livro bíblico do Êxodo, o novo deus guerreiro puniu os egípcios com uma sucessão de pragas e, como grand finale, destruiu "carros de guerra e cavaleiros" do faraó afundando-os no mar.

A diferença em relação a Baal é que o Senhor seria capaz de agir não só num passado mítico mas na própria história dos israelitas. Ele é literalmente "o Senhor dos Exércitos de Israel", aquele que promete a vitória em batalha em troca da fidelidade religiosa do povo. Daí em diante, Deus nunca deixa de ser, em grande medida, um guerreiro.

Além de herdar o trono de El na mitologia israelita, Javé também pode ter levado Asherah, a mulher do velho deus. Eis aí uma possibilidade para a qual a Bíblia não prepara seus leitores. Os profetas bíblicos vivem chiando contra o fato de que os israelitas estariam se "prostituindo" (metaforicamente, e talvez literalmente também, via orgias rituais) nos altares de Asherah. Mas inscrições achadas ao longo do século 20, como as de Kuntillet Ajrud, um pit stop de caravanas no deserto do Sinai, poderiam indicar que o deus e a deusa não eram inimigos, e sim um casal.

As inscrições, datadas em torno do ano 800 a.C., dizem coisas como "a bênção para ti por Javé de Teiman e sua Asherah". Seja como for, mesmo se o casamento ainda existisse, Javé logo optaria por um divórcio - daqueles litigiosos, barra-pesada, nos quais o pai joga os filhos contra a mãe.


Casal maior
Inscrições do do século 9 a.C. dão a entender que Javé tinha se casado com Asherah, a maior divindade feminina de Canaã. Era uma interpretação israelita da mitologia da região: o deus daquele povo tomava para si a esposa de El.



Homem feito
A última resistência da antiga assembleia divina parte de Baal. Sem pestanejar, Javé o elimina. Asherah tem o mesmo destino trágico. Daqui por diante ele estará sozinho nos céus. E alcança a serenidade. Hora de fazer as pazes com a humanidade. E um sacrifício.

Seu grande momento estava chegando. Era a hora da virada para Javé. Ele deixaria de ser mais um deus. E viraria o Único. No mundo real, esse momento teve data: foi a reforma religiosa introduzida por Josias (649 - 609 a.C.), rei de Judá. Antes, porém, um interlúdio político.

Àquela altura, a nação das tribos israelitas de Canaã tinha sido dividida em dois reinos. Um ao norte, o de Israel, e um ao sul, o de Judá. E o de cima havia sido derrotado e conquistado pelo Império Assírio.

Josias não queria o mesmo destino. E parte de seus esforços para fortalecer a unidade interna de Judá e resistir aos invasores foi uma maior centralização da vida religiosa do reino. Para isso, ele começou a transformar Javé no único deus adorado por seus súditos. Por decreto: destruindo altares a outras divindades, como El, Baal... E Asherah. Esse foi o divórcio.

Também é possível que date do reinado de Josias o ataque final dos fiéis de Javé ao culto a Baal, muito criticado pelos profetas dessa época. Para a maior parte dos israelitas, não era problema adorar a Javé e a Baal ao mesmo tempo. É que outra especialidade do antigo deus cananeu era a agricultura - ele mandava chuva para regar as colheitas. Até então, embora Javé tivesse tomado conta das funções guerreiras de Baal, nada indicava que ele também pudesse bancar o regador de plantas. Mas os profetas israelitas passam, então, a afirmar que o mandachuva era ele.

Essa expulsão definitiva de Baal do panteão explica o episódio do bezerro de ouro durante a passagem dos israelitas pelo deserto. Para quem não se lembra: o povo de Deus, cansado de esperar que Moisés volte do monte Sinai, constrói uma estátua de ouro de um bezerro (emblema de Baal). Tanto Moisés quanto Javé ficam enfurecidos, e milhares de israelitas morrem como punição pela infidelidade do povo.

As ideias de Josias marcariam para sempre a visão que temos de Deus. E mais ainda depois que esse rei acabou morto. Na geração dos filhos do monarca reformista, o reino de Judá seria riscado do mapa e Jerusalém, a capital, acabaria conquistada pela Babilônia. Mas a adversidade do povo teve o efeito oposto em sua fé. No mundo mitológico, Javé se fortalecia como nunca. Com a nação agora indefesa militarmente, era a hora de reafirmar que o deus da nação, ao menos, era todo-poderoso. Nisso os profetas israelistas diziam que só Javé tinha existência, vida e poder; os outros deuses eram meras imagens de pedra, metal ou madeira. Era nada menos que a inauguração do monoteísmo: um momento tão importante na história da espiritualidade quanto a adoção do cristianismo como religião oficial do Império Romano seria bem mais tarde. E era esse Javé único que iria para a Bíblia. E se tornaria a imagem de Deus no mundo ocidental.

Um Deus, agora, não só dos israelitas. Mas da humanidade inteira. O Deus que criou o mundo, que fez o homem à sua imagem e semelhança. E que, de certa forma, era a imagem e semelhança do Javé pré-Bíblia: o Deus guerreiro, militar, que pune com rigidez os erros de seus adoradores. O Velho Testamento está recheado de castigos divinos: dos mais leves, como transformar o fiel Jó, um milionário, em um mendigo, como um teste para sua fé, até o dilúvio universal - praticamente um restart no mundo depois de ter concluído que a humanidade não tinha mais jeito. A justificativa para tal comportamento está na própria história de Israel. A ideia era acreditar que os maus bocados pelos quais a nação passou nas mãos de assírios e babilônios eram provações divinas, que, se o povo mantivesse sua fé, tudo acabaria bem.

Mas Deus surge na Bíblia como algo mais complexo que um mero feitor. Usando os paralelos deste texto, seria como se Ele tivesse amadurecido depois que Josias e os profetas o aclamam Deus único. Javé fica menos humano, menos falível. Passa a ser uma entidade transcendental de fato. Começa a afirmar aos seres humanos que "os meus caminhos não são os seus caminhos" - a ideia hoje familiar de que Deus escreve certo por linhas tortas.

Mas o caráter divino só se completaria mesmo no século 1. O primeiro século depois de seu filho, quando o Novo Testamento foi escrito. É a metamorfose mais radical do guerreiro Javé. Encarnado na figura de Jesus, Deus apresenta uma nova solução para a humanidade. Em vez de castigar ou destruir os homens mais uma vez, decide purgar os pecados dos mortais com outro sacrifício: o Dele próprio. Morre o corpo do Deus encarnado, não o espírito divino. Este, agora mais sereno, continuou zelando por nós. E assim será. Até o fim dos tempos. E acaba assim a nossa história, certo?

Claro que não. A saga de Javé é só um dos reflexos de uma epopeia maior: a da humanidade buscando um sentido para a existência. Nesse aspecto, continuamos tão perdidos quanto os antigos que não sabiam por que o trovão trovejava ou o que as estrelas faziam pregadas no céu. Ainda não sabemos por que estamos aqui. E a única certeza é que vamos continuar buscando respostas. Seja o que Deus quiser.


Único
Javé chega ao auge conhecendo cada detalhe do passado e do futuro. Sua figura lembra El. Mas agora Ele está só.

Fonte: http://super.abril.com.br/religiao/deus-biografia-610975.shtml

Bomba atômica quase explodiu na Carolina do Norte em 1961

O The Guardian afirmou que um documento deu a primeira evidência conclusiva de que os Estados Unidos chegaram perto de um desastre naquela década.



Hiroshima: segundo o jornal, a explosão teria sido 260 vezes mais poderosa do que aquela que devastou a cidade japonesa de Hiroshima

Uma bomba atômica norte-americana quase explodiu em 1961 sobre o Estado da Carolina do Norte, o que teria sido uma explosão 260 vezes mais poderosa do que aquela que devastou a cidade japonesa de Hiroshima, de acordo com um documento secreto publicado em um jornal britânico nesta sexta-feira.

O The Guardian afirmou que o documento, obtido pelo jornalista investigativo Eric Schlosser sob o Ato de Liberdade de Informação, deu a primeira evidência conclusiva de que os Estados Unidos chegaram perto de um desastre em janeiro de 1961.

O incidente aconteceu quando duas bombas de hidrogênio Mark 39 foram acidentalmente lançadas sobre Goldsboro, na Carolina do Norte, depois que um bombardeiro B-52 desintegrou em pleno ar.

Tem havido uma especulação persistente sobre a seriedade do incidente, e o governo dos Estados Unidos tem negado repetidamente que seu arsenal nuclear colocou a vida dos norte-americanos em risco devido a falhas de segurança, apontou o jornal.

Mas o documento recém publicado revelou que uma das duas bombas se comportou exatamente como uma arma nuclear em tempos de guerra, com a abertura do paraquedas e seus mecanismos de gatilho engatados. Apenas um interruptor de baixa tensão impediu uma tragédia.

Partículas radioativas poderiam ter se espalhado sobre Washington, Baltimore, Filadélfia e até mesmo Nova York, segundo o jornal, ameaçando a vida de milhões de pessoas.

No documento, Parker Jones, um engenheiro sênior no Laboratório Nacional Sandia, responsável ​​pela segurança mecânica de armas nucleares, concluiu que "um simples interruptor, de tecnologia de dínamo e de baixa voltagem, ficou entre os Estados Unidos e uma grande catástrofe."

O relatório de Jones, intitulado "Goldsboro Revisitado ou: Como eu Aprendi a Desconfiar da Bomba-H", foi escrito oito anos depois do acidente em que uma bomba de hidrogênio caiu em um terreno perto de Faro, na Carolina do Norte, e a outra no campo.

Ele descobriu que três dos quatro mecanismos de segurança destinados a evitar a detonação acidental não funcionaram adequadamente na bomba em Faro.

Quando a bomba caiu no chão, um sinal de disparo foi enviado para a central nuclear do dispositivo e foi apenas o interruptor final, altamente vulnerável, que evitou um desastre.

O Guardian afirmou que o documento foi encontrado por Schlosser, já que ele estava pesquisando para um novo livro sobre a corrida armamentista nuclear.