25.10.10

Santos Dumont ou irmãos Wright: Quem é o pai?

Os americanos juram que foram os irmãos Wright e já convenceram quase todo o mundo disso. No Brasil, ainda reunimos esforços para mostrar que Santos Dumont é quem merece a fama. Afinal, quem inventou o avião?

por Giba Stam

As invenções que mudam o curso da história não costumam surgir da noite para o dia. São resultado do trabalho árduo de diversos inventores e cientistas, que preparam o terreno para uma descoberta revolucionária. Entretanto, o crédito costuma ir para apenas uma pessoa, que por inventividade, gênio ou até por sorte, acaba dando o passo decisivo. A ele ou ela estão garantidas todas as glórias. Às vezes, porém, é difícil determinar quem merece ter seu nome imortalizado. É o caso da disputa entreAlberto Santos Dumont e os irmãos Wilbur e Orville Wright. Santos Dumont é louvado como Pai daAviação no Brasil. No resto do planeta, ele é um ilustre desconhecido: o título de desbravadores dos céus cabe aos Wright. Nos Estados Unidos, terra natal dos dois irmãos, festeja-se este ano o centenário do primeiro vôo da dupla, ocorrido em 1903. Aqui, a comemoração será em 2006, quando vão se completar 100 anos desde que Santos Dumont voou com seu 14 Bis.

Mas, afinal, qual das datas está correta? Quem foi o inventor do avião?

Para tentar responder essas perguntas, é preciso voltar à virada do século 19 para o 20. “Dois grandes desafios se apresentavam com relação à conquista do ar: a dirigibilidade dos balões (ou seja, a capacidade de controlá-los) e o vôo com aparelhos mais pesados do que o ar”, afirma o físico Henrique Lins de Barros, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, em São Paulo. A partir de 1890, as experiências se multiplicaram em ambas as frentes. Havia muita expectativa, o problema é que não existia uma definição para o vôo controlado, nem do balão nem do “aparelho mais pesado do que ar”.

Em 1898, foi criado o Aeroclube da França. Com o intuito de estimular a competição e ao mesmo tempo estabelecer marcos históricos definitivos, o Aeroclube criou prêmios que seguiam critérios básicos. Para a dirigibilidade dos balões, foi definido que a experiência seria pública, realizada diante de uma comissão oficial e com data marcada, para evitar que fatores como condições climáticas favorecessem algum concorrente. “Até então, a prática comum era levar um cientista de renome para observar a demonstração e escrever um parecer, mas os relatos eram subjetivos e carregados de emoção”, diz Henrique. Em outubro de 1901, o Prêmio Deutsch – oferecido pelo magnata do petróleo Henri Deutsch de la Meurthe, no valor de 50 mil francos – foi arrematado por Santos Dumont, após contornar a Torre Eiffel a bordo de um dirigível. Sua principal inovação foi acoplar um motor de combustão interna movido a gasolina (que depois ele usaria nos aviões) a um balão de hidrogênio.

Um a zero. No entanto, definir o que seria um vôo de avião seria um desafio bem maior. O assunto era polêmico, e muitas pessoas sequer acreditavam na possibilidade de algo mais pesado do que o ar levantar vôo. A descrença era comum até a célebres cientistas. Em 1895, o físico e matemático britânico Lord Kelvin declarara que “máquinas voadoras mais pesadas que o ar são impossíveis”. Aciência, porém, avança contrariando o impossível, e homens cheios de imaginação se lançaram ao sonho de voar. O francês Clément Ader montou um aeroplano em forma de morcego, que chegou a perder contato com o chão, sem ganhar, no entanto, altitude. Samuel Langley, dos EUA, conseguiu fazer um pequeno modelo não-tripulado voar. Entretanto, era Otto Lilienthal quem causava sensação na crítica especializada e de longe se tornara o preferido do público. Voando em planadores inspirados nos pássaros, o alemão mostrou que um vôo eficiente era possível.

Para o Aeroclube francês, no entanto, planar não era o mesmo que voar. Ainda se discutiam os critérios para determinar o prêmio do primeiro vôo de aparelho mais pesado do que o ar, quando, em 1903, chegou à Europa a notícia de que os Wright haviam realizado os primeiros vôos controlados em um avião. Porém, a única evidência era um telegrama escrito pelos próprios irmãos, contando terem voado contra ventos de cerca de 40 quilômetros por hora. Nos dois anos seguintes, os rumores eram de que eles haviam percorrido distâncias cada vez maiores, chegando a impressionantes 39 quilômetros. “Mas os irmãos não divulgavam uma foto sequer, e não permitiam que testemunhas neutras acompanhassem o experimento”, diz Marcos Danhoni Neves, físico da Universidade Estadual de Maringá. Os franceses ignoraram o feito, por falta de provas concretas e também devido ao vento forte, que ajuda o avião a decolar.

Estabeleceu-se que o vôo deveria ser feito com tempo calmo, e que o aparelho fosse capaz de alçar vôosem ajuda de elementos externos (o vento ou uma catapulta, por exemplo). Como no caso dos balões, a façanha deveria ser acompanhada por uma comissão oficial. E foi assim que, no dia 23 de outubro de 1906, foi realizado o primeiro vôo homologado da história. Nos campos de Bagatelle, em Paris, na presença de juízes e de uma multidão de curiosos, Santos Dumont pilotou seu 14 Bis por exatos 60 metros, a uma altura entre 2 e 3 metros. “O homem conquistou o ar!”, gritavam as pessoas em terra firme. Pelo feito, o brasileiro recebeu prêmio de 3 mil francos oferecido por Ernest Archdeacon, um dos fundadores do Aeroclube. Menos de um mês depois, em 12 de novembro, ele voou ainda mais longe, 220 metros (a 6 metros de altura), batendo o próprio recorde.

Enquanto isso, os irmãos Wright mantinham segredo sobre sua invenção, apesar dos convites para que fossem demonstrá-la na Europa. “Um dos motivos pelos quais os americanos se recusavam a participar dos eventos franceses era que seu avião, para decolar, usava uma catapulta, com um peso de 700 quilos que descia de uma torre e impulsionava o aparelho para o vôo, algo totalmente fora do parâmetro dos europeus”, afirma Marcos. Outra razão para mistério era o medo de que sua idéia fosse roubada. Em 1904, a Feira Mundial de Saint Louis ofereceu prêmio para quem conseguisse voar, mas eles não compareceram. Em 1905 e 1906, tentaram vender o projeto da máquina voadora para o Ministério da Guerra dos EUA e depois para o governo francês, mas recusaram-se a fazer demonstrações e por isso o negócio não foi para a frente.

A conduta dos Wright era bem diferente da de Santos Dumont, que publicava seus projetos. E ao contrário dos americanos, que consideravam sua invenção relativamente acabada, o brasileiro estava sempre testando novas engenhocas. Antes do 14 Bis, ele se esforçara para aperfeiçoar o dirigível. Até 1905, construiu mais oito aparelhos do tipo, sem contar um helicóptero que não decolou e um aeroplano que foi abandonado no meio. Só então voltou-se para o desenvolvimento de uma máquina “mais pesada do que o ar”. O próprio Santos Dumont explicou mais tarde a razão da demora: “É que o inventor, como a natureza de Lineu, não faz saltos: progride de manso, evolui”. Ele sabia que a decolagem dependia de um motor potente, e enquanto não havia um, seguia explorando os balões.

Curiosamente, o primeiro projeto de Santos Dumont era parecido com um avião moderno, mas diferente dos aviões da época. Porém, devido às críticas, ele abandonou a idéia. A cautela estava ligada também a um evento que abalou os pioneiros da aviação: a morte de Otto Lilienthal, cujo avião se espatifou em 1896. “O episódio lançou uma onda de medo entre os inventores, que resolveram adotar a configuração chamada canard”, conta Henrique. Canard quer dizer “pato” em francês e refere-se à posição das asas na parte de trás e o bico na frente. Nessa configuração, o profundor – leme horizontal que ajuda a erguer o nariz da aeronave para que ela possa levantar vôo – fica na frente, enquanto nos aviões atuais é localizado na traseira. Os Wright foram os principais divulgadores do canard e influenciaram o próprio Santos Dumont, que adotou a configuração no 14 Bis.

Em 1908, os Wright finalmente levaram o Flyer para a Europa e apresentaram pela primeira vez as fotos do vôo de 1903. “A essa altura, todos estavam interessados nos recordes de distância, e os Wright, que de fato tinham desenvolvido melhor a parte de aerodinâmica e controle no ar, sabiam que, nesse ponto, poderiam se sair bem”, diz Henrique. Os americanos causaram sensação no Velho Mundo com vôos de mais de 100 quilômetros. Tornada pública, sua invenção ajudou a impulsionar o desenvolvimento da aviação, que atingiria um marco com a travessia do Canal da Mancha (entre França e Inglaterra) pelo francês Louis Blériot, em 1909.

Na comparação, do ponto de vista aerodinâmico, o avião brasileiro sai perdendo. Baseado no conceito das células de Hargrave (caixotes vazados como em pipas japonesas), o 14 Bis acabou ultrapassado. Porém, trouxe inovações importantes: o trem de pouso e os ailerons, que permitem a inclinação para os lados, conferindo maior estabilidade. E há quem defenda que a aeronave dos Wright sequer possa ser considerada um avião. “O que eles inventaram não passa de um planador motorizado. Muita gente se surpreende ao saber sobre a catapulta”, diz Marcos, que dá palestras sobre o tema.

A polêmica está cercada de ufanismo, e é provável que jamais possamos dizer com certeza quem foi o primeiro homem a voar. Porém, há um fato curioso. Quase 100 anos depois do feito de Santos Dumont, o 14 Bis voltou a ganhar os céus. Ou quase: trata-se de uma réplica, construída pelo coronel paulista Danilo Flôres Fuchs, que pilotou seu avião diversas vezes, inclusive uma em São Paulo, em 1989, e outra em Paris, em 1991. “Ele é bastante estável e é possível atingir distâncias maiores de 1 quilômetro”, diz Fuchs. Nos EUA, sonha-se fazer o mesmo com o Flyer. Existe até uma fundação, a Discovery of Flight Foundation, que se dedica a estudar a façanha dos Wright, construindo réplicas e tentando fazê-las voar. Até hoje, não conseguiram.

Para o alto e avante

O avião não foi inventado da noite para o dia. Foi preciso que homens de coragem (sobretudo para testarem suas engenhocas) e que acreditavam no sonho de voar dessem asas à imaginação

Dirigível Nº 6

19/10/1901 – Santos Dumont faz o primeiro vôo controlado com um dirigível, dando a volta na Torre Eiffel e retornando ao ponto inicial, percorrendo 11 quilômetros em pouco mais de meia hora

Flyer

17/12/1903 – Orville e Wilbur Wright fazem o primeiro vôo controlado de um avião propulsionado com motor, percorrendo 852 pés com o Flyer. Mas o avião precisava de uma catapulta para decolagem

14 Bis

23/10/1906 – o brasileiro decola com o 14 Bis no primeiro vôo homologado da história. Ele percorre 60 metros, a 3 metros de altura. Em 12/11, ele bate seu próprio recorde, voando 220 metros, a 6 de altura

Demoiselle

17/11/1907 – Dumont voa com o Demoiselle. Um dos modelos mais seguros da época, foi produzido por diversas fábricas e virou destaque da Primeira Exposição Aeronáutica, em Paris

Voisin

13/1/1908 – Com o Voisin, Henri Farman bate o terceiro recorde da história da aviação, fazendo um percurso de 1 quilômetro. Alguns meses mais tarde, bateu sua própria marca e chegou a 2 quilômetros

Flyer

31/12/1908 – Os Wright voam 124 quilômetros e estabelecem um recorde esmagador. Apesar do desempenho no ar, o modelo ainda usava a catapulta para conseguir sair do chão

Bleriot

25/7/1909 – Bleriot atravessa o Canal da Mancha em seu monoplano Nº XI, mostrando que era possível transpor as fronteiras naturais entre os países. É o início da era moderna da aviação

Saiba mais

Na Livraria:

Santos-Dumont e a invenção do vôo, de Henrique Lins, Jorge Zahar

A trajetória do aviador brasileiro é contada por meio dos relatos de pessoas que conviveram com ele, descrevendo o contexto de acontecimentos e idéias que criaram as máquinas de voar. O livro inclui o fac-símile de A Conquista do Ar, texto do próprio Santos Dumont.

Na internet:

www.cabangu.com.br/pai_da_aviacao/

www.sdnet.com.br/santos-dumont-o-filme/prod_01.htm

www.first-to-fly.com

Fonte: Aventuras na História

Santos Dumont: vida e morte de um bon vivant

Na virada dos séculos XIX e XX, Santos Dumont era uma celebridade. E, a exemplo de muitas pessoas famosas, sua vida pessoal era - e é até hoje - alvo de controvérsias

por Luiz Guedes Jr.

No ano em que se comemora o centenário do maior feito de um brasileiro para o mundo, o vôo inaugural do 14 Bis, em 23 de outubro de 1906, Alberto Santos Dumont permanece um estranho entre seus conterrâneos. Muito antes de Pelé e Ayrton Senna, ele foi o primeiro a conseguir projeção internacional empunhando a bandeira verde e amarela. Muitos conhecem a saga do “pai da aviação”, contada e recontada nos livros escolares. Mas pouca gente sabe realmente quem foi o personagem que se aventurou a desbravar os céus. Que tipo de homem se escondia atrás dos longos bigodes, das vestes impecáveis e do inseparável chapéu panamá?

As polêmicas que cercam a vida do inventor, comumente omitidas do grande público, são reveladas nas biografias disponíveis em diversas línguas. Especulam, principalmente, sobre a sexualidade, a fama de mau perdedor e a doença que o levou ao suicídio. Mas esses são apenas pequenos tópicos de uma vida tão rica em detalhes quanto a trajetória que levou o homem a construir máquinas voadoras. Santos Dumont voou muito além do que contam os livros de colégio.

Excentricidade

Na virada dos séculos 19 e 20, a sociedade mudava radicalmente com inovações como a luz elétrica, o automóvel e o telefone. Em meio ao turbilhão de novidades, um intrépido brasileiro agitava a sociedade parisiense com recepções nada comuns: ao serem levados pelo mordomo à sala de jantar, os convidados deparavam com mesas e cadeiras de mais de dois metros de altura. Entre os presentes estavam a princesa Isabel, filha de D.Pedro II, último imperador brasileiro, o joalheiro Louis Cartier, o arquiteto Gustave Eiffel, projetista da torre que leva seu nome, alguns representantes da família Rothschild, a imperatriz Eugênia, viúva reclusa de Napoleão III, alguns duques, barões e outros membros da alta sociedade européia. Todos achavam divertido subir numa escada portátil para participar de mais um dos famosos “jantares aéreos”, como ficaram conhecidos os eventos promovidos por Santos Dumont em seu apartamento na Champs-Elysées.

Questionado sobre o motivo desses jantares, o anfitrião sempre respondia: “É para que todos imaginem como seria a vida numa máquina voadora”. Alguns convidados riam. Afinal, em 1890, as máquinas voadoras ainda não existiam. Santos Dumont, em tom mais sério, retrucava que em pouco tempo elas dominariam os céus. “Estarão em todas as partes”, dizia.

As declarações do brasileiro soavam devaneios de um desajustado, mas tinham uma explicação: sua infância fora cercada por obras de Júlio Verne, nas quais se destacava a imagem de um céu povoado de máquinas voadoras. Em 1901, quando realizou a ousada circunavegação da Torre Eiffel, recebeu diversos telegramas de congratulações e medalhas de louvor e coragem enviadas por diferentes chefes de Estado. Mas duas correspondências emocionaram-no em especial: a primeira foi a carta do próprio Júlio Verne; a outra, enviada por Pedro, amigo da época de criança: “Você lembra, meu caro Alberto, do tempo em que brincávamos de perguntar ‘passarinho voa?’, ‘urubu voa?’, ‘homem voa?’, e você sempre levantava o dedo afirmando que o homem voava? A recordação dessa época me veio ao espírito no dia em que chegou ao Rio de Janeiro a notícia do seu triunfo. O homem voa, meu caro! Você tinha razão em levantar o dedo. E não tinha mesmo que pagar a prenda”.

A brincadeira à qual se referia o colega de infância era uma das preferidas de Santos Dumont e dos irmãos na fazenda onde nasceu, em 20 de julho de 1873, em Minas Gerais. Os pais do inventor, Henrique Dumont e Francisca de Paula Santos, foram os primeiros brasileiros a viver no distrito de João Aires, na minúscula cidade de Cabangu – hoje rebatizada como Santos Dumont.

Aos 6 anos, Alberto mudou-se com a família para as terras férteis de São Paulo, onde seu pai, apelidado de “rei do café” pela imprensa, comprou uma propriedade tão extensa que foi possível construir nela uma estrada de ferro com 96 quilômetros de extensão. Nessa época, além de mergulhar nos livros de ficção, Santos Dumont tinha como passatempo predileto dirigir as enormes locomotivas, além de consertar todo o maquinário usado na produção do café. Henrique apreciava a fascinação do sexto de seus oito filhos e o caçula entre os três homens, mas não compreendia por que o menino não se interessava por outras atividades masculinas, como caçar ou mesmo brigar com os irmãos.

A vida em Paris

O mundo de Santos Dumont ganhou novas dimensões quando ele tinha 18 anos. Seu pai sofrera uma queda de cavalo e acabou hemiplégico aos 60 anos. Sem chances de cura no Brasil, vendeu os negócios da família por 6 milhões de dólares (uma fortuna hoje, e ainda maior naquele tempo) e partiu para a Europa com a esposa e o jovem Alberto. A esperança de cura estava em Paris, onde Louis Pasteur revolucionava a medicina com suas vacinas.

As descobertas na capital francesa encantaram o jovem brasileiro, em especial os motores de combustão interna, que ele jamais havia visto. Em visita à fábrica da Peugeot, comprou um dos dois únicos automóveis produzidos pela marca naquele ano de 1891. Poucos meses depois, após seu pai perceber que a medicina européia não lhe restauraria a saúde, voltou com a família para o Brasil, trazendo a bordo do navio o estranho veículo de apenas 3,5 cv (capaz de atingir 16 quilômetros por hora). Ao dirigir a novidade nas ruas de São Paulo, Santos Dumont não só espantou os pedestres, mas também ficou conhecido como a primeira pessoa a circular de automóvel em toda a América do Sul.

Sem esperanças de cura, Henrique teve uma longa conversa com o filho. Disse-lhe que não precisaria se preocupar em ganhar dinheiro e adiantou-lhe a herança de meio milhão de dólares. Depois, instruiu-o a voltar a Paris, onde parecia ter se adaptado muito bem. Santos Dumont seguiu o conselho. Chegou à Cidade Luz no verão de 1892, e seu pai morreu em agosto. Tímido para freqüentar qualquer universidade, recorreu a um professor particular, que desenvolveu um intenso programa de estudos englobando física, química, engenharia mecânica e elétrica. Ocasionalmente, visitava os primos na Inglaterra, onde aproveitava para assistir às aulas na Universidade de Bristol. Como era aluno ouvinte, não corria o risco de ser interrogado em público.

O estilo Dumont

Somente após cinco anos como “cidadão francês”, o brasileiro iniciou suas experiências com balões. Naquela época, a aeronáutica funcionava como um clube de cavalheiros, e Santos Dumont foi imediatamente aceito por sua origem abastada. Em pouco tempo, seus inventos ganharam espaço na imprensa local e internacional, e o brasileiro tornou-se coqueluche na alta sociedade européia. Foi talvez o homem mais prestigiado e um dos mais noticiados em todo o mundo no início do século 20. E sua imagem elegante estampava caixas de charutos, fósforos e até de aparelhos de jantares. Estilistas prosperaram com réplicas de seu chapéu e dos colarinhos altos e duros, que ele mesmo desenhara de modo a alongar seu pescoço e disfarçar a baixa estatura (cerca de 1,60 metro). Outros artifícios com essa finalidade eram os ternos sempre escuros com listras verticais, os sapatos com saltos e o tradicional chapéu panamá.

Apesar dos recursos para parecer mais alto, os jornais lhe deram o apelido carinhoso de “petit Santos”, o que muito o incomodava, embora continuasse a ditar moda: fabricantes de brinquedos produziam réplicas em miniatura de seus balões, que também inspiravam os bolos feitos pelos confeiteiros, sempre em forma de charuto e com as cores da bandeira brasileira. Em outra ocasião, reclamou com o amigo Louis Cartier, cujo avô fundara a Maison Cartier havia meio século, que era muito perigoso tirar as mãos dos comandos em pleno vôo e levá-las ao relógio de bolso. Cartier criou para Santos Dumont um dos primeiros relógios de pulso de uso civil, que imediatamente tornou-se acessório indispensável para parisienses mais sofisticados.

Além do estilo copiado por homens e mulheres, o aviador invariavelmente ganhava as manchetes devido ao seu temperamento difícil. Meteu-se em inúmeras brigas com o Aeroclube de Paris, quase sempre por não concordar com as regras dos concursos. Santos Dumont não enxergava a aviação como atividade científica. Para ele, voar era um esporte, um desafio entre homens para ver quem vencia. E seu espírito excessivamente competitivo não lhe permitia sair derrotado. “Não me importo com o dinheiro das competições”, dizia ele, que doava aos pobres os valores conquistados em campeonatos. “Mas o prêmio atrai um número maior de rivais para que eu possa mostrar minha coragem. Essa é a importância da competi&cce

Fonte: Aventuras na História

Como Fazíamos Sem Cemitério

Credo! A gente rezava em cima dos defuntos

por Lívia Lombardo

A vida sem cemitério não era, digamos, muito salubre. Nós, por exemplo, rezávamos em cima dos cadáveres. É sério. Até meados do século 19, o costume era enterrar os mortos dentro das igrejas. Na maior parte das vezes, nem caixão era usado. Os corpos eram sepultados na terra suja e repleta de ossos de defuntos antigos. Não é difícil imaginar a quantidade de doenças que a prática ocasionava. Segundo o escritor Francisco de Assis Vieira Bueno, em Vida Cotidiana em São Paulo no Século XIX, um ar maléfico enchia as igrejas e expunha as mulheres, que ficavam horas sentadas lá dentro, a todo tipo de infecção.

São Paulo só acabou com esse hábito nada higiênico em 1850, quando a Câmara decidiu que a cidade deveria construir um cemitério. Na Europa, já havia locais próprios para enterrar os defuntos no século 16. O cemitério dos ricos ficava próximo das igrejas. O dos pobres era uma vala comum, afastado.

Mas muito tempo antes de existirem igrejas o homem já tinha o costume de enterrar seus mortos. O primeiro rito funerário de que se tem notícia aconteceu há 300 mil anos, na atual Espanha – foi quando o homem tomou conhecimento da inevitabilidade da morte. O rito, coletivo, enterrou 32 corpos num poço dentro de uma caverna, com 14 metros de profundidade. O local deve ter sido escolhido para garantir que os defuntos ficariam a salvo de animais carniceiros.

A partir daí, cada civilização passou a enterrar seus mortos de acordo com a cultura e a religião. Os egípcios, por exemplo, mumificavam os faraós e os enterravam com pompas em pirâmides. Falecidos do povão eram colocados em um buraco no chão e cobertos com um manto de fibra natural. Os celtas, por volta de 1200 a.C., faziam grandes túmulos de terra para colocar os finados. Mais tarde, entre os séculos 11e 8 a.C., passaram a incinerar os mortos e a guardar as cinzas em uma urna. Ainda na Antigüidade, na Índia, os defuntos eram incinerados em grandes piras – e, por vezes, a viúva do morto era queimada também.


Medo de fantasma

Atualmente, quando algum ente querido morre, é costume que os familiares organizem cerimônias fúnebres para honrar o falecido. Mas nem sempre foi assim. Na Antigüidade, o medo era a principal razão dos ritos. Acreditava-se que, se a cerimônia agradasse ao morto, ele entraria no paraíso. Mas, se o defunto não gostasse dela, se vingaria mantendo-se entre os vivos e não descansaria em paz. Por causa do temor, as cerimônias, cada vez maiores, deram origem às pompas fúnebres, que continuam até hoje.

Fonte: Aventuras na História

14.10.10

O que separa a história da pré-história?

Não é uma data específica e sim uma das invenções mais importantes da humanidade: a escrita. "A história tem como principal objeto de estudo as sociedades que possuem ou possuíram a escrita, enquanto os pré-historiadores se dedicam a obter informações sobre os grupos humanos que não sabiam escrever", afirma a arqueóloga Marisa Afonso, da USP. Isso, porém, não estabelece uma divisão rígida e universal, pois a escrita começou a ser usada em diferentes momentos por diferentes povos, em diferentes regiões do planeta. No Egito, por exemplo, a história teria começado há 5000 anos; na Grécia, há 3000 anos. Já no continente americano, a definição do fim da pré-história tem como referência a chegada dos colonizadores europeus. Assim, fica claro que esse é apenas um marco simbólico, nascido no século XIX, para facilitar os estudos.

No livro Pré-História do Brasil, os historiadores e também arqueólogos Pedro Paulo Funari e Francisco da Silva Noelli acrescentam: "A pré-história trata dos últimos 100 a 200 mil anos, período em que existe a espécie humana, o Homo sapiens sapiens, e também dos milhões de anos anteriores em que existiram os hominídeos, espécies que antecederam a nossa. Isso equivale a 99,9% do passado, portanto. Apenas 0,1% do tempo da existência do homem e dos seus ancestr

ais na cadeia evolucionária corresponde ao período em que existe aescrita."

Fonte: Mundo Estranho

Forças Armadas no Brasil-Colônia (Origens)

Forças Armadas no Brasil-Colônia

(Origens)

No Brasil Colonial as forças armadas eram precárias e sem nenhuma eficiência quanto as estratégias e comportamento disciplinar. Essas forças eram compostos de caçadores, sertanejos, fuzileiros e um aglomerado de gente sem treinamentos e sem responsabilidade nenhuma com a segurança do país. Não havia direitos e nem deveres e nem juramentos que os ligassem a quaisquer planejamento constituído.Eram submetidos a ordens de chefes também despreparados e que os mantinham agregados na defesa da Colônia. Em são Paulo no século XVII surgiram os "Quadrilheiros" e a "Legião Paulista" cujas bases foram o embrião da Corporação.Eram mercenários mas que tinham alguma importância na atuação contra invasões estrangeiras. Após a abdicação de Dom Pedro I e o poder passando para as mãos seu filho Dom Pedro de Alcântara, começou a haver nessa Regência Provisória, um princípio de reorganização das Forças Armadas, agora já livres da tutela lusitana. Conforme a lei de 18 de agosto de 1831, que foi sancionada a 20 que estabelecia a criação das "Guardas Nacionais e Ordenanças".A estas incumbia-se prestar serviços aos municípios e fora destes e auxiliar o Exército de Linha quando fossem necessários. A lei de 10 de outubro de 1831, criou o primeiro núcleo de incorporação militar que tinha como princípio cuidar da manutenção da ordem interna e as necessidades do policiamento das Províncias do Império. Foram o Ato do presidente da Província de São Paulo e a Guarda Municipal Permanente, que deram origem À Força Pública de São Paulo, corporação esta a qual desde então, confia ao Estado a guarda da lei e a manutenção da ordem. O reduzido efetivo permitiu-se a criação da Guarda Policial, que foi constituída por indivíduos, que sem renda própria, não podiam fazer parte da Guarda Nacional.

Em 16 de abril de 1842 com o regulamento baixado pelo barão de Monte Alegre, presidente da Província, a Guarda Nacional ficaria sujeita em cada termo, ao respectivo Delegado de Polícia, que fazia nomeações internas de comandantes, enquanto os subdelegados, em seus distritos, comandavam as Companhia, cabendo às Câmaras Municipais, a missão de alistar e distribuir os soldados da Guarda Policial em companhias, secções e esquadras. Em 26 de março de 1866, foi criada a Guarda Municipal da Província, cuja missão era fornecer destacamento para o interior da Província e policiamento na Capital. Em 1873, São Paulo exigia, pelo seu desenvolvimento rápido, um serviço de segurança maior. Assim a 04 de março de 1875, a lei de força nº 3, autorizava a organização da Guarda Urbana, cuja tarefa além do serviço de presidente do Estado o Dr. Américo Brasiliense de Almeida Mello, por lei, fixou o efetivo da Força Pública de São Paulo, extinguiu as corporações, criando em substituição cinco Corpos Militares de Polícia e uma Companhia de Cavalaria. A lei nº97-B de 21 de setembro de 1892, promulgada pelo Dr. Bernardino de Campos, estabelecia 3.933 homens distribuídos em cinco Batalhões de Infantaria e um Corpo de Bombeiros.

Movimentos Revolucionários de 1924

da fonte:

A revolução de 1924 está inserida no movimento tenentista, decorrente do levante Copacabana, ocorrido em 5 de julho de 1922, na então capital do Brasil.
Liderada pelo General Isidoro Dias Lopes ocorreu em São Paulo a Revolução de 1924. No dia 5 de julho, em São Paulo, cerca de 1000 homens ficaram em locais estratégicos, o objetivo da mobilização era tirar do poder o presidente Artur Bernardes, no entanto, outra vez, o grupo de tenentes não sobressaiu e foi derrotado formando a coluna paulista. Logo depois de sair de São Paulo, o grupo partiu em direção ao interior do estado, liderado por Siqueira Campos Juarez Távora.
No mesmo momento, no Rio Grande do Sul, o tenente Luiz Carlos Prestes que discordava com a direção política do Brasil, liderou uma ofensiva militar em Santo Ângelo, seu comando foi em direção ao estado do Paraná encontrar com a coluna paulista.
Isso gerou a coluna Prestes que contava com uma numerosa tropa bem equipada de armamentos, tinham como finalidade levar ao interior a luta contra o governo e suas ramificações de poder, percorreram cerca de 20.000 km em doze estados.

A Revolta Paulista de 1924, também chamada de 'Revolução Esquecida', de "Revolução de 1924" e de "Segundo 5 de julho" , foi a segunda revolta tenentista Foi o maior conflito bélico já ocorrido na Cidade de São Paulo/ Comandada pelo general reformado Isidoro Dias Lopes, a revolta teve a participação de numerosos tenentes, entre os quais (que faleceu na revolta), Juarez Távora, Miguel Costa, Eduardo Gomes, Índio do Brasil e João Cabanas.

Deflagrada na capital paulista em 5 de julho de 1924 ( 2º aniversário da revolta dos 18 do Forte de Copacabana primeira revolta tenentista), a revolta ocupou a cidade de São Paulo por vinte e três dias, forçando o presidente do estado, Carlos de Campos a se retirar para o interior do estado, depois de ter sido bombardeado o Palácio dos Campos Elíseos sede do governo paulista na época.

Aconteceram rebeliões em várias cidades do interior de São Paulo com tomada de prefeituras Ainda sob a influência da Revolta Paulista de 1924, surgiram motins em outros estados, como o Rio Grande do Sul e o Amazonas também exigindo a renúncia do presidente Artur Bernardes

Os revoltosos entraram em contacto com o vice-presidente do estado Coronel Fernando Prestes de Albuquerque em Itapetininga convidando-o para assumir o governo revolucionário em São Paulo. O Coronel Prestes que já organizara um Batalhão em defesa da legalidade, na região da Estrada de Ferro Sorocabana, respondeu aos revoltosos:

Só aceitaria o governo das mãos do Dr. Carlos de Campos, livre, espontaneamente, legalmente!

Coronel Fernando Prestes

A Cidade de São Paulo foi bombardeada por aviões do Governo Federal. O exército legalista (leal ao presidente Artur Bernardes) utilizou-se do chamado "bombardeio terrificante", atingindo vários pontos da cidade, em especial bairros operários como a Mooca e o Brás e de classe média, como Perdizes, onde, até hoje, se comemora a revolução de 1924.

Sem poderio militar equivalente (artilharia nem aviação) para enfrentar as tropas legalistas, os rebeldes retiraram-se para Bauru onde Isidoro Dias Lopes ouviu notícia de que o exército legalista se concentrava na cidade de Três Lagoas no atual Mato Grosso do Sul, Isidoro Dias Lopes e Juarez Távora planejaram, então, um ataque àquela cidade. A derrota em Três Lagoas, no entanto, foi a maior de toda esta revolta. Um terço das tropas revoltosas morreram, feriram-se gravemente ou foram capturadas.Vencidos, os revoltosos marcharam, então, rumo ao sul do Brasil, onde, na cidade de Foz do Iguaçu no Paraná, uniram-se aos oficiais gaúchos comandados por Luis Carlos Prestes, no que veio a ser o maior feito guerrilheiro no Brasil até então: a Coluna Prestes. Os revoltosos foram finalmente derrotados nos primeiros dias de agosto de 1924, retornando o Presidente Carlos de Campos à capital paulista.

Um inquérito feito pelo Governo do Estado de São Paulo, logo após o fracasso do movimento subversivo de julho de 1924, detectou inúmeros casos de vandalismo e estupros no interior do estado de São Paulo, especialmente sob os olhos do Tenente João Cabanas, que comandava um grupo de revoltosos, que foi denominado como A Coluna da Morte. O inquérito também apurou que muitos coronéis do interior que faziam oposição ao Dr. Carlos de Campos apoiaram o movimento subversivo de julho.O general da Divisão Abílio Noronha, comandante da 2ª Região Militar que abrangia São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, acusou políticos de estarem por trás da revolta, incitando os militares à aderirem à revolução.

O General Noronha criticou também a retirada precipitada da capital paulista, do presidente do estado e das tropas leais a ele, alegando que havia como ter resistido e vencido os revoltosos, logo no início da revolta, e dentro da cidade de São Paulo.Os tenentes e demais militares que participaram desta revolta e das demais revoltas da década de 20,receberam anistia dada por Getúlio Vargas logo após a vitória da Revolução de 1930

No bairro de Perdizes, em São Paulo, a revolução de 1924 ainda é comemorada anualmente até hoje em dia.

Fonte: http://www.sfreinobreza.com/itaREVOLUCAO1932.htm

A Formação da República

O período compreendido entre a proclamação da República em 1889 e a Revolução de 1930, foi tradicionalmente denominado de República Velha.
Nos últimos anos, o termo vem gradualmente sendo substituído por Primeira República, porém, as interpretações sobre o período não sofreram alterações significativas.

Os Novos Atores

Nas últimas décadas do século XIX o regime monárquico viveu um processo constante de crise, refletindo o surgimento de novos interesses no país, associados a elite cafeeira, aos militares, às camadas urbanas e aos imigrantes, que representavam a nova força de trabalho.
O movimento que eliminou a monarquia no país foi comandado pelo exército, associado à elite agrária, particularmente os cafeicultores do oeste paulista. Estes últimos, há duas décadas haviam organizado um partido político, o PRP - Partido Republicano Paulista - que não apenas defendia o ideal republicano, mas também a fim da escravidão e o federalismo que garantiria a autonomia estadual. Foi desta maneira que a elite cafeeira procurou conquistar o apoio dos setores urbanos, de diferentes classes e das elites regionais.



Benjamin Constant


Apesar de dividido em facções, os republicanos históricos, chamados evolucionistas, eram predominantes e defendiam mudanças graduais, sem a participação popular no movimento, procurando marginaliza-la não só da ação, mas principalmente da construção do novo modelo político. Eram admitidos pelos monarquistas, pois defendiam o respeito a ordem pública, muitos eram cafeeicultores e alguns ainda possuiam escravos; julgavam que chegariam ao poder disputando as eleiçoes com os partidos tradicionais e percebiam a enorme importância que tinha o governo como instrumento de ação econômica. Seu principal líder era Quintino Bocaíuva.
Os militares por sua vez haviam angariado grande prestígio após a Guerra contra o Paraguai, momento a partir do qual o exército passou a se estruturar, destacando a importância das escolas militares, que foram responsáveis pela formação ideológica da maioria dos soldados, das grandes cidades, a partir da ideologia positivista, base para a participação política cada vez mais ativa dos militares.
Dentro do exército brasileiro destacou-se Benjamim Constant, professor da Escola Militar, acusava o ministério imperial de falta de patriotismo, por ter punido militares que se recusavam a capturar negros foragidos e criticavam pela imprensa os desmandos de políticos corruptos.
O positivismo é uma ideologia que desenvolveu-se na França e ganhou o mundo ocidental, tornando-se predominante já no final do século XIX. O nome vem da obra de Augusto Comte, "Filosofia Positiva", quando o autor faz uma análise sobre o desenvolvimento de seu país ao longo do século, atribuído à indústria e a elite industrial, grupo esclarecido e capacitado, que, se foi o responsável pelo progresso econômico, deveria ser o responsável pelo controle do Estado. Para Comte, caberia a elite governar, enquanto caberia ao povo trabalhar. Trabalhar sem reivindicar, sem se organizar e sem protestar, pois "só o trabalho em ordem é que pode determinar o Progresso", nascendo daí o lema de sua filosofia, que os militares escreveram na bandeira brasileira, após o golpe de 15 de novembro.
Existe uma tendência de se considerar que "os militares" proclamaram a República, ou que, sem os militares, não haveria república.
Primeiro é importante lembrar que havia nas camadas urbanas uma forte disposição a favor do movimento republicano; segundo, já vimos que havia um forte partido político, representando a nova elite agrária, disposta a chegar ao poder, mesmo de forma moderada; terceiro, é necessário lembrar que, apesar de existir o "espírito de corpo" entre os militares e que a ideologia positivista era cada vez mais forte dentro do exército, este encontrava-se dividido e existiam as disputas internas ao mesmo.
Os militares, de uma forma geral, rechaçavam os políticos civis, porém perceberam que era necessária uma aliança com os evolucionistas, pois garantiriam dessa maneira o fim da monarquia, mas a manutenção da "ordem".



Marechal Deodoro


Monarquista convicto, Deodoro enfrentava problemas políticos com parte do ministério imperial e também dentro do exército. Participou do movimento republicano a partir da crença de que D. Pedro II já não governava e que o ministério comandado por Ouro Preto pretendia fortalecer a Guarda Nacional, e enfraquecer o exército.
No dia 11 de novembro civis e militares organizaram o levante, cuja idéia encontrou a oposição de Floriano Peixoto.
O governo provisório criado após o golpe, foi comandado pelo Marechal Deodoro da Fonseca

A ESPADA

República da Espada foi a denominação dada ao período que compreende desde 15 de novembro até o final do governo do Marechal Floriano Peixoto, em 1894. Durante este período, dois militares governaram o país; daí a origem do nome: espada.
No entanto, apesar de Deodoro e Floriano serem homens do exército e possuírem o "espírito de corpo" do militar, não podemos dizer que tivemos no Brasil dois governos militares, mesmo considerando a tendência centralizadora dos mesmos.



Bandeira provisória da República, que foi adotada durante 4 dias apenas


Apesar das contradições que marcaram esses dois primeiros governos do Brasil republicano, e de, muitos pretenderem a continuidade do "poder militar", a renúncia de Deodoro e a retirada de Floriano, mostram a força dos grandes cafeeicultores e de setores ligados a exportação. Esa força se mostrava crescente desde a proclamação da República e era percebida também entre os políticos civis: a política "industrialista" de Rui Barbosa, baseada no emissionismo, encontrou forte oposição das oligarquias, principalmente a paulista
Durante o governo provisório, encabeçado pelo marechal Deodoro, o país conheceu um processo de "modernização institucional", destacando-se a separação entre Estado e Igreja, sendo que muitas funções civis, até então controladas pela Igreja Católica, passaram para o poder público; ao mesmo tempo os deputados elaboravam a nova constituição, que foi promulgada em fevereiro de 1891, consagrando em seus pontos fundamentais:
  • O federalismo, que garantia autonomia aos estados para elaborar sua própria Constituição, eleger seu governador, realizar empréstimos no exterior, decretar impostos e possuir suas próprias forças militares;
  • O presidencialismo, o chefe da federação seria o Presidente da República, com poderes para intervir nos estados quando houvesse um tendência separatista, invasão estrangeira ou conflitos entre os estados;
  • O regime representativo, o Presidente da República e os governadores estaduais, assim como todos os membros do Poder Legislativo, em todos os níveis, seriam eleitos diretamente pelo povo, excluídos os analfabetos, as mulheres, os soldados, e os menores de idade.

    A Crise Política

    Promulgada a Constitiuição, Deodoro foi eleito pelo Congresso Nacional numa votação marcada por ameaças de intervenção militar. No entanto, neste episódio percebe-se que o próprio exército não era uma força coesa, pois o Marechal Floriano concorreu a Vice presidente apoiando o candidato das oligarquias, Prudente de Moraes. Apesar da derrota de Prudente, o marechal Floriano foi eleito vice presidente. (Pela Constituição de 1891 a eleição para presidente e vice eram separadas e podiam ser eleitos candidatos de chapas diferentes). Durante o governo Deodoro a crise política agravou-se e foi marcada de um lado pelo autoritarismo e pelo centralismo de Deodoro, e por outro, pela oposição exercida pelos grandes fazendeiros através do Congresso Nacional, apoiados por parte do exército. Em novembro de 1891 Deodoro decretou o fechamento do Congresso Nacional, dois pretextos foram utilizados, a aprovação da Lei de Responsabilidade do presidente da República, que poderia sofrer impeachement e ser afastado do cargo, em certos casos e a greve da Central do Brasil; porém, sem apoio social, e sofrendo forte oposição da Marinha, não conseguiu manter o poder, renunciando no dia 23 do mesmo mês.



    Floriano Peixoto


    O governo de Floriano Peixoto foi marcado pelo apoio do Congresso Nacional ao presidente, que, apesar de centralizador e autoritário, governou para fazer valer a Constituição recem promulgada e consolidar a República.
    Do ponto de vista econômico herdou a inflação provocada pelo encilhamento e executou timidamente medidas protecionistas em relação à indústria, assim como a facilitação ao crédito, com a preocupação de controlar a especulação. Do ponto de vista político, reprimiu as principais revoltas que ocorreram no país e foram apresentadas como subversivas ou monarquistas: a Revolta da Armada e a Revolução Federalistano Rio Grande do Sul.
    O fato de ser encarado como responsável por consolidar a República não significa que seu governo tenha sido marcado pela estabilidade. Ao contrário, várias manifestações contrárias ao governo ocorreram. No início de seu governo, o Marechal Floriano enfrentou oposição dentro do próprio exército, marcada pelo manifesto dos 13 generais, que contestava a legitimidade de seu governo, ao mesmo tempo, enfrentava os problemas derivados dos estados, onde as oligarquias locais disputavam o poder e uma fatia dos benefícios econômicos que pudessem ser retirados do governo federal.
    A principal rebelião regional ocorreu no Rio Grande do Sul, onde a luta pelo poder colocou frente a frente os pica-paus, "repúblicanos históricos" liderados por Júlio de Castilhos, e os maragatos, liderados pelo monarquista Silveira Martins, do Partido Federalista Brasileiro.
    Os maragatos eram defensores de uma reforma constitucional, adotando-se o parlamentarismo e opunham-se ao governo de caráter ditatorial de Júlio de Castilhos.
    Floriano pendeu para o lado dos pica-paus, apesar de Castilhos ter apoiado o golpe de Deodoro em 1891. Floriano precisava do apoio da bancada gaúcha no Congresso Nacional.



    Custódio de Melo


    Em setembro de 1893 começou a Segunda Revolta da Armada, com o Almirante Custódio de Melo tentando reeditar o movimento que culminou com a renúncia de Deodoro. Apoiado no exército e no Congresso Nacional que votou o "estado de sítio", o presidente executou forte repressão aos revoltosos, que se retiraram para o sul e instalaram um governo em Desterro, capital de Santa Catarina; em outubro as forças da marinha se unem aos federalistas do Rio Grande do Sul e no início do ano seguinte dominam Curitiba.
    A repressão do governo caracterizou-se pela extrema violência, e tanto os marinheiros como os federalistas gaúchos foram derrotados, ampliando o prestígio e poder de Floriano. Mesmo tentado a permanecer no poder, Floriano percebeu que não teria o apoio da elite cafeeira de São Paulo e que não conseguiria enfrentar a elite econômica do país. Com a posse de Prudente de Moraes terminava a "República da Espada".

  • Fonte: HISTORIANET
  • REVOLTA FEDERALISTA

    REVOLTA FEDERALISTA( 1893 - 1895 )

    Movimento insurrecional que durou de 1893 a 1895, a Revolta Federalista envolveu as principais facções políticas do Rio Grande do Sul, onde o poder era disputado pelo Partido Republicano Riograndense e pelo Partido Federalista.

    O primeiro reunia os republicanos "históricos", sob o comando de Júlio de Castilhos. O segundo agrupava os descontentes com a política de governo forte e centralizador do "castilhismo". Apoiado pelo presidente Floriano Peixoto, Júlio de Castilhos assumiu o governo em 1893.

    A tentativa de impedir, pelas armas, a posse de Castilhos gerou uma forte repressão, obrigando os federalistas a buscar refúgio no Uruguai e Argentina. Em fevereiro de 1893 os federalistas invadiram o Rio Grande do Sul. Tinha início uma violenta guerra civil, repleta de massacres recíprocos.

    Somente em 1895 Prudente de Morais, o novo presidente da República, conseguiu estabelecer um acordo de paz, anistiando os rebelados.

    Fonte: www.projetomemoria.art.br

    REVOLTA FEDERALISTA( 18893 - 1895 )

    A Revolução Federalista ocorreu no sul do Brasil logo após a Proclamação da República. Isto ocorreu devido à instabilidade política gerada pelos federalistas que pretendiam "libertar o Rio Grande do Sul da tirania de Júlio Prates de Castilhos", então presidente do Estado.

    A divergência se iniciou por atritos ocorridos entre aqueles que procuravam a autonomia estadual frente ao poder federal e seus opositores. A luta armada durou aproximadamente três anos e atingiu as regiões compreendidas entre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

    O Partido Federalista do Rio Grande do Sul

    O Partido Federalista do Rio Grande do Sul foi fundado em 1892 por Gaspar Silveira Martins. Em tese, defendia o sistema parlamentar de governo e a revisão das constituições estaduais, prevendo a centralização política e o fortalecimento do Brasil como União Federativa.

    Desta forma, esta filosofia chocava-se frontalmente contra a constituição do Rio Grande do Sul de 1891. Esta era inspirada no positivismo e no presidencialismo, resguardando a autonomia estadual, filosofia adotada por Júlio de Castilhos, chefe do Partido Republicano, e que seguia o princípio comtiano das "pequenas pátrias".

    Os seguidores de Gaspar da Silveira Martins, Gasparistas ou maragatos, eram frontalmente opostos aos seguidores de Júlio de Castilhos, castilhistas ou pica-paus. Empenharam-se em disputas sangrentas que acabaram por desencadear a revolução federalista, uma guerra civil que durou de fevereiro de 1893 a agosto de 1895 e foi vencida pelos Pica-paus, seguidores de Júlio de Castilhos. Neste conflito, houve mais de dez mil mortos e centenas de milhares de feridos.

    O início do conflito

    As desavenças iniciaram-se com a concentração de tropas sob o comando de João Nunes da Silva Tavares, barão de Itaqui, maragato, ou gasparista, em Carpintaria, esta localidade era na linha divisória com o Uruguai.

    Logo após o potreiro de Ana Correia, vindo do Uruguai em direção ao Rio Grande do Sul, encontrava-se o coronel caudilho federalista Gumercindo Saraiva.

    Eficientemente, os maragatos dominaram a fronteira, exigindo a deposição de Júlio de Castilhos, que havia sido eleito presidente do estado pelo voto direto. Havia também o desejo de um plebiscito onde o povo deveria escolher a forma de governo.

    Devido à gravidade do movimento, a rebelião adquiriu âmbito nacional rapidamente, ameaçando a estabilidade do governo rio-grandense e o regime republicano em todo o país. Floriano Peixoto, então na presidência da República, enviou tropas federais sob o comando do general Hipólito Ribeiro para socorrer Júlio de Castilhos.

    Foram estrategicamente organizadas três divisões, chamadas de legalistas: a do norte, a da capital e a do centro. Além destas, foi convocada a polícia estadual e todo o seu contingente para enfrentar o inimigo.

    A primeira derrota dos maragatos foi em maio de 1893, junto ao arroio Inhanduí, em Alegrete, município sul-rio-grandense. Neste combate ao lado dos legalistas participou o senador Pinheiro Machado.

    A Paz

    A revolução federalista foi vencida em junho de 1895 no combate de Campo Osório. Saldanha da Gama, possuidor de um contingente de 400 homens, lutou até a morte contra os legalistas comandados pelo general Hipólito Ribeiro. A paz finalmente foi assinada em Pelotas no dia 23 de agosto de 1895. O presidente da República era então Prudente de Morais, e o emissário do governo federal era o general Galvão de Queirós.

    Os Maragatos

    Atualmente, a denominação Maragato é título honroso para os defensores da tese parlamentarista no Rio Grande do Sul. Na época da revolução, os republicanos legalistas usavam a apelação como pejorativa, atribuindo-lhes propósitos mercenários. "Denominação dada ao revolucionário ou partidário da revolução rio-grandense de 1893, adepto do credo político pregado por Gaspar da Silveira Martins e adversário do partido então dominante, chefiado por Júlio Prates de Castilhos. || Revolucionário ou partidário da revolução rio-grandense de 1923, adepto do partido liderado por Joaquim Francisco de Assis Brasil e contrário a Antônio Augusto Borges de Medeiros, governador do Estado. || Federalista.

    "Na província de León, Espanha, existe uma comarca denominada Maragateria, cujos habitantes têm o nome de maragatos, e, que, segundo alguns, é um povo de costumes condenáveis; pois, vivendo a vagabundear de um ponto a outro, com cargueiros, vendendo e comprando roubos e por sua vez roubando principalmente animais; são uma espécie de ciganos. Aos naturais da cidade de São José, no Estado Oriental do Uruguai, dão neste país o nome de maragatos, talvez porque os seus primeiros habitantes fossem descendentes de maragatos espanhóis. Pelo fato de os rebeldes em suas excursões irem levantando e conduzindo todos os animais que encontravam, tendo apenas bagagens ligeiras, cargueiros, etc. Como os da Maragateria e porque (com exceções) suspendiam com o que encontravam em suas correrias, aplicou-se-lhes aquela denominação, que aliás eles retribuíram com outras não menos delicadas aos republicanos."

    (Romaguera)

    Outra versão

    "Os termos "maragato" e "pica-pau", usados para se referir às duas grandes correntes políticas gaúchas, e identificados, respectivamente, com o uso do lenço vermelho e do lenço branco, surgiu no Rio Grande do Sul em 1893, durante a Revolução Federalista. Os maragatos foram os que iniciaram a revolução, que tinha como justificativa a resistência ao excessivo controle exercido pelo governo central sobre os estados. O objetivo da revolução seria, portanto, garantir um sistema federativo, em que os estados tivessem maior autonomia.

    O termo "maragato", aplicado aos federalistas, tem uma explicação complexa. No Uruguai eram chamados de maragatos os descendentes de imigrantes espanhóis oriundos da área situada na província de León, na Espanha, conhecida como Maragateria. Os maragatos espanhóis eram eminentemente nômades, e adotavam profissões que lhes permitissem estar em constante deslocamento. Os defensores do governo central passaram a chamar os revolucionários de "maragatos" com o intuito de insinuar que, na verdade, as tropas dos rebeldes eram constituídas por mercenários uruguaios.

    A realidade oferecia alguma base para essa assertiva — Gumercindo Saraiva, um dos líderes da revolução, havia entrado no Rio Grande do Sul vindo do Uruguai pela fronteira de Aceguá, no Departamento de Cerro Largo, e liderava uma tropa de 400 homens entre os quais estavam uruguaios. No entanto, dar esse apelido aos revolucionários foi um tiro que saiu pela culatra. Os próprios rebeldes passaram a se denominar "maragatos", e chegaram a criar um jornal que levava esse nome, em 1896. Já o termo pica-pau, aplicado aos republicanos que apoiavam o governo central, teria surgido em função das listras brancas do topete do pássaro, pois os governistas usavam chapéus com divisas brancas, que lembravam o topete do pica-pau, enquanto que as dos maragatos eram vermelhas. (Por Lígia Gomes Carneiro) "

    Os Chimangos

    A grafia pode ser ximango. Ave de rapina, falconídea, semelhante ao carcará.

    Epíteto depreciativo dado aos liberais moderados pelos conservadores, no início da Monarquia brasileira. No RS, nos anos de 1920, foi a alcunha dada pelos federalistas ao governistas do PRR. O lenço de cor BRANCA identificava os chimangos.

    Fonte: pt.wikipedia.org"

    REVOLTA FEDERALISTA

    Movimento insurrecional do início da República envolvendo as principais facções políticas do Rio Grande do Sul. Começa em 1893 e dura até 1895.

    Dois partidos disputam o poder. De um lado, o Partido Federalista reúne a velha elite do Partido Liberal do Império, sob a liderança de Gaspar da Silveira Martins. De outro, o Partido Republicano Rio-Grandense agrupa os republicanos históricos, participantes do movimento pela proclamação da República, comandado pelo governador Júlio de Castilhos. Ancorados em bases eleitorais nas cidades do litoral e da serra, os republicanos querem manter o poder. Já os federalistas, que representam os interesses dos grandes estancieiros da Campanha Gaúcha, lutam contra o que chamam de "tirania do castilhismo" e exigem a reforma da Constituição do estado para impedir a perpetuação dos rivais no poder.

    Maragatos e chimangos

    Em fevereiro de 1893, ano da campanha eleitoral para o governo estadual, os federalistas, chamados maragatos, iniciam sangrento conflito com os republicanos, apelidados de chimangos ou pica-paus. Os combates espalham-se pelo estado e transformam-se em uma guerra civil, com milhares de vítimas. Os maragatos pedem a intervenção federal no estado, mas o presidente Floriano Peixoto prefere apoiar os pica-paus.

    Entre fins de 1893 e começo de 1894, os maragatos avançam sobre Santa Catarina e unem-se aos rebeldes da Revolta da Armada, que ocupam a cidade de Desterro (atual Florianópolis). Em seguida entram no Paraná e tomam Curitiba. Mas, sem recursos humanos nem materiais suficientes, recuam. Concentram sua atividade no território gaúcho, mantendo a luta até meados de 1895. No dia 10 de julho, o novo presidente da República, Prudente de Moraes, consegue um acordo de paz. O governo central garante o poder a Júlio de Castilhos e o Congresso anistia os participantes do movimento.

    REVOLTA FEDERALISTA( 1893 - 1895 )

    Em novembro de 1891 o pais enfrentava grave crise política que o marechal Deodoro da Fonseca (l827-1892) presidente da República julgou poder extinguir desfechando no dia 3, um golpe de Estado. Em instante de irreflexão e malaconselhado por Henrique Pereira de Lucena o Barão de Lucena, Deodoro manda dissolver o congresso Nacional com o qual não conseguia entender-se e implanta no pais uma ditadura

    O desfecho da crise teve grave e negativa repercussão em toda a nação Preparou-se contragolpe que seria desfechado no dia 27 do mês de novembro. todavia o presidente da recém-inaugurada Republica resolveu voltar atrás e de maneira patriótica, renunciou o governo, convencido de que o pais por inteiro repudiara o ato ditatorial Assume a direção do pais o marechal Floriano Peixoto (1839-1895) que convoca o Congresso e restabelece a ordem institucional

    Ocorre que consoante o artigo 42 da Constituição Federal de 1891 na eventualidade de vaga da presidência da Republica por qualquer pretexto acaso não houvessem decorridos dois anos do mandato, deveria ser realizada nova eleição

    Floriano e seus correligionários fazem vista grossa do dispositivo legal e permanecem confortavelmente instalados no poder

    No ano seguinte, 1892, em abril, treze altas patentes do Exército e Marinha assinam manifesto a nação no qual sustentam a necessidade de se dar cumprimento ao preceito inscrito na Carta Magna.

    Arbitrariamente, Floriano, em represália determina a reforma de onze signatários do manifesto, e dois outros são rebaixados para segunda categoria.

    Protestos de civis e militares em todos os setores do pais. multiplicam-se contra o autoritarismo continuista do marechal-de-ferro. Em fevereiro de 1893 explode no Rio Grande do sul a Revolução Federalista, motivada por antigas divergências políticas regionais. Em seguida, a Revolução Federalista começa a estender-se em direção norte, ameaçando estados limítrofes, agora já em franca oposição a ditadura florianista

    No mesmo ano, no dia 6 de setembro, considerável parcela da Marinha a frente da qual se achava o almirante Custódio José de Mello, rebela-se contra o governo ditatorial de Floriano e sitia a capital Federal. Nos dias 16 e 17. em que pese hostilizados pelos canhões das fortalezas controladas por Floriano, alguns navios amotinados, entre os quais o cruzador Republica. sob o comando do capitão-de-mar-e-guerra Frederico Guilherme de Lorena, conseguem transpor a barra do Rio de Janeiro e navegam para Santa Catarina

    No dia 14 de outubro (1893), por decreto assinado pelos insurgentes, Nossa Senhora do Desterro, capital de Santa Catarina e declarada provisoriamente capital do Brasil e converte-se em base de operações militares de dois movimentos em sua origem sem vínculo um com o outro o do rio Grande do Sul. denominado Federalista e o do Rio de Janeiro, conhecido por Revolta da Armada

    A ate então pacata Desterro, com vinte e cinco mil almas, entra para a lista negra de Floriano Peixoto.

    Os federalistas, depois de sucessivas lutas e atos de heroísmo e bravura que se inscrevem nos anais da História Pátria. são derrotados. Vingativo, o marechal Floriano nomeia e manda para Santa Catarina, no dia 19 de abril de 1894, com poderes discricionários, o impetuoso tenente-coronel de Infantaria do Exército. Antônio Moreira César (1850-1897), nome que a historia celebra pelas alcunhas de Corta-Cabeças e Treme-Terra, com vistas a levar a cabo o ajuste de contas. O delegado do governo Federal desembarca em Desterro a frente de quinhentos militares do 7° e do 23° batalhões de Infantaria. De seu corpo de auxiliares faziam parte os seguintes elementos Alferes João Lopes de Oliveira e Souza e Malaquias Cavalcanti Lima, secretários, tenente Manuel Bellerophonte de Lima. chefe de policia e tenente Hermínio Américo Coelho dos Santos, comandante da Policia Militar

    Já era então o tenente-coronel César conhecido por desequilibrado e destemido e estivera envolvido com o assassinato) de um jornalista boquirroto em 1883, na Corte.

    Pretensos inimigos do sistema republicano são impiedosamente caçados. Santa Catarina, nas palavras do historiador Osvaldo Cabral, conhece uma das mais negras paginas de sua historia

    Narra Cabral

    "As fortalezas se congestionaram de prisioneiros, uns que se não puderam exilar ou esconder à fúria sanguinária dos vencedores, outros que se não haviam culpados, e ainda outros que, tendo buscado refúgio no interior da ilha, nas casas os amigos ou nos matos, foram denunciados pela perversidade dos adversários, no seu incontido e desumano ódio partidário. Casas foram varejadas pela soldadesca em fúria: famílias desrespeitadas".

    Entre os fuzilados relaciona-se o nome de médico baiano. Transcrevo, neste artigo, texto publicado em minha obra O Treme-Terra, Moreira César e a República de Canudos (Vozes, 1996, em segunda edição).

    "Na madrugada de 25 de abril de 1894, em Anhatomirim (pequena ilha ao norte de Santa Catarina) tombou abatido a tiros de fuzil, entre muitos outros, o major-médico Alfredo Paulo de Freitas. Este facultativo era tio-avô de ilustre baiano, professor, historiador e acadêmico, Waldir Freitas Oliveira (ativo e atuante nos dias que fluem, 1997) Andava na casa dos 39 anos e chegava à fortaleza de Santa Cruz atendendo a intimação das forças legais. Nascera na Bahia, filho de José Antônio de Freitas Filho, professor de Anatomia Descritiva e Topográfica da Faculdade de Medicina da Bahia e de D. Maria Benvinda da Costa Freitas. Era alto, de estatura elegante, rosto fino, barba aparada no contorno da face.

    Curioso e que o pai do major-médico tenha tido, na Bahia, aviso de que algo funesto poderia estar acontecendo ao filho, na madruga da daquele trágico 25 de abril de 1894.

    A República passava por momento dramáticos durante o Governo de Floriano Peixoto. A 17 de abril daquele ano, a Esquadra legal, denominada pelos federalistas de "Esquadra de Papelão", dada a sua cor cinzenta, sob o comando do almirante Jerônimo Francisco Gonçalves, tendo partido da Bahia. desalojara os últimos insurretos da capital catarinense, então chamada Desterro. Dois dias depois chegava o delegado do governo federal, tenente-coronel Antônio Moreira César, assumindo o posto com seus auxiliares a 22 do mesmo mês. Começou de imediato a encarcerar suspeitos, insuflados por espíritos perversos de Desterro e do Rio de Janeiro. O major Alfredo Paulo de Freitas era, então, diretor do hospital Militar naquela cidade.

    Dois dias após a posse do tenente-coronel Moreira César, chega à casa do major ordem para que ele se apresentasse. Como havia clima reinante de violência, sua esposa. Olímpia Paraíso de Moura Freitas, rogou-lhe que fugisse. O médico repeliu a sugestão. Nada tinha a temer, era seu dever apresentar-se. Não lhe pesava sobre os ombros qualquer acusação.

    É dirigiu-se à autoridade que o havia intimado. Recebeu de prisão e embarcaram-no na corveta Niterói, apenas com farda que levava no corpo.

    De bordo, o prisioneiro escreveu carta a esposa. Cujo mensageiro pode Ter sido algum soldado de alma caridosa. Tinha em mente o major estar sendo levado para o Rio de Janeiro de onde, dizia, voltaria a escrever à esposa e quando faria remessa de dinheiro lamentava deixá-la sozinha com a filha pequena e sem recursos. Em caso de dificuldade, recomendava procurar o amigo Manuel Joaquim, que se imagina ter sido o tenente Manuel Joaquim Machado, emissário do Marechal Floriano Peixoto em fevereiro de 1892 e que assumira o governo de Santa Catarina, tendo rompido, em 1893, com o Marechal de ferro.

    No dia 25 de abril, a corveta Niterói fez meia-volta e aproximou-se de Anhatomirim. Os prisioneiros foram desembarcados e levados à baixada do porto da Fortaleza de Santa Cruz.

    Tendo começado a ser construída em 1739, pelo português José da Silva Paes, oficial de engenharia, para a defesa da Ilha de Santa Cruz, com majestoso portal de acesso a capela dedicada a Nossa Senhora da Piedade, aí teve lugar o fuzilamento de inúmeros suspeitos de inimigos da República, inclusive o oficial medico baiano.

    Para explicar o trágico fim do doutor Freitas, há duas versões perfilhadas pela tradicional família baiana. Uma diz que foi por ter o médico hasteado a bandeira da paz no hospital Militar, com o objetivo de proteger os doentes das hostilidades entre federalistas e republicanos. Outra reza que o médico teria falado mal do marechal Floriano, imensa heresia numa época de desatinos, intrigas e deslealdade, e que o teriam delatado.

    (...)

    Há telegrama supostamente assinado por Moreira César dando conta a Floriano de haver cumprido sua ordem, mensagem, aliás, considerada apócrifa, como está, adiante mencionado.

    Quando Moreira César, já coronel, chegando vitorioso do Sul, desembarca em Salvador, de passagem para Canudos, conta a tradição familiar que certa mulher, inteiramente vestida de preto, compareceu ao cais onde as tropas desembarcaram e, em alto e bom tom, jogou-lhe praga que pode ter sido mais ou menos nos termos seguinte.

    - De Canudos tu não hás de voltar com vida, bandido miserável, sanguinário, enviado do Demônio.

    Era D. Olímpia, viúva do major-médico fuzilado. (pág. 171s)

    * * * *

    Entre os fuzilados, relaciona-se, também Manoel de Almeida Gama Lobo Coelho d'Eça, barão de Batovi e seu filho Alfredo, morto abraçado ao pai, tentando protegê-lo das balas. Pesava sobre o barão de Batovi ter presidido tumultuada e histórica reunião realizada em Desterro - mais tarde Florianópolis - no dia 29 de setembro de 1893, durante a qual optou-se pela capitulação frente aos navios da Armada, amotinados contra o ditador Floriano Peixoto. Batovi não fez senão render-se ás aspirações dos habitantes de Desterro apavorados e subitamente envolvidos em tão espetaculares acontecimentos.

    Desterro (nada custa repetir) pela sua importante posição estratégica, fora convertida em base de operações militares de dois movimentos, a Revolução Federalista, que rebentara no Rio Grande do Sul em fevereiro de 1893, e a Revolta da Armada, cuja eclosão tivera lugar no Rio de Janeiro, em setembro do mesmo ano.

    Elevada à condição de Capital Provisória do País, Desterro cresceu do cenário político nacional na mesma proporção com que por ela crescia o ódio de Floriano, reputado pela imprensa federalista de "traidor", "usurpador", "tirano", entre outros epítetos não menos depreciativos.

    Depreende-se ter sido este ódio o responsável pela nomeação do braço armado de Floriano, tenente-coronel Antônio Moreira César, em seguida à derrota do movimento federalista.

    Seria ingênuo admitir-se que o marechal-de-ferro não tinha ciência dos sumários fuzilamentos levados a cabo por seu procônsul, embora se discuta se o vice-presidente, com efeito, deu ordens expressas neste sentido.

    Os simpatizantes de Floriano alegam em sua defesa e como prova de sua inocência, telegrama, tido aliás por falso, despachado pelo governador militar de Santa Catarina, nos seguintes termos "Marechal Floriano Peixoto, Rio - Romualdo, Caldeira, Freitas e outros foram fuzilados segundo vossas ordens. Antônio Moreira César"

    O professor Jali Meirinho, historiador catarinense, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina e da Academia Catarinense de Letras, analisa com ponderações e lucidez os movimentos que elevaram Santa Catarina à categoria de base de operações militares contra o florianismo nos anos assinalados. Diz ele que. tendo o marechal Floriano Peixoto sido eleito vice-presidente em oposição a Deodoro da Fonseca, obteve no Congresso maior numero de votos, o que demonstrou prestígio entre republicanos. Diz ainda que Floriano tendo assumido o governo, em conseqüência da renuncia do titular, enfrentou guerra civil desagregadora, levada a cabo pelos revoltosos da Armada e os federalistas.

    Textualmente

    "As crises foram geradas por uma elite que se postara a frente do novo regime, mas cujo protesto não tinha identidade com a res publica genuína. O discurso monarquista contra a República, após a proclamação e as rebeliões opondo-se ao governo de Floriano Peixoto provocaram enérgica reação do vice-presidente. configurando-o como o consolidador do regime, idealizado por grupos emergentes na sociedade brasileira, representados por jovens intelectuais, jornalistas formadores de opinião, pequenos comerciantes que dividiam suas idéias com militares de formação positivista. Deste conjunto nasceu o movimento espontâneo conhecido por florianismo ou jacobinismo, pelo radicalismo identificado no partido do tempo da Revolução Francesa". (Florianópolis. Homenagem ou Humilhação? Pág. 43s).

    O índice de quase duas centenas de massacrados no km 6,5 da Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá e na fortaleza de Santa Cruz do Anhatomirim, na Baía Norte de Florianópolis, tem sido posto em dúvida por alguns estudiosos. Duarte Paranhos Schutell que foi contemporâneo dos lamentáveis e vergonhosos acontecimentos, político, ex-liberal, simpatizante da causa federalista, em notas manuscritas, relaciona os nomes de apenas 34 vítimas, prováveis fuzilados ou atirados ao mar no trajeto para a fortaleza de Anhatomirim. Osvaldo Cabral, sem nos levar à fonte, aponta 185. Lucas Alexandre Boiteux, responsável pelos translados, em 1934, dos restos mortais dos fuzilados na fortaleza de Anhatomirim para o mausoléu do cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro, lista somente 43 vítimas. Carlos Humberto Correa, autor da obra Militares e Civis num governo sem Rumo (Florianópolis. 1190), baseado em noticiário da imprensa da época, chegou á conclusão de que, em 1895, vários elementos tidos por mortos continuavam vivos. Durante a cerimônia do translado dos restos mortais para o Rio foram contadas somente três urnas o que contraria os números anteriormente apontados, lançando incógnita sobre a exata quantidade de sacrificados.

    O que não se pode deixar de entender é que a violência partida dos florianistas, ocorreu na razão direta de ação levada a cabo) pelos federalistas. Estes, quando no poder. humilharam e fizeram republicanos passarem por sérios constrangimentos. O revide foram as vinganças, as delações, os fuzilamentos, as degolas que tiveram 1ugar em Desterro a partir de 19 de abril de 1894 e devem ser tributadas ao delegado militar de Floriano, Antônio Moreira César e seu auxiliar imediato Manoel Belerophonte Lima

    Em 1893, em Desterro, hoje Florianópolis circulavam três jornais diários. Quando os revoltosos federalistas tomaram a cidade, trataram de tirar de circulação o República, de linha florianista e jacobina A população limitou-se a leitura do Jornal do Comércio e o Estado, ambos dando apoio ã revolta. Todavia, nos dois anos seguintes, 1894-95, quando do sangrento ajuste de contas"levado a cabo pelo tenente-coronel Moreira César, o troco foi dado,: apenas o jornal República teve o direito de circular.

    Prisões e fuzilamentos sumários de militares e civis, sem direito a defesa foram praticados em represália a rebeldia federalista, causadora da guerra civil que se instalou no Estado de Santa Catarina. Interpretando com justeza o episódio, tratou-se, com efeito de atos criminosos levados a cabo por um desequilibrado são inconcebíveis prisões e execuções sem julgamento. Se recorrermos, porém, a Legislação vigente no Império, verificaremos que os crimes cometidos em estado de guerra, mesmo as chamadas intestinas, eram passíveis de pena de morte.

    O "ajuste de contas", foi por conseguinte, réplica às crueldades federalistas, mormente as levadas a efeito pelos guerrilheiros de Gumercindo Saraiva, profissionais e hábeis cortadores de cabeças dos prisioneiros.

    Diz um observador que em 1893 quando "Gumercindo Saraiva entrou em Santa Catarina, o terror tomou conta da população. A soldadesca apresentava-se seminua. Tal era a precariedade que em São Francisco, alojados em um clube, os soldados se apoderaram das cortinas rendadas para fazer vestimentas. Adotavam a pilhagem como forma de sobrevivência dai seguindo estupros e degolamentos. As marcas da violência ficaram em Lages, Blumenal, Itajaí, Desterro, São Francisco Joinville, Jaraguá e São Bento. Após maltratarem as vítimas, os invasores conduziam-nas ao local da execução, sob estocadas dfacão para abrir-lhes a carótida. Exímio executor era lugar-tenente de Gumercindo Saraiva, um indivíduo agigantado de nome Adauto, que deixou triste lembrança na passagem nos maragatos por terras catarinenses. Sua técnica consistia em introduzir os dedos nas narinas das vítimas, puxar a cabeça e rasgar o pescoço, fazendo o sangue jorrar. A desastrosa presença federalista na na chamada terra barriga-verde gerou ódios e ressentimentos, creditados ao "ajuste de contas", pelos republicanos em abril de 1894".

    Foram dias de pânico e apreensão para os federalistas derrotados. Duarte Paranhos Schuttel, testemunha da época, depôs:

    "Encheu-se de presos tudo o que podia servis de prisão. Os calabouços e solitárias da cadeia comum, as salas da Câmara, o Quartel da Polícia e de Linha e até o Teatro, tudo foi pouco e, foi preciso remeter para os navios de guerra os presos à medida em que se enchiam as prisões para dar lugar aos que chegavam.

    Esses que embarcam levam o destino de Santa Cruz: deles bem poucos voltaram... o maior numero, os outros, nunca mais regressaram desta viagem porque uns não chegaram e muitos ali jazem para sempre. O silêncio, o recolhimento, o andar soturno dos habitantes horrorizados, faziam contraste lúgubre com a algazarra e o desmando, petulantes maneiras e sinistras ameaças dos selvagens soldados, que enchiam as ruas e praças". (Citado por Jali Meirinho).

    * * * *

    Ao Invadirem a cidade de Desterro, os amotinados da Armada se impuseram perante a força policial, enquanto a população entrava em pânico e procurava fugir como pudesse para distritos do interior. O comércio cerrou as portas. Ruas centrais tornaram-se desertas, poucas foram as casas que se mantiveram habitadas.

    Frederico Guilherme de Lorena distribuiu manifesto no qual explicava os motivos da invasão. Apresentou-se como representante do almirante Custódio José de Mello que continuava lutando no Rio de Janeiro. Aos poucos. Porem, Desterro retomou o ritmo normal, com a volta das famílias e a reabertura do comércio.

    Os revolucionários encontraram na cidade de Desterro ambiente acolhedor A princípio assustada a população terminou aprendendo a conviver com a situação. Logo criou-se cumplicidade consubstanciada na admiração que os nativos sentiam pelos forasteiros. Eram poucos, contudo, os desterrenses que compreendiam o conflito em sua magnitude, reconhecendo a prepotência de Floriano e que se deveria ser posto fora do poder. A verdade é que muitos desterrenses ficaram vaidosos com a súbita notoriedade da pacata capital catarinense

    Então veio a contrapartida, a repressão. Seis meses depois de chegada do coronel Moreira César, a mando de Floriano Peixoto, Nossa Senhora do Desterro passou a ser chamada Florianópolis. A lei 111, de l° de outubro de 1894, contrariou o hábito, até hoje vigente, das homenagens póstumas. Floriano, na época. continuava vivo e governava o Brasil.

    Fonte: www.portfolium.com.br