
Nero, último imperador da dinastia Júlio-Claudiana, ordenou o incêndio sobre a cidade de Roma.
Após o governo Otávio Augusto, as reformas políticas estabelecidas em Roma transformaram essa poderosa civilização em um império. As atribuições do Senado e os vários poderes das magistraturas agora foram restringidos ou subordinados ao poderio de seu imperador. Com a morte de Otávio, o sucessor do trono foi Tibério, general de confiança de seu antecessor, e que deu continuidade a vários projetos do primeiro imperador romano.
Segundo os relatos disponíveis, Tibério foi hostilizado pelo povo e pelo Senado romano. O ápice dessa tensão teria acontecido quando este fora acusado de arquitetar o assassinato do general Germanicus. Quando finalmente faleceu, já com 78 anos de idade, a população romana comemorou a sua saída do poder. Com isso, Calígula (37 - 41), filho de Germanicus, foi empossado como novo imperador, com o apoio expresso dos membros do exército.
Apesar de todo o apoio recebido, o imperador Calígula manifestou os problemas vivenciados em uma estrutura de poder centralizada. Paulatinamente, as ordens autoritárias desse governante desestabilizaram o cenário político romano. Primeiramente, resolveu perseguir os senadores mais ricos e elevar exacerbadamente os impostos. Além disso, era conhecido por uma vida desregrada onde festas e orgias eram bastante comuns.
Um dos mais polêmicos atos tomados por Calígula foi nomear seu cavalo, Iniciatus, para ocupar uma das vagas do consulado. Segundo o julgamento de alguns historiadores e especialistas, este imperador tomava este tipo de ação atípica em decorrência de males psíquicos que o acometiam. Em todo caso, sua ação despótica acabou sendo aniquilada pelos próprios membros da guarda pretoriana, que protagonizaram o seu assassinato.
A vaga deixada no trono imperial foi logo resolvida com a indicação de Cláudio (41 - 54), tio de Calígula, que ascendeu ao trono com o auxílio da guarda pretoriana. Durante sua administração, o Estado romano atingiu a conquista dos territórios da Bretanha e a Mauritânia, as normas administrativas foram aperfeiçoadas e escravos libertos de notório saber foram utilizados como seus auxiliares.
Apesar de sua habilidade político-administrativa, este imperador acabou provocando importantes mudanças no quadro sucessório do império. Primeiramente, ordenou o assassinato de sua esposa Messalina, por causa de seu comportamento imoral. Logo em seguida, casou-se com Agripina, que conseguiu barganhar com seu marido a indicação de seu filho Nero como o próximo imperador romano.
Tempos mais tarde, Agripina organizou um complô que assassinou Cláudio por envenenamento. Dessa forma, Nero atingiu o posto imperial e, inicialmente, contou com os conselhos do general Burro e do filósofo Sêneca para governar. Entretanto, Nero ficaria bem mais conhecido pelo seu comportamento tirânico. Ao que conta nos registros da época, foi ele o responsável pelo assassinato de sua mãe Agripina, de seus dois conselheiros (Burro e Sêneca) e do seu irmão Britânico.
Uma das mais polêmicas ações desse governante, que encerra a dinastia Júlio-Claudiana, foi a sua ordem de atear fogo na cidade de Roma. A explicação para tal ato extremo seria a intenção que Nero tinha em atribuir o atentado aos cristãos, que se recusavam a prestar adoração religiosa à figura imperial. Seu tempo de governo é reconhecido como um dos mais agressivos contra os seguidores do cristianismo.
Os cristãos eram perseguidos, torturados, empalados, condenados à crucificação e hostilizados nas arenas em que os espetáculos populares aconteciam. Exercendo um governo de natureza repressora e desenfreada, Nero logo despertou a insatisfação nas fileiras do exército e do Senado. Fortemente pressionado por seus opositores, Nero decidiu acabar com sua própria vida.
3.6.09
A dinastia Júlio-Claudiana
1953: Coroação da rainha Elizabeth 2ª
Centenas de milhares de pessoas em todo o mundo acompanharam uma coroação ao vivo pelo rádio e pela televisão, pela primeira vez na história da monarquia britânica.
A princesa Elizabeth Alexandra Mary tinha assumido o trono do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte aos 26 anos. A notícia da morte de seu pai, o rei George 6º, que estava gravemente doente, chegara à jovem princesa no dia 6 de fevereiro de 1952, enquanto ela fazia uma visita ao Quênia.
A coroação em 1953 significava uma enorme responsabilidade para Elizabeth, que cinco anos antes já havia se colocado a serviço da monarquia. Durante sua primeira visita oficial à África do Sul, aos 21 anos, fez a promessa que delineou sua vida: "Diante de todos vocês, declaro que toda minha vida, seja curta ou longa, estará a serviço de todos os membros da família do império a que todos pertencemos."
Sua experiência administrativa, no entanto, já começara quando contava 18 anos. Pouco depois de retornar a Londres da viagem à África, aconteceu o anúncio oficial de seu noivado com o então tenente Philip Mountbatten. A pomposa cerimônia de casamento foi realizada em 20 de novembro de 1947, na Abadia de Westminster.
Concessões da monarquia para sobreviver
Muita coisa mudou desde a entronização de Elizabeth 2ª. O império ao qual ela jurou subserviência já nem existe mais. Vez por outra, levantam-se as vozes que exigem o fim da monarquia, por questionarem seu significado político. Em meados da década de 90, ainda na oposição, o Labour, Partido Trabalhista, chegou a sugerir a abolição da autoridade da coroa para dissolver a Câmara dos Lordes.
A rainha Elizabeth 2ª em foto de 2008
Até agora, entretanto, a monarquia na Grã-Bretanha tem conseguido sobreviver, mesmo que cada vez tenha que fazer concessões ao avanço republicano. Por exemplo, o fato de a rainha também ter de pagar impostos, como qualquer cidadão.
Elizabeth 2ª é descrita como modesta. Para a opinião pública, raramente deixa transparecer seus sentimentos. Uma das poucas exceções foi em 1992, ano do incêndio em Windsor e dos dois divórcios reais, quando se separaram o príncipe Charles e Diana e o príncipe Andrew e Sara Ferguson. A rainha admitiu serem datas que prefere não lembrar.
Após mais de meio século no trono, não há expectativas para quem e quando ela vai entregar o cetro. Especula-se que a coroa seja transmitida diretamente ao príncipe William, filho mais velho de Charles. Até lá, o hino da Grã-Bretanha ainda continuará sendo "Deus Salve a Rainha!".
Enciclopédia do Iluminismo quis substituir fé pelo conhecimento
Gravura de Daniel Chodowiecki (1726-1801) simboliza alvorecer do Século das Luzes
No decorrer dos séculos 17 e 18, os cientistas haviam acumulado conhecimentos que suplantavam tudo o que até então era considerado saber válido. Descobriram-se as relações do sistema planetário e o emprego da força hidráulica, novos continentes foram explorados, e ficara provado que a Terra não era plana. Cada vez mais se impunha o princípio de que o saber, e não a fé, deveria nortear a busca de respostas às questões da vida.
Isso, contudo, também invalidava em grande parte o modelo explicativo da Igreja Católica. Pois sua definição da vida repousava, basicamente, numa existência no temor de Deus, com perspectivas a abundante recompensa no Além. Durante séculos, as Sagradas Escrituras e a interpretação apostólica forneceram às pessoas um sentido sobrenatural para a vida. Isso facilitava, para uns, suportar as injustiças terrenas e, para outros, justificá-las.
Todo o conhecimento em 35 volumes
Mas não foram só as injustiças gritantes que marcavam a vida a possibilitar uma penetração cada vez maior do pensamento iluminista. Processos por heresia, a Inquisição e o ódio abismal entre adeptos de diferentes confissões haviam arruinado a reputação da fé como um todo. Pouca credibilidade mereciam tanto uma religião que origina ódio, e não amor, quanto uma Igreja que atormenta e persegue.
Se o conhecimento devia passar a ser a nova máxima, então era necessário compilar e tornar acessível todo o saber gerado pela ciência. A partir de 1751, os filósofos franceses Denis Diderot (1713-1784) e Jean-Baptiste Le Rond d'Alembert (1717-1783) se impuseram essa tarefa.
Até 1780, portanto ao longo de quase 30 anos, eles elaboraram a Encyclopédie ouDictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, cujos 35 volumes continham praticamente todos os dados sobre as ciências naturais e humanas da época.
Esclarecimento como chave para a liberdade
O acúmulo de saber e uma educação norteada pela razão deveriam fomentar a capacidade de raciocinar de modo autônomo e a responsabilidade própria. Essa imagem de mundo excluía tanto a superstição e o êxtase religioso como a repressão por um governante absolutista. Assim, a Enciclopédia foi uma obra-chave do Iluminismo, cujo projeto era libertar o ser humano da "dependência autoimposta", como formularia o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804).
O cidadão tornado responsável através da educação e do saber teria direito a participar das decisões políticas de sua sociedade. Na visão de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), esse "cidadão esclarecido" é tão abrangentemente educado, que pode se submeter ao "contrato social" sem abrir mão de suas liberdades pessoais. Esse ideal de uma "vontade geral" (volonté générale) influenciou numerosos pensadores e filósofos do século 18.
As ideias do Iluminismo se difundiram rapidamente. Na Alemanha, Immanuel Kant, Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) e mais tarde também Karl Marx (1818-1883) devoraram as obras dos iluministas franceses. De início as influências foram limitadas, mas entre os esses intelectuais germinava um clima de ruptura, voltado para a libertação do indivíduo e da oprimida "nação alemã".
Autor: Matthias von Hellfeld
Fonte:DW
Brinquedos podem contribuir para aprendizagem científica
A brincadeira envolve todas as idades e o brinquedo sofre transformações – da mesma forma que o bebê brinca com o chocalho, o adulto ‘brinca’ com o celular. O importante é a qualidade do brincar, ou seja, o quanto ele favorece a construção da autonomia do sujeito que brinca. A opinião é do doutor em educação Marcos Pires Leodoro, professor e pesquisador da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Marcos Leodoro é um dos responsáveis pelo Laboratório Pedagógico de Formação de Professores do Departamento de Metodologia do Ensino do Centro de Educação e Ciências Humanas da UFSCar. Com apoio do CNPq, ele organiza oficinas de divulgação da ciência, matemática e tecnologia para crianças de 3 a 6 anos e para professores de escolas municipais de educação infantil do município paulista de São Carlos. Também é responsável pela montagem de um acervo de brinquedos e atividades de educação científica, na Unidade de Atendimento à Criança da UFSCar. O professor diz que sempre utilizou os brinquedos em suas aulas, tanto no ensino básico quanto na universidade. No início, conta, os estudantes de licenciatura em física eram meio reticentes à proposta de realizar atividades visando explorar conceitos físicos presentes no design e funcionamento de brinquedos. Mas, depois, revela, diversos alunos assumiram a proposta e a aplicaram em suas próprias aulas. A proposta de utilização do brinquedo na educação científica das crianças visa a criação de uma ambiência lúdica. “Por meio da brincadeira que o brinquedo enseja, mas que só é efetivada pela ação e pelo gesto da criança, a realidade, posta em suspensão, porém jamais ignorada, pode ser representada e, desse modo, problematizada”, justifica. Em sua opinião, o brinquedo não é e não deve ser objeto de alienação. Segundo ele, a maioria dos objetos, em todas as faixas etárias, pode ser apropriada enquanto instrumento pedagógico da educação científica. Isso ocorre não por acaso, mas em virtude do forte caráter científico e tecnológico da produção material contemporânea, acredita. “Potencializando a curiosidade e a criatividade das crianças, propomos a elas a reelaboração dos brinquedos e a construção da brincadeira a partir da interação com os objetos industrializados e outros que criam por meio do aproveitamento de materiais de baixo custo”, diz. Ele destaca que as ações das crianças sobre esses objetos devem envolver, entre outras atividades, a construção e desconstrução física, a manipulação livre e a bricolagem. “Temos tido um retorno muito positivo das crianças, no sentido de verificar o quanto estão atentas à realidade em que vivem e como podem criar, transformar e ressignificar os objetos e brinquedos”, assegura. Comunidades pobres – Na visão de Marcos Leodoro, mesmo os professores de comunidades pobres dispõem de inúmeros recursos para a educação científica dos estudantes, desde que tenham motivação, uma formação razoável na disciplina em que lecionam, e espírito criativo. “Quando vejo caixas de papelão, garrafas PET e outros objetos jogados pelas ruas, penso em várias apropriações lúdicas e didáticas que poderiam ser realizadas com esses materiais”, ressalta o professor. Fátima Schenini Fonte: http://portal.mec.gov.br 
Kaingang vs. colonos:
um fenômeno de fronteiras étnico-geográficas no Rio Grande do Sul do século XIX.
Introdução
As nuances da temática do presente artigo, "fronteiras étnicas", não apresentam peculiaridade ao Rio Grande do Sul ou mesmo ao Brasil. Elas permeiam, sob diferentes aspectos, todas as relações de contato entre dois ou mais grupos étnicos nos diversos contextos mundiais. Pretendemos trazer à discussão duas questões de fronteiras ainda pouco abordadas na história do contato interétnico no Rio Grande do Sul: as fronteiras de exclusão e de inclusão (espontâneas ou forçadas) das relações entre os índios Kaingang e as frentes de expansão da sociedade nacional, em meados do século XIX. Tais frentes são representadas principalmente pelas levas de imigrantes alemães que aportaram no Brasil a partir de 1824.
Ao nos referirmos à fronteira de exclusão falamos de uma fronteira étnico-geográfica na qual estão acentuadas as diferenças étnicas, culturais e econômicas, com pouca ou nenhuma permeabilidade entre os lados, e onde geralmente ocorre a segregação do grupo menos organizado. A fronteira de inclusão, por outro lado, acentua a absorção étnica, cultural e econômica da sociedade envolvida pelos valores da sociedade intrusiva, a qual dissemina seus preceitos religiosos, culturais e econômicos, marcadamente por meio do ecletismo religioso e pela miscigenação[*1] . No objeto aqui analisado esta relação se deu principalmente por meio das negociações comerciais e pelo colaboracionismo de lideranças indígenas.
Historicamente a manifestação das fronteiras étnicas ou geográficas representa uma ruptura sob determinados aspectos e, ao mesmo tempo, uma construção social de novos valores e interesses para ambos os grupos em situação de contato. No caso estudado por nós, veremos como essa relação atingiu o seio da sociedade Kaingang em um momento crucial de sua história, onde os novos elementos trazidos pelos europeus agiram na ressignificação dos hábitos e costumes tradicionais destes indígenas.
Como analisamos a relação entre dois grupos étnicos distintos, torna-se importante refletir sobre o termo "grupo étnico". Para isso utilizamos como referencial Frederick Barth, que designa "grupos étnicos" como populações que se perpetuam biologicamente de modo amplo, compartilham valores culturais fundamentais, constituem um campo de comunicação e interação e possuem um grupo de membros que se identifica e é identificado por outros [*2]. Dessa forma, "a manutenção das fronteiras da etnicidade não resulta do isolamento, mas da própria inter-relação: quanto maior a interação, mais potente ou marcado será o limite étnico"[*3].
O projeto de colonização
Em princípios do século XIX foram assinados acordos entre o governo brasileiro e os estados alemães, os quais, teoricamente, garantiam a instalação dos imigrantes em lotes já demarcados na região nordeste da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, mais precisamente na Encosta Superior da Serra do Nordeste, entre as bacias dos rios Taquari, Sinos e Caí. Esta região compreende atualmente os municípios de São Leopoldo, São Sebastião do Caí, Montenegro, Taquara e São Francisco de Paula, pólos iniciais da colonização alemã no estado.
O projeto de colonização objetivava fundamentalmente a ocupação das terras "virgens" ou "devolutas" e o desenvolvimento da agricultura, do comércio e da indústria, criando classes sociais intermediárias entre o latifundiário e o escravo, além da substituição da mão de obra escrava pela mão de obra livre assalariada. Havia ainda, com a clara intenção de "branquear a raça", uma política assumida pela elite intelectual brasileira e pelos legisladores do Império garantindo que os imigrantes que viessem colonizar o Brasil fossem brancos[*4].
Por meio destes elementos é possível perceber que as fronteiras de exclusão já estão sendo esboçadas, pois a legislação etnocêntrica exclui do patamar "imigrante/colono" os negros, os orientais e os próprios indígenas. A formação de um "novo Brasil" está em jogo. Um aspecto desta condição é perceptível no Relatório do Presidente Manoel Antônio Galvão, datado do ano de 1847:
Na opinião geral é considerada a colonisação a necessidade mais palpitante do Império: a vastidão das terras desertas, que não quereis sem dúvida povoar com negros, e que não é possível igualmente povoar pelo lento e gradual crescimento da população existente em menos de um século (suppondo mesmo a entrada no grêmio da sociedade a indígena) é circunstancia de tanto momento, que desafia e provoca por si mesmo as mais serias considerações.[*5]
Para instigar nos estados alemães a vinda de imigrantes para o Brasil os agentes se utilizaram de diversas estratégias para o sucesso da empreitada. Entre as táticas principais estava a garantia de fácil acesso às terras férteis das colônias. Logicamente não se incluía na propaganda das empresas colonizadoras o fato de que as áreas que serão ocupadas pelos colonos não eram completamente "devolutas" como disseminavam as propagandas.
Em suma, estas áreas constituíam o "território tradicional" do grupoKaingang[*6]. Nestes locais a problemática da fronteira étnica já existia desde tempos anteriores ao contato com os europeus, marcada fundamentalmente pelas disputas territoriais com os grupos Guarani eXokleng, aos quais os Kaingang mantinham guerras frequentes pela defesa de suas áreas de caça e coleta.
Em certos aspectos tais conflitos produzem, alteram, sustentam, reforçam ou mantêm as fronteiras, cujos limites frequentemente estão representados por um determinado ambiente natural. Para compreender tais ações torna-se necessário compreender a importância e o significado do território para os grupos indígenas nos momentos anteriores ao contato com os europeus. De acordo com Seeger & Castro:
Em termos econômico-jurídicos, a terra, para as sociedades indígenas que conhecemos, não se definia nunca como coisa, objeto alienável de transações individuais. A propriedade - se esta noção faz algum sentido no caso - era investida no grupo local e os direitos individuais ou familiares se exerciam sobre o trabalho na terra, sobre os frutos deste trabalho. Neste sentido, a terra não podia ser definida como espaço homogêneo e neutro, mas como mosaico de recursos (tipos de solo, de matérias e seres ali encontrados, etc.) desigualmente distribuídos por uma superfície sem existência conceitual nítida. O território, enquanto tal, podia ou não ser pensado como espaço fechado - isto dependia sobretudo das relações entre os diferentes grupos tribais de uma mesma região, e também das formas econômicas prevalecentes.[*7]
A partir do contato com os europeus a relação dos indígenas com seu território tende a modificar-se drasticamente, principalmente devido aos novos arquétipos sócioculturais impostos pelos invasores. Neste caso, o contexto histórico da fronteira, entendida no sentido de transmutação de valores e ideais, está intimamente articulada com outros processos históricos de descoberta e colonização europeias, seja nas Américas ou em outros continentes que sofreram as consequências do fenômeno.
Um destes processos ficou conhecido na bibliografia etnológica como "fricção inter-étnica", que representa um ponto de "atrito" entre diferentes etnias e culturas, levando à apropriação de práticas, a conflitos, conexões negativas ou positivas e até mesmo à ocorrência de conflitos identitários. Dessa forma compreendemos a fricção inter-étnica como uma fronteira permeável, na acepção de que há uma interdependência entre os sujeitos dos diferentes grupos em contato.
Assim sendo, temos a dependência do índio aos recursos materiais postos ao seu alcance pelo colonizador, membro da sociedade nacional envolvente e, consequentemente, o interesse do último pelos recursos postos ao seu alcance por meio do nativo. O índio oferecendo matéria prima, onde se inclui a terra ou a mão de obra, e o "civilizado" oferecendo bens manufaturados[*8].Contudo, apesar da característica de interdependência entre os grupos étnicos, reconhecemos a extrema desigualdade desta relação e a particularidade do processo para os diferentes povos indígenas do Brasil.
A fronteira da exclusão: o índio como obstáculo
O ano de 1829 merece destaque porque nele foi registrado o primeiro assalto com vítimas fatais nas denominadas "correrias" praticadas pelos Kaingang às áreas de colonização. Trata-se do ataque à picada Dois Irmãos, na colônia de São Leopoldo, no qual foram mortas três pessoas pelos indígenas[*9]. Os assaltos passaram a ser freqüentes desde então, levando pânico aos colonos, que viam suas roças, suas casas e suas vidas ameaçadas pelos índios.
Para exemplificar a dimensão do conflito entre os Kaingang e os colonos destacamos um trecho da correspondência pessoal de um imigrante alemão, datada do ano de 1832, onde o mesmo expõe a apreensão de seus conterrâneos frente às investidas dos indígenas:
Estaríamos muito contentes e felizes se não fosse um grande mal, isto é, se homens selvagens que já desde muito tornaram os matos inseguros e roubaram a vida de 21 irmãos alemães. Esses selvagens eram os povoadores iniciais desta terra livre, antes de os portugueses tomarem conta dela, após o que foram expulsos para a mata virgem, na qual se poderiam alimentar muito bem com a muita caça, frutas e plantas em geral, se não tivessem que satisfazer seu desejo de roubo e morte. [...] Agora os alemães se mudaram das colônias mais afastadas e se reuniram no meio dessa picada e também na localidade avançada onde moro e assim não há grande perigo e Deus, nosso único auxílio, nos queira proteger dos selvagens, contudo é nossa obrigação estar sempre tão atentos como soldados, que montam guarda diante do inimigo.[*10]
A fronteira, neste caso, não é somente étnica. Ela é principalmente geográfica, pois na concepção do autor da carta a área em que os lotes foram instalados não corresponde mais ao habitat dos indígenas, pois os mesmos já haviam sido expulsos daquele espaço, tendo portanto, perdido o "direito" sobre ele.
Com o tempo as incursões dos índios passaram a ser motivadas também pelo desejo de obter os novos materiais, desconhecidos antes do contato. Logo tecidos, ferramentas, mantimentos, etc., acabaram tornando-se objetos de desejo necessários à sua vida quotidiana. Destarte, a cada nova investida dos Kaingang aos lotes coloniais, o pânico se tornava maior entre os colonos.
A literatura específica divide os assaltos aos lotes coloniais em dois períodos distintos: anterior e posterior aos aldeamentos. De acordo com as fontes bibliográficas e documentais, a maioria dos ataques acontece no primeiro período, entre os anos de 1829 e 1832, quando os colonos passam a adentrar as áreas mais isoladas do Planalto, longe dos núcleos principais, próximos de São Leopoldo.
A partir de 1847, quando novas estradas são abertas para facilitar o desenvolvimento das colônias e dos aldeamentos recém instalados, os ataques diminuíram, porém não cessaram. Grupos de índios eram frequentemente vistos nos arredores das propriedades preparando suas "correrias", alarmando os colonos e motivando a ação dos bugreiros[*11].
O aldeamento surge como principal alternativa para solucionar o problema, porém nem sempre os objetivos foram alcançados conforme as expectativas, como é possível observar no Relatório Provincial de 1851, do Presidente da Província, o Conde de Caxias:
De ordinário indolentes, não cuidão de trabalhar, nem reconhecem o benefício que recebem por se os conservar abrigados das intempéries do tempo e das estações, de alimental-os melhor de que o são nas matas, e tirando-os da vida nômade e selvagem em que vivem para fazel-os compenetrarem-se dos úteis effeitos da sociablidade e das vantagens da civilisação.[*12]
Mais uma vez a fronteira étnica está exposta nos termos da herança cultural, no sentido da depreciação dos valores morais e organizacionais dos indígenas. A relação dos Kaingang com o trabalho, sua forma de agir, de comer, de relacionar-se socialmente são vistas de um ponto de vista etnocêntrico, no qual a diferença é julgada e condenada, cabendo padronizar o comportamento dos nativos de acordo com o sistema cultural dos "civilizados".
A aceitação ou rejeição aos novos padrões impostos também influenciou significativamente a conjuntura posterior ao contato. Os grupos que rejeitaram a sujeição retiraram-se para locais isolados, rompendo inclusive relações com os grupos que aceitaram a aliança. Dessa forma tornaram-se inimigos e acabaram sofrendo as consequências da dissidência.
Fronteiras da Inclusão: os aldeamentos e o colaboracionismo
No século XIX os grupos indígenas do Brasil passaram a ser categorizados sob duas subdivisões: os "bravos" e os "domésticos" ou "mansos", como esclarece Manuela Carneiro da Cunha:
A "domesticação" dos índios supunha, como em séculos anteriores, sua sedentarização em aldeamentos, sob "o suave jugo das leis". Essa era uma idéia geral, aplicável tanto aos grupos agricultores e, portanto sedentários, quanto aos grupos caçadores e coletores. Na categoria de índios bravos, passam a ser incorporados os grupos que vão sendo progressivamente encontrados e guerreados nas fronteiras do Império: grupos dos afluentes do Rio Amazonas, do Araguaia que se quer agora abrir a navegação, do Madeira, do Purus, do Jauaperi, e de outros tantos rios; grupos também, sobretudo pelo fim do século, do oeste paulista ou da zona de colonização alemã nas províncias do Sul.[*13]
Tal categorização permitiu a utilização de tratamentos ambíguos aos diferentes povos indígenas. Aos ditos "bravos" a rigidez das ações foi preponderante, chegando em muitos casos a haver extermínio de grupos inteiros em prol do avanço da civilização. Aos "domésticos ou mansos" o tratamento mais frequente foi o convencimento por meio de procedimentos brandos, negociações e intercâmbios comerciais, visando convencê-los a aceitar a civilização e a inclusão na sociedade política.
A documentação do século XIX referente ao contato revela também outras formas de relação entre os grupos. Trata-se do colaboracionismo de algumas lideranças indígenas para com o aldeamento, aprisionamento ou até mesmo o extermínio dos grupos resistentes.
A colaboração de índios aldeados ou mansos conhecedores do modo de agir e reagir peculiares à tribo devia tornar menos perigosas e mais eficientes as expedições punitivas que se pretendiam organizar contra os índios que entrassem em conflito com os moradores civilizados.[*14]
A política de aldeamento dos Kaingang teve início em 1846, com a criação de dois núcleos principais: Nonoai e Guarita, ambos no norte da província. Com sua criação se pretendia a transformação dos antigos costumes dos indígenas, que de um modo de vida primitivo, baseado na caça, coleta e agricultura incipiente, passariam a participar dos modos de produção modernos, onde o lucro obtido com a venda do excedente das plantações pagaria as dispendiosas somas gastas com a sua criação.
A concentração dos indígenas nos aldeamentos acarretou diversos problemas. A destribalização consistiu na gradual descaracterização dos índios enquanto grupos homogêneos, acentuando as tensões internas nos aldeamentos. Outra consequência foi a penúria que atingiu praticamente todos os conglomerados, em decorrência da inadaptabilidade aos trabalhos agrícolas e da imposição de rações controladas. Como resultado da concentração forçada ocorreram muitos casos de evasão indígena, cujos dissidentes passaram a unir-se aos grupos hostis às políticas do governo. Em que pese suas especificidades, as relações pacíficas e conflitantes foram frequentes nos aldeamentos, fruto das alianças e dissidências, comuns na relação ambígua destas fronteiras étnico-culturais.
Uma personagem paradigmática desta relação foi o cacique Yotoahê, ou como ficou conhecido entre os não indígenas, cacique Doble. Este cacique, sem renunciar ao seu tradicional modo de vida, conseguiu vantagens para si e seus comandados nas relações com as autoridades provinciais. Compreendendo e adotando a lógica das negociações, procurou ludibriar os brancos, tecendo alianças e obtendo deles as reivindicações estipuladas em troca de seu aldeamento e de seus subordinados. Participou ainda das perseguições aos índios resistentes que insistiam em saquear as colônias[*15]. Não é forçoso afirmar que o cacique Doble manipulou as fronteiras étnicas, tornando-as flutuantes, no sentido do paralelismo de suas ações, agindo ora em prol dos interesses das autoridades, ora liderando saques nas áreas coloniais.
As atitudes de Doble, combinadas com as denúncias dos abusos cometidos pelo mesmo, culminaram na medida friamente perpetrada pelas autoridades. A comitiva de Doble em visita ao presidente da província foi "presenteada" com roupas contaminadas com varíola. O resultado foi uma epidemia generalizada que vitimou a maior parte dos seguidores do cacique, inclusive o próprio[*16].
Como se percebe, a tentativa de inclusão dos indígenas no seio da sociedade nacional não foi tarefa das mais fáceis, sendo em muitos casos impossível de ser concretizada. Prova disso é o grande número de correspondências enviadas aos presidentes provinciais nos primeiros tempos dos aldeamentos. As reclamações partiam dos diretores, e giravam em torno da inadaptabilidade dos índios ao trabalho e do modo de se portarem em sociedade. Nem mesmo os padres jesuítas, que atuaram entre 1848 e 1851 no aldeamento de Nonoai, tiveram sucesso em sua empreitada.
O fracasso da tentativa de catequização ressentiu as autoridades provinciais. Prova do desânimo está contida no relatório do vice-presidente da província, Patricio Corrêa da Camara, do ano de 1851. O documento é categórico, pois demonstra uma visível decepção do vice-presidente com a situação em que se encontram os aldeamentos e a insatisfação com o trabalho dos Jesuítas:
Apezar de todos os esforços ainda se não pode conseguir que os Índios fixassem a sua moradia. Nos chamados aldeamentos de Nonohay e Guarita há um pequeno numero, a maior parte índios já aldeados em Garapuava. Os das vizinhanças concorrem alli quando há que distribuir ferramentas, roupas, e outros objetos, com que os costuma mimosear, mas feita a distribuição, dispersão-se, e voltão à vida errante dos matos. Pensou-se que os Jesuítas poderião sujeitar os índios pelo influxo benéfico da religião, porém estes mesmos parecem desanimados. Em sua correspondência com a Presidência não cessão de clamar pela presença de forças para conter os Indios em respeito, e expelir os Brasileiros, que se tem estabelecido em meio delles, e os tem atrahido em redor de si. Isto prova a falta de ascendência dos Jesuítas sobre os seus neophitos, e a inefficacia do emprego dos meios moraes, de que se tem servido.[*17]
Frente ao fracasso eclesiástico, restou à alternativa laica atrair, amparar e aquilatar os indígenas. Os aldeamentos foram entendidos, a partir deste momento, como uma missão social, cujo objetivo principal era trazer os indígenas para as luzes da civilização e transformá-los em cidadãos produtivos e não meramente indivíduos dependentes do assistencialismo do governo. Para isso era necessário transformar o índio, sua mentalidade e seus costumes. Nesse sentido o governo vai incentivar a introdução de ferramentas, roupas e novas habitações, visando a estabilização das fronteiras entre a sociedade nacional e a indígena.
A função básica destas ações, portanto, era atingir um estágio de inclusão do indígena que possibilitasse à província lucrar, ao invés de onerar os cofres públicos. Os padrões ecológico-produtivos tradicionais dos indígenas foram substituídos ou ressignificados, sendo arraigados novos valores aos mesmos.
Considerações finais
A situação de contato, produzida pela expansão da sociedade nacional para o interior, causa, na concepção de Darcy Ribeiro, três tipos de reações nos nativos: (1) a fuga para territórios ermos, adiando o enfrentamento; (2) a reação hostil aos invasores, que os leva a um estado permanente de guerra e (3) a aceitação do convívio, que para o etnólogo é a fatalidade inevitável[*18].
Em nossa pesquisa percebemos a presença destas três reações invariavelmente entre os Kaingang. Cada uma delas representou um problema particular aos indígenas, levando-os a encontrar soluções ou remediações contínuas para os problemas gerados.
A ação civilizadora definiu novas fronteiras ao modus vivendi dos Kaingang. É complexo efetuar uma avaliação quantitativa sobre os efeitos da transfiguração étnica ocasionada pelo processo, mesmo assim percebemos que as compulsões e coerções exógenas determinaram a fragmentação de muitos dos valores indígenas anteriores ao contato. Este fenômeno é perceptível principalmente no meio socioeconômico, mas também é visível na relação dos indígenas com o seu meio, nas suas estratégias de sobrevivência, nos seus hábitos e costumes alimentares, entre outros elementos nos quais tiveram enfraquecida sua autoimagem étnica, trazendo heranças culturais para os dias atuais.
A fronteira de inclusão, vista no sentido da assimilação de novos objetos e novos valores da cultura ocidental, agiu de maneira sutil no círculo dos diferentes grupos indígenas. Com os Kaingang não foi diferente, pois enquanto eram adquiridos bens de consumo anteriormente desconhecidos, descartavam-se os antigos, culminando no esquecimento por parte das gerações posteriores de uma série de valores culturais tradicionais do grupo. Ao mesmo tempo, a fronteira da exclusão agiu de forma aberta, intrusiva, e destruidora, no sentido da transfiguração étnica decorrente da espoliação do seu território, resultando aos indígenas a perseguição, a reclusão e o extermínio em prol da civilização.
Referências Bibliográficas
Referências consultadas na internet
Os piores acidentes aéreos da história.
Choque de Boeings matou 583 pessoas em 1977 nas Ilhas Canárias.
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