14.5.13

Quando o norte era escravagista

Os estados da região criticavam os sulistas por causa do trabalho forçado, mas em 1770 havia mais negros cativos em Nova York do que na Geórgia

(C) AKG/NEWSCOM/GLOW IMAGES

Trabalhadores negros num porto do rio James, Virgínia

por Anne-Claire Fauquez

O que o mercado da Filadélfia, as igrejas protestantes de Newport, as tavernas de Nova York e os armazéns de Boston tinham em comum? Todos eles eram palcos de leilão de escravos negros. Assim era o cotidiano das colônias ao norte da linha Mason-Dixon, um traçado imaginário de 400 km de comprimento, estabelecido antes da proclamação da independência, em 1776, que serviu, até o século XIX, de fronteira oficial entre o norte e o sul dos EUA.

Os presidentes Benjamin Franklin e Thomas Jefferson, heróis da guerra contra os britânicos pela independência, compravam, vendiam e empregavam também mão de obra africana. Os primeiros escravos foram trazidos logo após a criação das colônias. Na Nova Inglaterra, apesar do clima severo e do solo árido, Samuel Maverick tornou-se em 1624 o primeiro proprietário de dois escravos, apenas quatro anos depois da chegada dos primeiros colonos ingleses, os pilgrims. Dois anos mais tarde, a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais trouxe 11 africanos para Nova Amsterdã.

Quando os ingleses tomaram posse dessa colônia e a rebatizaram de Nova York, em 1664, os escravos representavam 20% da população da cidade. Na Pensilvânia, o colono inglês William Penn autorizou em 1684 a vinda de 150 africanos; ele mesmo possuía alguns em sua propriedade de Pennsbury e disse preferir os escravos aos serviçais brancos, pois podia conservá-los pela vida toda. Durante o século XVIII, a população negra continuou a crescer, chegando a atingir 14% em Nova York, 12% em Nova Jersey e 10% em Rhode Island.

As companhias de comércio e os proprietários de colônias incentivaram a importação oferecendo aos novos colonos dezenas de hectares para cada escravo para compensar a escassez de mão de obra. Os índios, a única força de trabalho presente no continente, foram pouco escravizados por dois motivos: porque foram dizimados pelas doenças que os europeus trouxeram para o Novo Mundo; e porque os europeus tinham a preocupação de manter relações pacíficas com as tribos. Apenas os prisioneiros de guerra vindos da Carolina do Sul e Antilhas eram empregados no norte.


COLEÇÃO PARTICULAR

Nas cidades portuárias do Norte, os escravos executavam trabalhos de construção e carga; no campo, eram empregados em pequenas e grandes lavouras

A grande maioria desses escravos não vinha diretamente da África, mas do Caribe. Geralmente eram os mais velhos ou aqueles com problemas de saúde, que não tinham sido vendidos nos mercados caribenhos ou do sul. Apesar de temidos por sua natureza rebelde e obstinada, eram apreciados por dominar o inglês, conhecer as tarefas que deveriam cumprir e ter imunidade às doenças. Nova York se distinguia pela forte presença de angolanos e congoleses – provenientes dos antigos armazéns portugueses nos quais holandeses se abasteciam – e malgaxes (nativos de Madagascar). Essa particularidade pode ser explicada pela estreita relação entre os comerciantes nova-iorquinos e alguns piratas no oceano Índico.

A imagem do escravo, sob o olhar benevolente de seu senhor, dedicando-se apenas às tarefas domésticas e ao artesanato, longe do exaustivo trabalho no campo, já foi desmentida pela história. Escavações em um cemitério africano descoberto em Nova York, em 1991, revelaram nos esqueletos numerosas deformações físicas decorrentes de atividades penosas. Eles certamente foram obrigados a puxar e a levantar objetos grandes e pesados, carregá-los na cabeça e nos ombros, e a dobrar repetidamente o tronco e os joelhos.

Nas cidades portuárias do norte, os escravos eram responsáveis por diversos trabalhos de construção e carga. A célebre Wall Street era originalmente uma simples paliçada de madeira, construída em parte pelos escravos para proteger a cidade dos ataques indígenas e ingleses. Muitos dos que trabalhavam para os artesãos, açougueiros, padeiros, sapateiros, ferreiros, e carpinteiros tiveram de se adaptar mais rapidamente a fim de dominar a língua e o ofício do senhor.

No campo, os escravos trabalhavam em uma agricultura de subsistência temporária, mais diversificada que a do sul, em pequenas fazendas onde raramente havia mais de cinco cativos. Porém, ao norte da cidade de Nova York, ao longo do rio Hudson, em Long Island, e no condado de Narragansett, ao sul de Rhode Island, existiam grandes áreas que empregavam, como na Virgínia, por volta de 20 escravos. Madeira, cereais, farinha, biscoitos, leite, frutas, legumes, peixe seco, gado e cavalos serviam ao comércio local e eram exportados para a Europa e o Caribe.


UNIVERSIDADE DE VIRGINIA

Nas Antilhas, toda a terra era usada para cultivo do açúcar e os alimentos eram importados do norte dos EUA

As colônias do norte marcaram assim a entrada no comércio triangular e participaram das trocas transatlânticas e intercoloniais. Nas Antilhas, onde toda a terra era usada para o cultivo do “ouro branco”, o açúcar, não havia espaço para plantar alimentos, que deviam ser importados do norte. O açúcar e seus derivados, como o melaço, eram enviados às refinarias na Nova Inglaterra para a produção de rum, bebida usada como moeda de troca na aquisição de novos escravos na África. A partir de 1644, ano da primeira viagem entre Boston e as Antilhas, essas transações continuaram a crescer, fazendo de Newport, Perth Amboy e Nova York os portos e mercados negreiros mais importantes das colônias americanas.

Às vésperas da proclamação da independência, dois terços dos navios americanos envolvidos no tráfico partiam de Rhode Island e 80% das exportações da Nova Inglaterra seguiam para as Antilhas britânicas. Durante a Guerra da Independência, quando os navios não puderam ser enviados para as ilhas, cerca de 15 mil escravos morreram na Jamaica, entre 1780 e 1787. O comércio era muito rentável para os habitantes da região, de mercadores, investidores, seguradores, armadores e capitães até marinheiros, para não falar de muitas profissões indiretamente dependentes desse comércio, como os fabricantes de cordas, ferreiros, carpinteiros e veleiros. As destilarias multiplicaram-se. Havia 12 em Nova York e 22 em Newport. A imprensa também se beneficiou, publicando anúncios de escravos para alugar ou de fugitivos.

A maior parte das elites do norte foi forjada na sua relação com o tráfico. Ezra Stiles, presidente da Universidade de Yale entre 1778 e 1795, era proprietário de escravos; seis prefeitos da Filadélfia eram comerciantes de escravos. Muitos fazendeiros ingleses partiram de Barbados para se estabelecer na colônia de Nova Iorque: Nathaniel e Grissel Sylvester se instalaram em Shelter Island, na ponta leste de Long Island, onde fundaram a fazenda Sylvester Manor; Lewis Morris, por sua vez, adquiriu terras em Nova Jersey e ao norte da cidade de Nova York, às quais deu o nome de Morrisania, hoje um bairro. Quando morreu, em 1691, ele deixou 66 escravos.

Essas colônias eram totalmente marcadas pela escravidão. Do desenvolvimento econômico à estrutura social, passando pela mentalidade dos colonos, que conviviam com essa realidade. Ao contrário das grandes plantações da Carolina do Sul, poucos proprietários na cidade tinham recursos para hospedar sua mão de obra em um alojamento separado. Os escravos eram obrigados a dormir na cozinha, no sótão ou no porão. Privados de intimidade, ficavam sujeitos às vontades de seus donos, que podiam vendê-los a qualquer momento, por falta de trabalho, para aproveitar a oportunidade de uma transação financeira ou para sanar uma dívida.


Reprodução

Anúncios de escravos para alugar ou de fugitivos eram comuns na impresa. Este oferece recompensa pela captura ou perdão ao escravo se ele retornar por vontade própria

À medida que a população negra crescia, as autoridades elaboraram leis para contê-la. A primeira colônia americana a reconhecer legalmente a escravidão foi Massachusetts, em 1641. Seguiram-se muitos regulamentos tendo como objetivo controlar essa população e evitar conspirações e rebeliões. Limitou-se a liberdade de circulação, os escravos foram proibidos de portar armas, eram forçados a carregar um passe quando se afastavam da casa, e a respeitar o toque de recolher. Já os habitantes da cidade foram desencorajados de comercializar bens com eles. Em 1706, o destino dos escravos nova-iorquinos foi selado quando foi decretado que o batismo não podia mudar sua condição de servo, tornando-a assim hereditária, através da mãe. Em caso de infração, as punições iam do açoitamento em praça pública a várias formas de tortura, como o pelourinho, as marcas a ferro quente, mutilação, desmembramento ou venda para o Caribe. Em 2 fevereiro de 1697, um negro condenado por assassinato foi encontrado morto na cela. A cidade decidiu, mesmo assim, infligir a punição ao cadáver. Para que essas leis funcionassem, as autoridades tentavam ganhar o apoio da população condenando brancos e negros livres que entretivessem os escravos (pois isso os incentivaria a mendigar), que os ajudassem a escapar ou lhes oferecessem hospedagem. Mas a implementação dessas leis repressivas e punitivas não foi suficiente para sufocar os impulsos de revolta por parte dos escravos.

Em 1657, um grupo de negros ajudou índios a atear fogo em um edifício em Connecticut; em 1708, no condado de Queens, um escravo índio chamado Sam assassinou a machadadas, com o auxílio de uma mulher negra, a família de seu senhor, William Hallett Jr.; em 7 de abril de 1712, 23 africanos e índios se reuniram para atear fogo a um alpendre e atrair para a armadilha os habitantes que tentavam apagá-lo. Armados com pistolas, facas e machados, eles mataram nove brancos e feriram sete. Cientes do perigo que representavam os escravos, os habitantes de Nova York sucumbiram, em 1741, à paranoia e à histeria, quando passaram a suspeitar, a partir de rumores, que uma conspiração se tramava. O caso terminou com a execução e a deportação de centenas de indivíduos. Dois anos mais tarde, Nova Jersey enfrentou a mesma crise e prendeu 30 suspeitos.

Tribunais foram especialmente criados para julgar os crimes dos escravos. As leis foram reforçadas, dirigidas por sua vez aos negros livres, cujo acesso à propriedade privada foi proibido. As sanções contra eles se tornaram mais pesadas, ameaçava-se escravizá-los novamente, por exemplo, em caso de casamento ou relação sexual com brancos. Vistos como encargos para a sociedade, que temia sua influência, suas condições de emancipação foram restringidas, exigia-se que os senhores pagassem uma caução de 200 libras esterlinas para que a cidade se encarregasse deles, o que poucos proprietários podiam pagar.

O processo de emancipação foi lento e tortuoso, pois os ideais abolicionistas atacavam a forma já instaurada de coexistência entre as duas raças. O estado de Vermont foi o primeiro a abolir a escravidão, em sua constituição de 1777, seguido por Massachusetts e New Hampshire, em 1783. Nos estados do sul da Nova Inglaterra e do centro, o processo foi gradual. Na Pensilvânia, em 1780, depois em Connecticut e Rhode Island, em 1784, a lei libertou os escravos nascidos antes dessas datas; quanto aos que nasceram depois, eles só podiam ser alforriados ao atingir uma determinada idade (24 anos para os homens e 21 para as mulheres, na Pensilvânia). Os dois últimos a legislar em favor da emancipação foram os estados de Nova York, em 1799, e Nova Jersey, em 1804, que só libertaram, e aos poucos, os escravos nascidos após a lei. No primeiro, foi preciso esperar até 1817 para que uma segunda lei alforriasse, a partir de 1827, os escravos nascidos antes de 4 de julho de 1779. Esse truque legislativo possibilitou que os senhores obtivessem uma compensação pela perda de sua propriedade. Ou até mesmo a conservassem, como mostra o caso de Caesar, um escravo da família Nicoll-Sill, de Bethlehem, no condado de Albany. Nascido em 1737, ele morreu em 1852 com a idade de 115 anos, sem saber da existência da lei de 1817 e, assim, serviu seu senhor por seis gerações.


VERMONT HISTORICAL SOCIETY

Primeira página da Constituição de Vermont, 1777: o estado foi o primeiro a decretar o fim da escravidão

Em 1810 havia ainda 27 mil escravos nos estados livres, principalmente em Nova York, Nova Jersey e Pensilvânia. Se, por um lado, as cidades assistiram ao aumento da população negra livre, a escravidão permaneceu firmemente enraizada no campo. Houve também uma mudança nas tarefas atribuídas aos negros, que perderam o controle do trabalho qualificado e foram relegados a tarefas domésticas ou não qualificadas.

Apesar de no norte a segregação não ser explicitamente codificada – no sul havia as com as chamadas Jim Crow laws, série de decretos e regulamentos promulgados no final do século XIX – lá os negros livres sofreram segregação de fato antes da Guerra de Secessão. Em A democracia na América, Alexis de Tocque-ville disse que “o preconceito racial (lhe) parece mais forte nos estados que aboliram a escravidão do que naqueles onde a escravidão ainda existe, e em nenhum lugar ele se mostra tão intolerante quanto naqueles estados onde a escravidão foi sempre desconhecida”. De fato, casamentos mistos eram desencorajados, os negros eram dissuadidos de votar ou de participar do júri em julgamentos, enquanto o desenvolvimento de escolas e igrejas segregadas era incentivado.

Essa população recém-emancipada incomodava porque usurpava o trabalho dos brancos, chegando a provocar revoltas raciais, como em 1834, na Filadélfia. Por fim, viu-se também o nascimento dos primeiros trabalhos científicos sobre a inferioridade dos negros – os de Samuel G. Morton, por exemplo, alegando uma correlação entre a capacidade intelectual de uma raça e o tamanho do crânio.

Os lados separados pela Guerra Civil foram também cúmplices, pois a mesma escravidão que permitiu ao sul tornar-se o rei do algodão ajudou o norte a crescer e a prosperar.


O nascimento de uma nação

Conflito mais sangrento de toda a história dos Estados Unidos, a Guerra Civil deixou 620 mil mortos e foi crucial para unificar definitivamente a nação americana


BIBLIOTECA DO CONGRESSO, WASHINGTON D.C

O general Lee (à esq.) ofereceu a rendição dos confederados ao general Grant em 9 de abril de 1865, na Virgínia

por Farid Ameur

“Espere um pouco, mas qual dos dois se rende ao outro?”, ironiza uma testemunha da rendição do general Robert Lee em Appomattox Court House, no estado da Virgínia. A cena é solene. No dia 9 de abril de 1865, Lee, o comandante confederado, vestia seu melhor uniforme, com a espada cerimonial presa à cintura. Apesar do peso da derrota, sua dignidade é admirável. Sofrendo de enxaqueca, o general Ulysses S. Grant se junta a ele vestindo uma jaqueta desabotoada, botas e calças sujas de lama. Respeitoso, ele contém a emoção, enquanto seu adversário fica impassível ao assinar o ato de rendição das tropas confederadas. Seguindo as recomendações do presidente Abraham Lincoln, o vencedor mostra-se magnânimo. Lee ainda consegue que seus companheiros de armas não sejam processados por traição. A guerra havia acabado; era a hora da reconciliação.

A Guerra de Secessão foi o capítulo mais triste da história dos Estados Unidos. Quatro anos de combates deixaram o país devastado: 360 mil nortistas e 260 mil sulistas pagaram com suas vidas. Em média, um em cada cinco soldados foi morto. O número de feridos e inválidos é de aproximadamente 1 milhão. As perdas totais registradas entre 1861 e 1865 são quase tão grandes quanto às de todos os outros conflitos de que os EUA participaram desde o início de sua história. Nem os civis foram poupados. Tais perdas materiais comprovam a obstinação dos dois exércitos combatentes e a eficácia do equipamento militar.

O sul, proporcionalmente mais afetado já que era menos povoado, perdeu um quinto da população ativa. A marcha dos exércitos e a intensidade das batalhas reduziram a cinzas os estados que lutavam pela divisão dos EUA. Para os derrotados, a reconstrução foi longa e dolorosa. Seriam necessários quase 100 anos para curar as feridas de uma guerra fratricida. A violência repentina causou espanto, pois os EUA reuniam todos os elementos do sucesso. Fundado como modelo democrático, seu sistema político era de dar inveja. A Constituição de 1787 previa a separação dos poderes. Primeiro exemplo aplicado de federalismo no mundo, o país foi consagrado por instituições livres e representativas. Some-se a isso a adoção, em 1791, da Declaração dos Direitos dos Cidadãos (Bill of Rights), que garantia as liberdades individuais e públicas de todos.

No século XIX, os EUA estavam em vias de se tornar uma potência cujo território – 8 milhões de km2 – atingira uma dimensão continental. No censo de 1860, a União tinha 31 estados – repartidos de costa a costa, e do Canadá ao México – além das áreas conquistadas a oeste do Mississippi. O crescimento populacional era tão excepcional quanto a expansão territorial. Nessa época, os EUA tinham 31,5 milhões de habitantes. No espaço de 20 anos, a população dobrou graças aos importantes fluxos migratórios da Europa. Essa mão de obra era oportuna, pois o panorama econômico oferecia oportunidades de desenvolvimento. Em uma terra tão rica e fértil, o mercado dos EUA parecia inesgotável. Acima de tudo, a jovem nação caminhava para uma industrialização que já competia com as potências europeias.


BIBLIOTECA DO CONGRESSO, WASHINGTON D.C

No célebre discurso de Gettysburg, Lincoln definiu o fim da guerra como o nascimento da liberdade que traria igualdade a todos os americanos

Mas um sentimento separatista surgiu no coração do país. Desde o início do século XIX, sinais de desunião podiam ser detectados entre a indústria do norte, vetor do progresso, e o sul, terra de uma sociedade patriarcal e agrária, baseada na escravidão. Para proteger a indústria, os estados do norte defendiam a aplicação de uma tarifa protecionista, enquanto os do sul desejavam uma política de livre comércio, a fim de promover a exportação de algodão, principal fonte de riqueza. Os sulistas ainda exigiam o direito de quebrar o pacto federativo e deixar a União Federal se sentissem que seus direitos estavam sendo violados, o que os nortistas contestavam, seguindo uma interpretação literal da Constituição. Em 1832, o estado da Carolina do Sul já havia feito uma ameaça antes de ceder à pressão do presidente Andrew Jackson.

A questão da escravidão pôs lenha na fogueira. De debate moral, tornou-se um problema político com a expansão em direção ao oeste. Os sulistas, cuja cultura do algodão esgotava o solo, tentavam exportar seu modelo de plantação, e com ele o sistema escravista. A ameaça era grave para os agricultores do norte, que cobiçavam essas novas terras. Por meio de acordos, o equilíbrio precário foi mantido, mas o mal-estar se tornou inevitável.

Assim, em 6 de novembro de 1860, quando Abraham Lincoln foi eleito presidente, o sul se inflamou. A vitória do republicano, que representava os interesses do norte, foi percebida como uma provocação. Em 20 de dezembro, a Carolina do Sul se separou do restante do país. Em 4 de março de 1861, quando Lincoln entrou na Casa Branca, sete estados escravistas proclamaram a dissolução da União e formaram uma confederação, à qual aderiram outros quatro estados do sul. Em 12 de abril, o ataque a Fort Sumter, reduto federal na entrada da baía de Charleston, na Carolina do Sul, jogou o país em uma guerra civil.

Lincoln declarou estado de insurreição. Por falta de um exército permanente, ele convocou voluntários para abafar a rebelião. Em 19 de abril, um bloqueio foi montado para asfixiar a economia do sul. Era o plano Anaconda. Para vencer, o norte contava com a superioridade de seus recursos humanos e materiais. Com 22 milhões de habitantes, 80% das indústrias do país, uma importante rede ferroviária, uma concentração de centros comerciais e financeiros, os principais projetos de construção naval, a União podia muito bem enfrentar a Confederação, que dispunha de apenas 9 milhões de habitantes (dos quais 3 milhões eram escravos), e sofria com a falta de bens manufaturados, armas e dinheiro.

Entretanto, o norte não encontrou facilidade. Com muito sacrifício, o general Ulysses S. Grant abriu o caminho rumo ao Tennessee, ocupando em fevereiro Fort Henry e Donelson Fort. O golpe principal foi dado na foz do rio Mississippi. No final de abril, a esquadra do almirante David Farragut tomou Nova Orleans, a maior cidade da Confederação. Sua queda ameaçava o sul de dissolução e obrigou Jefferson Davis, presidente dos estados separatistas, a alistar civis para a guerra. Na Virgínia, os confederados, sob a liderança do general Robert Lee – um oficial de carreira que se manteve fiel ao sul embora considerasse a secessão inconstitucional e condenasse moralmente a escravidão –, conseguiram adiar o êxito das tropas do norte. Em junho de 1862, o general Lee forçou o general George McClellan, que chegara às portas de Richmond, quartel-general dos sulistas, a dar meia-volta. Nos dias 29 e 30 de agosto, Lee impôs uma nova derrota ao exército da União, em Bull Run. Em seguida, invadiu o estado Maryland em uma tentativa de tomar a capital federal. Mas em 17 de setembro foi derrotado nas margens do córrego Antietam, perto da cidade de Sharpsburg. Com 23 mil vítimas, esse foi o dia mais sangrento do conflito.


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Ao assumir o front da Virgínia em 1864, o general Grant travou um duelo de gigantes com o general Lee

Em 1863 as coisas mudaram. Primeiramente, porque Lincoln assinou em 1° de janeiro o ato de libertação dos escravos, que foi, em certos casos no norte, sinônimo de abolição. Em segundo lugar, porque a guerra tomou uma grande proporção, as batalhas eram cada vez mais sangrentas. O desenvolvimento de novas armas, os 3 milhões de homens mobilizados dos 14 milhões disponíveis, a vasta faixa territorial onde se davam as batalhas, a importância dos meios de trans-porte e comunicação (ferrovias, telégrafo) e a organização de operações por terra e água refletiam a evolução dos projetos militares. Pela primeira vez um conflito mobilizava todos os recursos da sociedade civil. O esgotamento dos recursos do sul foi a chave para a vitória.

Depois de duas vitórias, em Fredericksburg (em 13 de dezembro de 1862) e Chancellorsville (em 2 de maio de 1863), Lee invadiu a Pensilvânia, mas seu progresso foi interrompido pelo general George Meade em Gettysburg, em julho de 1863. Cerca de 51 mil soldados foram postos fora de ação. Foi um momento-chave da guerra. No dia 4 de julho, data da independência americana, Grant tomou Vicksburg, no Mississippi, dividindo a Confederação em duas partes. Dominando todo o curso do rio Grande, os nortistas chegaram às portas do sul. Em 1864, Grant foi transferido para o fronte de Virgínia com a missão de derrotar Lee, que se viu obrigado a recuar. Em 14 de abril de 1865, o assassinato de Lincoln, em um teatro em Washington, deu uma dimensão ainda mais trágica àquele momento.

No sul arruinado, devastado, sujeito à dura lei dos vencedores, os anos de reconstrução foram conturbados. Muitos sulistas, desafiando a derrota, perpetuaram o mito da “causa perdida”, daí o clima de extrema violência, ilustrada pelos crimes de bandidos como Jesse James ou de sociedades secretas como a Ku Klux Klan. Ocupado militarmente até abril de 1877, o sul só sairia de seu estado de subdesenvolvimento depois da Segunda Guerra Mundial, como resultado das obras realizadas na bacia do Mississippi e da exploração de petróleo e gás no Golfo do México. Os negros, por sua vez, precisaram esperar até os anos 1960 para conquistar os direitos civis. Isso mostra como a Guerra Civil afetou a história americana. Não à toa ela é tema recorrente nas obras de escritores do sul, como William Faulkner, ou no cinema, de O nascimento de uma nação (1915) a Cold mountain(2003), passando por ...E o vento levou (1939).

O conflito perdura como uma epopeia nacional, o único que opôs americanos. Ao longo de gerações, o sonho de Lincoln se realizou. Seu triunfo tornou o pacto federativo indestrutível. Foi essa experiência terrível, e não a luta pela independência, que fez dos americanos um povo unido, consciente de seu destino único. A Guerra de Secessão foi uma espécie de segundo nascimento gravado para sempre na memória coletiva dos americanos.

A origem da internet



A história da rede de computadores criada na Guerra Fria que deu início à Terceira Revolução Industrial



Raytheon BBN Technologies / Divulgação

Equipe da empresa BBN Technologies que desenvolveu o servidor IMP, o que viabilizou o funcionamento da Arpanet
por Véronique Dumas*

A internet revolucionou o funcionamento tradicional das sociedades modernas como o fizeram, a seu tempo, a imprensa, a máquina a vapor, a eletricidade ou a telegrafia sem fio (rádio). Hoje parece normal fazer cursos on-line, preencher formulários administrativos a distância ou expressar opiniões em fóruns de discussão. Segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada em 2009 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 67,9 milhões de brasileiros estavam conectados à internet ou seja, o número de domicílios com acesso à internet no Brasil cresceu 71% entre 2005 e 2009. No entanto, poucos conhecem sua história e as razões de sua criação.

De acordo com o dicionário Houaiss, internet é “rede de computadores dispersos por todo o planeta que trocam dados e mensagens utilizando um protocolo comum”. Ela nasceu no final dos anos 1960, em plena Guerra Fria, graças à iniciativa do Departamento de Defesa americano, que queria dispor de um conjunto de comunicação militar entre seus diferentes centros. Uma rede que fosse capaz de resistir a uma destruição parcial, provocada, por exemplo, por um ataque nuclear.

Para isso, o pesquisador Paul Baran concebeu um conjunto que teria como base um sistema descentralizado. Esse cientista é considerado um dos principais pioneiros da internet. Ele pensou em uma rede tecida como uma teia de aranha (web, em inglês), na qual os dados se movessem buscando a melhor trajetória possível, podendo “esperar” caso as vias estivessem obstruídas. Essa nova tecnologia, sobre a qual também se debruçaram outros grupos de pesquisadores americanos, foi batizada de packet switching, “troca de pacotes”.

Em 1969, a rede ARPAnet já estava operacional. Ela foi o fruto de pesquisas realizadas pela Advanced Research Project Agency (ARPA), um órgão ligado ao Departamento de Defesa americano. A ARPA foi criada pelo presidente Eisenhower em 1957, depois do lançamento do primeiro satélite Sputnik pelos soviéticos, para realizar projetos que garantissem aos Estados Unidos a superioridade científica e técnica sobre seus rivais do leste.

A ARPAnet a princípio conectaria as universidades de Stanford, Los Angeles, Santa Barbara e de Utah. Paralelamente, em 1971, o engenheiro americano Ray Tomlinson criou o correio eletrônico. No ano seguinte, Lawrence G. Roberts desenvolveu um aplicativo que permitia a utilização ordenada dos e-mails. As mensagens eletrônicas se tornaram o instrumento mais utilizado da rede. A ARPAnet seguiu sua expansão durante os anos 1970 – a parte de comunicação militar da rede foi isolada e passou a se chamar MILnet.

(C) Mark J. Terril / AP Photo / Glow Images

O engenheiro da computação Leonard Kleinrock posa junto ao Arpanet
Outras redes, conectando institutos de pesquisas, foram criadas nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. Faltava estabelecer uma linguagem comum a todas. Isso foi feito com o protocolo TCP/IP, inventado por Robert Kahnet e Vint Cerf em 1974. A ARPAnet adotou essa padronização em 1976. E assim começou a aventura da web com seu primeiro milhar de computadores conectados. O afluxo de usuários engendrou um fenômeno de sobrecarga. Em 1986, uma nova rede foi lançada pela National Science Foundation. A ARPAnet se juntou a ela quatro anos mais tarde.

Uma etapa decisiva foi superada em 1990 com a criação, por um pesquisador do Conselho Europeu para a Pesquisa Nuclear em Genebra (Cern), Tim Berners-Lee, do protocolo HTTP (Hyper Text Transfer Protocol) e da linguagem HTML (Hyper Text Markup Language), que permitem navegar de um site a outro, ou de uma página a outra. A World Wide Web (www) lançou seu voo, e a internet se abriu ao público, empresas particulares e privadas. Uma multidão de sites apareceu.

Com uma infraestrutura de comunicação teoricamente desprovida de autoridade central, a internet, todavia, seria gerida de um contrato com o governo americano, que havia financiado sua criação, e diversos órgãos que assegurariam seu crescimento. Foi o caso da Internet Assigned Numbers Authority (IANA), responsável pela gestão dos nomes dos domínios, o DNS (Domain Name System). Graças a ele, os endereços IP, constituídos de uma série de códigos (o endereço numérico atribuído a cada computador conectado à rede) são traduzidos em letras que compõem nomes identificáveis e memorizáveis.

Apesar de gerido pela IANA, o DNS sempre esteve sob controle do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Em 1998, sua gestão foi confiada a uma organização californiana de direito privado, a Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (Icann). Em 2009, os contratos que ligavam a Icann ao Departamento de Comércio americano expiraram, e a empresa passou a ter mais autonomia. Sua missão é assegurar, dos Estados Unidos, a coordenação técnica do sistema de denominação. Deve promover também a concorrência e garantir a representação global das comunidades na internet. Os interessados em política mundial da rede podem participar de seus trabalhos, por meio de fóruns acessíveis em seu site na web.

Esse controle técnico e administrativo da internet nos Estados Unidos causa, porém, tensões internacionais. Desde 2003, a Organização das Nações Unidas (ONU) reclama uma gestão “multilateral, transparente e democrática, com a plena participação dos Estados, do setor privado, da sociedade civil e das organizações internacionais”. Em 2006, em decorrência de tal demanda, foi instituída uma estrutura de cooperação internacional, o Internet Governance Forum (IGF). Mas essa instância tem apenas papel consultivo. Ela deve, também, velar pela liberdade de difusão das inovações tecnológicas e ideias. Uma questão essencial, pois a internet se baseia no princípio de neutralidade, que exclui qualquer discriminação da fonte, destinatário ou conteúdo transmitido na rede.

(C) Jason Lee / Reuters / Latinstock (China)

Há três anos, a China criou uma "sub-rede", diretamente controlada pelo governo: ações como essa contrariam a ideia de uma internet livre para todos
Já existem mais de 2 bilhões de internautas no mundo, ou seja, um terço da população planetária. Os progressos da informática, associados aos do audiovisual e das telecomunicações, permitiram a criação de novos serviços. Depois do desenvolvimento de redes de banda larga com fio (ADSL e fibra óptica) e sem fio (wifi, Bluethooth e 3G), e da internet móvel (WAP), desenvolveram-se outras tecnologias e produtos da chamada “web 2.0”. Essa segunda geração se caracteriza por suas aplicações interativas (blogs, wikis, sites de compartilhamento de fotos e vídeos ou redes sociais), que renovaram a relação entre os usuários e os serviços de internet, criando o princípio de uma cultura compartilhada em rede.

Assim como a dominação americana da regulação técnica é vista por outros Estados como uma ameaça, o estabelecimento de controles nacionais por meio de sistemas que impedem o livre acesso à internet constitui também outro perigo político para as liberdades individuais.

Em janeiro de 2007, o especialista francês Bernard Benhamou anunciou em um artigo sobre as novas questões da governança da internet que a capacidade de fragmentação da rede apresenta riscos em relação ao plano industrial e político. Ele pensava particularmente na China, que tentou criar seu próprio sistema de endereçamento, independente do DNS. Uma maneira eficaz de bloquear a consulta de seus sites aos internautas de fora e de interditar à população chinesa o acesso aos sites externos.

Isso já é realidade. Há mais de três anos o servidor de nomes de domínios chineses não passa mais pela Icann, para que, de acordo com o governo chinês, seu povo possa aprender os ideogramas, em vez de palavras do alfabeto latino. Essa “sub-rede”, de acordo com a expressão do jornalista Hubert Guillaud, do jornal francês Le Monde, que recebe o nome poético de “escudo de ouro”, é diretamente controlada pelo governo chinês. Não há dúvidas de que esse tipo de internet do Império do Meio, que associa censura e controle, pode rapidamente ser copiado por nações que não utilizam o alfabeto latino. Isso teria como consequência a fragmentação da internet em múltiplas redes incompatíveis.

A “ciberguerra” que opôs Google e Pequim no início de 2010, quando o maior site de buscas do mundo ameaçou deixar o país após ser atacado por hackers chineses e constatar a invasão de contas de e-mails de ativistas de direitos humanos, fez do livre acesso à internet uma prioridade da política externa dos Estados Unidos. A internet se converteu em uma arma política da Casa Branca na luta pela preservação de sua hegemonia comercial e estratégica.

As recentes revoluções na Tunísia e no Egito mostraram o papel determinante da web, dos blogs e das redes sociais na queda de regimes ditatoriais. A internet se tornou “um Titã que ninguém pode conter”, como disse o jornalista tunisiano Taoufik Ben Brik, e essa nova ciber-resistência pode, se não mudar, pelo menos acelerar o curso da história.
Fonte: http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/o_nascimento_da_internet.html

Transiberiana: a mais longa ferrovia do mundo



De 1891 a 1904, milhares de operários enfrentaram frio, fome e epidemias para criar a linha férrea que atravessa a Rússia, projeto faraônico que quase não chegou ao fim




CREATIVE COMMONS

Mapa da Transiberiana de 1897

por Claude Mossé

Para aqueles que tiveram o privilégio de percorrê-lo, ele é bem mais do que uma experiência. Uma referência, um mito. Impossível esquecê-lo. Basta evocar o rolamento do caminho de ferro na imensidão siberiana – caleidoscópio de paisagens diversas – para despertar a curiosidade. A ferrovia mais longa do mundo – quase 10 mil quilômetros, um quarto da circunferência da Terra na altura do Equador – ainda inflama os espíritos.

Na taiga, entre as colinas e montes pelados, os complexos industriais do rio Ural ao lago Baikal – o mais profundo do planeta, localizado no sul da Sibéria – da Europa à Ásia, os vagões fora de moda repintados nas cores da Rússia pós-comunista oferecem um passeio ferroviário excepcional. No século XXI, essa linha de trem – cuja construção exigiu que florestas inteiras fossem abatidas, rios desviados, milhares de quilômetros de trilhos instalados e centenas de pontes construídas – ainda surpreende pelo gigantismo. Antes da ferrovia, para atravessar a Sibéria, utilizava-se o trakt, uma estrada de cascalho, mantida sob os cuidados de presidiários ou de mujiques, os exilados voluntários, para que os negociantes, militares e adversários banidos – tais como os dezembristas, os primeiros a se revoltar, em 1825, contra o regime czarista – não tivessem os ossos deslocados nas carroças ou trenós, a cada quilômetro.

Os pioneiros Quando se iniciaram as obras, em 1890, Anton Tchekhov, viajando pelo trakt com destino à Ilha Sacalina, escreveu: “Eis-me em Ecaterimburgo (onde, em 1918, foram executados o czar Nicolau II e sua família), eu tenho o pé direito na Europa e o esquerdo na Ásia”. Se viajasse na década seguinte, poderia ter chegado de trem. Foi o tempo gasto para a instalação de 10 mil quilômetros de trilhos. Engenheiros e operários pagaram caro para construir esse colosso em tão pouco tempo.

Tudo começou em 1867, depois que o Império Russo, em dificuldades financeiras por conta da Guerra da Crimeia (1853-1856), vendeu o Alasca para os EUA. O governo russo percebeu, que a Sibéria, terra selvagem e de exílio onde somente os negociantes de pele faziam fortuna, dispunha de riquezas ainda não exploradas, entre elas as enormes jazidas de ouro. Como transportá-las, se não fosse por ferrovia? Assim, nasceu a ideia da Transiberiana. Desde que o projeto da ferrovia se tornou conhecido, as sugestões se multiplicaram – algumas delirantes, como a de comboios puxados por cavalos, na falta de carvão para alimentar as locomotivas a vapor...

Iniciativa militar As autoridades czaristas compreenderam rapidamente a importância econômica e estratégica de um trem que ligasse Moscou a Vladivostok, a jovem cidade construída em frente ao Japão, rival histórico da Rússia. Após o conflito franco-prussiano de 1870, a diplomacia russa percebeu que, no caso de guerra com os japoneses, a ferrovia seria um meio eficaz para transportar as tropas – o que foi confirmado em 1904. Pode-se dizer que a Transiberiana foi, a princípio, construída por militares e para militares.

Em 1875, a publicação do romance Michel Strogoff , de Júlio Verne, apresenta as terras desconhecidas da Sibéria Oriental ao grande público. O entusiasmo foi tamanho que, de forma inesperada, os chineses, invejosos da publicidade dada a essa região, interromperam as exportações de chá para a Rússia. Fosse boiardo ou mujique, ninguém ficou indiferente a essa medida: um dia inteiro sem chá era tão insuportável que, na Transiberiana do século XXI, continua-se a dar mais atenção à manutenção do samovar – um em cada carro – do que à do eixos...


GALERIA TRETYAKOV, MOSCOU

Para o ministro das Finanças Serguei Witte, ardor e fé eram fundamentais para uma obra tão monumental. Retrato do Ministro das Finanças e membro do Conselho de Estado Sergei Yulyevich Witte, óleo sobre tela, Ilya Repin, 1903

Embora no final do século XIX, o trem existisse somente nos documentos do Comitê das linhas férreas, a colonização das terras aráveis siberianas se acelerou. As pressões sobre o czar Alexandre III se intensificaram. O barão Korf, governador da Sibéria Oriental, repete que, do lado de Vladivostok, a via férrea seria uma espécie de muralha contra toda e qualquer invasão chinesa ou japonesa. Seu filho, o czareviche Nicolau, reteve a lição. Num documento assinado de próprio punho e datado de 29 de março de 1891, ele sela o destino da Transiberiana – ignorando que, 27 anos mais tarde, ele faria, naquela ferrovia, sua última viagem.

Diante de um casebre de madeira, ele instalou em Vladivostok o primeiro trilho. Para Serguei de Witte, ministro das Finanças, tanto o ardor quanto a fé nessas obras tornaram-se uma necessidade. As responsabilidades eram enormes: definir um traçado, achar materiais, recrutar os operários, que precisariam ser alimentados e alojados e ainda trabalhariam em condições climáticas extremas. Primeira decisão: a construção deveria ocorrer, simultaneamente, em três grandes áreas. Uma dificuldade maior surgiu: a travessia do lago Baikal.

A Sibéria não dispunha de estaleiros navais. Os comboios atravessavam essa extensão de água, verdadeiro mar interior, numa barca construída na Inglaterra e enviada em peças isoladas pelos trechos da linha já finalizados. De vocação militar, no início, a ferrovia devia ser protegida. Daí, a ideia de expandir em 11 centímetros a largura dos trilhos, fixada na Europa e na Ásia a 1,52 metro.

Os construtores foram declarados “heróis da pátria”, uma homenagem modesta para quem sofreu tanto. Após um dia inteiro cavando, atulhando, instalando vigas e trilhos, os trabalhadores eram transportados em carroças pelo trakt, de volta aos casebres de madeira mofada dispostos por seções de 5 km, distância que eles deveriam percorrer em caso de neve, vento ou calor escaldante, e sob o ataque constante de mosquitos. O abastecimento de provisões, água potável – e vodca – era problemático. Fossem engenheiros ou operários, esses homens famintos podiam se transformar em animais selvagens, capazes de estrangular um camarada por uma simples migalha de pão.

Milhares ficaram cegos Algumas estelas ao longo do caminho lembram aos passageiros que ali ocorreram mortes, muitas mortes. O ministro Witte escreveu um relatório destinado ao czar, que se solidarizou, ordenando somente a substituição dos defuntos por novas levas de trabalhadores – ninguém na capital procurou criar um serviço de saúde. Entre as vítimas figuram milhares de operários que ficaram cegos por causa de picadas de insetos.

Após a morte de Alexandre III, em 1894, boiardos e mujiques imploraram para que Nicolau II interrompesse as obras. O Transiberiana talvez nunca tivesse sido concluída não fosse a contribuição do rico industrial belga Georges Nagelmackers. Inventor dos vagões-leito, sob a sigla Pullman, ele sugere a Witte o lançamento de um trem “confortável” e chega a oferecer de presente um vagão-igreja. As obras, não mais sob tutela militar, continuam. Gustav Eiffel, o pai da torre, sempre à procura de um bom negócio, propõe o fornecimento de todo o percurso de vigotas metálicas.

Meretrizes de toda a Europa Quilômetro após quilômetro, o trilho avançava pela floresta boreal. Witte tem, então, uma revelação: o que falta aos homens? Mulheres! Por meio de pequenos anúncios, prostitutas, bem pagas, são trazidas de toda a Europa – e não da perversa Ásia! O czar concorda. Quantos siberianos são descendentes de meretrizes das calçadas de Paris!


WOUDLOPER/CREATIVE COMMONS

Estação de Krasnoyarsk, na Rússia, em agosto de 2006

Considerando que os industriais seriam os principais beneficiários do trem, Nagelmackers recorre aos mais afortunados. Sem resultado. Ele sopra, então, a Witte uma ideia, banal hoje em dia, mas original em 1898: uma viagem para a imprensa, de Moscou a Tomsk. Três carros com dois leitos, um vagão-salão com piano, uma cozinha delicada preparada por Auguste Escoffier. Oriundo da Côte d’Azur, esse chefe fez as delícias dos ricos russos, para os quais a Riviera é a antecâmara do paraíso. Todos aprovam a ideia, com exceção do czar: ele não queria que os estrangeiros tomassem conhecimento das terríveis condições de trabalho nas obras. A solução foi dar folga para todos os trabalhadores de 5 a 25 de agosto, durante toda a viagem, que se faz ao longo de 3 500 km. Os relatos dessa “fabulosa Sibéria” transbordavam de entusiasmo – mas nenhuma palavra sobre os deportados. O luxo oferecido justificava uma tal dissimulação?

O czar, entretanto, se voltou contra Witte por causa de gastos não justificados; o ministro das Finanças invocou epidemias, chuvas, rebeliões rapidamente reprimidas dos aldeões incompetentes empregados à força... E manteve seu cargo. Em 1903, a Transiberiana foi concluída. A partir do ano seguinte, ela provou sua utilidade. Quando, na noite de 9 de fevereiro, uma armada japonesa atracou em Port-Arthur, o czar, humilhado, gritou: “Que as tropas sejam enviadas pela ferrovia!”. Sim, mas... Sem dúvida instalados muito rapidamente, os trilhos entre Khabarovsk e Vladivostok apresentam vários defeitos. E o que tinha que acontecer, aconteceu: perto de Tchita, o trem descarrilou numa floresta, uma zona pouco povoada onde faltam provisões e água doce. Alguns militares morrem, outros perdem a razão ou fogem para a estepe – uma vasta escolha de presas para os ursos, tigres e lobos.

Assim, apesar da derrota, a Transiberiana mostrou sua utilidade e sua fragilidade.

Trem da insurreição Até 1916, os trens circularam. No ano seguinte, Churchill declarou: “A Batalha do Marne também foi ganha na linha do trem Transiberiano.” A Sibéria não era somente uma terra de deportação; o trem facilitava a rebelião, a linha de trem tornou-se símbolo da insurreição. Os amotinados, quando não eram fuzilados diante dos vagões, eles usam a sala de reunião.

Em 1918, após a revolução, o general tcheco Kolchak, tendo ocupado as estações, fez espalhar a existência de um Estado independente com o qual se sonhava. Mas em vão: ele é executado pelos milicianos soviéticos. Pai do Exército Vermelho, Trotski instala cinco vagões como casa, escritório e centro de espionagem cobrindo toda a Sibéria. De 1922 a 1940, Stalin instala próximo às vias os infames gulags, campos de trabalhos forçados.

Não nos enganemos: se civis e militares russos mantêm amáveis conversas – sob os olhos da provonitsa, a ferromoça que reina entre samovares e passageiros, o “trem n° 1”, sempre lotado, também facilita o desenvolvimento de práticas mafiosas. Sem, no entanto, espantar os cavalos selvagens que galopam através das montanhas Altai e da imensidão siberiana...
Fonte:

Civilização Grega | Os Tempos Homéricos | 1000 aC a 1aC


A Grécia é uma península ao sul da Europa, no Mediterrâneo. Muito antes do século IV a.C. – quando Alexandre Magno conquistou um vasto império, chegando até a Índia – a civilização grega se estendia não só aos arquipélagos do Mar Egeu e à Ásia Menor, mas também às costas setentrional da África e meridional da Itália, onde se estabeleceram importantes núcleos de povoamento.



O relevo da península dividia a Grécia em pequenas regiões naturais, nas quais se formaram cidades, que tinham governo próprio e independente, constituindo verdadeiros Estados.

Algumas tornaram-se tãofamosas: Atenas, Esparta, Tebas, etc.

Em cada uma delas desenvolveu-se um tipo particular de civilização: Esparta cultivava o militarismo; Atenas dedicou-se sobretudo ao pensamento, às artes e à cultura.

Mas havia entre elas muita coisa em comum no que se refere à vida urbana. Para compreendermos a evolução política da Grécia antiga, é necessário retrocedemos aos tempos pré-homéricos, quando os povos indo-europeus ali se fixaram. Já nessa época, esses grupos humanos encontravam divididos em genos, famílias coletivas constituídas por um grande número de pessoas sob a liderança de um patriarca.

Após as invasões dos dórios, os genos passaram a constituir a forma predominante de organização social. Assim, podemos afirmar que o período pré-homérico foi o período das comunidades gentílicas. Cada geno constituía uma unidade econômica, social, política e religiosa da sociedade grega. De fato, esses pequenos agrupamentos humanosconseguiam, isoladamente, assegurar sua sobrevivência com uma economia natural e coletivista. Os meios de produção (terra, sementes), assim como os bens produzidos (alimentos, objetos), pertenciam a todos os indivíduos, ou seja, a propriedade não tinha caráter particular.

Na organização hierárquica dos genos, o patriarca, ou pater, era a autoridade máxima, exercendo as funções de juiz, chefe religioso e militar. O critério que definia a posição dos indivíduos na comunidade era o seu parentesco com o pater. As comunidades gentílicas existiram durante quase todo o período homérico. Apenas por volta do século VIII a.C., iniciou-se o processo de desintegração dos genos, evoluindo mais rapidamente em algumas regiões do que em outras. Diversos fatores contribuíram para a dissolução dos genos no final dos tempos homéricos, entre eles o crescimento populacional e o aumento do consumo.

Entretanto, a produção continuava limitada, pois havia poucas terras férteis e as técnicas de produção eram bastante rudimentares. A luta pela sobrevivência, que dependia basicamente da terra, desencadeou uma série de guerrasentre genos. Para enfrentar um inimigo comum, muitos deles se uniram, formando uma fratria. Reunidas, as fratrias constituíam uma tribo, a qual se submetia à autoridade do filobasileu, o supremo comandante doexército.

A união de várias tribos deu origem ao demos ("povo", "povoado"), que reconhecia seu lider supremo o baliseu.

A crise da sociedade gentílica alterou profundamente a estrutura interna dos genos. Aos poucos, a terra deixou de constituir propriedade coletiva, sendo dividida, de modo desigual, entre os membros dos genos.

As melhores parcelas de terra foram tomadas pelos parentes próximos do pater, e por esse motivo, passaram a ser chamados de eupátridas ("bem-nascidos"). O restante das terras foi dividido entre os georgóis (agricultores), parentes mais distantes do patriarca.

Nesse processo de divisão, os mais prejudicados foram os thetas (marginais), para os quais nada restou.

Com a crise das comunidades gentílicas, a Grécia continental se transformou em palco de inúmerosconflitos e tensões sociais, que resultaram em uma nova dispersão do povo grego – a segunda diáspora. Osprincipais fatores que provocaram esse novo deslocamento foram o crescimento demográfico e a escassez de terras cultiváveis, em grande parte pela concentração da propriedade nas mãos de uma pequena parcela da população.Desse modo, boa parte da população excedente, constituída, principalmente pelos menosbeneficiados na partilha das terras, emigrou para regiões do Mediterrâneo ocidental, ali fundando diversas colônias. Assim surgiram cidades como Tarento e Siracusa, no sul da Itália, região que desenvolveu muito graças ao cultivo de cereais e que ficou conhecida como Magna Grécia.

Nesse período de instabilidade, por questões de segurança, várias tribos se uniram formando comunidades independentes, que deram origem às pólis ou cidades-estados.

Elas tinham como ponto central a acrópole, parte mais alta da povoação, governada pelo conselho de aristocratas, os eupátrida.


Fonte:
http://br.geocities.com/culturauniversalonline/acontecimentos_2.htm

Caminhos pré-colombianos


O povoamento do continente americano foi multiétnico e descontínuo. Há divergência a respeito das rotas migratórias percorridas por diversos grupos étnicos que habitaram estas terras desde o fim da Era Glacial

Glaucia Malerba Sene






Movimentos migratórios antigos na América
Há pelo menos 12 mil anos, os primeiros hominídeos chegaram às Américas, caminhando lentamente, em pequenos grupos e por diferentes caminhos. Estas migrações foram multiétnicas e descontínuas. Hoje, já se sabe que os habitantes pré-colombianos deste continente percorreram ao menos quatro levas migratórias: três passando pelo Estreito de Bering (em épocas distintas) com chegada ao Alasca – e, em uma delas – posterior migração para Patagônia e sul do Chile. E pelo menos uma (ainda mais antiga) que teria vindo pelo Oceano Atlântico da Europa, cujo destino foi o sudeste dos Estados Unidos. Mas a trajetória até a aceitação científica das múltiplas origens dos nossos ancestrais foi longa e tortuosa.



Durante as primeiras décadas do século XX, por exemplo, estudiosos norte-americanos apostaram suas fichas na existência de apenas um modelo preponderante de migração para este continente, que consistia na vinda de grupos de caçadores de animais de grande porte da Sibéria em direção ao Alasca. Os ancestrais dos atuais esquimós teriam chegado ao continente em três levas – entre 12 e 6 mil anos atrás, durante o último período glacial. A teoria chamada “Clovis First”, no entanto, deixava algumas brechas na pré-História. Dúvidas que só começaram a ser respondidas em 1975, com a análise do fóssil brasileiro Luzia, pelo bioarqueólogo da Universidade de São Paulo, Walter Neves.

O crânio da “paleoíndia” veio à tona pela antropóloga física Marília Alvim, após escavações nos sítio da Lapa Vermelha, em Minas Gerais. E logo se tornou ferramenta fundamental neste processo de mudança de paradigmas acerca das rotas migratórias, já que Luzia possui traço negroide, bem diferente do mongoloide - predominante nos ancestrais da América do Norte -, conforme indicou a pesquisa de Walter Neves. Sua teoria se tornou ainda mais clara após ter sido feita sua reconstituição facial.

Antes destes estudos se concluírem, no entanto, a arqueóloga francesa Annete Laming-Emperaire, responsável pela Missão Francesa no Brasil, já havia confirmado presença humana na mesma região mineira com datações variando entre 11 e 7 mil anos de idade. E, cem anos antes, o naturalista dinamarquês Peter Lund já havia feito as primeiras descobertas da arqueologia brasileira na região de Lagoa Santa, Minas Gerais, sem saber que contribuiria para alimentar a posterior reviravolta nas diásporas migratórias americanas. Na época de Lund, ou seja, final do século XIX, foram encontrados dezenas de sítios arqueológicos em cavernas da região e centenas de esqueletos, muitos dos quais conduzidos à Europa, especialmente à Dinamarca para serem estudados por especialistas.

Nos últimos anos, outros registros arqueológicos com características semelhantes foram identificados também em Santana do Riacho, Minas Gerais e Caatinga de Moura, Bahia, no Brasil, além de achados nos Estados Unidos, no México, no Chile, na Colômbia e na Argentina. Walter Neves coletou todas estas informações e publicou o resultado de sua pesquisa, indicando a possibilidade da existências de migrações americanas entre 20 e 25 mil anos atrás.

Outros casos

Na região de Monte Verde, no sul do Chile, escavações e estudos arqueológicos também realizados na década de 1970 indicaram que grupos caçadores-coletores haviam passado por ali há pelo menos 12.500 anos. A informação inviabilizava a teoria clássica migratória via Estreito de Bering para esta região, através do interior do continente americano. Ou seja, os “paleoíndios” daquela região do Chile teriam vindo também do norte do continente, mas via costa do Pacífico sem ultrapassar os limites da cordilheira. Surge, então, mais uma possibilidade migratória: o deslocamento via costa do Pacífico, que explicaria perfeitamente a rápida chegada à América do Sul, especificamente em Monte Verde, justificando ainda outras datações antigas encontradas na Patagônia e sul do Brasil.

Outras descobertas, como de sítios arqueológicos no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, também figuram o quadro de achados antigos do Brasil. Os vestígios de paleoíndios na região datam algo em torno de 50 mil anos atrás. Tais resultados levaram os pesquisadores envolvidos a sugerirem a chegada do homem ao local por meio de migrações via oceano Atlântico, cujos grupos, provenientes da África, teriam vindo em pequenas embarcações, em meio às inúmeras ilhas que afloravam na travessia, em função da oscilação do nível do mar. Esta hipótese migratória ainda encontra resistência no meio científico internacional.

Mas o caminho via oceano Atlântico para outras regiões da América chega a ser cogitado em outros casos, como o dos “paleoíndios” que se assentaram no sudeste dos Estados Unidos, provavelmente entre 25 e 17 mil anos atrás. Desde 1998, os pesquisadores Dennis Stanford e Bruce Bradley, da universidade britânica do Exeter, vem defendendo a vinda de grupos da Europa para a costa leste norte-americana, à bordo de pequenas embarcações. Foram encontrados sítios arqueológicos nos estados de Maryland, Pennsylvania, Virgínia, Florida e Delaware que apresentam vestígios de cultura material semelhante aos encontrados em escavações no Velho Continente.






Walter Neves em foto do acervo do Laboratório de Estudos evolutivos Humanos (IB/USP)Sambaquis e tupiguaranis



As migrações sempre foram necessárias entre os grupos de caçadores-coletores. No Brasil, não poderia ser diferente, os deslocamentos persistiram ao longo do tempo, ganhando força por volta de 6 mil até o início da era cristã, quando grupos interioranos seguiram em direção ao litoral, em razão do aumento da temperatura e da maior disponibilidade de alimentos na costa, dando origem aos conhecidos sambaquis. Pouco se sabe dos percursos escolhidos para estas migrações. Há indícios de contatos com outras populações, especialmente no sul do Brasil, dada a monumentalidade e diversidade dos artefatos encontrados nessa faixa litorânea. As datações mais antigas estão no Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Paraná, entre 7.500 e 6.000 anos.

Coincidentemente, no mesmo período em que os sambaquieiros entravam em colapso, tinha início mais um novo ciclo de migrações, desta vez de grupos horticultores, vindos da Amazônia, detentores de uma organização social mais consistente e uma produção material tecnologicamente mais complexa. Englobados na tradição tupiguarani no último quartel do século XX, não representam uma unidade étnica, social e cultural, tendo sido recentemente denominados na arqueologia brasileira por “grupos portadores de cerâmica tupi-guarani”.

Há pelo menos três grandes propostas para a migração dos grupos tupi-guarani. Uma delas indica a existência de movimentos migratórios advindos da Amazônia Central – ou via rio Amazonas em direção à foz - e de lá teria seguido pelo litoral até São Paulo, compondo o ramo Tupinambá. A segunda indica a origem aos Guarani pelos afluentes dos rios Madeira e Guaporé, se disseminando pela bacia dos rios Paraná e Paraguai no sul do Brasil. A terceira e mais distinta, tem como ponto de dispersão a mesma região amazônica: os grupos Tupi, migrando unicamente pelo Brasil central, atingido o litoral na região sudeste, possivelmente através do Vale do Paranapanema. Neste ponto, uma parte teria seguido o rumo norte e outra, sul, dando origem aos Tupinambá e Guarani.

Se os pontos de partida e chegada dos grupos caçadores-coletores, sambaquieiros e horticultores já estão claramente identificados, seus verdadeiros itinerários ainda são obscuros. Os rastros dos caminhos milenares percorridos por estes povos foram sendo apagados pelo tempo e a pesquisa arqueológica tenta refazê-los pouco a pouco, dia após dia.

As limitações da Lei Áurea


A Lei Áurea acabou com a escravidão, mas não pensou na inserção dos negros na sociedade.


Ao falarmos sobre Lei Áurea, é comum muitos se lembrarem da princesa Isabel como sendo uma mulher generosa que concedeu a liberdade aos negros. No ano de 1888, a princesa assinou o decreto que acabava com a escravidão brasileira e revogava qualquer outra lei que fosse contra tal decisão. Sendo formada apenas por esses dois artigos, a mais importante lei abolicionista era de uma simplicidade distante da real situação dos negros no Brasil.

Antes de tudo, devemos pensar sobre o contexto em que a Lei Áurea fora assinada. Naquela época, os movimentos abolicionistas agitavam os grandes centros urbanos do país realizando vários alertas sobre a implicação negativa da escravidão no desenvolvimento do país. A exploração e os abusos dessa modalidade de trabalho eram sistematicamente criticados em seus aspectos morais e sociais. Além disso, a mesma era posta como um sinal da barbárie nacional em relação à “Europa civilizada”.

Vale também lembrar que, nos fins do século XIX, a escravidão era uma atividade econômica quase impossível. A proibição do tráfico negreiro internacional criou uma grave limitação da mão de obra, dificultou a obtenção de novas peças e encareceu o escravo no mercado. Apesar da ampliação do tráfico interprovincial, o uso dos escravos não conseguia suprir a enorme demanda gerada pela economia cafeeira. Não por acaso, vemos que a mão de obra dos imigrantes se transformava em uma opção mais atrativa.

Outro ponto a ser destacado também se relaciona com a própria intensificação dos negros nos episódios de rebelião dos escravos contra os seus senhores. Em 1835, a Revolta dos Malês serviu como um alarmante sinal de alerta sobre a capacidade que os escravos teriam na articulação de levantes contra a ordem vigente. Ao mesmo tempo, várias fugas e o surgimento de novos quilombos também contribuíram para a iminente crise do sistema escravista.

Com isso, ao abolir a escravidão, a princesa Isabel somente executava o “tiro de misericórdia” em uma relação de trabalho inviável. Entretanto, ao não dispor nenhum tipo de inserção dos negros à sociedade, a Lei Áurea se mostrou limitada ao manter os negros libertos na mesma condição de dependência e subordinação. Em várias situações, os salários irrisórios impunham uma condição de vida tão ou mais penosa para aqueles novos trabalhadores livres.

Na virada do século XIX, vemos que diversos ex-escravos se deslocaram para os grandes centros urbanos em busca de novas oportunidades de trabalho. No Rio de Janeiro, ocuparam desordenadamente antigos casarões e cortiços velhos que se transformaram em verdadeiros nichos de insalubridade e graves epidemias. Com o passar do tempo, vários negros libertos e seus descendentes vivenciaram o processo de exclusão que originou as primeiras favelas da capital.

Por Rainer Sousa

Fonte: http://www.mundoeducacao.com.br/historiadobrasil/as-limitacoes-lei-aurea.htm

13.5.13

9 de maio de 1968 — URSS invade Tcheco-Eslováquia



por: denisedealmeida


A União Soviética decidiu intervir militarmente na Tcheco-Eslováquia para barrar o processo de democratização conduzido pelo líder do Partido Comunista tchecoslovaco Alexandre Dubcek. Tropas soviéticas atravessaram a Polônia em direção àquele país.

As dificuldades entre a Tcheco-Eslováquia e a União Soviética começaram em janeiro de 1967, com a derrubada de Antonin Novotny – um dos homens da velha guarda do partido – e a sua substituição por Dudcek. O novo líder do PC tchecoslovaco procurou afastar as suspeitas soviéticas, declarando-se fiel à linha socialista e ao Pacto de Varsóvia, e argumentando que a abertura política fora motivada pela própria história e as tradições do seu país.

O objetivo da reforma proposta por intelectuais do Partido Comunista tchecoslovaco era o de transformar pacificamente um regime comunista ortodoxo em uma social democracia, nos moldes dos países ocidentais. As mudanças na estrutura política, econômica e social foram anunciadas em abril, um mês antes da movimentação das tropas soviéticas.

Dubcek prometeu uma revisão da Constituição, que garantiria os direitos civis. A abertura abrangeria também o pluripartidarismo, uma Assembleia Nacional, liberdade de imprensa, independência do Poder Judiciário e a tolerância religiosa.

As tensões entre a Tcheco-Eslováquia e a União Soviética aumentaram. Em junho, personalidades tchecoslovacas divulgaram um documento, que pedia a Dudcek para acelerar o processo de democratização.

Primavera de Praga
Diante dessa ameaça à hegemonia política da União Soviética, a Rússia enviou tropas de países do Pacto de Varsóvia à capital do país, no episódio que ficou conhecido como Primavera de Praga. Em 20 de agosto, sete mil tanques entraram na Tcheco-Eslováquia. No conflito morreram 72 tchecoslovacos. Dubcek foi preso e destituído do cargo.
As reformas foram canceladas e o regime de partido único continuou a vigorar na Tcheco-Eslováquia até o fim da União Soviética em 1989, quando o país retomou as reformas com a Revolução de Veludo. Em 1993, a República Tcheca e a Eslováquia, separaram-se na chamada Separação ou Divórcio de Veludo.

9 de maio de 1967 – Brasil assina tratado de proscrição de armas nucleares



por: Alice Melo



No dia nove de maio, na Cidade do México, o Brasil ratificou sua participação no Tratado para a Proscrição das Armas Nucleares na América Latina, também conhecido como Tratado do México, que estava aberto para assinaturas desde o dia 14 de fevereiro do mesmo ano. O acordo foi feito com a ressalva de poder servir a fins pacíficos possibilitando os Estados signatários a “realizar por seus próprios meios, ou em associação com terceiros, explosões nucleares para fins pacíficos, inclusive as que pressupunham artefatos similares aos empregados em armamentos militares”.

As ressalvas do tratado – que fora resultado de uma resolução aprovada em 27 de novembro de 1963 durante a 18ª Assembléia Geral das Nações Unidas – foram feitas para preparar o governo brasileiro para defender posteriormente, em uma reunião mundial sobre o desarmamento nuclear, o direito das nações subdesenvolvidas ou em desenvolvimento de utilizar a energia nuclear para o progresso econômico e social de seus povos.

O Brasil foi o 17º país a assinar o acordo. Essa demora não significou dúvida ou oposição aos objetivos superiores visados pelas nações da América Latina, sendo apenas, uma consequência da mudança de governo – em março de 1967, o marechal Costa e Silva assumia a presidência da República, cargo antes ocupado pelo general Castelo Branco.

No mesmo dia em que fora retificado o Tratado do México pelo governo militar, representantes de Estados Unidos e Brasil assinaram também, em cumprimento ao Acordo de Cooperação para Uso Civil da Energia Atômica (1965), a Declaração Conjunta sobre materiais e equipamentos sujeitos à salvaguarda da Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA. De acordo com os termos da declaração, as salvaguardas, que seriam aplicadas pela AIEA, visaram assegurar que os equipamentos, dispositivos e materiais obtidos sob a condição de emprego civil não fossem desviados para fins militares.

“No campo da energia nuclear, aceitamos a restrição de não empregar o átomo para fins bélicos, mas nos reservamos o direito de utilizá-lo sem limitações no terreno pacífico”, declarou o então Presidente da Comissão Nacional de Energia Atômica, Porf. Uriel Ribeiro.


Fonte: http://www.jblog.com.br/hojenahistoria.php?itemid=21071

10 de maio de 1994: Mandela assume a presidência da África do Sul

por: Lucyanne Mano

Diante de uma multidão de cinco mil pessoas, que aguardava sob um sol escaldante, Nelson Mandela se tornou o primeiro presidente negro da África do Sul, retirando do poder a minoria branca que durante quase meio século segregou e humilhou os negros com a política do apartheid.

Num palanque blindado e cercado por seguranças, o novo líder político do mais rico país do continente africano iniciou seu discurso após ser saudado por representantes das Igreja hindu, judaica e muçulmana, e de ter recebido benção do Nobel da Paz Desmond Tutu.

“A África do Sul ficou isolada até tão pouco tempo porque adotou a mais perniciosa das ideologias, o racismo. Hoje eu e o vice-presidente De Klerk estamos unidos para nunca mais deixar isso acontecer. Que haja justiça, trabalho, paz, água e terra para todo mundo. Vamos trabalhar juntos, fazer deste um grande país; Deus abençoe a África”, declarou Mandela.

Além da multidão de sul-africanos, que faziam uma grande festa em Pretória, capital do país, para saudar o novo governante, chefes de estado e políticos de todo o mundo estiveram presentes durante o almoço oficial da cerimônia de posse. O presidente cubano Fidel Castro era uma das personalidades que mais chamavam a atenção dos jornalistas, ao lado do líder palestino, Yasser Arafat. “Estava mesmo na hora de mudar”, declarou Fidel em entrevista, dizendo que dava total apoio a Mandela e que o considerava um amigo de Cuba.



Após ficar preso durante 27 anos por sua intensa militância contra o sistema segregacionista da África do Sul, Mandela foi solto como herói nacional (1990) e principal candidato à Presidência da República. No final de abril de 1994, quando finalmente os negros do país se livraram das amarras do preconceito e da opressão, e puderam ir às urnas, o futuro Nobel da Paz foi eleito líder supremo na nação, com maioria esmagadora dos votos. Falando sobre sua época no cárcere, Mandela declarou no dia da posse:

“Só a tolerância nos permitiu chegar até hoje. Por isso eu convido, vamos esquecer, integrar, perdoar. Vamos fazer o que ninguém mais fez no mundo".
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