8.8.10

Chávez e os ossos de Simon Bolívar

O presidente da Venezuela promoveu a exumação dos restos mortais que seriam do "Libertador". Entenda como isso pode afetar o conflito com a Colômbia
JOSÉ ANTONIO LIMA

  Reprodução
EL LIBERTADOR Chávez pode tentar reescrever a história para jogar fogo no conflito com a Colômbia

Na quinta-feira (22), o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, anunciou o rompimento das relações diplomáticas com a Colômbia. Foi a terceira vez que o líder venezuelano tomou a decisão, uma forma intempestiva de demonstrar seu descontentamento com as decisões tomadas em Bogotá. Nas próximas semanas ou meses, é muito provável que Chávez amplie as tensões entre os dois países promovendo uma revisão histórica de um assunto caro para ambos – a forma como morreu Simon Bolívar, conhecido como “El Libertador”, o homem que livrou Venezuela e Colômbia, entre outros, do jugo espanhol.

Chávez promoveu, na sexta-feira passada (16), a exumação do que seriam os restos mortais de Bolívar, morto em 1830. Por meio de seu perfil no Twitter, comemorou o ato. “Que momentos impressionantes vivemos essa noite. Vimos os restos do grande Bolívar”, escreveu Chávez no microblog. “Deus meu, Deus meu...Cristo meu, nosso Cristo, enquanto rezava em silêncio vendo aqueles ossos pensei em Ti! E como quis que chegasse e ordenasse como a Lázaro: ‘Levante, Simon, não é tempo de morrer”, afirmou. A empolgação de Chávez tem a ver com a influência que a figura histórica de Simon Bolívar tem para ele. O venezuelano sempre se refere à “revolução bolivariana” que estaria implantando no país e o termo está presente até mesmo na Alba, a Aliança Bolivariana para as Américas, fundada por Chávez para alinhar os países ideologicamente próximos.

Por trás da exumação e dos exames pode estar o oportunismo de Chávez. Provar que Bolívar não morreu vítima de tuberculose, mas que teria sido assassinado, talvez por integrantes da oligarquia colombiana. Oligarquia colombiana é o termo que Chávez usa atualmente para designar os aliados do atual presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, seu maior desafeto.

A tese do assassinato defendida por Chávez é parcialmente baseada em uma pesquisa feita pelo especialista em doenças infecciosas Paul Auwaerter, professor da universidade John Hopkins, de Baltimore (Estados Unidos). Em maio, ele apresentou uma palestra na qual defendeu a tese de que um envenenamento crônico por arsênio poderia ter causado a morte do “Libertador”. Em entrevista a ÉPOCA, Auwaerter afirma que sua pesquisa foi mal interpretada. “Eu acredito que o envenenamento crônico por arsênio contribuiu para os problemas de saúde [
de Bolívar], mas não tenho certeza de que foi a causa direta de sua morte”, afirmou. Segundo Auwaerter, o arsênio pode ter enfraquecido Bolívar, causado mudanças na pele e no cabelo, além de bronchiectasis, uma infecção no pulmão que atinge 15% das pessoas afetadas por envenenamento crônico de arsênio.Auwaerter diz que Bolívar pode ter sofrido um envenenamento crônico por ter consumido água contaminada com arsênio. “Muitas das campanhas militares foram realizadas em locais de mineração, onde a água estava contaminada” diz. Bolívar também teria passado muito tempo no Peru, onde múmias testadas tinham altos níveis de arsênio. Outra forma de contaminação era o consumo direto da substância. “Naquela época as pessoas achavam que o arsênio poderia ajudar em certos problemas de saúde, como infecções”, diz.


Para Auwaerter, a perda de peso e o estágio avançado de infecção pulmonar, dois quadros que a autópsia feita na época mostraram, não são compatíveis com um envenenamento agudo – aquele que um assassino buscaria. Para ele, sinais de uma morte aguda por arsênio seriam fortes dores de cabeça e vômitos, que não foram descritas na morte de Bolívar.

Resta saber se a opinião de Auwaerter será levada em conta pelos cientistas que estão analisando os restos mortais a mando de Chávez. O médico diz que foi procurado por membros da embaixada venezuelana nos Estados Unidos, mas que recusou o convite para participar da comissão de investigação em Caracas. “Eu tinha problemas de agenda e também não tinha certeza sobre o nível de independência que essa comissão teria”, diz. "E apesar de entender o quanto Bolívar é importante na América do Sul, acharia satisfatório ficar apenas com os dados históricos, sem precisar realizar essa exumação", diz. Para colombianos e venezuelanos, é uma preocupação saber que Hugo Chávez não pensa da mesma forma.
Fonte: Época

Como era um feudo na Idade Média?

As grandes propriedades rurais da época medieval eram divididas em três categorias de terras. A primeira - que englobava a maior parte do solo cultivável - era o chamado manso senhorial, onde tudo o que se produzia pertencia ao senhor feudal, o dono da fazenda. Os servos trabalhavam em todas as terras, mas só podiam tirar seu sustento dos minúsculos lotes que formavam a segunda categoria de terras, o manso servil. Por fim, os bosques, florestas e pântanos eram coletivos - ou quase isso: os animais maiores só podiam ser caçados pelos senhores. Apesar de costumarmos chamar esse tipo de propriedade de feudo, os especialistas alertam que esse não é o termo mais correto. "A palavra ‘feudo’, utilizada pela primeira vez no século 9, designava qualquer bem dado em troca de alguma outra coisa", diz a historiadora Yone de Carvalho, da PUC de São Paulo. Portanto, na Idade Média, feudos eram todos os bens e tributos trocados entre nobres - incluindo aí as propriedades, que eram mais conhecidas como senhorios. Esse sistema de trocas regulava todas as relações entre os nobres medievais. Por exemplo, um nobre ganhava o título de senhor quando dava um pedaço das suas terras a outro nobre, chamado de vassalo. Esse vassalo, por sua vez, podia cobrar uma espécie de aluguel sobre seu moinho, tornando-se senhor também. Em resumo, o dono de um "feudo" - ou melhor, senhorio - obedecia a seu senhor, mas também tinha seus vassalos. Para facilitar, o "feudo" que retratamos ao lado é o mais simples possível, com apenas um dono e seus servos.

Mergulhe nessa

Na livraria:

O Feudalismo - Paulo Miceli, Atual, 1994

Fazendão medieval

Nobres viviam em castelo, enquanto os servos se espremiam numa vila para até 60 famílias

DEUS É FIEL

Embora a casa senhorial geralmente tivesse sua própria capela, uma pequena igreja era construída nas imediações da vila. Uma parte das plantações, conhecida como "acre de Deus", era doada à Igreja pelo senhor feudal. Os servos dedicavam parte do seu tempo cultivando essas terras, além de repassar um décimo dos seus ganhos à paróquia

COZINHA EXTERNA

Geralmente, o forno era construído fora do castelo, para evitar incêndios. Era uma instalação grande, de pedra e tijolos, onde enormes espetos de ferro permitiam assar até mesmo um boi inteiro. Ao seu lado podiam existir prensas para produzir vinho, azeite ou farinha. Os servos pagavam uma taxa para usar essas instalações

CARROSSEL AGRÍCOLA

As plantações seguiam um sistema de rotação. Os campos aráveis eram divididos em três partes, mas, para não esgotar o solo, apenas duas eram cultivadas ao mesmo tempo. Depois da colheita, outra parte repousava e, assim, mantinha-se o cultivo ao longo do ano inteiro. Os servos passavam mais de metade da semana trabalhando nas terras do senhor ou da Igreja. No resto do tempo, eles cultivavam seus próprios lotes

FLORESTA ENCANTADA

Além de fornecer madeira para lenha e construções, o bosque era usado para caçadas. A princípio, essa era uma área comum, embora os animais maiores só pudessem ser abatidos pelo senhor feudal. Aos servos restavam os coelhos e esquilos. A colheita de frutas silvestres, castanhas e mel era livre, mas muitos evitavam entrar nos bosques, temendo o ataque de bruxas e figuras maléficas

VIDA EM SOCIEDADE

Localizada perto das lavouras e de uma fonte de água (rio ou lago), a vilareunia de 10 a 60 famílias. Os casebres tinham apenas um cômodo, sem chaminé ou janelas. As paredes eram feitas de barro reforçado com palha e a cobertura, de sapê. Nos arredores, pequenas hortas forneciam frutas e legumes. A fauna contava com galinhas, além de gatos e cães sem dono

LAR, RICO LAR

Na forma de um castelo ou simplesmente de um casarão de pedra, a residência senhorial abrigava o senhor feudal, sua família, seus empregados e encarregados da administração da propriedade. Em épocas de conflito, também servia de quartel para suas tropas. Os senhores mais abonados tinham várias casas espalhadas ao longo das suas terras - alguns chegavam a ter centenas delas

REI DO GADO

Tão importantes quanto as terras aráveis eram as campinas, onde pastavam os rebanhos de gado e ovelhas, além dos animais de carga e arado. Essas áreas podiam ser de uso comum, mas os cavalos e rebanhos do senhor feudal eram tratados pelos servos. Como não se produzia feno, muitos rebanhos eram dizimados durante os inversos mais rigorosos

EU BEBO SIM

Lagoas e riachos represados eram as fontes de água do senhorio, mas o medo de contaminação levava muitos a beber um tipo de cerveja da época. Parece justificativa de bêbado, mas não é. Primeiro, porque a cerveja era ruim e tinha baixo teor alcóolico. Segundo, porque era mesmo mais seguro que tomar a água medieval...


Fonte: Mundo Estranho

John Locke e a questão da Tolerância

VOLTAIRE SCHILLING
John Locke ( 1632-1704)  Foto: Getty Images

John Locke ( 1632-1704)
Foto: Getty Images

Desde a Reforma Protestante, desencadeada em 1517, a Cristandade se dividira em dois campos de ódio. Acusando uns aos outros de heréticos, católicos e as mais diversas seitas religiosas que desafiaram a autoridade de Roma, entraram em guerra permanente entre si ensangüentando a Europa ocidental. Como dar um basta naquele morticínio sem fim? Este foi o desafio que o filósofo John Locke enfrentou com sua proposta da tolerância.

O ódio teológico
Em seguida da insurgência teológica de Lutero, em 1517, foram os camponeses alemães quem se rebelaram na sangrenta Bauerkrieg, na Grande Guerra Camponesa de 1524-1526, depois os príncipes luteranos insurgiram-se contra o Império de Carlos V, e a Holanda calvinista pegou em armas contra o domínio católico (1568-1648).

A França, por sua vez, conheceu, a partir de 1562, oito guerras religiosas movidas pela Santa Liga contra a União Calvinista que tiveram seu ápice com a matança da Noite de São Bartolomeu (1572), sem omitir-se a instalação do Santo Oficio encarregado pelo Papado de dar combate às heresias nos reinos católicos. Até que a Europa inteira, dividia em dois campos hostis, convulsionou-se durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648).

Entre 1642 e 1658 tocou à Inglaterra padecer com a Revolução Puritana e com a ditadura de Cromwell. Quando um príncipe se proclamava por uma das crenças, considerava inimigo do estado quem não o seguisse. Milhares de europeus pereceram devido ao ódio teológico que separou católicos dos protestantes, que inclusive alcançou as terras do Novo Mundo.

Em todas aquelas ocasiões, as partes em conflito consideravam-se as verdadeiras seguidoras de Deus, enquanto que seus inimigos certamente eram guiados pelo anticristo, senão que próprio Satanás.

Filosofia contra o fanatismo
A Reforma e Contra-Reforma por mais de um século dilaceraram a Europa Ocidental fazendo com que os propósitos generosos e pacíficos do cristianismo se transformassem em letra morta. Onde os protestantes se afirmavam, baniam os católicos e vice versa. Assim como por todos os lados implantou-se férrea censura e perseguição aos livre-pensadores.

Os pactos acertados tinham fôlego curto - como foi o caso do Édito de Tolerância de Catarina de Médici, a rainha da França, assinado em 1562. Não se dava abrigo a ninguém. Estavam seguros os fanáticos, ironizou Voltaire, ¿de alcançar a glória divina quando vos corta o pescoço¿ (in Dicionário Filosófico, fanatismo).

A desgraça da vida devota era de rapidamente deixava-se dominar pelo faccionismo cego, por monges e pastores extremistas que injetavam aversão e intolerância nos seus seguidores. O remédio estava na filosofia, visto que esta deixava a 'alma tranqüila', expulsando de si as crenças radicais e insanas, abrindo espaço para soluções razoáveis e realistas que permitiriam o bom convívio entre os homens.

Os humanistas
Naquele mesmo século em que a Reforma se expandira, diversos humanistas já haviam se manifestado contra o predomínio de uma só religião. O francês Sebastian Castellio, um teólogo erudito seguidor ainda que crítico de Calvino, no seu tratado publicado em latim
De haereticis , um sint persequendi, 'Sobre os hereges: se devem ou não ser perseguidos', em 1554, afirmou que o importante era levar uma 'vida genuinamente cristã', e 'de viver de um modo santo, justo e religioso', fazendo com que a disputas doutrinarias não tivessem a importância que se outorgavam. Do mesmo modo que aceitamos uma boa moeda não nos importando com a imagem nela cunhada, argumentou Castellio, por igual existe a 'boa moeda da religião' que circula em todos os lugares, 'sendo aceita por todos os homens racionais', servindo de lastro a todas as divergências de credo que possam se suceder.

Se a crença é verdadeira, nada deve impedir a sua prática. De qualquer maneira era preciso evitar a 'coação das consciências' e a atitude de 'lutar e matar-se uns aos outros', conclamando a que católicos e protestantes vivem lado a lado em harmonia - esta era a única forma de ¿evitar a ruína da república'.

A ele juntou-se Jean Bodin, o mais poderoso pensador político da França no século XVI, que também se posicionou a favor da liberdade religiosa. As questões de fé não se equivaliam às da ciência, consequentemente era um absurdo acreditar-se numa 'verdadeira religião'.

Não há certeza
No seu tratado intitulado Les Six Livres de la Republique, 'Os Seis livros da republica', de 1576, o famoso jurista esclarece que nenhum dogma religioso tem fundamentos que não possam ser colocados em dúvida, tanto que assim que a história da religião demonstrava que os profetas e lideres religiosos, em todas as épocas, mantinham-se em desacordo sobre quase tudo e que nenhum deles podia cabalmente defender a 'verdadeira religião'.

Por conseguinte, 'era mais seguro acatar todas as religiões de que escolher uma entre muitas' e que evidentemente a uniformidade da fé, além de ser imoral, não podia ser imposta a força ou por qualquer outro recurso violento.

Os que clamavam por 'uma fé, uma lei, um rei', eram os responsáveis pela guerra civil intermitente, visto que era uma loucura esperar haver paz num reino dividido entre súditos que praticavam religiões diferentes. Pelo bem da tranqüilidade coletiva, tinham sim é que acostumar-se em conviver com aqueles que obedeciam a outro catecismo. (*)

(*) as citações foram extraídas do livro As fundações do pensamento político moderno, de Quentin Skinner, 1996, págs. 517-523).

A carta de John Locke
Em seu exílio na Holanda, onde se refugio em 1683, o filósofo inglês John Locke fizera algumas importantes amizades. Foi com desses amigos, chamado Phillip van Limborch, que ele se correspondeu, discorrendo sobre a questão da tolerância. Sem que Locke autorizasse, Limborch publicou a missiva com o titulo de Letter concerning on Tolerance, ou Carta sobre a Tolerância, aparecida em Londres em 1689, ano da Gloriosa Revolução.

A solução do problema para Locke exigia a necessária separação dos assuntos do Estado daqueles da Igreja. Enquanto os interesses de um se misturavam com os do outro não haveria progresso em direção à tolerância. Deveria haver um apartamento radical entre a política (ao encargo do rei) e a religião (sob auspício do sacerdote). Deste modo ele alinhou-se à corrente dos estatocratas, cujo maior expoente na Idade Média fora Marsílio de Pádua.

Estado e Igreja
O Estado, para Locke, nasceu da necessidade do Homem obedecer a Lei Natural, com a função de assegurar a integridade da sua vida, do seu corpo, liberdade e bens. Tem como objetivo conservar e promover o patrimônio material. Para tanto, o Magistrado dispõe de força pública, agindo por coação ou sansões, apoiado na lei sustentada pela autoridade para garantir a paz e a integridade de cada um.

A Igreja, por sua vez, é de outra natureza, visto que resulta de uma associação livre e voluntária: uma societas spontanea, sem obrigações com a Lei Natural. Nasce da afirmação pública da fé, de servir e honrar a Deus, formada por meio de um livre acordo.

Dirige-se exclusivamente às almas visando sua salvação eterna. As suas verdadeiras armas são o direito de discutir, de argumentar e de exortar. A sansão dela é excluir os irredutíveis, os que não desejam seguir as suas predigas nem obedecer a sua liturgia ou catecismo. Assim sendo, Estado e Igreja são coisa distintas - voltadas uma para as coisas terrestres e a outra para as celestiais -, e que não deveriam ter laço algum em comum, sendo que a tolerância deveria ser a essência da Igreja visto que ela não tem poder de coação.

Repugnava a Locke a Igreja recorrer à coerção, pois a potência e eficácia da autentica religião era senão que a fé. A conversão se dá não pela espada mas pelo anúncio da paz e do amor que advém dos Evangelhos, pois a verdade somente se impõe por meios espirituais e nenhum outro mais.

Os assuntos da Igreja, seus dogmas, seu culto, as assembléias religiosas ou concílios, não dizem respeito ao Magistrado. Não é assunto da jurisdição dele, sendo que nenhum decreto humano pode afetar o seu caráter sagrado. Mesmo havendo esta total separação, o filósofo reconhece que eventualmente, ainda que de boa fé, decisões e medidas políticas terminam por afetar e interferir nos assuntos da religião.

Insiste, todavia, em afirmar que Estado e Igreja formam universos distintos e separados, sendo que era muito bom para a sociedade como um todo a diversidade de igrejas e não sua uniformidade como Thomas Hobbes, por exemplo, defendia.

Excluídos da Tolerância
Locke, entretanto, não contempla a todos em sua adesão à tolerância. Excluía dela os católicos ('papistas' como os ingleses os chamavam) com o argumento 'nacionalista' de que eles obedeciam a uma autoridade estrangeira, ao Papa Romano, e que, portanto, poderiam vir a desconsiderar o soberano invocando outra autoridade, fazendo assim periclitar as instituições do reino em que viviam.

Também exclui os ateus, porque ao negarem a existência de um poder divino, eram incapazes de firmar juramento ou assegurar um contrato, ficando assim á margem de toda a vida civil. (*)

Para Locke, tolerância não era sinônimo de licença, aplicando-se no exercício da liberdade desde que não fosse contra a existência da comunidade política e da paz civil. Foram basicamente suas ideias que conduziram o Parlamento de Londres a aprovar o Ato da Tolerância, de 1689, autorizando a liberdade de culto aos não-conformistas, mesmo que com uma série de reparos.

Ainda que ele fizesse objeções a estender a tolerância aos católicos e aos ateus a sua verdadeira contribuição às constituições políticas futuras foi a ênfase que ele deu na separação dos assuntos seculares dos religiosos, abrindo caminho para a 'maravilha política' do século XVIII, que foi instauração do Estado Secular e o direito à Liberdade Religiosa (primeiro nos Estados Unidos da América, pela constituição de 1787, e , em seguida na França pela Constituição de 1791).

(*) A mesma posição que Jean-Jacques Rousseau iria mais tarde defender nas 'A Profissão de fé de um Vigário Saboiano'(in Emilio, ou da Educação, 1762).

Bibliografia
Locke, John - Carta sobre a tolerância. Lisboa: Edições 70, 1987.
Michaud, Ives - Locke. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1991.
Polin. Raymond - Introdução à Carta sobre a Tolerância de John Locke. Lisboa: Edições 70, 1987.
Skinner, Quentin - As fundações do pensamento político moderno. São Paulo: Cia das Letras, 1996.
Trevelyan. G.M. - La revolución inglesa, 1688-1689. México: Fondo de Cultura Económica,1969.
Voltaire - Dictionaire Philosophique, Paris: Garnier-Flamarion, 1984.

Fonte: TERRA NETWORKS BRASIL S.A

Fóssil de réptil com dentes similares aos de mamíferos é achado na África

Ossos foram encontrados na região do Lago Rukwa, na Tanzânia.
Exemplar do 'Pakasuchus' teria vivido até 110 milhões de anos atrás.

Do G1, em São Paulo

Os ossos de um antigo crocodilo foram encontrados na Tanzânia, leste da África, e geraram discussão sobre a vida animal há 100 milhões de anosna África Subsaariana, já que o animal possui arcada dentária similar a de mamíferos.

Achado na região do Lago Rukwa, o fóssil pertence a uma nova espécie conhecida comoPakasuchus, e possui aparato dentário para processar comida, de forma parecida como o fazem mamíferos carnívoros.

Esqueleto do 'Pakasuchus kapilimai', visto de perfil. A cauda do animal, à esquerda da foto, se prolonga até o crânio do animal, no topo da imagem.Esqueleto do 'Pakasuchus kapilimai', visto de perfil. A cauda do animal, à esquerda da foto, se prolonga até o crânio do animal, no topo da imagem. (Foto: Patrick O'Connor, Ohio University)

A descoberta foi divulgada nesta quarta-feira (4) e integra a edição desta semana da revista científica Nature. Segundo os especialistas, o animal teria um crânio com o tamanho de um palmo de mão e teria sido comum entre 110 milhões e 80 milhões de anos antes dos tempos atuais.

A nova espécie não guarda muita semelhança com os crocodilos atuais, mas representa um segmento bem sucedido da família crocodylidae que viveu durante a Era Mezozoica, faixa de tempo que compreende três períodos e vai de 265 milhões a 65 milhões de anos atrás.

Responsável pela equipe responsável pela descoberta, o professor Patrick O'Connor, da Universidade Ohio, em Athens, nos Estados Unidos, iniciou a pesquisa sobre crocodilosParasuchus em 2008. O autor principal do estudo publicado na Nature já encontrou outros sete resquícios da espécie no sudoeste da Tanzânia.

Reprodução artística do réptil 'Parasuchus', que teria vivido entre 110 e 80 milhões de anos atrás.Reprodução artística do réptil 'Parasuchus', que teria vivido entre 110 e 80 milhões de anos atrás. (Foto: Mark Witton, University of Portsmouth)

A fileira com dentes molares intriga os especialistas. Geralmente, crododilos do período Cretáceo - uma das divisões da Era Mezozoica, entre 145 milhões e 65 milhões de anos atrás - apresentam dentes simples, cônicos, usados para matar e cortar grandes nacos da presa.

Fonte: G1