7.6.17

Pedro I do Brasil



Pedro I & IV (Queluz, 12 de outubro de 1798 – Queluz, 24 de setembro de 1834), apelidado de "o Libertador" e "o Rei Soldado",[nota 1] foi o primeiro Imperador do Brasil como Pedro I de 1822 até sua abdicação em 1831, e também Rei de Portugal e Algarves como Pedro IV entre março e maio de 1826. Era o quarto filho do rei João VI de Portugal e sua esposa a infanta Carlota Joaquina da Espanha, sendo assim um membro da Casa de Bragança. Pedro viveu seus primeiros anos de vida em Portugal até que tropas francesas invadiram o país em 1807, forçando a transferência da família real para a colônia do Brasil.

O estouro da Revolução Liberal do Porto em 1820 forçou a volta de João VI para Portugal em abril do ano seguinte, com Pedro ficando no Brasil como seu regente. Ele precisou lidar com ameaças de tropas portuguesas revolucionárias e insubordinadas, com todas no final sendo subjugadas. Desde a chegada da família real portuguesa em 1808, o Brasil tinha gozado de grande autonomia política, porém a ameaça do governo português de revogar essas liberdades criou grande descontentamento na colônia. Pedro ficou do lado dos brasileiros e declarou a Independência do Brasil em 7 de setembro de 1822. Foi aclamado como seu imperador no dia 12 de outubro e derrotou todas as forças fiéis a Portugal até março de 1824. Alguns meses depois, esmagou a Confederação do Equador, uma revolta separatista que havia tomado províncias do nordeste brasileiro.

Uma nova rebelião se iniciou na província Cisplatina no começo de 1825, com a subsequente tentativa por parte das Províncias Unidas do Rio da Prata de anexá-la levando o Brasil a entrar na Guerra da Cisplatina. Nesse meio tempo Pedro também se tornou o monarca de Portugal após a morte de seu pai, rapidamente abdicando do trono em favor de sua filha mais velha Maria II. A situação piorou em 1828 quando a guerra no sul fez o Brasil perder a Cisplatina, que tornou-se o país independente do Uruguai. No mesmo ano o trono de Maria foi usurpado pelo infante Miguel, irmão mais novo de Pedro. Seus casos sexuais extraconjugais criaram grandes escândalos e também mancharam sua reputação. Mais dificuldades sugiram no parlamento brasileiro, onde os debates políticos passaram a ser dominados a partir de 1826 com a discussão sobre se o governo deveria ser escolhido pelo imperador ou pela legislatura. Pedro foi incapaz de lidar com os problemas simultâneos do Brasil e Portugal, por fim abdicando do trono brasileiro em 7 de abril de 1831 em favor de seu filho mais novo Pedro II e partindo para a Europa.

Pedro invadiu Portugal em julho de 1832 no comando de um exército. Inicialmente seu envolvimento parecia ser em uma guerra civil portuguesa, porém logo o conflito ficou maior e englobou toda a península Ibérica em uma disputa entre defensores do liberalismo e aqueles que queriam a volta do absolutismo. Pedro acabou morrendo de tuberculose em 24 de setembro de 1834, poucos meses depois dele e os liberais terem se saído vitoriosos. Ele foi considerado por contemporâneos e pela posteridade como uma figura importante que auxiliou na propagação dos ideais liberais que haviam permitido que o Brasil e Portugal deixassem os regimes absolutistas para formas mais representativas de governo.



Início de vida
Nascimento

Pedro em 1800, por Agustín Esteve.

Pedro nasceu na manhã de 12 de outubro de 1798 no Palácio Real de Queluz, Portugal.[3] Ele foi nomeado em homenagem a São Pedro de Alcântara e seu nome completo era Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim.[4][5] Desde seu nascimento recebeu o prefixo honorífico de "Dom".[6]

Seu pai era o então D. João, Príncipe do Brasil, com Pedro sendo assim membro da Casa de Bragança. Seus avós eram a rainha D. Maria I e o rei D. Pedro III de Portugal, que eram sobrinha e tio além de marido e mulher.[7] Sua mãe era a infanta Carlota Joaquina, filha do rei Carlos IV da Espanha e sua esposa Maria Luísa de Parma.[8] Os pais de Pedro tiveram um casamento infeliz; Carlota Joaquina era uma mulher ambiciosa que sempre procurava defender os interesses espanhóis, mesmo em detrimento de Portugal. Havia relatos de que ela era infiel com o marido, chegando ao ponto de conspirar contra ele junto com nobres portugueses insatisfeitos.[9]

Pedro era o segundo filho menino mais velho de João e Carlota Joaquina, o quarto filho no geral, tornando-se o herdeiro aparente de seu pai com o título de Príncipe da Beira em 1801 após a morte de seu irmão mais velho D. Francisco Antônio.[10] João desde 1792 atuava como regente em nome de sua mãe Maria I, que havia sido declarada mentalmente insana e incapaz de governar.[11] Os pais de Pedro se afastaram em 1802; João foi viver no Palácio Nacional de Mafra enquanto Carlota Joaquina ficou no Palácio do Ramalhão. Pedro e seus irmãos D. Maria Teresa, D. Maria Isabel, D. Maria Francisca, D. Isabel Maria e D. Miguel foram viver no Palácio de Queluz junto com sua avó a rainha, longe dos pais que viam apenas durante ocasiões de estado.[12][13]
Educação

Pedro ca. 1809, por Francesco Bartolozzi.

No final de novembro de 1807, quando Pedro tinha apenas nove anos de idade, o exército francês do imperador Napoleão Bonaparte invadiu Portugal e toda a família real portuguesa fugiu de Lisboa. A corte atravessou o oceano Atlântico até chegar em março do ano seguinte à cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, a maior e mais rica colônia de Portugal.[14] Pedro leu Eneida de Virgílio durante a viagem e conversou com vários membros da tripulação de seu navio, aprendendo noções de navegação.[15] No Brasil, após uma breve estada no Paço Real, Pedro e seu irmão Miguel estabeleceram-se junto com seu pai no Paço de São Cristóvão.[16] Pedro amava o pai, apesar de nunca ter sido íntimo dele, ressentindo a constante humilhação que João sofria nas mãos de Carlota Joaquina por causa dos casos extraconjugais dela.[12][17] Como resultado, quando adulto Pedro abertamente chamava sua mãe de "vadia" e sentia por ela nada além de desprezo.[18] As experiências de traição, frieza e negligência que passou quando criança tiveram grande impacto na formação de sua personalidade e caráter quando adulto.[12]

Uma pequena quantidade de estabilidade durante sua infância vinha da presença de sua aia Maria Genoveva do Rêgo e Matos, quem amou como uma mãe, e seu aio e supervisor o frei Antônio de Arrábida, que tornou-se seu mentor.[19] Ambos ficaram encarregados do crescimento do príncipe e tentaram lhe dar uma educação adequada. Seus estudos englobavam uma grande gama de assuntos que incluíam matemática, economia política, lógica, história e geografia.[20] Pedro aprendeu a ler e escrever em português, além de latim e francês.[21] Também conseguia traduzir textos do inglês e entender alemão.[22] Mais tarde como imperador, Pedro dedicaria pelo menos duas horas de seu dia para ler e estudar.[22][23]

Apesar da abrangência da instrução de Pedro, sua educação mostrou-se deficiente. O historiador Otávio Tarquínio de Sousa afirmou que Pedro "era sem sombra de dúvida inteligente, astuto [e] perspicaz".[24] Entretanto, o historiador Roderick J. Barman escreveu que tinha uma natureza "muito efervescente, muito errática e muito emocional". Pedro permaneceu impulsivo, nunca aprendeu a exercer auto-controle, avaliar as consequências de suas decisões ou adaptar seu panorama para situações em mudança.[25] João jamais permitiu que alguém disciplinasse o filho. Este às vezes contornava sua rotina de duas horas de estudos diários ao dispensar seus instrutores para poder realizar atividades que considerava como mais interessantes.[20]
Primeiro casamento

Pedro ca. 1816, por Jean-Baptiste Debret.

Pedro encontrava prazer em atividades que necessitavam de habilidades físicas em vez de ficar na sala de aula. Ele treinou equitação na Fazenda Santa Cruz de seu pai, tornando-se um bom cavaleiro e um excelente ferrador.[26][27] Pedro e seu irmão Miguel gostavam de sair caçando a cavalo através de terrenos desconhecidos e florestas, às vezes até mesmo de noite e sob mau tempo.[26] O príncipe mostrava talento para desenho e artesanato, fazendo por conta própria mobílias e entalhando madeira.[28] Além disso, Pedro também gostava bastante de música, transformando-se em um hábil compositor sob a tutela de Marcos Portugal. Tinha uma boa voz para o canto e era proficiente em diversos instrumentos (incluindo piano, flauta e violão), conseguindo tocar canções e danças populares.[29] Pedro era um homem simples tanto em hábitos quanto ao lidar com outras pessoas. Exceto em ocasiões solenes quando era necessário usar vestuários elegantes, suas roupas diárias consistiam em calças brancas de algodão, uma jaqueta listrada também de algodão e um chapéu de palha com abas largas, ou ainda uma sobrecasaca e cartola para situações mais formais.[30] Ele frequentemente entrava em conversas com pessoas nas ruas querendo saber sobre seus problemas.[31]

A personalidade de Pedro era marcada por uma vontade enérgica que beirava a hiperatividade. Era impetuoso com uma tendência para ser dominador e temperamental. Se distraia ou ficava entediado facilmente, entretendo-se com namoricos em sua vida pessoal além de suas atividades equestres e de caça.[32] Seu espírito inquieto o fazia buscar aventuras e, certas vezes disfarçado de viajante, frequentava tavernas nos distritos de pior reputação do Rio de Janeiro.[33] Pedro raramente bebia álcool, porém era um mulherengo incorrigível.[34] Seu primeiro caso duradouro conhecido foi com uma dançarina francesa chamada Noémi Thierry, que teve uma criança natimorta dele. Seu pai, que em 1816 tornou-se rei João VI com a morte de Maria I, enviou Thierry para longe a fim que ela não ameaçasse o noivado de Pedro com a arquiduquesa Leopoldina da Áustria, filha do imperador Francisco I da Áustria e a princesa Maria Teresa da Sicília.[35]

Pedro e Leopoldina casaram-se por procuração no dia 13 de maio de 1817, com ela assumindo o nome de Maria Leopoldina.[36] Esta chegou ao Rio de Janeiro em 5 de novembro, imediatamente se apaixonando pelo marido, que era muito mais charmoso e atraente do que fora levada a esperar. Após "anos sob o sol tropical, sua pele ainda era clara, suas bochechas rosadas". Pedro, então com dezenove anos, era bonito e um pouco mais alto do que a média, possuindo olhos negros e um cabelo castanho escuro. "Sua boa aparência", segundo o historiador Neill Macaulay, "devia-se muito ao seu porte, orgulhoso e ereto mesmo em tenra idade, e sua preparação, que foi impecável. Habitualmente arrumado e limpo, ele havia pego o costume brasileiro de tomar banho frequentemente".[26] A missa nupcial ocorreu no dia seguinte, com a ratificação dos votos feitos anteriormente por procuração.[37] O casal teve sete filhos: D. Maria, D. Miguel, D. João Carlos, D. Januária, D. Paula, D. Francisca e D. Pedro.[38]
Independência do Brasil
Ver artigo principal: Independência do Brasil
Revolução Liberal do Porto
Ver artigo principal: Revolução liberal do Porto

Pedro faz um juramento de lealdade à constituição portuguesa em nome de seu pai no dia 26 de fevereiro de 1821. Ele pode ser visto na varanda do Paço Imperial levantando seu chapéu.

Chegaram no Brasil em 17 de outubro de 1820 notícias de que guarnições militares em Portugal haviam se amotinado, levando a que posteriormente ficaria conhecida como a Revolução Liberal do Porto de 1820. Os militares formaram um governo provisório e suplantaram a regência que João havia nomeado, convocando as Cortes, o parlamento centenário português, desta vez democraticamente eleito e com o objetivo de criar uma constituição nacional.[39] Pedro ficou surpreso quando seu pai não apenas lhe pediu conselhos, mas também decidiu enviá-lo de volta para Portugal para governar como regente em seu nome e tentar aplacar os revolucionários.[40] O príncipe nunca havia sido educado para governar e anteriormente jamais recebeu permissão para participar dos assuntos de estado. O papel que seria seu direito de nascimento era na verdade exercido por sua irmã mais velha Maria Teresa; João confiava nela para conselhos e inclusive lhe fez uma membro do Conselho de Estado.[41]

Pedro era visto com suspeitas por João e pelos conselheiros mais próximos do rei, todos os quais apegavam-se aos princípios de uma monarquia absolutista. Em contraste, o príncipe era bem conhecido como um grande defensor dos ideais do liberalismo e de uma monarquia constitucional representativa. Ele havia lido os trabalhos de Voltaire, Benjamin Constant, Gaetano Filangieri e Edmund Burke.[42] Até mesmo sua esposa Maria Leopoldina comentou que "Meu esposo, Deus nos ajude, ama as novas ideias".[43][44] João adiou o máximo possível a partida de Pedro, temendo que o filho fosse aclamado rei pelos revolucionários assim que chegasse em Portugal.[40]

Tropas portuguesas no Rio de Janeiro se amotinaram em 26 de fevereiro de 1821. João e seu governo não realizaram quaisquer ações contra as unidades revoltosas. Pedro decidiu agir por conta própria e foi se encontrar com os rebeldes, negociando com eles e convencendo seu pai a aceitar as demandas, que incluíam a nomeação de um novo gabinete e a realização de um juramento de obediência para a futura constituição portuguesa.[45] Os eleitores da paróquia do Rio de Janeiro encontraram-se em 21 de abril para eleger seus representantes nas Cortes. Um pequeno grupo de agitadores invadiu o encontro e formaram um governo revolucionário. João e seus ministros novamente permaneceram passivos, com o rei estando prestes a aceitar as exigências dos revolucionários quando Pedro tomou iniciativa e enviou tropas do exército para restabelecer a ordem.[46] João e sua família finalmente cederam sob a pressão das Cortes e partiram de volta para Portugal em 26 de abril, deixando Pedro e Maria Leopoldina no Brasil.[47]Dois dias antes, o rei avisou o filho: "Pedro, se o Brasil for se separar de Portugal, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para algum desses aventureiros".[48]
"Independência ou morte"

Pedro em agosto de 1822, por Simplício Rodrigues de Sá.

Pedro foi nomeado como regente do Brasil, desde o início promulgando decretos que garantiam os direitos pessoais e de propriedade. Ele também reduziu impostos e gastos governamentais.[44][49] Até mesmo os revolucionários presos no incidente de abril acabaram sendo libertados.[50] Tropas portuguesas sob o comando do tenente-general Jorge de Avilez Zuzarte de Sousa Tavares amotinaram-se em 5 de junho de 1821, exigindo que Pedro fizesse um juramento para manter a constituição portuguesa após ela ser colocada em efeito. O príncipe foi intervir sozinho com os rebeldes. O regente negociou calma e engenhosamente, ganhando o respeito das tropas e sendo bem sucedido em reduzir o impacto das exigências mais inaceitáveis.[51][52] O motim era um golpe de estado militar mal disfarçado que tentava transformar Pedro em uma mera figura decorativa e transferir o poder para Avilez.[53] O príncipe acabou aceitando um resultado desfavorável, porém também avisou que seria a última vez que cederia sob pressão.[52][54]

A crise alcançou um ponto sem volta quando as Cortes dissolveram o governo central no Rio de Janeiro e ordenaram o retorno de Pedro.[55] Os brasileiros viram essa ação como uma tentativa de novamente subordinar seu país ao domínio português, já que o Brasil fora elevado a reino em 1815.[56] O príncipe recebeu uma petição em 9 de janeiro de 1822 contendo oito mil assinaturas que imploravam para que não partisse.[57] Pedro respondeu afirmando que "Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto. Digam ao povo que fico!"; este evento ficou conhecido como o Dia do Fico.[58] Avilez se amotinou novamente para tentar forçar o retorno do regente para Portugal. Desta vez o príncipe contra-atacou, reunindo as tropas brasileiras (que não haviam juntado-se aos portugueses nos motins anteriores),[59] unidades milicianas e civis armados.[60] Avilez ficou em inferioridade numérica e foi expulso do Brasil junto com suas tropas.[61]

Pedro tentou manter pelos meses seguintes alguma aparência de unidade com Portugal, porém a ruptura final era iminente. Procurou apoio fora do Rio de Janeiro com o auxílio de seu ministro José Bonifácio de Andrada e Silva. O príncipe viajou para a província de Minas Gerais em abril e depois para São Paulo em agosto. Foi bem recebido nas duas províncias e as visitas reforçaram sua autoridade.[62] Enquanto voltava de São Paulo, Pedro recebeu no dia 7 de setembro as notícias de que as Cortes não aceitariam a autorregulamentação no Brasil e puniriam todos que desobedecessem suas ordens.[63] "Nunca alguém que evitava a ação mais dramática sobre o impulso imediato", como escreveu Berman sobre o príncipe, ele "não precisou de mais tempo para decisão além do que ler as cartas exigiam".[64] Pedro montou sua égua e disse para os presentes: "Amigos, as Cortes Portuguesas querem escravizar-nos e perseguir-nos. A partir de hoje as nossas relações estão quebradas. Nenhum vínculo unir-nos mais [...] Para o meu sangue, minha honra, meu Deus, eu juro dar ao Brasil a liberdade. Brasileiros, que nossa palavra de ordem seja a partir de hoje 'Independência ou morte!'".[65]
Imperador constitucional
Veja também: Primeira Assembleia Nacional Constituinte do Brasil, Constituição da mandioca, Constituição brasileira de 1824 e Confederação do Equador

Pedro em 1823, por Jean-Baptiste Debret.

O príncipe foi aclamado em 12 de outubro como Imperador D. Pedro I, o dia de seu aniversário de 24 anos e também a data oficial da fundação do Império do Brasil. Ele foi coroado em 1 de dezembro. Sua ascensão não se estendeu imediatamente por todos os territórios brasileiros e Pedro teve que forçar a submissão de várias províncias nas regiões sudoeste, nordeste e norte, com as últimas unidades ainda leais a Portugal se rendendo apenas no começo de 1824.[66] Enquanto isso a relação de Pedro e José Bonifácio se deteriorou.[67] A situação chegou ao ápice quando o imperador dispensou o ministro sob os motivos de conduta inapropriada. José Bonifácio tinha usado sua posição para assediar, perseguir, prender e até mesmo exilar seus inimigos políticos.[68] Por meses os inimigos do ministro tinham trabalhado para ganhar o favor do imperador. Esses haviam conferido a Pedro em 13 de maio de 1822 enquanto ainda era regente o título de "Defensor Perpétuo do Brasil",[69] também lhe introduzindo à Maçonaria em 2 de agosto e posteriormente o fazendo grão-mestre em 7 de outubro no lugar do próprio José Bonifácio.[70]

A crise entre monarca e seu antigo ministro afetou imediatamente a Assembleia Geral Nacional Constituinte, que havia sido eleita com o objetivo de criar uma constituição para o país recém criado.[71] José Bonifácio, como membro da assembleia constituinte, havia recorrido a demagogia e alegou a existência de uma grande conspiração portuguesa contra os interesses brasileiros; ele chegou até mesmo a insinuar que Pedro, nascido português, também estava implicado.[72] O imperador ficou ultrajado pela invetiva direcionada aos leais cidadãos que eram de nascimento português, além das insinuações que o próprio estava conflituoso sobre sua lealdade ao Brasil.[73]Pedro ordenou em 12 de novembro de 1823 a dissolução da assembleia constituinte e convocou novas eleições.[74] No dia seguinte encarregou o recém estabelecido Conselho de Estado de elaborar um rascunho constitucional. As cópias do documento resultante foram enviadas para todos os concelhos municipais, com a enorme maioria votando a favor de sua adoção instantânea como a Constituição do Império.[75]

A constituição foi outorgada por Pedro em 25 de março de 1824, criando um Estado altamente centralizado. Como resultado, elementos rebeldes da província de Pernambuco tentaram se separar do Brasil e uniram-se aos insurgentes das províncias da Paraíba e do Ceará no que ficou conhecida como a Confederação do Equador.[76][77] O imperador tentou sem sucesso impedir o derramamento de sangue ao oferecer-se para aplacar os revoltosos.[76][78] Ele furioso falou que "O que estavam a exigir os insultos de Pernambuco? Certamente um castigo, e um castigo tal que se sirva de exemplo para o futuro".[76] Pedro pediu empréstimos ao Reino Unido para contratar mercenários e as tropas seguiram para o Recife sob o comando de Thomas Cochrane. Os rebeldes, que nunca conseguiram assegurar seu controle das províncias, foram subjugados, e as rebeliões já tinha acabado por volta do final de 1824.[77][79] Dezesseis revoltosos foram julgados e executados, enquanto os outros foram perdoados pelo imperador.[80][79][81]Além disso, Pedro ordenou que Pernambuco perdesse parte de seu território, que inicialmente foi cedido para Minas Gerais e depois para a Bahia.[82]
Crises
Sucessão portuguesa

Pedro em março de 1826, por Antônio Joaquim Franco Velasco.

Portugal acabou assinando um tratado com o Brasil em 29 de agosto de 1825 após longas negociações, por fim reconhecendo a independência do segundo.[83] Exceto pelo reconhecimento da independência, as provisões do tratado foram às custas do Brasil, incluindo a exigência do pagamento de reparações financeiras a Portugal, com nenhum outro requerimento ficando por parte da antiga metrópole. A compensação deveria ser paga a todos os cidadãos portugueses residentes no Brasil pelas perdas que tinham passado, como por exemplo propriedades que foram confiscadas. João também recebeu o direito de se intitular Imperador do Brasil.[84] Mais humilhante foi que o tratado implicava que a independência havia sido concedida como um ato beneficente do rei português, ao invés de ter sido compelida pelos brasileiros através da força bruta.[85] Pior ainda, o Reino Unido foi recompensado por seu papel no avanço das negociações ao assinar um tratado separado em que seus favoráveis direitos comerciais foram renovados, além da assinatura de uma convenção em que o Brasil concordava em abolir o comércio de escravos com a África dentro de quatro anos. Ambos os acordos prejudicaram seriamente os interesses comerciais brasileiros.[86]

Pedro recebeu alguns meses depois a notícia de que seu pai havia morrido em 10 de março de 1826, e que sendo assim havia sucedido João no trono de Portugal como Rei D. Pedro IV.[87] O imperador rapidamente abdicou da coroa portuguesa em 2 de maio por saber que uma união pessoal entre o Brasil e Portugal seria inaceitável para os povos de ambas as nações, passando o trono para sua filha mais velha que se tornou a Rainha D. Maria II.[88][89][nota 2] Sua abdicação foi condicional: Portugal deveria aceitar uma constituição elaborada por ele e Maria casaria-se com seu irmão Miguel.[87] Pedro continuou a agir como rei ausente mesmo com a abdicação e intercedeu em assuntos diplomáticos e internos, como a realização de nomeações. Para o monarca foi no mínimo difícil manter separadas sua posição de imperador brasileiro e suas obrigações de proteger os interesses de sua filha em Portugal.[93]

Miguel fingiu aceitar os planos do irmão. O infante anulou a constituição com o apoio de Carlota Joaquina logo que foi nomeado regente da sobrinha no início de 1828, sendo aclamado como rei com o suporte dos portugueses que eram a favor do absolutismo.[94] Além da dolorosa traição de seu amado irmão, Pedro também teve que suportar a deserção de suas irmãs Maria Teresa, Maria Francisca, Isabel Maria e Maria da Assunção todas para a facção de Miguel.[95] Apenas sua irmã caçula Ana de Jesus permaneceu fiel, posteriormente viajando para o Rio de Janeiro a fim de ficar perto de Pedro.[96] O imperador ficou consumido pelo ódio e começou a acreditar nos rumores que Miguel havia matado João, virando seu foco para Portugal e tentando em vão conseguir apoio internacional pelos direitos de Maria.[97]
Guerra e viuvez

Celebrações na Praça São Francisco de Paula no Rio de Janeiro pela volta de Pedro da Bahia, 4 de abril de 1826.

Um pequeno grupo de rebeldes com o apoio das Províncias Unidas do Rio da Prata declarou em abril de 1825 a independência da Cisplatina, então a província mais ao sul do Brasil.[98] O governo brasileiro inicialmente viu a tentativa de secessão como um levante menor. Demorou meses até uma ameaça maior surgir do envolvimento das Províncias Unidas, que esperava anexar a Cisplatina, causando assim preocupações sérias. O Brasil em retaliação declarou guerra em dezembro, iniciando a Guerra da Cisplatina.[99]Pedro viajou em fevereiro de 1826 para a província da Bahia no nordeste do país, levando consigo sua esposa e sua filha Maria. O imperador foi bem recebido pelos habitantes locais.[100] A viagem tinha a intenção de gerar apoio para o esforço de guerra.[101]

O séquito imperial incluía Domitila de Castro, Viscondessa de Santos (posterior Marquesa de Santos), que desde o primeiro encontro dos dois em 1822 havia sido a amante do imperador. Apesar de nunca ter sido fiel a Maria Leopoldina, Pedro anteriormente tinha tomado o cuidado de esconder suas escapadas sexuais com outras mulheres.[102] Porém, sua atração por sua nova amante "tinha se tornando flagrante e sem limites", enquanto sua esposa precisava aguentar desfeitas e ser o assunto de fofocas.[103] O imperador cada vez mais passou a ser rude e vil com Maria Leopoldina, deixando-a com pouco dinheiro, proibindo-a de deixar o palácio e forçando-a a aturar a presença de Domitila como sua dama de companhia.[104] Enquanto isso, a amante aproveitou a oportunidade para avançar seus interesses e também os de sua família e amigos. Aqueles que desejavam favores ou a promoção de projetos cada vez mais ignoravam os canais legais e normais, ao invés disso procurando Domitila por ajuda.[105]

Pedro partiu em 24 de novembro de 1826 do Rio de Janeiro para a cidade de São José na província de Santa Catarina. De lá foi para Porto Alegre, capital da província de São Pedro do Rio Grande do Sul, onde o exército principal estava esperando.[106] O imperador chegou em 7 de dezembro e descobriu que as condições militares eram muito piores do que os relatórios anteriores haviam lhe feito esperar. Ele "agiu com sua energia costumeira: passou uma afobação de ordens, demitiu supostos enxertadores e incompetentes, fraternizou com as tropas e de forma geral sacudiu a administração militar e civil".[107] Pedro já estava voltando para o Rio de Janeiro quando soube que Maria Leopoldina tinha morrido após um aborto.[108] Rumores sem fundamento logo se espalharam dizendo que a imperatriz havia sido fisicamente maltratada pelo marido.[nota 3]Enquanto isso a guerra continuou sem conclusão e Pedro acabou cedendo a Cisplatina em agosto de 1828, com a província tornando-se o país independente do Uruguai.[116]
Segundo casamento

O casamento de Pedro e Amélia. Ao lado do imperador estão seus filhos do primeiro casamento: Pedro, Januária, Paula e Francisca.

Pedro percebeu depois da morte da esposa como a havia tratado miseravelmente, com sua relação com Domitila começando a ruir. Diferentemente da amante, Maria Leopoldina era popular, honesta e amava o marido sem esperar nada em troca. O imperador passou a sentir muitas saudades dela, nem mesmo sua obsessão por Domitila conseguindo fazê-lo superar seu sentimento de perda e arrependimento.[117] Um dia a amante o encontrou chorando no chão abraçado a um retrato de Maria Leopoldina, cujo fantasma infeliz Pedro afirmou ter visto.[118] Posteriormente o imperador deixou a cama que estava com Domitila e gritou: "Larga-me! Sei que levo vida indigna de um soberano. O pensamento da Imperatriz não me deixa".[119] Ele não esqueceu de seus filhos, que ficaram órfãos de mãe, sendo observado em mais de uma ocasião segurando seu filho Pedro em seus braços e dizendo: "Pobre menino, és o príncipe mais infeliz do mundo".[120]

Domitila acabou deixando o Rio de Janeiro em 27 de junho de 1828 após insistências do imperador.[121] Pedro havia decidido casar-se novamente e tornar-se uma pessoa melhor. Ele tentou convencer seu sogro Francisco I de sua sinceridade, afirmando em uma carta "que toda minha perversidade acabou, que não hei de novamente cair nos erros em que já caí, que arrependo-me e pedi a Deus por perdão".[122] Francisco não se convenceu, tendo ficado profundamente ofendido pela conduta que sua filha tinha passado, retirando seu apoio às preocupações brasileiras e frustrando os interesses portugueses de Pedro.[115] Princesas de várias nações recusaram propostas de casamento uma depois da outra devido a má reputação do imperador pela Europa.[94] Seu orgulho ficou muito ferido e ele acabou permitindo a volta de Domitila, que chegou na capital em 29 de abril de 1829 após quase um ano longe.[122][123]

Entretanto, Pedro encerrou definitivamente sua relação com Domitila ao saber que um noivado tinha finalmente sido arranjado. Ela voltou em 27 de agosto a viver em sua província natal de São Paulo, onde permaneceu pelo resto da vida.[124] Dias antes em 2 de agosto, Pedro havia se casado por procuração com a princesa Amélia de Leuchtenberg, filha Eugênio de Beauharnais, Duque de Leuchtenberg, e da princesa Augusta da Baviera.[125] O imperador ficou impressionado por sua beleza ao conhecê-la pessoalmente.[126] Os votos realizados por procuração foram ratificados em 17 de outubro em uma missa nupcial.[127] Amélia era bondosa e amorosa com os filhos dele e providenciou um necessitado sentimento de normalidade tanto para a família imperial quanto para o público em geral.[128] A promessa de Pedro feita após o banimento de Domitila para alterar seu comportamento acabou mostrando-se sincera. Ele nunca mais teve quaisquer casos e manteve-se fiel à nova esposa.[129] Pedro também fez as pazes com José Bonifácio, seu antigo ministro e mentor, em uma tentativa de mitigar e superar seus desentendimentos do passado.[130]
Entre Brasil e Portugal
Crises sem fim

Pedro em 1830 por Henri Grevedon.

Desde os dias da assembleia constituinte de 1823 e depois com vigor renovado a partir de 1826 com a abertura do parlamento brasileiro, houve uma disputa ideológica sobre o equilíbrio dos poderes mantidos pelo imperador e pela legislatura no governo. De um lado estavam aqueles que compartilhavam as visões de Pedro, políticos que acreditavam que o monarca deveria ser livre para escolher os ministros, políticas nacionais e a direção governamental. Em oposição estavam aqueles, então conhecidos como o Partido Liberal, que defendiam que os gabinetes deveriam manter o poder para estabelecer o curso de governo e que seriam formados por deputados tirados do partido da maioria respondendo ao parlamento por suas ações.[131] Estritamente falando, ambos os lados defendiam o liberalismo e dessa forma uma monarquia constitucional.[132]

Pedro respeitava a constituição apesar de suas falhas como governante: ele nunca interferiu nas eleições ou participou de fraudes eleitorais, recusou-se a assinar atos ratificados pelo governo ou impor restrições na liberdade de expressão.[133] O imperador também nunca dissolveu a Câmara dos Deputados ou convocou novas eleições quando esta discordava de seus objetivos ou adiava suas sessões, mesmo isso estando dentro de suas prerrogativas.[134] Jornais e panfletos liberais usaram o nascimento português de Pedro no apoio a acusações válidas (como por exemplo que boa parte de sua energia era dedicada a assuntos relacionados a Portugal)[135]e também falsas (que ele estava envolvido em conspirações para suprimir a constituição e reunificar o Brasil e Portugal).[136] Os amigos portugueses do imperador que faziam parte da corte, incluindo Francisco Gomes da Silva que foi apelidado de "Chalaça", eram para os Liberais parte desses complôs e formavam um "gabinete secreto".[137] Nenhuma dessas figuras mostrava interesse em tais questões e, seja quais foram os interesses que podem ter compartilhado, não havia nenhuma conspiração para anular a constituição ou levar o Brasil de volta ao controle português.[138]

Outra fonte de críticas por parte dos Liberais eram as visões abolicionistas de Pedro.[139] O imperador tinha concebido um processo gradual para eliminar a escravidão no país. Entretanto, o poder constitucional para promulgar legislações estava nas mãos do parlamento, que era dominado por donos de terras escravagistas e que assim poderiam frustrar quaisquer tentativas de abolição.[140] Pedro optou por tentar a persuasão através do exemplo moral, estabelecendo sua Fazenda Santa Cruz como um modelo ao conceder terras aos seus escravos libertos.[141] O monarca também tinha outras ideias avançadas. Quando declarou sua intenção de permanecer no Brasil no Dia do Fico, a população tentou lhe conceder a honra de desatrelar os cavalos e eles mesmos puxarem sua carruagem, porém o então príncipe recusou. Sua resposta foi ao mesmo tempo uma condenação do direito divino dos reis, da suposta superioridade de sangue da nobreza e do racismo: "Ofende-me ver os meus semelhantes dando ao homem tributos apropriados à divindade. Eu sei que o meu sangue é da mesma cor que o dos negros".[142]
Abdicação
Ver artigo principal: Abdicação de Pedro I do Brasil

Carta de abdicação de Pedro.

Os esforços do imperador para apaziguar os Liberais resultaram em mudanças importantes. Pedro apoiou um 1827 uma lei estabelecendo responsabilidade ministerial.[143] Um gabinete nomeado em 19 de março de 1831 era formado por políticos da oposição, permitindo que o parlamento tivesse um papel maior no governo.[144] Por fim, ofereceu posições na Europa para Francisco Gomes e outro amigo português a fim de acabar com os rumores de um "gabinete secreto".[128][145] Para seu desalento, as medidas paliativas não pararam os contínuos ataques dos Liberais sobre seu governo e nascimento estrangeiro. Pedro ficou indisposto a lidar com a deteriorante situação política por estar frustrado com a intransigência.[128]

Enquanto isso, exilados portugueses fizeram campanha para que ele abrisse mão do Brasil e dedicasse suas energias à luta pela coroa da filha.[146] De acordo com Barman, "[em] uma emergência as habilidades do Imperador resplandeciam – ficava com nervos calmos, engenhoso e firme na ação. A vida como monarca constitucional, cheia de tédio, cuidado e conciliação, ia de encontro à essência de sua personalidade".[147] Por outro lado, o historiador salientou que Pedro "encontrava no caso de sua filha tudo que mais apelava a sua personalidade. Ao ir para Portugal ele poderia defender os oprimidos, mostrar seu cavalheirismo e abnegação, manter o governo constitucional e gozar da liberdade de ação que desejava".[146]

A ideia de abdicar do trono brasileiro e voltar para Portugal começou a tomar sua mente e, a partir de 1829, Pedro falava a respeito frequentemente.[148] Uma oportunidade logo apareceu para agir sobre esse noção: radicais dentro do Partido Liberal reuniram gangues de rua para assediar a comunidade portuguesa vivendo no Rio de Janeiro. Em 11 de março de 1831, naquilo que ficou conhecido como a Noite das Garrafadas, os portugueses retaliaram e o tumulto tomou as ruas da capital nacional.[149] Pedro dispensou o gabinete Liberal em 5 de abril, que estava no poder apenas desde 19 de março, por motivos de incompetência ao restaurar a ordem.[144][150] Uma grande multidão incitada pelos radicais se reuniram no centro do Rio de Janeiro na tarde do dia 6 de abril, exigindo a imediata restauração do antigo gabinete.[151] Pedro respondeu afirmando que "Tudo farei para o povo; nada, porém, pelo povo".[152] Tropas do exército, incluindo sua guarda pessoal, desertaram após o anoitecer e se juntaram aos protestos. Foi apenas nesse momento que Pedro percebeu o quanto tinha ficado isolado e separado dos assuntos brasileiros, surpreendendo todos ao abdicar do trono à aproximadamente 3h00min da madrugada de 7 de abril.[153] Ele entregou o documento da abdicação a um mensageiro e afirmou: "Aqui está a minha abdicação; desejo que sejam felizes! Retiro-me para a Europa e deixo um país que amei e que ainda amo".[154]
Retorno à Europa
Guerra civil
Ver artigo principal: Guerra Civil Portuguesa

Pedro ca. 1834, autor desconhecido.

Pedro, Amélia e outros embarcaram na fragata britânica HMS Warspite na manhã do dia 7 de abril. A embarcação permaneceu ancorada no Rio de Janeiro e o antigo imperador foi transferido para o HMS Volage em 13 de abril, partindo no mesmo dia para a Europa.[155] Ele chegou em Cherbourg-Octeville, França, em 10 de junho.[156][157] Pelos meses seguintes ficou indo e voltando entre a França e Reino Unido. Pedro foi bem recebido, porém não recebeu nenhum apoio de ambos os governos.[158] Encontrando-se em uma situação embaraçosa por não ter nenhuma posição oficial tanto na casa imperial brasileira quanto na casa real portuguesa, ele assumiu em 15 de junho o título de Duque de Bragança, que anteriormente já tinha mantido como herdeiro de Portugal. Apesar de que título deveria pertencer ao herdeiro de Maria, algo que Pedro certamente não era, sua reivindicação foi reconhecida de forma geral.[159][160] Sua única filha com Amélia, a princesa D. Maria Amélia, nasceu em 1 de dezembro em Paris.[161]

Pedro não esqueceu de seus outros filhos e escreveu cartas comoventes para cada um deles, expressando o quanto sentia saudades e pedindo repetidas vezes para que levassem a sério suas educações. Ele disse a seu filho e sucessor pouco depois de sua abdicação: "Tenho a intenção que eu e o mano Miguel havemos de ser os últimos malcriados da família Bragança".[162] Charles John Napier, um comandante naval britânico que lutou com Pedro na década de 1830, comentou que "suas boas qualidades eram próprias; as ruins devido à falta de educação; e nenhum homem era mais sensível a isso do que o próprio".[163] Suas cartas para Pedro II frequentemente continham linguajar muito além do nível de leitura do menino, com historiadores presumindo que tais passagens tinham a intenção de servirem como conselhos que o jovem monarca eventualmente pudesse consultar ao alcançar a idade adulta.[156]

Em Paris, Pedro acabou conhecendo e ficando amigo de Gilbert du Motier, Marquês de La Fayette, um veterano da Guerra da Independência dos Estados Unidos e da Revolução Francesa que se tornou um de seus maiores apoiadores.[160][164] O duque despediu-se em 25 de janeiro de 1832 de sua família, La Fayette e mais de duzentas pessoas que haviam ido lhe desejar boa sorte. Ele ajoelhou-se diante de Maria e disse: "Minha senhora, aqui estás um general português que irá manter os seus direitos e restaurar sua coroa". Sua filha o abraçou em seguida em lágrimas.[165] Pedro partiu para o arquipélago atlântico dos Açores, o único território português que permanecera leal a Maria. Ele passou alguns meses realizando preparações finais e por fim partiu para Portugal continental, entrando na cidade do Porto sem oposição no dia 9 de julho.[166] Pedro estava na liderança de uma pequena força portuguesa composta por liberais como Almeida Garrett e Alexandre Herculano, além de mercenários estrangeiros e voluntários como o neto de La Fayette, Adrien Jules de Lasteyrie.[167]
Morte

Pedro em seu leito de morte em 1834, por José Joaquim Rodrigues Primavera.

O exército de Pedro estava em grande inferioridade numérica e foi cercado pelos liberais no Porto por mais de um ano. Foi nesta situação que no começo de 1833 que recebeu as notícias de que sua filha Paula estava para morrer. Meses depois em setembro Pedro se encontrou com Antônio Carlos de Andrada, um dos irmãos de José Bonifácio. Como um representante do chamado Partido Restaurador, Antônio Carlos pediu para o duque retornar ao Brasil e governar seu antigo império como regente durante a minoridade do filho. Pedro percebeu que os Restauracionistas queriam usá-lo como uma ferramenta a fim de facilitar sua chegada ao poder, frustrando Antônio Carlos ao fazer as exigências mais impossíveis para ver se o povo brasileiro também queria sua volta, não apenas uma facção política. Ele também insistiu que quaisquer pedidos de retorno como regente fossem constitucionalmente válidos. A vontade do povo teria de ser transmitida através de seus representantes locais e sua nomeação precisaria ser aprovada pelo parlamento. Apenas assim, e "sob a apresentação de uma petição a ele em Portugal por uma delegação oficial do parlamento brasileiro", Pedro consideraria aceitar o pedido.[168]

Durante a guerra contra Miguel, Pedro montou canhões, cavou trincheiras, cuidou de feridos, comeu dentre os soldados mais baixos e lutou sob fogo pesado enquanto homens ao seu lado eram alvejados ou explodidos.[169] Sua causa estava quase perdida até ele tomar a arriscada atitude de dividir suas forças e enviar uma parte para lançar um ataque anfíbio no sul de Portugal. A região de Algarve caiu diante da expedição, que então marchou direto para Lisboa e capturou a capital em 24 de julho.[170] Pedro então seguiu para subjugar o restante do país, porém bem quando o conflito parecia estar direcionando-se para sua conclusão, interveio seu tio espanhol o infante Carlos, Conde de Molina e que estava tentando tomar a coroa de sua sobrinha a rainha Isabel II. Essa guerra maior englobou toda a península Ibérica e o duque aliou-se com os exércitos espanhóis liberais leais à rainha, derrotando tanto Miguel quanto Carlos. Um tratado de paz foi assinado em 26 de maio de 1834.[171]

Pedro sempre gozou de saúde forte durante toda sua vida, exceto por surtos de epilepsia a cada alguns anos.[28][172] Porém a guerra minou sua constituição e por volta de 1834 ele estava sofrendo de tuberculose.[173] Em 10 de setembro Pedro ficou de cama no Palácio Real de Queluz[174] e ditou uma carta aberta aos brasileiros em que implorava a adoção da gradual abolição da escravidão: "Escravidão é um mal, e um ataque contra os direitos e dignidade da espécie humana, porém suas consequências são menos prejudiciais para aqueles que sofrem no cativeiro do que para a Nação cujas leis permitem a escravidão. Ela é um câncer que devora a moralidade".[175] Pedro morreu às 14h30min do dia 24 de setembro de 1834 após uma longa e dolorosa doença.[176] Conforme seu pedido, seu coração foi colocado na Igreja da Lapa no Porto, enquanto seu corpo foi inicialmente enterrado no Panteão da Dinastia de Bragança na Igreja de São Vicente de Fora, Lisboa.[177][178] As notícias de sua morte chegaram no Rio de Janeiro em 20 de novembro, porém seus filhos foram informados apenas em 2 de dezembro.[179] José Bonifácio, que havia sido removido de sua posição de guardião, escreveu a Pedro II e suas irmãs: "Dom Pedro não morreu. Apenas homens ordinários morrem, heróis não".[180][181]
Legado

Monumento à Independência do Brasil, onde Pedro e suas duas esposas estão enterrados.

O então poderoso Partido Restaurador desapareceu instantaneamente com a morte de Pedro.[182] Um julgamento justo do antigo monarca tornou-se possível assim que a ameaça de seu retorno ao poder sumiu. Evaristo da Veiga, um de seus piores críticos e também um dos líderes do Partido Liberal, deixou uma declaração que, de acordo com o historiador Otávio Tarquínio de Sousa, acabou ficando como a visão prevalecente:[178] "o antigo imperador do Brasil não era um príncipe ordinário [...] e a Providência lhe fez um poderoso instrumento da libertação, tanto no Brasil e em Portugal. Se nós [brasileiros] existimos como um corpo em uma Nação livre, se nossa terra não foi rasgada em pequenas repúblicas inimigas, onde apenas anarquia e espírito militar prevalecem, nós devemos muito à resolução que ele tomou em ficar entre nós, em realizar o primeiro grito por nossa independência. [...] Portugal, se fez-se livre da mais escura e degradante tirania [...] se goza dos benefícios trazidos por um governo representativo aos povos educados, ela deve a D. Pedro de Alcântara, cujas fatigas, sofrimentos e sacrifícios pela causa portuguesa lhe deram em alto grau o tributo da gratitude nacional".[183]

John Armitage, que viveu no Brasil durante a segunda metade do reinado de Pedro, comentou que "até mesmo os erros do Monarca foram atendidos com grande benefício através de sua influência nos assuntos da pátria mãe. Caso tivesse governado com mais sabedoria, teria sido bem para a terra de sua adoção, porém, talvez, infeliz para a humanidade". Armitage complementou que assim como "o falecido Imperador dos Franceses, [Pedro] também foi uma criança do destino, ou ainda, um instrumento nas mãos da beneficente Providência para o adiantamento de fins grandes e inescrutáveis. Tanto no velho quanto no novo mundo ele doravante estava predestinado a tornar-se um instrumento de mais revoluções, e antes do fim da sua carreira brilhante, mas efémera, na terra de seus pais, para reparar amplamente pelos erros e loucuras de sua vida anterior, por sua devoção cavalheiresca e heroica na causa da liberdade civil e religiosa".[184]

Em 1972, aniversário de 150 anos da independência, o corpo de Pedro foi levado para o Brasil – conforme havia pedido em seu testamento – acompanhado de grande pompa e honras dignas de um chefe de estado. Seus restos foram reenterrados no Monumento à Independência do Brasil na cidade de São Paulo, junto com os de Maria Leopoldina e Amélia.[177][185] Os três corpos foram brevemente exumados em 2012 para que examinações e pesquisas arqueológicas e científicas fossem realizadas a fim de descobrir-se mais a respeito do imperador e as duas imperatrizes.[186] O historiador Neill Macaulay afirmou que "críticas a Dom Pedro eram livremente expressadas e muitas vezes veementes; isso o fez abdicar de dois tronos. Sua tolerância às críticas públicas e disposição a abrir mão do poder separaram Dom Pedro de seus predecessores absolutistas e dos governantes dos estados coercivos de hoje, cujos mandatos vitalícios são tão seguros quanto dos reis de antigamente". Macaulay também afirmou que "líderes liberais bem sucedidos como Dom Pedro são homenageados ocasionalmente com um monumento de pedra ou bronze, porém seus retratos, de quatro andares de altura, não moldam prédios públicos; suas imagens não são levadas em passeatas de centenas de milhares de manifestantes uniformizados; nenhum "-ismo" é anexado aos seus nomes".[187]
Títulos e honras

Monograma imperial de Pedro.
Títulos e estilos
12 de outubro de 1798 – 11 de junho de 1801: "Sua Alteza, o Sereníssimo Infante D. Pedro, Grão Prior de Crato"[89]
11 de junho de 1801 – 20 de março de 1816: "Sua Alteza Real, o Príncipe da Beira"[89]
20 de março de 1816 – 9 de janeiro de 1817: "Sua Alteza Real, o Príncipe do Brasil"[89]
9 de janeiro de 1817 – 10 de março de 1826: "Sua Alteza Real, o Príncipe Real"[89]
12 de outubro de 1822 – 7 de abril de 1831: "Sua Majestade Imperial, o Imperador"[89]
10 de março de 1826 – 2 de maio de 1826: "Sua Majestade, o Rei"[89]
15 de junho de 1831 – 24 de setembro de 1834: "Sua Alteza Imperial, o Duque de Bragança"[159]

No Brasil, seu título e estilo completo era: "Sua Majestade Imperial, D. Pedro I, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil".[188] Já em Portugal, como rei era: "Sua Majestade Fidelíssima, D. Pedro IV, Rei de Portugal e Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc."[189]
Honras


Brasileiras:[190]
Grão-Mestre da Imperial Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo
Grão-Mestre da Imperial Ordem de São Bento de Avis
Grão-Mestre da Imperial Ordem de Sant'Iago da Espada
Grão-Mestre da Imperial Ordem do Cruzeiro do Sul
Grão-Mestre da Imperial Ordem de Pedro Primeiro
Grão-Mestre da Imperial Ordem da Rosa

Portuguesas:[4]
Grão-Mestre da Ordem dos Cavaleiros de Nosso Senhor Jesus Cristo
Grão-Mestre da Ordem de São Bento de Avis
Grão-Mestre da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada
Grão-Mestre da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito
Grão-Mestre da Real Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa

Estrangeiras:[191]
Cavaleiro da Ordem do Tosão de Ouro
Grã-Cruz da Ordem de Carlos III
Grã-Cruz da Ordem de Isabel a Católica
Cavaleiro da Ordem de São Luís
Cavaleiro da Ordem de São Miguel
Grã-Cruz da Ordem de Santo Estêvão




Notas

Ir para cima↑ Pedro ficou conhecido no Brasil como "o Libertador" devido ao seu papel na independência do país.[1] Ele também ficou conhecido em Portugal como "o Libertador", além de "o Rei Soldado". Ambos os epítetos vieram de seu papel nas guerras contra seu irmão Miguel.[2]
Ir para cima↑ Pedro abriu mão não apenas das coroas portuguesa e brasileira. Menos conhecido é o fato que ele recebeu em abril de 1822 a oferta da coroa da Grécia pelo governo local, que na época estava lutando pela independência. Pedro recusou e os gregos eventualmente escolheram o príncipe Oto da Baviera como monarca.[90] O imperador também recusou ofertas pela coroa da Espanha feitas em 1826 e 1829 por liberais que haviam se rebelado contra o governo absolutista de seu tio Fernando VII. Os liberais tanto em Portugal quanto na Espanha concordaram em 1830 fazer de Pedro o "Imperador da Ibéria". Ele aparentemente também recusou essa oferta já que nada se deu dela.[91] Entretanto, o historiador brasileiro Sérgio Correia da Costa e o português Antônio Sardinha argumentaram, baseados em pouquíssimas evidências, que um dos motivos que teria feito Pedro abdicar do trono brasileiro era destronar seu irmão e seu tio para poder reinar sobre toda a península Ibérica como imperador.[92]
Ir para cima↑ Rumores circularam na época dizendo que Pedro supostamente chutou Maria Leopoldina no útero durante uma discussão acalorada. A briga fora assistida por Domitila e Wenzel Philipp Leopold, Barão von Mareschal. Este último estava servindo como o ministro austríaco no Brasil e assim era inclinado a refletir os interesses da imperatriz, tendo sido a única testemunha a deixar um relato sobre o que realmente aconteceu. De acordo com Mareschal, o casal teve uma briga em que trocaram insultos, porém não há nenhuma menção de violência física.[109] Os historiadores Alberto Rangel,[110] Pedro Calmon,[111] Otávio Tarquínio de Sousa,[112] Sérgio Correia da Costa[113] e Roderick J. Barman[25] rejeitaram a possibilidade de Pedro ter fisicamente atacado a esposa, com todos afirmando que o desentendimento limitou-se a palavras duras. A posterior exumação do corpo de Maria Leopoldina confirmou que sua morte foi resultado de causas naturais.[114] Todavia, calúnias sobre a conduta de Pedro na época da morte de sua primeira esposa ainda estavam circulando por volta de 1831, servindo como uma lembrança duradoura do que as pessoas realmente acreditavam, não importando a natureza infundada das alegações.[112] Barman foi categórico ao afirmar que a morte de Maria Leopoldina tirou de Pedro "qualquer aura restante de santo, tanto em casa quanto no exterior".[115]

Album de foto coberto de suástica encontrado no quarto de Eva Braun



Um álbum de fotos que contém impressões instantâneas nunca antes vistas de Adolf Hitler que foi encontrado no quarto de Eva Braun no Fuhrer's Bunker apareceu mais de 70 anos depois. Essas fotos teriam sido tomadas por um membro do círculo interno de Hitler, possivelmente um guarda-costas ou mesmo a própria Braun, pois não aparece em nenhuma.

O álbum de fotos foi descoberto pela primeira vez pelo fotógrafo de guerra britânico Edward Dean em 1945, quando ele e o jornalista Richard Dimbleby entraram no bunker de Hitler, Berlim, algumas semanas após sua captura.

Depois de entrar no quarto de Eva Braun, (a amante de longa data de Hitler e, brevemente, sua esposa antes de se suicidarem no bunker), um soldado russo que acompanha os dois britânicos forçou a abrir um dos aparadores de cama de Braun. No interior havia o álbum, algumas roupas e uma garrafa de perfume quebrada. Contudo, o álbum ainda mantém seu perfume perfumado.



O álbum de Eva Braun apresenta uma capa de suástica com borlas vermelhas, brancas e pretas temáticas.



Dean vendeu o álbum para um colecionador na década de 1980. O colecionador passou por 30 anos e foi comprado recentemente por outro colecionador que está vendendo agora no leilão da C & T Auctions em Kent, Inglaterra.

























































































(Imagens: C & T Auctions / BNPS)

Fonte:http://www.vintag.es/2017/03/swastika-covered-photo-album-found-in.html#more

Volkswagen era a empresa de carros favoritos de Hitler. Foi Salvo Por Um Major do Exército Britânico



A Volkswagen, a maior montadora da Alemanha e da Europa, começou como um fabricante de automóveis patrocinado pelo estado criado para cumprir a visão de Adolf Hitler de um "carro popular" facilmente disponível para todos os cidadãos do Terceiro Reich. Quando a Alemanha foi deixada em ruínas após a Segunda Guerra Mundial, no entanto, o futuro da fábrica da Volkswagen não estava claro, até que um oficial do Exército britânico viu o potencial nos carros leves que produziram.

O "carro do povo"

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No início da década de 1930, vários fabricantes de automóveis alemães começaram a explorar projetos de "carro de pessoas", com o objetivo de expandir o mercado de automóveis com carros familiares baratos, já que apenas um em cada 50 alemães era dono de um carro na época. Em 1933, Adolf Hitler começou a fazer demandas específicas da indústria automobilística alemã, visando a produção de um veículo básico capaz de transportar dois adultos e três filhos, a velocidades de cerca de 60 mph, como parte de um plano para dar aos cidadãos alemães um acesso semelhante a Carros como americanos.

Early Designs

Pre67vw



Hanomag, Mercedes e Porsche começaram a desenvolver projetos iniciais, com muitos favorecendo a forma arredondada de "besouro", com o motor situado na parte traseira.



Alternativa ao luxo

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A maior parte da produção de automóveis alemães ainda se concentrou em mercados de luxo, mas o plano de Hitler exigia que o "Carro dos Povos" fosse disponível para cidadãos do Terceiro Reich através de um plano de poupança em 990 Reichsmark (US $ 396 na década de 1930), o que equivaleria ao custo De uma moto pequena. As empresas privadas logo descobriram que não podiam produzir um veículo que fosse barato.



Produção estatal

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Em 1936, com as empresas privadas que não estavam à altura da tarefa, Hitler escolheu patrocinar uma fábrica totalmente nova, estatal, usando a Frente trabalhista alemã e um design do time de Ferdinand Porsche. O modelo reconhecível de "besouro" foi introduzido em 1938, chamado Kraft durch Freude-Wagen ou "Strength Through Joy Car" de Hitler, e uma nova fábrica foi construída para construir os carros.

Economia do motor e do tempo de guerra

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O veículo VW usou um motor a frio, plano-quatro, traseiro-montado que sofreu um recorde de 1,8 milhões de quilômetros de testes. Muitos cidadãos alemães pagaram um fundo de poupança para receber seus carros novos, mas devido ao início da Segunda Guerra Mundial, bem como a corrupção generalizada na burocracia nazista, eles nunca os receberam. Os altos preços do gás durante a guerra limitaram o uso dos carros VW à elite nazista. A produção foi interrompida em 1945 devido a danos à fábrica em um ataque aéreo aliado.

Destino do pós-guerra e intervenção britânica

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Após o final da Segunda Guerra Mundial, a fábrica de VW danificada caiu na zona de ocupação britânica. Inicialmente, planejava ser usado para manutenção de veículos militares ou desmontado e recuperado. No entanto, um oficial do exército britânico, o Major Ivan Hirst, decidiu demonstrar o carro VW para a sede do exército britânico, que ficaram impressionados com o seu potencial como transporte leve. O exército britânico colocou mais uma ordem para 20 mil carros, economizando a fábrica de maneira efetiva.


Recuperação rápida

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Em 1946, a fábrica produzia 1.000 carros por mês, e a empresa logo mudou seu nome para a Volkswagen. Depois que várias empresas americanas e britânicas passaram a adquirir a fábrica, incluindo a Ford, a Volkswagen ficou sob a liderança de Heinrich Nordhoff, ex-gerente sênior da fabricante de automóveis Opel. Sob Nordhoff, a empresa iniciou um refinamento do modelo 1 (mais conhecido como o Beetle), enquanto mantém o estilo igual, além de melhorar a eficiência na produção de carros.

Ícone da Alemanha Ocidental e do recurso de massa do besouro

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Como empresa controlada pela Alemanha Ocidental, a Volkswagen logo se tornou um símbolo da recuperação do país, expandindo as vendas e a produção internacionalmente. O Beetle foi apresentado aos EUA com vendas lentas em seus primeiros anos, mas uma série de campanhas publicitárias famosas logo impulsionou o carro em popularidade. A confiabilidade e o atrativo juvenil do Beetle logo o levaram a superar o anterior titular de registro de vendas único, o Modelo T, em 1972.

Micro onibus

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Durante a maior parte de sua operação durante os anos 50 e 60, a Volkswagen manteve uma abordagem de produção de modelo único, com a notável exceção de alguns modelos, como o tipo 2 Kombi Micro Bus. O precursor da carrinha de passageiros e de carga tornou-se amplamente popular por direito próprio e, nos anos 60, foi associado à contracultura dos hippies.

Fonte:http://www.allday.com/volkswagen-was-hitlers-favorite-car-company-it-was-saved-by-a-british--2180805412.html

O Fogo-de-Santelmo na Literatura de Viagens

O «LUME VIVO QUE A MARÍTIMA GENTE TEM POR SANTO», NO DIZER DE CAMÕES, APARECE INÚMERAS VEZES NA LITERATURA PORTUGUESA







A primeira referência escrita à luminosidade hoje conhecida como fogo-de-santelmo é, possivelmente, a que aparece nos «Hinos Homéricos», uma colectânea de poemas no estilo de Homero escrita por vários autores desconhecidos. Referem-se aí os gémeos mitológicos «Castor o domador de cavalos e o inocente Pólux, filhos de Zeus e filhos gloriosos da Leda do belo andar». Por ocasião das tempestades, diz-se que os marinheiros apelam a esses «filhos do grande Zeus, consagrando cordeiros brancos e deslocando-se para a proa; o vento forte e as vagas do mar mantêm o navio sob a água, até que, subitamente, os dois são avistados no ar, rápidos e com asas douradas. Imediatamente suavizam as rajadas dos ventos cruéis e acalmam as ondas sobre o branco mar: são belos sinais e um salvamento» .

Para os gregos, a luminosidade nas pontas dos mastros que se via em momentos tempestuosos podia ser sinal de mau augúrio, quando a luz tinha uma ponta apenas, caso em que associavam o fenómeno a Helena , a irmã de Castor e Pólux. Mas essa luminosidade era um sinal de bom augúrio quando tinha duas pontas, caso em que a associavam aos dois gémeos mitológicos. Segundo a lenda, estes tinham poder sobre as forças tempestuosas e eram pois considerados protectores dos marinheiros.

Aristóteles, nos «Metauros», descreve o mesmo fenómeno e Plínio o Velho (c. 29–79 d.C.), o grande enciclopedista romano, refere-se-lhe demoradamente na sua «História Natural», confirmando que, «se for um, anuncia uma tempestade severa», mas «se forem dois, e isso quando a tempestade se tiver desenvolvido, é um bom sinal».

Nos Comentários de Júlio César, descreve-se o fenómeno observado em terra: «No mês de Fevereiro, cerca do segundo turno da noite, levantou-se subitamente uma nuvem escura a que se seguiu uma chuvada de granizo, e na mesma noite as pontas das lanças da V Legião pareceram incendiar-se».









Séculos mais tarde, já na era cristã, os navegadores do Mediterrâneo viam neste lume misterioso o sinal da intervenção do Corpo Santo através de Santo Erasmo, um bispo italiano assassinado em 303 d.C. também conhecido por Santo Elmo ou Sant’Elmo.

Nos tempos das Descobertas, os marinheiros portugueses e espanhóis, tomariam como protector outro santo da Igreja Católica, um frade dominicano do século XIII de nome Pero Gonçalves. Com os anos, as lendas fundiram-se, e o nome «Telmo» foi-lhe justaposto. Nos fins do século XVI falava-se em Pero Gonçalves Telmo, como se sempre tivesse sido esse o seu nome.

A literatura portuguesa abunda de referências ao santo e ao fenómeno luminoso. Começando pelos relatos de viagem, vale a pena destacar o que escreveu D. João de Castro, o grande intelectual viajante do século XVI, no Roteiro de Lisboa a Goa de 1538.

«Tornando a 2ª vez à Índia, que foi no ano de 1545, esta mesma noite nos apareceu a aparência ou sinal a que os marinheiros chamam Corpo Santo, per duas vezes, e duraria espaço de meia hora. Primeiramente o vimos na ponta do mastaréu da gávea, e depois no lais da verga, e depois na ponta do mastro da mesma e depois na enxárcia. Esta aparência a que chamam Corpo Santo era uma claridade tamanha como a que costuma fazer uma candeia ou vela, mas a sua luz não era vermelha como fogo, mas prateada à semelhança do que se vê na Lua; e, quando dava algum relâmpago, não aparecia esse sinal. Porém, como passava o esplendor do relâmpago, tornava a aparecer. Quando nos apareceu este sinal, chuviscava, e o céu estava escuro e cerrado, e foi cousa muito patente e sem nenhum engano de vista, e parecia mistério e segredo da natureza. A este tempo estávamos norte sul com o Rio do Infante, e em altura de 34º.»





"Santelmo Socorrendo os Náufragos", óleo de cerca de 1714 existente na capela do Palácio do Corpo Santo, em Setúbal. Note-se o arco-íris, correctamente colorido, e a vela na mão do santo.



Na História Trágico-Marítima há várias referências interessantes. Na Relação do Naufrágio da Nau Santa Maria, um relator anónimo descreve a crença extrema dos marinheiros.

«Têm todos os homens do mar tamanha veneração ao Bem-Aventurado S. Frei Pero Gonçalves, e o têm por tão seu advogado nas tormentas do mar, que crêem de todo o seu coração que aquelas exalações que nos tempos fortuitos e tormentosos aparecem sobre os mastros, ou em outras partes da nau são o Santo que os vem visitar e consolar. E, tanto que acertam de ver aquela exalação, acodem todos ao convés a o salvar com grandes gritos e alaridos, dizendo: — «Salva, salva, Corpo Santo». E afirmam que, quando aparecem nas partes altas, e são duas, três ou mais, aquelas exalações, que é sinal que lhes dá bonança; mas, se aparecer uma só, e pelas partes baixas, que denuncia naufrágio. E tão crentes e firmes estão nisto que, quando aquelas exalações aparecem sobre os mastaréus, sobem os marinheiros acima, e afirmam que acham pingos de cera verde; mas eles não os trazem nem os mostram. Ao menos nós não os vimos alguma hora. e se os religiosos que vêm nas naus lhes querem ir à mão, dando-lhes razões para lhes mostrar que aquilo são exalações, e declarando as causas naturais por que se geram e por que aparecem, não falta mais que tomarem as armas e levantarem-se contra quem lhes contradiz aquela sua fé, que por tal o têm.

Um outro relato na mesma colectânea é o de Henrique Dias, criado de D. António, Prior do Crato, na Relação da Viagem e Naufrágio da Nau S. Paulo, que partiu da Índia em 1560:

«[...] a qual claridade vendo o contramestre e marinheiros da proa a começaram a salvar da parte de Deus e Nossa Senhora e seus Santos, em vozes muito altas a que a gente toda à uma respondia com grandes gemidos e lágrimas [...] Assim que toda a noite se foi nestes gemidos e brados, andando sempre estas luzes conosco.»



Fresco no tecto da mesma capela representando Santelmo auxiliando um náufrago.





Na Etiópia Oriental, de Frei João dos Santos , descrevem-se as aventuras da nau S. Filipe, que tinha saído de Lisboa em 1586.

«[Numa noite de tempestade] apareceu o Corpo Santo em a verga do mastro grande, em figura de uma faísca de fogo, muito clara e resplandecente, e dali, à vista de todos, se foi pôr sobre o mastro da mezena, onde o salvou o piloto da nau, da cadeira em que estava governando, dizendo: Salvé, Corpo Santo, salvé: boa viagem, boa viagem. E toda a mais gente da nau, que presente estava, respondeu da mesma maneira: Boa viagem, boa viagem, com muitas lágrimas de alegria. Neste lugar esteve esta luz resplandecente um grande espaço de tempo e dali desapareceu à vista de todos.»

Mais à frente, dá-se conta dos conflitos entre mareantes e prelados que esta crença extrema podia desencadear. A determinada altura da borrasca um soldado ajoelhara perante a luz e batera no peito repetidamente exclamando: «Adoro-vos, meu Senhor Pero Gonçalves; vós me salvai neste perigo por vossa misericórdia». Os padres a bordo advertiram-no de que não deveria orar assim, pois a adoração se devia apenas a Deus e não aos santos. Mas o soldado respondeu «Meu Deus será agora quem deste perigo me tirar».

Na escrita literária portuguesa aparecem também várias referências interessantes ao fogo-de-santelmo. Gil Vicente, no Acto segundo, Cena I do «Triunfo do Inferno» coloca um marinheiro a gritar, ao som da ventania endiabrada:

«Ei-lo precioso santo
Frei Pero Gonçalves Bento


PILOTO:
Empara-nos de tanto vento
C’o teu precioso manto
Senhor, libra-nos a malo


GREGÓRIO:
Dêmos à bomba, piloto;
Dai ó demo Frei Gonçalo,
E não Frei Pero Minhoto


PILOTO:
É o bem-aventurado
Frei Pero Gonçalves bento.»




Camões fala do fogo-de-santelmo, que descreve como «o lume vivo, que a marítima gente tem por santo», nos dois primeiros versos da estância 18 do Canto V d’Os Lusíadas. A referência insere-se no relato feito por Vasco da Gama ao rei de Melinde, na parte em que enumera as experiências fantásticas testemunhadas pelo narrador:

«Os casos vi, que os rudos marinheiros,
Que têm por mestra a longa experiência,
Contam por certos sempre e verdadeiros,
Julgando as cousas só pola aparência,
E que os que têm juízos mais inteiros,
Que só por puro engenho e por ciência
Vêm do mundo os segredos escondidos,
Julgam por falsos ou mal entendidos.



«Vi, claramente visto, o lume vivo
Que a marítima gente tem por santo,
Em tempo de tormenta e vento esquivo,
De tempestade escura e triste pranto.
Não menos foi a todos excessivo
Milagre, e cousa, certo, de alto espanto,
Ver as nuvens, do mar com largo cano,
Sorver as altas águas do Oceano.»




Bocage alude à crença no soneto Deprecação feita durante uma tempestade:

«Oh Deus, oh Rei do Céu, do mar, da terra
(Pois só me restam lágrimas, clamores),
Suspende os teus horrísonos furores,
O corisco, o trovão, que a tudo aterra:

Nos subterrâneos cárceres encerra
Os procelosos monstros berradores,
Que, enchendo os ares de infernais vapores,
Parece que entre si travaram guerra.


Para nós, compassivo os olhos lança,
Perdoa ao fraco lenho, atende ao pranto
Dos tristes, que em ti põem sua esperança!

Às densas trevas despedaça o manto,
Faze, em sinal de próxima bonança,
brilhar no etéreo tope o lume santo.»




E Afonso Lopes Vieira, numa paráfrase a um relato da «História Trágico-Marítima», faz uma chamada ao passado esquecido e lamenta o esmorecimento do culto a S. Pero Gonçalves:

«Por te enramarem coentros,
Entre bailes e folias,
Tu às hortas de Enxobregas,
São Frei Pero, de antes ias.

Assim nos guies e salves,
Senhor São Pero Gonçalves!

Pelas outavas da Páscoa
Era o teu dia marcado ;
Vinhas então de Enxobregas
De coentros enramado.

Assim nos guies e salves,
Senhor São Pero Gonçalves!



Bailando por São Frei Pero,
Não havia homem do mar
Que não tecesse capela
Para ao redor a levar.

Assim nos guies e salves,
Senhor São Pero Gonçalves!

Que tamanha devoção!
Mas São Pero, no mar
Acendia a luz nos mastros
Para a tormenta amainar.

Assim nos guies e salves,
Senhor São Pero Gonçalves!

Quando se lá acendia,
Essa benta luz de encanto,
Todos no convés em grita:
— Salva, salva, oh Corpo Santo!

Assim nos guies e salves,
Senhor São Pero Gonçalves!

Mas São Frei Pedro, esquecido,
Já não vai às hortas, não;
Não tem bailes nem folias,
No mar não tem devoção.

Assim nos guies e salves,
Senhor São Pero Gonçalves!

Por isso as naus se desgarram,
Santo nome de Jesus!
Salva, salva, oh Corpo Santo,
Acende ao alto a tua luz!

Assim nos guies e salves,
Senhor São Pero Gonçalves!»


As referências literárias e populares são muitas e inequívocas, tais como o são muitos relatos de viagem. Os relatos referem-se a um fenómeno atmosférico verdadeiro, hoje chamado fogo-de-santelmo. Um fenómeno de tal forma integrado na história e literatura portuguesa que nesta se encontram muitas das descrições históricas que contribuíram para o seu conhecimento científico.


Fonte:http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/e39.html

Relembre as armas utilizadas na Primeira Guerra Mundial

guerra

Frida Kahlo

Por Caroline Faria


Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderon foi uma das personagens mais marcantes da história do México. Patriota declarada, comunista e revolucionária Frida Kahlo, como ficou conhecida, teve uma vida de superações e sofrimentos que refletidos em sua obra a tornaram uma das maiores pintoras do século.


Nascida em 6 de julho de 1907 em Coyoacan, México, filha do famoso fotógrafo judeu-alemão Guillermo Kahlo e de Matilde Calderon y Gonzales, mestiça, Frida sempre foi apaixonada pela cultura de seu país e adorava tudo que remetesse às tradições mexicanas. Fato que ela sempre fazia questão de demonstrar em sua maneira de se vestir e em seu trabalho ao incluir elementos da cultura popular.

Em seu diário, publicado em 1995 e traduzido para diversas línguas, e em sua autobiografia publicada em 1953, Frida deixou registradas suas dores e sobretudo suas frustrações pela infidelidade do marido, por quem era extremamente apaixonada, e pela impossibilidade de ter filhos. Toda sua obra, constituída majoritariamente por auto-retratos reflete essa condição.

Sua primeira tragédia acontece quando ela tinha seis anos e uma poliomelite a deixou de cama por vários dias. Como seqüela, Frida fica com um dos pés atrofiado e uma perna mais fina que a outra. Mas o fato trágico que mudaria sua vida para sempre aconteceu quando ela tinha dezoito anos.

Frida na época estudava medicina na primeira turma feminina da escola Preparatória Nacional. Então, no dia 17 de setembro de 1925, na volta para casa, ela e seu noivo Alejandro Goméz Arias, sofreram um grave acidente de ônibus que a deixou a beira da morte. Transpassada por uma barra de ferro pelo abdômen e sofrendo múltiplas fraturas, inclusive na coluna vertebral Frida levou vários meses para se recuperar. Ao todo foram necessárias 35 cirurgias e mesmo depois da recuperação ela teria complicações por causa do acidente pelo resto de sua vida chegando a relatar : “E a sensação nunca mais me deixou, de que meu corpo carrega em si todas as chagas do mundo.”

Foi durante o período em que esteve se recuperando que surgiu a pintora. Sua mãe colocou um espelho sobre sua cama e um cavalete adaptado para que ela pudesse pintar deitada e Frida fez seu primeiro auto-retrato dedicado a Alejandro que a havia abandonado: “Auto-retrato com vestido de Terciopelo”. Sobre sua obstinação em pintar auto-retratos, 55 ao todo, que representam um terço de toda sua obra ela justificava dizendo: “Pinto a mim mesma porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”.

Dois anos depois do acidente Frida leva três de seus quadros a Diego Rivera, um famoso pintor da época que ela conhecera quando freqüentava a Escola Preparatória Nacional em 1922, para que os analisasse. Esse encontro resultou no amor de ambos e na revelação de uma grande artista.

Em 21 de agosto de 1929 eles se casam, Frida então com 22 anos e Rivera com 43, dando início a um relacionamento dos mais extravagantes da história da arte. Em 1930 Frida engravida e sofre seu primeiro aborto ficando muito abalada pela impossibilidade de levar adiante uma gravidez devido a seu estado de saúde delicado. Sobre essa dor ela confessou: “Pintar completou minha vida. Perdi três filhos e uma série de outras coisas que teriam preenchido minha vida pavorosa”.
No mesmo ano, já tendo recuperado sua mobilidade, porém com limitações e tendo que usar freqüentemente um colete de gesso, Frida acompanha Diego em suas viagens aos EUA revelando seu talento para o resto do mundo e encantando a todos com seu jeito irreverente e único.

Em 1932 ela sofre seu segundo aborto sendo hospitalizada em Detroit (EUA), e sua mãe morre de câncer no dia 15 de setembro do mesmo ano. Em 1934 o casal está de volta ao México, mas Frida sofre novo aborto e tem os dedos do pé direito amputados. O relacionamento com Rivera piora e ele começa a traí-la com sua irmã mais nova Cristina. No ano seguinte Frida e Rivera se separam e Frida conhece o escultor Isamu Noguchi com tem um caso, mas logo ela e Rivera se reconciliam e voltam a morar juntos no México.

Em 1936 novas cirurgias no pé além de persistentes dores de coluna, um problema de úlcera, anorexia e ansiedade. Apesar de tudo, em 1937, Frida conhece Leon Trotski que se refugia em sua casa em Coyoacan junto com a esposa Natalia Sedova. Trotski foi seu mais famoso caso de amor.

Em 1938, Fria Kahlo conhece André Breton, escritor, poeta e famoso teórico do surrealismo, que se encanta por sua obra e lhe apresenta Julian Levy, colecionador e dono de uma galeria em Nova York, responsável por organizar a primeira exposição individual de Frida, realizada em 1939.

A exposição foi sucesso absoluto e ela logo estava realizando exposições em Paris onde conheceu grandes artistas como Pablo Picasso, Kandinsky, Marcel Duchamp, Paul Eluard e Max Ernst. Frida foi a primeira pintora mexicana a ter um de seus quadros expostos no Museu do Louvre, mas foi apenas em 1953, um ano antes de sua morte, que ela consegue realizar uma exposição de suas obras na Cidade do México.

Ainda em 1939 Frida e Diego se separam novamente, desta vez oficialmente, mas voltam a se casar em 8 de dezembro do ano seguinte.

Em 1941 morre Guillermo Kahlo e ela e Diego mudam-se para a “Casa Azul”, hoje um museu em sua homenagem. Em 1942 ela começa a escrever seu famoso diário onde escreve sobre todas as suas dores e pensamentos em um emaranhado de textos propositadamente sobrepostos, cheio de ilustrações e cores.

De 1942 a 1950 Frida é eleita membro do Seminário de Cultura do México, passa a dar aulas na escola de arte “La Esmeralda”, mas sua saúde cada vez pior a obriga a lecionar em casa. Com o quadro “Moisés”, Frida ganha o Prêmio Nacional de Pintura concedido pelo Ministério da Cultura do México. Nesse período ela também é obrigada a fazer mais de seis cirurgias e usar um colete de ferro que quase a impede de respirar permanecendo longos períodos no hospital e tendo de usar uma cadeira de rodas.

Em agosto de 1953 ela tem sua perna amputada na altura do joelho devido a uma gangrena. Sobre mais esse duro golpe Frida escreve em seu diário:


''Amputaram-me a perna há 6 meses, deram-me séculos de tortura e há momentos em que quase perco a razão. Continuo a querer me matar. O Diego é que me impede de o fazer, pois a minha vaidade faz-me pensar que sentiria a minha falta. Ele disse-me isso e eu acreditei. Mas nunca sofri tanto em toda a minha vida. Vou esperar mais um pouco...''.

No mesmo diário ela também desenhara uma coluna cercada por espinhos com a legenda: “Pés, para que os quero se tenho asas para voar.” Revelando a ambiguidade de seus sentimentos com relação a todo seu sofrimento.

A idéia da morte parecia algo tranqüilizador para Frida que tivera uma vida tão conturbada e freqüentemente ela se refere a isso em seu diário e em sua autobiografia, porém mais do que nunca ela tenta se agarrar a vida, pois como ela dizia: “...a tragédia é o mais ridículo que há...” e “...nada vale mais do que a risada...” .

Mas sua condição delicada não a impediu de participar, mesmo em uma cadeira de rodas de uma manifestação contra a intervenção norte-americana na Guatemala em 1954.

Na noite de 13 de julho daquele mesmo ano Frida Kahlo é encontrada morte em seu leito. A versão oficial divulgou que ela teve morte por embolia pulmonar, mas suas últimas palavras em seu diário foram: “Espero a partida com alegria...e espero nunca mais voltar...Frida.”.

Para saber mais:
Em 2002 foi lançado o filme "Frida" com a atriz Salma Hayeck no papel da personagem principal e Alfred Molina no papel de diego Rivera. A direção é de Julie Taymor e o filme recebeu dois Oscar por melhor maquiagem e trilha sonora.

Fontes
http://fkahlo.com/#
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT512470-1661,00.html
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT512361-1661,00.html
http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252007000400024&script=sci_arttext&tlng=pt
http://www.homines.com/arte_xx/crono_frida/index.htm

NZINGA, A RAINHA NEGRA QUE COMBATEU OS TRAFICANTES PORTUGUESES Obrigado por compartilhar. Lembre-se de citar a fonte: http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br/nzinga-a-rainha-negra-contra-os-traficantes-portugueses

No século XVII, o lucrativo comércio de escravos praticado pelos portugueses sofreu um duro revés. A oposição mais forte que enfrentaram veio da rainha Nzinga, uma obstinada líder política e militar que, por quarenta anos, impediu que os portugueses penetrassem no continente africano. Conheça a história dessa mulher africana extraordinária. Seu nome é grafado de diferentes maneiras: Nzinga, Ginga, Jinga, Singa, Zhinga e outros nomes da família linguística Banto (ou Bantu). É também conhecida pelos nomes portugueses de Ana de Souza, rainha Dona Ana e pelas formas híbridas como rainha Ana Nzinga. Nzinga Mbandi Ngola Kiluanji, nasceu em 1582, no Ndongo, filha do ngola com uma escrava ambundo. Ainda criança, começou a ser treinada para o combate e o uso de armas. Com oito anos de idade, acompanhou o séquito do pai, em uma batalha, como parte dos exercícios de guerra. Com a morte do pai, em 1617, seu irmão Mbandi tornou-se ngola ascendendo ao trono de Ndongo. Por essa época, os portugueses já estavam estabelecidos na ilha de Luanda onde fundaram a vila de São Paulo de Luanda, construíram igreja, casas e fortificações. Enfrentaram a resistência dos chefes angolanos e as doenças tropicais que impuseram pesadas perdas aos portugueses. Calcula-se que, entre 1575 e 1590, dos 1700 europeus falecidos em Angola, só 400 perderam a vida na guerra; os demais, quase 80%, morreram de maleita e outras febres. No lugar de prata, escravos O interesse inicial dos portugueses, em Angola, não era o tráfico de escravos mas as riquezas do país, suas jazidas de prata, cobre e sal. Além disso, o domínio de Angola abriria caminho para chegar, por terra, até as fabulosas minas de Monomotapa (atual Zimbábue). Acreditando que Angola seria um novo Peru, o rei de Portugal e Espanha (era o início da União Ibérica) enviou soldados, armas e canhões para derrotar os angolanos. Foram 24 anos de combates até os portugueses finalmente atingirem, em 1603, às supostas minas de prata de Cambambe, ao sul de Luanda. Mas o contentamento durou pouco: as amostras colhidas revelaram-se de chumbo. Não havia prata em Cambambe. Decepcionado, o rei Felipe III mandou suspender a conquista e limitar-se ao tráfico de escravos. O porto de Luanda tornou-se o local de embarque de milhares de escravos. Por volta de 1600, a média anual era de 5.600 escravos provindos de diversas partes da África e embarcados para a América. Em Luanda chegavam vinhos portugueses, artigos de ferro e latão, mantas do Alentejo, lãs e linhos de Flandres, contas de vidro de Veneza, algodão e musselina da Índia a ainda produtos brasileiros como a farinha de mandioca. Como moeda usam-se os panos fabricados no Congo que recebiam um carimbo com o emblema real e eram usados para a aquisição de escravos. Conforme relata Costa e Silva, esses tecidos, em geral, não eram usados como roupas; passavam de mão em mão até se desgastarem e puírem, perdendo progressivamente parte de seu valor. O comércio de escravos Os portugueses tinham pouco controle sobre a captura de escravos. A apreensão e o comércio em território de Angola eram fortemente centralizados pelo ngola Mbandi, o rei ambundo, irmão de Nzinga. Ele cobrava dos portugueses tributos e taxas e proibia-lhes o acesso ao interior do reino e a compra direta de escravos. As vendas de escravos eram fiscalizadas e só podiam ser feitas por lote, não permitindo ao traficante escolher as “peças” que lhe interessavam. O ngola mandava incluir, no lote, negros idosos, doentes ou com defeitos físicos de difícil colocação no mercado escravo de Luanda. Os que desrespeitavam as regras e os costumes locais eram punidos com o confisco da mercadoria, prisão, expulsão, açoites e até morte. As restrições ao livre trânsito dos mercadores e as sanções aplicadas pelo ngola aos infratores causaram indignação entre os portugueses de Luanda. Afinal, para eles, aquelas terras eram de Portugal. As tensões levaram a uma nova guerra contra o ngola Mbandi que, como ocorrera outras vezes, ficou inconclusa. Entra em cena a princesa Nzinga Em 1621, chegou a Luanda o novo governador português que se apressou a buscar a paz com o ngola Mbandi. Para negociá-la, o rei ambundo enviou a Luanda uma embaixadora – sua irmã Nzinga, então com 39 anos de idade. Neste encontro, ocorreu um episódio curioso que revela a altivez da princesa ambundu. Como o governador a recebeu sentado e não lhe ofereceu cadeira, Nzinga fez um sinal para uma de suas acompanhantes que se colocou de quatro no chão para a princesa sentar-se sobre ela. Ao sair, deixou a moça na sala, na mesma posição, como se fosse um banco. O governador avisou-a para levar a moça e Nzinga respondeu-lhe que não sentaria novamente naquele banco pois tinha muitos outros e não o queria mais. Nzinga sentou-se sobre sua acompanhante colocando-se em posição de igualdade com o governador português. Manuscrito de Cavazzi, missionário capuchinho, 1687 A princesa, inteligente e decidida, deixou claro que o rei ambundo não era e nem seria vassalo do rei ibérico. Estava ali como representante de um estado soberano e exigia tratamento de igual para igual. Para surpresa de todos, Nzinga falou em português fluente. Possivelmente aprendera a língua com alguns dos mercadores e missionários portugueses que haviam frequentado a corte de seu pai. Nzinga exigiu que os portugueses abandonassem suas instalações no continente, que entregassem os chefes africanos prisioneiros e ainda um lote de armas de fogo. Em sinal de sua intenção de celebrar o acordo de paz, Nzinga aceitou o batismo católico sob o nome português Ana de Souza. A conversão foi um jogo político do qual ela vai se valer em outros momentos para ganhar confiança e confundir os portugueses. A rainha Nzinga Vários meses se passaram desde o encontro em Luanda sem que os portugueses cumprissem sua parte no acordo. Não estavam dispostos a ceder em nada. Nzinga vai cobrar, pelas armas, o que fora prometido mas, dessa vez, como ngola, rainha de Ndongo. A ascensão de Nzinga ao trono, em 1623, é rodeada de mistérios. Alguns estudiosos afirmam que ela envenenou o irmão, outros dizem que o rei se suicidou por decisão dos grandes chefes. Há ainda a versão de que Nzinga, com a morte do irmão tornou-se regente do garoto escolhido como novo ngola, mas a criança pouco depois, morreu afogada no rio Cuanza. Começava a nascer uma “mitologia Nzinga”. Rainha enigmática, cujo nome causava terror entre os portugueses, ela deu origem a lendas e relatos contraditórios a seu respeito. Nzinga e seu séquito. Manuscrito de Cavazzi, missionário capuchinho, 1687. Desconhece-se sua imagem, não existem retratos da rainha elaborados no seu período de vida. Uma imagem de 1769, para a obra Zingha, reine d’Angola, de Jean-Louis Castilhon, mostra a rainha de perfil com um olhar recatado que nada corresponde ao perfil guerreiro dessa líder política africana. Usa coroa, colar, bracelete, broche e manta típicos da cultura europeia. O toque exótico e sensual fica por conta do seio à mostra, como era comum nas representações de africanas pelo traço europeu cristão. A imagem aproxima-se da descrição de Glasgow: Nzinga usando elementos da cultura europeia e africana em uma gravura do século XVIII. Vaidosa quanto às roupas e aparência, trazia na cabeça a coroa real, com joias de prata, pérolas e cobre a lhe adornarem os braços e as pernas. Lindos tecidos e roupas eram sua paixão especial e não perdia nenhuma oportunidade de adquirir novas roupas em estilo europeu dos mercadores portugueses. Às vezes ela trocava de traje várias vezes por dia, variando das modas africanas para as portuguesas e vice-versa, até no estilo do penteado. (…) Quando Nzinga recebia hóspedes estrangeiros, tanto ela quanto sua corte se adornavam com dispendiosos trajes e joias europeias e havia farto uso de baixelas de prata, cadeiras e tapetes. Saudava os hóspedes com o selo real de prata na mão e a coroa na cabeça, ocasionalmente até três vezes por semana. (Glasgow, p. 95-96) Costa e Silva apresenta outra descrição de Nzinga: “Ela recusava o título de rainha e fazia questão de ser chamada rei. Por isso que decidiu tornar-se socialmente homem e ter um harém, com os concubinos vestidos de mulher. Por isso que lutava como um soldado, à frente do exército. Na realidade, Jinga estava a criar a sua tradição, a sua legitimidade, os precedentes que permitiriam a suas netas e bisnetas ascenderem, sem contestação do sexo, ao poder.” (Costa e Silva, p.438) Nzinga com uma fisionomia bantu juvenil, segundo representação feita por Tim O’Brien, em 2000 Em obra recente, Nzingha: warrior queen of Matamba, de Patricia McKissack, publicado em 2000, o conceituado ilustrador Tim O’Brien, criou uma nova imagem da rainha ambundo dando-lhe uma fisionomia bantu juvenil. Ela usa bracelete e colar típicos da realeza bantu, um cordão de zimbos ou búzios, uma concha utilizada como moeda nos reinos do Congo, Ndongo e em sociedades tradicionais de Angola. O vestido colante com grafismos em zig-zag, motivo recorrente na cultura material da África subsaariana, e o arco e flechas compõem o retrato guerreiro e africano de Nzinga. O filme Njinga, rainha de Angola, de 2012 (mostrado no Brasil em 2014) construiu outra imagem da rainha. Para representa-la, foi escolhida Lesliana Pereira, miss Angola 2008. A beleza da atriz reforçada por trajes sensuais em cenas de combate aproxima a rainha à imagem de uma super-heroína africana. Nzinga reinou absoluta durante quarenta anos sobre Ndongo (1623 a 1663) e, a partir de 1630, também sobre Matamba. Para enfrentar os portugueses, aliou-se aos ferozes jagas e desposou um chefe deles. Veja o trailer do filme Njinga, rainha de Angola, direção de Sérgio Graciano, 2012 Continua na parte 2: Nzinga abre guerra contra os portugueses. Vocabulário Ambundo ou Mbundu: maior grupo étnico de Angola, falante do quimbundo, língua que muito contribuiu na formação do léxico do português falado no Brasil. Ndongo ou Dongo: reino ambundo da Angola pré-colonial, limitado ao norte pelo Reino do Congo, a leste por Matamba, a oeste pelo Oceano Atlântico e ao sul pelos Estados ovimbundos. Ngola ou angola: importante título nobiliárquico e guerreiro dos ambundos na Angola pré-colonial, equivalente a rei. O termo acabou batizando o nome atual do país. Fonte COSTA E SILVA, Alberto. A manilha e o libambo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. GLASGOW, Roy. Nzinga. São Paulo: Perspectiva, 1982. PACAVIRA, Manuel Pedro. Nzinga Mbandi. Cuba: União dos Escritores Angolanos, 1985.

Depois de 24 anos lutando contra grupos africanos hostis e sem encontrar as supostas minas de prata de Angola, os portugueses decidiram se concentrar no tráfico de escravos. Mas eles não imaginavam que enfrentariam um problema ainda maior chamado Nzinga, rainha de Ndongo e Matamba. Em 1623, Nzinga Mbandi tornava-se rainha do Ndongo decidida a combater os portugueses, sediados em Luanda, por não terem cumprido sua parte no acordo firmado. Para enfrentá-los, aliou-se aos ferozes jagas e desposou um chefe deles. Os Jagas A origem dos jagas é obscura. Grupo guerreiro itinerante, os jagas penetraram no Ndongo Ocidental onde se misturaram aos habitantes locais e foram chamados de imbangalas. Usavam a tática de guerrilhas: ataques de surpresa com recuos estratégicos que fustigavam e cansavam as forças coloniais. Assim os descreve Glasgow: “Os Jagas eram imponentemente altos e atacavam seus inimigos com facas, lanças, arcos e flechas, azagaias e escudos. Eram táticos militares cujo artifício operacional era a surpresa. As mulheres Jagas não criavam seus filhos, mas os abandonavam nos bosques, adotando no lugar deles adolescentes capturados na guerra. Estes alcançavam a liberdade e a virilidade, trazendo a cabeça de um inimigo a seu general. (Glasgow, p. 37). Os jagas, ilustração do século XVIII. Organizavam-se em kilombo (ou quilombo), acampamento militar quase sempre montado perto de um precipício. Em formato circulado, o kilombo era cercado por fortes estacas, cada uma delas vigiada por um guerreiro. Internamente, o kilombo dividia-se em blocos separados entre si por grades e cancelas. O chefe e seus guardas residiam no círculo mais interno. Quando criança e jovem, Nzinga viveu em um kilombo participando dos exercícios militares como luta corpo a corpo, treinando a rapidez no ataque e a destreza no arremesso de armas. Aprendeu a usar a mbila, um tipo de faca afiada com a ponta envenenada, e o machado em forma de meia-lua que podia, de um só golpe, abrir o tórax do inimigo. Nzinga adotou para si e seus exércitos as técnicas de combate, de recrutamento e de acampamento militar dos jagas. Para ter o controle de toda região e dos passos de outros chefes locais, espalhou espiões por toda parte. Nada lhe passava despercebido. Manteve o espírito de união e lealdade entre seus guerreiros premiando os atos de bravura e punindo os covardes – igualados a traidores – com a pena de morte. À véspera dos combates, Nzinga participava da cerimônia dos jagas de sacrifício humano e antropofagia. Apesar dos ambundos (grupo étnico de Nzinga) terem aversão a esse costume, a rainha tinha consciência da eficácia desse ritual para forjar a unidade de suas forças. A desorganização do tráfico de escravos Território ocupado pelos portugueses (rosa) e o reino de Nzinga (amarelo). Para fragilizar os portugueses, Nzinga convenceu a população negra de Luanda, escravos e africanos livres, a abandonar a cidade em troca de proteção e asilo. Nzinga apelava: “É melhor para os africanos serem donos de seu solo do que cativos dos portugueses”. De um momento para outro, os portugueses se viram sem boa parte da mão de obra e dos soldados com que contavam. Nzinga mandou fechar os entrepostos comerciais que forneciam escravos aos portugueses e libertou muitos escravos e mulatos que estavam sob o controle europeu oferecendo-lhes terras para se estabelecerem permanentemente. Acampamentos inteiros de escravos começaram a escapar do controle português. A situação ficou insustentável para os portugueses pois interrompia o comércio de escravos cessando seus lucros. Foram enviados embaixadores e padres a Nzinga para negociar a paz e a normalização do comércio. Em um deles, o governador português manifestou seu desejo de amizade com a rainha e que estava disposto a entregar-lhe suas possessões se ela se dispusesse a avassalar-se ao rei de Portugal. Esse último ítem enfureceu Nzinga, pois fora justamente a condição que rejeitara em Luanda, como afrontosa a um príncipe soberano. Além disso, a rainha não abria mão de um ponto: os portugueses tinham que sair da fortaleza de Ambaca (ou Mbaka), construída em terras dos ambundos. Era, ainda, mesma exigência feita no acordo firmado em 1621-1622 e não cumprido pelos portugueses. Nzinga e o tráfico Os relatos desses encontros e as cartas enviadas por Nzinga a autoridades portuguesas revelam a posição ambígua da rainha quanto à escravização dos africanos. Ela estava interessada num tráfico pacífico com os portugueses, desde que esses aceitassem suas condições. O tráfico significava riqueza material, armas e munição importantes para manter seu prestígio e poder. Esclarece a respeito, Glasgow: “A posição da rainha Nzinga perante a escravidão era do ponto de vista político ambivalente, pois às vezes ela participava do tráfico e outras vezes fechava tais mercados. Não se deve esquecer, todavia, que o estabelecimento do tráfico com seus vínculos externos levou ao desenvolvimento de uma posterior superioridade comercial e política (e às vezes militar) dos reinos africanos, sobretudo Matamba, Kasanje e Luanda. Seu desenvolvimento como poderosos Estados comerciais fomentou o crescimento de complexas instituições africanas, que obtiveram o controle e virtual monopólio da aquisição e a distribuição de escravos e de artigos de comércio. Embora muitos chefes aquiescessem com o tráfico, outros tiveram pouca alternativa, visto que, ou concordavam ou eram eliminados.” (Glasgow, p. 57). A partir de 1630, quando Nzinga tomou Matamba e tornou-se sua rainha, ela impôs mudanças nas rotas do tráfico de escravos forçando a livre passagem para chegar até o litoral onde estavam os barcos dos holandeses. À essa época, os holandeses, senhores do Nordeste açucareiro do Brasil, já rondavam Luanda para traficar escravos para Recife. Enquanto negociava com os holandeses, a rainha mandava guerreiros jagas assaltarem os caminhos usados pelos portugueses para conduzir seus escravos. Conforme afirma Costa e Silva: “As tropas da rainha passaram a aterrorizar as caravanas dos pombeiros que percorriam esse trajeto e a prear escravos por toda a redondeza. Em pouco tempo, Jinga concentrou em suas mãos a escravaria que se produzia no amplo espaço que ia desde o norte do Matamba até o alto [do rio] Cuanza e se tornou a mais importante vendedora de escravos da região. E também a maior detentora de escravaria, reforçando com ela os seus exércitos, pois, ao que parece, ela e seus chefes guardavam para eles muito mais cativos do que vendiam. Foi assim que se criou […], com descendentes de gente desenraizada e de escravos, um novo povo, que seria conhecido, no século XVIII, como jingas.” (Costa e Silva, p. 442) A guerra contra os portugueses A guerra teve início em 1624 com o ataque noturno das tropas de Nzinga contra uma fortificação portuguesa que foi incendiada assim como vários barcos, suprimentos e víveres. Tomados de pânico, muitos soldados portugueses se afogaram. Outros foram feitos prisioneiros e levados por Nzinga. A partir de então, seguiu-se um longo período de confrontos armados, com vitórias e derrotas para ambos os lados, de recuos e alianças frágeis com chefes locais. Uma epidemia de varíola fez numerosas vítimas em ambos adversários e forçou interrupção dos combates. Os esforços de Nzinga para subtrair dos portugueses apoio de aliados africanos deram resultado: os lusitanos sequer tinham carregadores disponíveis para o transporte de bagagem. Chefes africanos que forneciam soldados às forças portuguesas eram implacavelmente perseguidos e assassinados. No alto das pedras de Pongo Andongo, Nzinga montou seu acampamento militar. Em fins de 1629, em um ataque vitorioso, os portugueses capturaram as irmãs de Nzinga, mas a rainha, mais uma vez, escapou com seus guerreiros. Montou acampamento à beira de uma profunda e difícil garganta onde Nzinga mandou colocar cordas sobre os declives escarpados para facilitar uma fuga de emergência. A entrada no acampamento fazia-se por uma ponte provisória que permitia a passagem de uma pessoa por vez. As irmãs de Nzinga foram levadas à Luanda e escoltadas até a casa do governador onde foram tratadas com todas as honras de sua posição real. Elas seriam usadas, por muitas vezes, para tentar extorquir concessões de Nzinga. A rainha não se deixou submeter, passou a recrutar mais homens para seu exército ao mesmo tempo que mantinha contatos diplomáticos com os portugueses pedindo a devolução das irmãs. Em 1641, Luanda caiu sob domínio dos holandeses que tomaram a ilha com numerosos homens: 3000 soldados, 900 marinheiros e 300 índios Tapuias do Brasil. Os portugueses, incapazes de deter os invasores, retiraram-se para a fortaleza de Massangano. Nzinga costurou uma aliança entre holandeses, congoleses e ambundos com o compromisso de empreender uma investida conjunta para exterminar os portugueses fortemente entrincheirados em Massangano. A rainha preparou-se para o combate em meio a um ensurdecedor bater de tambores de todas as direções. Foi uma batalha sangrenta onde morreram cerca de 2000 africanos. Apesar de derrotada, Nzinga mais uma vez conseguiu escapar. Suas fugas e aparente invulnerabilidade alimentavam a crença, entre os ambundos, que a rainha era imortal. Ainda rija e ativa aos 65 anos de idade, Nzinga causava terror entre portugueses e grupos africanos. Os jagas e Palmares Os combates terminavam sempre com prisioneiros africanos capturados por ambos os lados. Muitos dos cativos acabavam sendo enviados como escravos para o Brasil, especialmente para as lavouras canavieiras. A respeito disso, Glasgow levanta uma hipótese instigante: “Sabendo que muitos dos Bantos eram embarcados para Pernambuco durante o início do século XVII, parece ser razoável supor que muitos deles pudessem ter sido aliados ou partidários de Nzinga, ou que, esporadicamente tivessem ouvido falar de sua fama. Se tal fosse o caso, isso nos forneceria uma importante explicação para a persistência da imagem de Nzinga no Nordeste do Brasil e, possivelmente, para parte da resistência afro-brasileira em certas regiões.” (Glasgow, p. 141) Pode-se supor que entre os escravizados estavam guerreiros Jagas que tão logo chegavam a Pernambuco fugiam e se organizavam em quilombos reproduzindo seus ataques de guerrilha. Glasgow lembra que Palmares seguia a mesma estrutura dos quilombos Jagas inclusive a construção junto a escarpas e penhascos íngremes. Câmara Cascudo declara que “os escravos angolanos trouxeram consigo a odisseia guerreira da rainha negra de Matamba” (Cascudo, p. 32). Palmares resistiu por décadas às investidas dos portugueses, só sendo destruído em 1694. Nova etapa de negociações Ruínas de Massangano, local de muitos combates entre portugueses e as tropas de Nzinga. Massangano foi uma derrota militar e psicológica para Nzinga. Pouco depois, os holandeses foram expulsos de Angola (1648-1649) e a rainha perdeu aliados e armas de fogo. Mesmo não subjugada e mantendo a luta contra os portugueses, Nzinga tratou de flexibilizar seus métodos. Retornaram os encontros com mensageiros diplomáticos de ambos os lados. Interessava a Nzinga manter a soberania sobre Ndongo e Matamba e recuperar a irmã mais nova (ainda refém, enquanto a mais velha havia sido morta pelos portugueses). Os portugueses precisavam do auxílio da rainha para ter acesso aos mercados internos de escravos. Finalmente, em 1656 foi firmado o acordo de paz. A irmã de Nzinga foi devolvida contra o pagamento de 130 escravos. A rainha voltava à fé cristã e seria rebatizada. Os portugueses retiraram suas forças, inclusive de Ambaca devolvendo à rainha os territórios ocupados no Ndongo. Em troca, teriam o direito de comerciar livremente em seus domínios. E, o mais importante e ponto de honra de Nzinga: ela não pagaria qualquer tributo à Portugal e não seria colocada na condição de vassala. Sua soberania sobre Ndongo e Matamba estava garantida. Ao firmar-se o acordo, a rainha estava com 74 anos de idade. Mais sete e faleceria. Foi enterrada como Dona Ana, conforme os costumes cristãos, mas também como Nzinga, seguindo os ritos ambundos. Até na morte, a rainha negociou com o Deus cristão e os deuses africanos. Lembranças de Nzinga O vai e vem constante dos ataques, as batalhas inconclusas e os acordos feitos e desfeitos por Nzinga acabaram por associar seu nome à ideia de esperteza, agilidade, uma forma de enganar o adversário ou de aproveitar sua hesitação. Não por acaso, originou o termo “ginga” que, na capoeira, denomina o balanço do capoeirista que luta como se fosse uma dança. Ginga é, também, o nome do passe do jogador de futebol, do meneio de corpo do sambista e do rebolado da mulher. A lembrança de Nzinga está viva, também, em festas populares do Brasil, como as congadas. No século XIX, nas festividades da irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, os escravos escolhiam um Rei do Congo e uma Rainha Jinga ou Ginga. Em Angola, ela é heroína nacional e sua memória continua viva e venerada pelos angolanos. Vocabulário Ambundo ou Mbundu: maior grupo étnico de Angola, falante do quimbundo, língua que muito contribuiu na formação do léxico do português falado no Brasil. Jagas ou imbangalas: grupo multiétnico de guerreiros, itinerantes e belicosos, que, durante o século XVII, levaram ao terror o Reino do Congo, Ndongo, Matamba e outros Estados vizinhos com ataques de guerrilha para capturar escravos. Matamba: reino da Angola pré-colonial, século XVII, celebrizado pela resistência da rainha Nzinga e que se constituiu num dos maiores mercados de escravos de toda África. Ndongo ou Dongo: reino ambundo da Angola pré-colonial, limitado ao norte pelo Reino do Congo, a leste por Matamba, a oeste pelo Oceano Atlântico e ao sul pelos Estados ovimbundos. Fonte COSTA E SILVA, Alberto. A manilha e o libambo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. GLASGOW, Roy. Nzinga. São Paulo: Perspectiva, 1982. PACAVIRA, Manuel Pedro. Nzinga Mbandi. Cuba: União dos Escritores Angolanos, 1985. CASCUDO, Luís da Câmara. Made in Africa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.

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