Primeiras Impressões O primeiro e mais famoso exemplo é a Carta, de Pero Vaz de Caminha, em que o escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral descreve ao rei D. Manuel I as características geográficas e humanas da terra recém-descoberta. Houve também viajantes alemães, como Hans Staden, e franceses, como Jean de Léry e André Thevet, que deixaram testemunho da experiência nas novas terras. Os poucos escritos produzidos no século XVI serviriam de referência para a literatura brasileira que foi sendo elaborada ao longo dos tempos. A natureza exuberante e os costumes dos indígenas serviram como embrião do Nativismo, decisivo para as manifestações poético-literárias do Barroco e do Arcadismo. A imagem do índio como símbolo nacional, empregada por autores do Romantismo como foi o caso de José de Alencar, também remonta às produções desse período. Concebidos em grande parte para o leitor europeu, os textos desse período têm caráter eminentemente informativo, documental ou religioso e aparecem em formas variadas: cartas e informes em torno de condições da colônia, roteiros náuticos, relatos de naufrágios, descrições geográficas e sociais, descrições da natureza e dos povos nativos, autos para a catequese dos indígenas e até sob a forma de epopéias com assunto local. A curiosidade geográfica e humana, o desejo de conquista e o deslumbramento diante da paisagem exótica e exuberante do país são a tônica dos textos produzidos ao longo do século XVI. No campo da poesia, a tradição medieval continuava presente. Confrontada com a realidade da colônia, ela deu origem a resultados singulares, como pode ser percebido nos poemas de José de Anchieta. Segundo Alfredo Bosi, a particularidade de sua produção poética está justamente na conformação do idioma tupi, empregado em vários de seus versos, a formas medievais. Assim, palavras tupis aparecem em versos que seguem a métrica trovadoresca, composta em versos de cinco ou sete sílabas – as redondilhas menores e maiores das formas populares portuguesas – e esquemas rítmicos inspirados na tradição medieval. Muitas vezes, os versos aparecem na forma de diálogos, o que imprime forte carga dramática e contribui para o poder de comunicação dos poemas, cuja função primordial era aculturar o indígena e aproximá-lo da doutrina cristã. I. Carta de Achamento a El´Rey (1500) O texto integral somente veio à publico no Brasil por obra de Aires de Casal, em 1817. São cartas enviadas pelo padre Manoel da Nóbrega aos padres-mestres da Companhia de Jesus, ao Provincial, que ficaram na Europa e que servem como testemunho vivo do processo de ocupação do novo território, bem como das dificuldades da catequese aqui encontradas pelos jesuítas na conversão dos Gentios, assim como uma exposição detalhada dos ‘pecados da terra’, isto é, os costumes dos indígenas reprovados pelos padres. Por igual acompanha as medidas iniciais da implantação do governo colonial As cartas cobrem os primeiros onze anos ( de 1549 a 1560)da sua chegada ao Brasil “Depois que partimos de Portugal, o que foi em 1º de fevereiro de 1549, toda a Armada trouxe-a Deus a salvamento; sempre com ventos prósperos e de tal arte que chegamos à Bahia de Todos os Santos dentro de 56 dias sem que sobreviesse nenhum contratempo e antes com muitos outros favores e graças de Deus, que bem mostrava ser sua a obra que agora se precipitou. Desde logo se fez a paz com o Gentio da terra e se tomou conselho sobre onde se fundaria a nova cidade, chamada de Salvador.” “De maneira que os índios me tinham muito crédito, máxime porque eu lhes ocorria a suas enfermidades, e como algum enfermava logo me chamavam, aos quais eu curava a uns como levantar a espinhela, a outros com sangrias e outras curas, segundo requeria a doença, e com o favor de Cristo Nosso Senhor achavam-se bem.” IV. Duas viagens feitas ao Brasil (1557) Primeiro registro da fundação da França Antártica, em 1555, obra de Villegagnon que construiu o Forte Coligny na baia da Guanabara para servir de base de apoio ao seu projeto de colonização de toda a região. Descrição primeira da Terra de Santa Cruz descoberta pelos portugueses Indicado por Calvino para vir ao Brasil, Léry aqui chegou na companhia de 13 outros pastores huguenotes que vieram irmanar-se na colônia fundada por Villegagnon na baia da Guanabara. Sua aproximação com os tupinambás terminou por render o melhor ensaio etnográfico sobre os indígenas do Brasil. O livro de Léry, segundo Claude Lévy-Strauss, foi seminal da antropologia moderna e obra magna, perene, sobre o Brasil do século XVI. Ainda que eivado de fantasias sobre monstros e animais descomunais, é uma obra referencial sobre o Brasil ainda no berço da colonização. X. História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e terras circunvizinhas (1615) Yves d´Évreux – Continuação da história das coisas mais memoráveis acontecidas no Maranhão moa anos 1613-1614. XII. Diálogo das Grandezas do Brasil (1618) XII. História do Brasil (1627) Narrativa da estada e das realizações do Conde Maurício de Nassau no nordeste do Brasil, escrita por um dos que o acompanharam na empreitada dirigida pela Companhia Holandesa das Índias Ocidentais no seu projeto de controle sobre a produção açucareira da colônia Brasil. Resultou o livro da decisão do Conde Mauricio de Nassau em trazer para o Brasil alguns cientistas e artistas para que fizessem um levantamento das potencialidades e das riquezas existente no território ocupado pela Companhia Holandesa das Índias Ocidentais. Com o subtítulo de Triunfo da Liberdade na Restauração de Pernambuco, a crônica de frei Calado narra em prosa barrôca a resitência portuguesa à ocuapção holandesa do Nordeste brasilerio. Aconselhamento ao príncipe português, na época do Portugal Restaurado, para que se previna contra as ‘unhas larapias’ que desejam furtar o tesouro real. “Todos falam na política, muitos compõem livros dela, e no cabo nenhum a viu, nem sabe de que cor é. E atrevo-me a afirmar isto assim, porque, com eu ter poucos conhecimento dela, sei que é uma má peça, e que a estimam e aplaudem, como se fora boa; o que não fariam bons entendimentos, se a conheceram de pais e avós, tais, que quem lhos souber, mal poderá ter por bom o fruto que nasceu de tão más plantas”. XVIII. Castrioto Lusitano (1670) Poemas (1696) - De Gregório de Matos Guerra Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade, Primeira obra impressa por um brasileiro em Lisboa, Jaz oblíqua forma e prolongada XXII. Cultura e Opulência do Brasil por XXIII. O Uraguai (1769) XXIV. Vila Rica (1773) Poema épico que narra a fundação e o desenvolvimento de Vila Rica do Ouro Preto, o maior Centro aurífero das Minas Gerais no Século XVIII. XXV. Cartas Chilenas (1789) “Na cabeça vazia se atravessa “Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, XXVII. Princípios de economia politica (1804) - De José da Silva Lisboa, visconde de Cairu “Era, portanto, um espetáculo triste verem-se ali as cidades e vilas cheias de XXIX. Ensaio Econômico sobre o Comércio de Portugal e suas colônias (1816) XXX. Corografia brasílica ou Relação historico-geográfica do reino do Brasil Apresentação do Brasil a D.João VI, para que o soberano tomasse Conhecimento não somente da história das províncias que então constituíam o vice-reino como da situação geral Relato precioso feito pelo Naturalista francês do levantamento feito sobre o interior do Brasil joanino às vésperas da independência do Brasil.Foram milhares de quilômetros percorridos, desde as províncias centrais até o Uruguai. “... Para se ter uma idéia de como é fascinante a paisagem ali, o leitor deve imaginar em conjunto tudo o que a natureza tem de mais encantador: um céu de um azul puríssimo, montanhas coroadas de rochas, uma cachoeira majestosa, águas de uma limpidez sem par, o verde cintilante das folhagens e, finalmente, as matas virgens, que exibem todos XXXII. Viagem pelo Brasil (1817-1819) Dois naturalistas vindos da Europa (um austríaco outro bávaro) que desembarcaram no Brasil por ocasião da vinda da princesa Dona Leopoldina, dispondo-se então a percorrer todo o interior do país realizando notável levantamento botânico
Os principais viajantes do período foram portugueses e religiosos enviados ao Brasil para catequizar os índios. Alguns deles, como os jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, produziram obras de fundamental importância para o desenvolvimento da vida colonial.
De Pero Vaz de Caminha
Detalhado relato feito pelo escrivão da frota de Pedro Alvares Cabral ao rei D.Manuel da descoberta de uma nova terra no qual inarra as primeiras impressões sobre a costa descoberta bem como dos seus nativos, além de uma série de outras observações sobre o clima, a paisagem e as potencialidades gerais do que fora encontrado.O documento é tido como o Certificado de Nascimento do Brasil.
“Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!
Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças. E ao sol-posto umas seis léguas da terra, lançamos ancoras, em dezenove braças -- ancoragem limpa. Ali ficamo-nos toda aquela noite. E quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo os navios pequenos diante -- por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, doze, nove braças -- até meia légua da terra, onde todos lançamos ancoras, em frente da boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos.
E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro.
Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. “E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte”.
II. Cartas do Brasil (1549-1560)
De Pe. Manuel da Nóbrega
III. Cartas (1554-587)
De Pe José de Anchieta
Vindo ao Brasil com D. Duarte Costa, o segundo governador-geral que desembarcou na Bahia em 1553, e com mais outros colegas jesuítas, suas cartas dirigidas a pessoas as mais diversas, que se estendem de 1554 até o ano de 1587, oferecem um amplo panorama da vida do Brasil daqueles tempos, relatando o cotidiano dos nativos bem como dos portugueses que se assentavam na nova terra. São documentos preciosos que flagram os passos dados pelos recém-chegados, padres e renóis, para afirmarem-se num mundo que lhes era totalmente estranho e muitas vezes hostil.
De Hans Staden
Narrativa de um aventureiro alemão que na sua segunda vinda ao Brasil caiu
nas mãos de uma tribo de antropófagos. Aprisionado no litoral de São Paulo,
descreve em prosa vivaz os costumes indígenas bem como as várias tentativas de fuga até seu retorno final à Europa. É um relato emocionante.
“Formaram um círculo ao redor de mim, ficando eu no centro com duas mulheres, amarraram-me numa perna um chocalho e na nuca penas de pássaros. Depois começaram as mulheres a cantar e, conforme um som dado, tinha eu de bater no chão o pé onde estavam atados os chocalhos.
As mulheres fazem bebidas. Tomam as raízes de mandioca, que deixam ferver em grandes potes. Quando bem fervidas tiram-nas (...) e deixam esfriar (...) Então as moças assentam-se ao pé, e mastigam as raízes, e o que fica mastigado é posto numa vasilha à parte.
Acreditam na imortalidade da alma(...)."
"Voltando da guerra, trouxeram prisioneiros. Levaram-nos para sua cabana: mas a muitos feridos desembarcaram e os mataram logo, cortarm-nos em pedaços e assaram a carne (...) Um era português (...) O outro chamava-se Hyeronimus; este foi assado de noite."
V. Singularidades da França Antártica (1558)
De André Thevet
“Se advém, paralelamente, entre eles, algum tipo de indignação ou querela contrao próximo, eles têm o costume de recorrer ao Pagé, para que faça morrer por veneno aquele ou aqueles a quem querem mal.”
VI. História da Província de Santa Cruz que chamamos Brasil (1576)
De Pero de Magalhães Gândavo
e até então pouco conhecida em Lisboa. Após a nomeação das capitanias em que o território se encontrava dividido, o autor demora-se na nomeação das suas exuberâncias com destaque aos perigos que aqui se encontravam em vista da ferocidade dois animais e da peçonha das serpentes..Exalta a piscosidade do litoral e encanta-se com a variedade e abundância das aves da terra, assim como apresenta a vida cotidiana dos nativos bem como as guerras que travavam entre si.
“A causa principal que me obrigou a lançar mão da presente historia,e sair com Ella a luz, foi por não haver até gora pessoa que emprendesse, havendo já setenta e tantos annos que esta Provincia he descoberta. A qual historia creio que mais esteve sepultada em tanto silencio, pelo pouco caso que os portuguezes fizerão sempre da mesma provincia, que por faltarem na terra pessoas de engenho, e curiosas que per melhor estillo, e mais copiosamente que eu a escrevessem.”
VII. Viagem à Terra do Brasil (1578)
De Jean de Léry
“Depois de discorrer acerca do que vimos no mar, tanto na ida para o Brasil, como no regresso à França, depois de narrar o que se passou na ilha e forte de Coligny, onde residiu Villegaignon, enquanto aí estivemos, e igualmente após divagar sobre o rio Guanabara, quando também me referi demoradamente aos fatos ocorridos anteriormente a meu embarque, cabe-me dizer o que observei com referência ao modo de vida dos selvagens e a outras coisas singulares e desconhecidas aquém-mar, que vi nesse país.”
VIII. Tratado Descritivo do Brasil (1587)
De Gabriel Soares de Souza
Naturalista e explorador do sertão que viveu na Bahia por 17 anos, é um vibrante relato das riquezas da terra escrito por um reinól desejoso de impressionar a Corte de Madri na época da União Ibérica, que não se dera conta da vastidão do território que administrava.
"Estará bem empregado todo o cuidado que Sua Majestade mandar
Ter d'este novo reino; pois está para edificar nele um grande império,
o qual com pouca despesa destes reinos se fará tão
soberano que seja um dos Estados do mundo”.
IX. Prosopopéia (1601)
De Bento Teixeira
Obra daquele que é tido, ainda que nascido no Porto, como o primeiro poeta brasileiro. Celebra em versos barrocos os feitos dos irmãos Jorge e Duarte de Albuquerque Coelho, donatários da Capitania de Pernambuco Fidalgos valentes que tiveram participação em batalhas na África, mas que depois vieram para o Nordeste do Brasil.
Olhai o grande gozo e doce glória/Que tereis quando, postos em descanso, Contardes esta larga e triste história /Junto do pátrio lar, seguro e manso. Que vai da batalha a ter victória,/O que do Mar inchado a um remanso,Isso então haverá de vosso estado/Aos males que tiverdes já passado..”
X. História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e terras circunvizinhas (1615)
De Claude D´Abeville
“Cresceu ainda mais a devoção quando se edificou o Forte e a Capela de São Luís à imitação das igrejas dos nossos conventos, com madeira, cercada e coberta de galhos fortes, cortados das árvores chamadas Acauikantin. Ai celebramos missas, cantei vésperas, preguei e batizei os catecúmenos. À noitinha tocava o sino, e todos se reunia antes de ir dormir, na capela se cantava a saudação Angélica, implorava-se a agraça divina, e depois cada um se retirava e ia para onde queria.”
De Ambrósio Fernandes Brandão
(autor presumido)
Os diálogos entre dois personagens Alviano e Brandônio são em número de seis. Seu autor nunca passou do cabo de Santo Agostinho para o Sul; devem, pois, ter sido escritos em uma das capitanias ao Norte do cabo. Destas apenas duas diz ele explicitamente ter visitado, e pelas abundantes informações mostra conhecer diretamente: Pernambuco e Paraíba, – Tamaracá ficava a meio caminho e devia ser-lhe familiar.
“Certamente, diz Brandonio:, que estimara muito não me meter em semelhante trabalho (tratar das madeiras) pelo muito que há que dizer desta matéria. Porque por tôda parte que ponho os olhos, vejo frondosas árvores, entrabastecidas matas e intrincadas selvas, amenos campos, composto tudo de uma doce e suave primavera; porquanto em todo o decurso do ano gozam as árvores de uma fresca verdura, e tão verdes se mostram no verão como no inverno, sem nunca se despirem de todo de suas folhas, como costumam de fazer em nossa Espanha; antes, tanto que lhe cái uma, lhe nasce imediatamente outra, campeando a vista com formosas paisagens, de modo que as alamedas de alemos e outras semelhantes plantas que em Madrid, Valhadolid e em outras vilas e lugares de Castela se plantam e grangeam com tanta indústria e curiosidade para formosura e recreação dos povos, lhe ficam muito atrás - quase sem comparação uma coisa de outra.
De Frei Vicente do Salvador
O autor da primeira obra denominada História do Brasil nasceu na Bahia por volta de 1564, tendo sido batizado Vicente Rodrigues Palha. Graduado em teologia em Coimbra, retornou à sua terra natal em fins dos anos oitenta do século inicial da colonização. Tendo tomado ordens sagradas, serviu de cônego, de vigário-geral, de governador de bispado, sendo que em 1597 tomou o hábito de São Francisco.
"Confesso que é trabalho labutar com este gentio com a sua inconstância, porque no princípio era gosto ver o fervor e devoção com que acudiam à igreja e quando lhes tangiam o sino, à doutrina ou à missa, corriam com um ímpeto e estrépido que pareciam cavalos, mas em breve tempo começaram a esfriar de modo que era necessário levá-los à força, e se iam morar nas suas roças e lavouras, fora da aldeia, por não os obrigarem a isto. Só acodem todos com muita vontade nas festas em que há alguma cerimônia, porque são muito amigos de novidades; como dia de São João Batista por causa das fogueiras e capelas, dia da comemoração geral dos defuntos, para ofertarem por eles, dia de Cinza e de Ramos e principalmente das endoenças para se disciplinarem, porque o tem por valentia”
XIV. O Brasil Holandês (1647)
De Gaspar Barléus
“O Conde aprovou-lhes e agradeceu-lhes a resposta generosa e cordata, distribuindo presentes para cada um deles
Foram recenseados em todas as províncias todos os cidadãos que habitavam os campos, holandeses, alemães, franceses e ingleses. Deram-se-lhes comandantes de várias patentes — coronéis, tenentes-coronéis, sargentos-mores e comandantes de cavalaria, permitindo-se aos mesmos a escolha dos oficiais inferiores. Os conscritos do Recife ficaram à ordens do coronel Carpentier, a fim de se ter, em casos imprevistos, uma força armada ao alcance. Nos campos comandava os recrutas; no posto de coronel, Gaspar van Nyhoven. Se bem não recebessem soldo, era fácil convocá-los apenas mediante ordem escrita”.
XV. Historia Natural do Brasil (Historia Naturalis Brasiliae) 1848
De Piso e Marcgrave
O doutor William Piso foi o chefe da primeira expedição puramente científica enviada pelo mundo europeu a investigar as coisas do sertão brasílico. O seu colega, o dr Georg Marcgrave só chegou mais tarde, para acompanhar o jovem Piso.
“O Brasil, por certo a prestantíssima parte de toda a América, considerado de perto, excele principalmente pelo seu agradável e saudável temperamento, a ponto de contender, em justa competição, com a Europa e a Ásia, na clemência dos ares e das águas (...).
:...os habitantes atingem cedo a puberdade e envelhecem tarde; por isso ultrapassam os cem anos, gozando de verde e longeva velhice, não só os brasis como também os próprios europeus...
São mui dados à dança e à bebida e ignoram tempos
determinados para comer ...”
XVI. O Valeroso Lucideno (1648)
De Frei Manuel Calado
“Andava o Príncipe Conde de Nassau tão ocupado em fabricar a sua cidade, que para afervorar os moradores a fazerem casa, ele mesmo, com muita curiosidade lhe andava deitando medidas, e endireitando as ruas, para ficar a povoação mais vistosa, e lhe trouxe a entrar por meio dela, por um dique, ou levada, a água do rio Capibaribe a entrar na barra, por o qual dique entravam canoas, batéis e barcas para o serviço dos moradores por debaixo das pontes de madeira, com que atravessou em alguma parte este modo de Holanda, de sorte que aquela ilha ficava toda rodeada de água: também ali se fez casa de prazer que lhe custou muitos cruzados, e no meio daquele areal estéril, e infrutuoso plantou um jardim, e em todas as castas de árvores de fruto que se dão no Brasil, e ainda muitos que lhe vinham de diferentes partes, e a força de muitas outras terra frutífera, trazida de fora em barcas rasteiras, e muita soma de esterco, fez o sítio tão bem acondicionado como a melhor terra frutífera; pôs neste jardim dois mil coqueiros, trazendo-os ali de outros lugares, porque os pedia aos moradores, e eles lhos mandavam trazer em carros, e deles fez umas carreiras compridas, e vistosa, a modo de alameda de Armazéns, e por outra parte muitos parreirais, e tabuleiros de hortaliça, e de flores, com algumas casas de jogos, e entretenimentos, aonde iam as damas, e seus afeiçoados a passar as festas no verão, e a ter seus regalos, e fazer suas merendas, e beberetes, como se usam em Holanda, com seus acordes instrumentais; e o gosto do Príncipe era que todos fossem ver suas curiosidades, e ele mesmo por regalo as andava mostrando, e para viver com mais alegria deixou as casas onde morava, e se mudou para seu jardim com a maior parte dos seus criados”.
XVII. A Arte de Furtar (1652)
De Pe Manuel da Costa
De Frei Raphael de Jesus
Historia da Guerra entre o Brazil e a Hollanda, durante os annos de 1624 a 1654, terminada pela gloriosa restauração de Pernambuco e das capitanias confinantes : obra em que se descrevem os heroicos feitos do illustre João Fernandes vieira, e dos valorosos capitães que com elle conquistarão a independencia nacional.
“Marchava Mathias de Albuquerque na forma referida, seguindo os passos do Conde Banholo, e duas jornadas antes de chegar ao Porto do Calvo recebeu a Nova da perda do lugar, e da torpe fuga dos italianos. Como capitão prudente Experimentado, certificou-se do poder e alojamento do inimigo, despediu a carruagem por veredas desusadas, e com os soldados determinou buscar o holandês em seus alojamentos. Por ordem sua adiantaram os capitães Francisco Rebello e Assenso da Silva a esperar o inimigo de emboscada, entre a povoação e o outeiro de Amador Alves.”
XIX. Theatri Rerum Naturalium Brasiliae
De Albert Eckhout (autor das gravuras)
Magnífica reprodução da flora e da fauna do Nordeste brasileiro à época de Nassau feita pelo pintor holandês Eckhout. A obra foi dada como pesente pelo Conde Maurício a Frederico Guilherme príncipe-eleitor de Brandenburg.
Exalta a exuberância da região ocupada bem como a variedade frutífera do trópico e a beleza física dos seus nativos.
Praticamente o único nome das letras lusitanas no Brasil do século XVII que deixou nome. Home desbocado e ressentido com os infortúnios que o acometeram na capitania da Bahia. Sua irreverência e sarcasmo deixaram
heranças nas letras brasileiras.
É verdade, Senhor, que hei delinqüido,
Delinqüido vos tenho e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.
Maldade que encaminha à vaidade,
Vaidade que todo me há vencido.
Vencido quero ver-me e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.
Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços que me rendem vossa luz.
Luz que claro me mostra a salvação,
A salvação pertendo em tais abraços,
Misericórdia, amor, Jesus, Jesus.
XXI. Música no Parnaso (1705)
De Manuel Botelho de Oliveira
composta em versos barrocos;
a terra de Maré toda cercada
de Netuno, que tendo o amor constante,
lhe dá muitos abraços por amante,
e botando-lhe os braços dentro dela
a pretende gozar, por ser mui bela.
Nesta assistência tanto a senhoreia,
e tanto a galanteia,
que, do mar, de Maré tem o apelido,
como quem preza o amor de seu querido:
e por gosto das prendas amorosas
fica maré de rosas,
e vivendo nas ânsias sucessivas,
são do amor marés vivas;
e se nas mortas menos a conhece,
maré de saudades lhe parece.
Vista por fora é pouco apetecida,
porque aos olhos por feia é parecida;
porém dentro habitada
é muito bela, muito desejada,
(À ILHA DE MARÉ TERMO DESTA CIDADE DA BAHIA
SILVA)
suas Drogas e Minas (1710)
De Pe André João Antonil
Registro das riquezas existentes no Brasil feito pelo jesuíta italiano Andreoni. Obra que foi confiscada pelo Conselho Ultramarino para que não atiçasse a cobiça dos interesses estrangeiros sobre os mananciais da colônia Brasil na época da descoberta do ouro.
“Toda a escravaria (que nos maiores engenhos passa o número de cento e cinqüenta e duzentas peças, contando as dos partidos) quer mantimentos e farda, medicamentos, enfermaria e enfermeiro; e, para isso, são necessárias roças de muitas mil covas de mandioca. Querem os barcos velame, cabos, cordas e breu. Querem as fornalhas, que por sete e oito meses ardem de dia e de noite, muita lenha; e, para isso, há mister dous barcos velejados para se buscar nos portos, indo um atrás do outro sem parar, e muito dinheiro para a comprar; ou grandes matos com muitos carros e muitas juntas de bois para se trazer.”
De Basílio da Gama
Poema épico da época pombalina que descreve a luta travada contra a resistência guarani na região dos Sete Povos das Missões, capitaneados pelos jesuítas insurgidos contra as autoridades luso-espanholas por ocasião das Guerras Guaraníticas (1754-1756).
As maiores dificuldades ocorreram na região dos aldeamentos jesuíticos de São Borja, São João Batista, São Luiz Gonzaga, São Lourenço, São Miguel e São Nicolau. Incentivados pelos padres, os indígenas aldeados recusaram-se a abandonar as terras onde viviam uma experiência colonizadora diferente, pegando em armas contra as forças colonialistas.
Fumam ainda nas desertas praias
Lagos de sangue tépidos e impuros
Em que ondeiam cadáveres despidos,
Pasto de corvos. Dura inda nos vales
O rouco som da irada artilheria.
MUSA, honremos o Herói que o povo rude
Subjugou do Uraguai, e no seu sangue
Dos decretos reais lavou a afronta.
Ai tanto custas, ambição de império!
E Vós, por quem o Maranhão pendura
De Cláudio Manuel da Costa
E se estas Minas, pelas riquezas que têm derramado por toda a Europa, e pelo muito que socorrem com a fadiga dos seus habitantes ao comércio de todas as nações polidas, eram dignas de alguma lembrança na posteridade, desculpa o amor da Pátria, que me obrigou a tomar este empenho, conhecendo tanto a desigualdade das minhas forças. Estimarei ver elogiada por melhor pena uma terra que constitui hoje a mais importante Capitania dos domínios de Portugal.
De Tomás Antonio Gonzaga(autor presumido)
Reprodução da correspondencia imaginária de um reinól chamadao Critilo, que vivia no Chile (na verdade nas Minas Gerais), com um confrade seu da Europa, de nome Doroteu, na qual as autoridades são expostas à crítica e ao ridículo, especialmente o gobernante local Fanfarrão Minésio. Como nos poemas satíricos, o tom é mordaz, agressivo, debocado, ironizando sistemáticamente a mediocridade burocrática da administração colonial.
Um chapéu desmarcado, nem sei como
Sustenta o pobre só do laço o peso.
Ah ! tu, Catão severo, tu que estranhas
O rir-se um cônsul moço, que fizeras
95 - Se em Chile agora entrasses e se visses
Ser o rei dos peraltas quem governa ?
Já lá vai, Doroteu, aquela idade
Em que os próprios mancebos, que subiam
À honra do governo, aos outros davam
100 - Exemplos de modéstia, até nos trajes.
Deviam, Doroteu, morrer os povos
Apenas os maiores imitaram
Os rostos e os costumes das mulheres
Seguindo as modas e raspando as barbas.”
XXVI. Marília de Dirceu (1792-1799)
De Tomás Antônio Gonzaga
Um dos mais expressivos monólogos da lira da língua portuguesa, no qual Dirceu Encarcerado lamenta a separação da sua musa amada Marília. Um dos maiores poemas da cultura luso-brasileira de todos os tempos.
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!”
Obra divulgadora dos principios gerais da doutrina liberal clássica, exposta por Adam Smith em 1776. O autor, integrante da Alta hieraruia burocrática colonial na Bahia, mostra-se um entusiasta da abretura dos portos e da expansão das atividades comerciais pelo mundo a fora, opondo-se assim às práticas do velho mercantilismo lusitano que, segundo ele, inibiam a integração economica dos mercados.
gente sem obra útil, por impossibilitadas de exercerem alguma indústria
que contribuísse para o vestuário do país e para outros suprimentos...”
(critica de Cairu a lei que impedia a existência de manufaturas no Brasil)
XXVIII. História do Brasil (1810 e 1819)
De Robert Southey
Poeta do romantismo inglês e historiador, Southey se interessou pelo Brasil pretendendo ser o Heródoto dessa nova terra. A narrativa começa no Descobrimento estendendo-se até a chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808.
“A presente obra compreende algo mais do que o título promete. Ele relata a fundação e o progresso das províncias Espanholas e a relação delas com o Brasil. A intençãoÉ abarcar a maioria dos territórios contidos entre os rios da Prata, Paraguia, Orinoco e Amazonas, estendendo—se para o oeste em direção ao Peru, tão longe quanto os portugueses puderam
alcançar com seus assentamentos e suas descobertas.”
De Azeredo Coutinho
Obra oferecida a D. João VI para que se intimasse das relações materiais que a metrópole portuguesa tinha com suas colônias de além-mar, particularmente com o Brasil, apresentado por alguém da terra (Coutinho nascera em Campos de Goitacás, no atual Estado do Rio de Janeiro). A exposição feita em capítulos curtos procura dar um panorama das riquezas excepcionais do país, bem como é obra de um conselheiro econômico que orienta o Príncipe no sentido dos melhores investimentos a serem feitos para aumentar a prosperidade do reino.
“A América é um terreno abundantíssimo: o Brasil é o mais abundante de baixo de um clima quente, mas doce, ameno e temperado pelas chuvas e pelos ventos, está sempre produzindo, em continuo giro. A terra está em todo ano coberta de uma alegre verde e uma primavera continuada. As árvores estão sempre floridas , e em cada uma delas se vê ao mesmo tempo a flor, o fruto verde e o sazoanado.”
De Padre Aires de Casal (1817)
em que cada uma delas se encontrava.
Ao mesmo tempo, oferece ao soberano detalhada
informação sobre as condições mineralógicas, botânicas, zoológicas e agriculturáveis delas. É obra de um notário, um testamenteiro expondo a riqueza da herança recebida pelo seu Senhor, o monarca do Reino Unido. De Portugal e Algarves.
XXXI. Viagens (1820)
De Auguste Saint-Hilaire
os tipos de vegetação tropical."
De Spix e Martius
A dança dos Puris. Ao luar perto da fazenda Guidoval. Os homens formam a primeira fila e as mulheres, a segunda. As crianças, agarradas às coxas dos mais velhos, dão os passos furtados da dança para a frente.
Um dançador dá, como saudação, uma umbigada a cada um de nós observadores
2.3.10
Clássicos da Época Colonial
Etruscos. A cultura que Roma destruiu
Eles dominaram boa parte da Península Itálica até se renderem ao jugo romano. As necrópoles da região da Toscana contam sua história e os geneticistas tentam descobrir se deixaram descendentes.A civilização etrusca dominou boa parte da Península Itálica até se render ao jugo romano. As necrópoles da região de Toscana contam sua história e os geneticistas tentam descobrir se os etruscos deixaram descendentes.
Quando os antigos gregos, em sua aventura de expansão comercial e colonizadora, aportaram, no início do século VIII a.C., nas costas do Mediterrâneo, onde hoje é a Itália, esta era considerada uma região bárbara. Por isso, os refinados helenos se surprenderam ao encontrar um povo curioso cuja civilização se mostrava bem avança-da. Mais especialmente, ficaram impressionados com a pirataria que eles praticavam. Os gregos chamaram esse povo de tirreno e com esse nome fi-caram conhecidos os etruscos na Antigüidade. Naquela época, eles ainda viviam em aldeias, não conheciam a escrita, e possuíam uma arte rudimentar, diz o arqueólogo Norberto Guarinello, da Universidade de São Pau-lo, autor de uma extensa pesquisa sobre a cerâmica etrusca. Mas muito rapidamente foram se desenvolvendo e expandindo seus territórios até conquistar Roma.
A presença dos tirrenos num mun-do onde o denominador comum era o atraso, em comparação com a civilização grega, levantava algumas questões. A principal, e que inquietou várias gerações de historiadores, era: afinal, de onde vinham os etruscos? Foi Dionísio de Halicarnasso, histo-riador grego, quem mais se preocupou em averiguar as raízes daquele povo enigmático.
No século I a.C., ele escreveu Antiguidades romanas, no qual expu-nha as diferentes hipóteses que conhecia sobre a origem dos etruscos: umas apontavam para suas raízes orientais e outras, como a do historiador grego Heródoto, afirmavam que eles teriam vindo da Lídia, na Ásia Menor, e se misturado aos autóctones. Finalmente, Dionísio formula sua própria teo-ria: É possível que os que mais se aproximem da verdade sejam os que declaram que este povo não veio de lugar algum, é autóctone, pois é mui-to antigo e sua língua e forma de vida não coincide com nenhuma outra ci-vilização.
Estava lançada a polêmica: havia conjecturas para todos os gostos e estas foram engrossando com o correr dos séculos. Entre elas, a de que teriam vindo da Europa central, da região do Danúbio. A mais original, entretanto, fala de uma cultura etrusca, em vez de povo etrusco. Para os defensores dessa teoria, a mais aceita pelos etruscólogos hoje, a Etrúria não significa necessariamente uma nação, mas uma cultura comum, uma língua, uma religião. No entanto, vez ou outra trope-ça-se numa questão importante: o idioma. O número de textos é pequeno e nada se sabe sobre a origem da lín-gua, pois ela não é aparentada a ne-nhuma outra. Porém, dá para ler e identificar os verbos, os substantivos e os adjetivos, diz o professor Guarinello. Em seu livro Etruscologia, o historiador italiano Massimo Palottino revela que os sinais do alfabeto etrusco fo-- ram iden-tificados no século XVII e em princí-pios do século XIX foram comparados ao alfabeto gre---go e ao latino. Também é cer-to que durante o século VII a.C. os etruscos tinham ado-tado um alfabeto grego com 26 caracteres.
Mesmo sendo um povo de origens incertas, sua história é contada pelas necrópoles que deixaram. A Etrúria desenvolveu-se na Itália central, a oeste da Cordilheira dos Apeninos, basicamente onde hoje é a Toscana. Seu terri-tório se limitava ao norte pelo Rio Arno, a leste e sul pelo Rio Tibre e a oeste pelo Mar Tirreno, assim chamado porque era com esse no-me que se denominava os etruscos. O início do desenvolvimento de sua cultura singular, distinta da do restante de seus vizi-nhos da Península Itálica, remonta a meados do século VIII a.C. Depois da chegada dos gregos, as aldeias etruscas acabaram se transformando em cida-des, e tiveram como base a estrutura das cidades-Estado, como na Grécia.
Esse processo de urbanização das aldeias foi lento e demorado, mas alguns fatores favoreceram a expansão da cultura etrusca como a chegada à região de uma enorme quantidade de comerciantes vindos de além-mar, fa-cilitando o surgimento de um merca-do. Entre eles, estavam os sardos, atraídos pelo ferro da Ilha de Elba e os navegadores procedentes do Mar Egeu e das costas asiáticas: gregos principalmente. A princípio, eles criaram pequenos portos no sul da península e mais tarde formaram autênticas co-lônias, como a de Cumas, em 725 a.C., na Baía de Nápoles. O que os gregos queriam, na verdade, era estabelecer colônias ao norte, onde havia um mercado promissor, mas sabiam que seria difícil, pois a população local, formada por etruscos e latinos, era bastante numerosa para ser expulsa. Além disso, os povoados, sempre em lugares altos e próximos à costa eram fortemente defendidos.
A monarquia foi a primitiva forma de governo dessas cidades-Estado sendo mais tarde substituída por um governo oligárquico encabeçado por magistrados. Sabe-se pouco sobre as funções que eles exerciam, porém supõe-se que se o poder estava concentrado nas mãos da aristocracia, mais espe-cialmente no sul, isso se devia à agricultura. Já no norte, em cidades como Populonia, onde se fundia o ferro que vinha de Elba, é possível imaginar uma classe dominante de homens de negó-cios dedicados à manufatura e expor-tação. O restante se dividia em um grupo de homens livres, outro de escravos aqui entendidos como cidadãos de segunda classe, eram dependentes mas não propriedade dos mais ricos e colônias de residentes estrangeiros, gregos basicamente.
Nesse caso se incluía o coríntio Demarato, que viveu e fez fortuna na ci-dade de Tarquínia. Seu filho seria eleito rei de Roma, em 616 a.C., com o nome de Lúcio Tarquínio, ou Tarquínio, o Velho. É claro que o fenômeno da urbanização não se produziu de uma só vez. Segundo alguns registros históricos, Roma teria surgido em 753 a.C. essa é a data mais aceita, em-bora com ressalvas , e nessa mes-ma época os etruscos fundaram Veio, Cere, Tarquínia e Vulci. Depois, no final do mesmo século, seriam criadas Populonia, Vetulonia e, talvez Orvie-to. No século VII a.C. se consolida-riam Volterra e, possivelmente Cortona, enquanto Arezzo e Chiusi se constituiriam como cidades propriamente ditas na transição do século VII ao VI a.C. Foi exatamente essa a épo-ca de maior esplendor e máxima ex-pansão da civiliza-ção etrusca, quando também Roma se tornou etrusca. A essa altura, os tirrenos eram os senho-res de boa parte da península, na área que se estendia da Campania, no sul, até o Vale do Pó, ao norte.
Não se sabe ao certo como se deu esse processo expansionista. Sabe-se ter existido uma espécie de liga de doze cidades principais: Tarquínia, Cere, Veio, Vulci, Volsini e Vetulonia eram algumas delas. Tudo indica que se reuniam uma vez ao ano para celebrar um festival religioso. Porém, não se pode afirmar com segurança que tenham juntado seus recursos para fundar uma federação que servisse de base ao poder etrusco. É pouco provável também que sua organização naval e bélica tivesse tido em algum momento o respaldo adequado para manter com sucesso um império territorial diante de possíveis inimigos. Assim, depois de rápido florescimento no século VII a.C. e um breve e brilhante período de expansão imperialista durante o século VI a.C., seguiu-se uma série de insucessos iniciados com sua expulsão de Roma em 509 a.C. Com isso caíram as rotas de comunicação por terra entre a Etrúria e a Campania.
O poderio naval etrusco também sofreu um duríssimo golpe algum tempo depois, quando, em 474 a.C., seus navios, aliados com a frota cartagine--sa, enfrentaram os gregos condu-zidos por Hieron de Siracusa , e foram destroçados na batalha de Cu-mas. Mais adiante foram expulsos de Cápua e de outras cidades do sul. Até que finalmente, em 400 a.C., também perderam as cidades do norte para os gauleses. Ao mesmo tempo, os romanos marchavam sobre o centro da península, conquistando as cidades etruscas. No século V a.C., Veio foi destruída e no decorrer do século IV a.C., toda a Etrúria capitulou. Em 270 a.C., já era parte da federação romana.
Sem dúvida, surgia um novo mundo no qual a Etrúria tinha de se integrar, ainda que sacudida por rebeliões contra a nova ordem estabelecida. Se durante o século III a.C. Roma fundou colônias em pleno território etrusco, como Cosa ou Castro Novum, e lenta mas implacavelmente foi introduzindo a língua e os costumes romanos, o processo de romanização da Etrúria recebeu o golpe definitivo em 90 a.C., quando a Lei Júlia converteu em cidadãos romanos todos os itálicos. A partir de então se tornaria muito difícil e complicado separar o etrusco da história romana.
Era o fim de um povo alegre e amante dos prazeres, que procurava a felicidade na vida cotidiana. Ao menos é a impressão que se tem ao examinar as pinturas das tumbas etruscas, especialmente as datadas dos séculos VIII a V a.C., que retratavam banquetes, jogos atléticos e homens pescando e mergulhando no mar. Daí em diante, as cenas são deprimentes, com representações do inferno povoado de demônios e de mulheres aladas com caras de animais, explica o professor Guarinel-lo. Essa impressão de felicidade du-rante o apogeu fez com que o escritor inglês D. H. Lawrence (1885-1930), autor do clássico O amante de Lady Chaterley, refletisse assim sobre os etruscos: Não se pode bailar alegremente ao som da flauta e ao mesmo tempo conquistar nações e ganhar grandes somas de dinheiro. Es-sa descrição, porém, não é totalmente correta.
Na realidade, os etruscos foram bons administradores e eficientes homens de negócios, capazes de fabricar produtos de alto nível técnico, embora talvez não reunissem as condições necessárias para se manter no poder. Seja como for, o certo é que, além do ferro, algumas cidades manufaturavam objetos de bronze, tradição que veio do Oriente. Nelas também se plantava trigo e se produziam vinho e azeite de oliva, coisas que aprenderam com os gregos. Além disso, tinham grande produção artesanal de barcos, cordas, velame para navios, e cerâmica. Eles sempre foram grandes ceramistas e produziam uma cerâmica negra, semelhante à porcelana chinesa. Até hoje não se descobriu a técnica que eles usavam, lembra o arqueólogo Guarinello.
Os etruscos foram também notáveis construtores de cidades. Marzabotto, pequena vila próxima a Bolonha, na atual região da Emilia-Romagna, tinha uma ampla rua principal cruzada por várias vias secundárias que se estendiam em quadras, esquema que foi mais tarde copiado pelos romanos. Porém, se as características urbanísticas desenvolvidas pelos vivos é admirável, o universo de pedra que criaram para os mortos é surpreendente. Os cemitérios etruscos chegavam, em algumas ocasiões, a configurar-se como autênticas cidades, a ponto de o escritor italiano Curzio Malaparte (1898-1957) afir-- mar: As verdadeiras cidades dos etruscos são as necrópoles. As cida-des dos vivos não eram senão subúr--bios das dos mortos.
Tudo isso revela uma grande preocupação pela vida além da morte e obviamente a existência de ritos fúnebres complexos. De fato, quando morria um personagem notável, seu corpo era exposto em algum lugar da necróple durante vários dias, aguardando a chegada de amigos e deuses que vinham de seus lugares de origem. Mais tarde havia uma procissão (ekphora) até a pira e dali à tumba uma casa subterrânea com salas, quartos e cama onde se depositavam as urnas funerárias. Os mortos eram sepultados com todos os seus objetos pessoais, incluindo roupas, jóias e armas.
No interior da Etrúria, a regra era a cremação, enquanto na zona costeira meridional se enterravam os defun-tos. A parte mais vistosa do ritual, que aparece freqüentemente em pinturas e relevos, vinha depois de se deixar o morto ou suas cinzas na tumba. Celebrava-se então um grande banquete, do qual só participavam alguns convidados. Seu significado era re-cordar a constante renovação da natureza e a prolongação da vida depois da morte. Concluída a comilança, os convidados as-sistiam a provas atléticas, corridas de cavalos e combates de homens contra cães que, provavelmente, deram origem às lutas de gladiadores.
Estes jogos fúnebres tinham um toque macabro, co-mo mostram as pinturas: homens com a cabeça coberta por um saco carregando uma clava numa das mãos e na outra um cão selvagem preso por uma coleira. Talvez por isso é que o escritor latino Arnóbio (século IV) tenha classificado a Etrúria como princípio e mãe de todas as superstições. Para o historiador Tito Lívio (59/64 a.C.-17 d.C.), ao contrário, o povo etrusco seria uma raça superior a todas as demais, consagrada a crenças e cerimônias religiosas.
Mas o que distinguiu a cultura etrusca das outras foi um conjunto de crenças e rituais que recebeu o nome de disci-plina etrusca. Trata-va-se de uma concepção religiosa da natureza e do mundo na qual todos os entes naturais contêm a manifestação da vontade divina. Para eles, os desígnios divinos se manifestavam por meio da natureza, bastando observá-la atentamente e interpretá-la para conhecer o futuro e as formas de modificá-lo. Os intérpretes da vontade dos deuses eram os arúspices e os princípios da chamada aruspicina a arte de adivinhar a partir da análise minuciosa do fígado dos animais oferecidos aos deuses, e da leitura dos raios e trovões vinham de uma revelação do deus Tages. Ele teria surgido de um sulco no campo traçado por um lavrador etrusco, com a cara de um menino e a prudência de um ancião.
Segundo a lenda, relatada pelo escri-tor latino Marco Túlio Cícero (106 a.C.- 43 a.C.), Tages reuniu toda a Etrúria em um determinado lugar e pronunciou um discurso que serviu de base para a ciência praticada pelos arúspices. Muito depois da decadência da nação etrusca, seus arúspices ainda fa-ziam parte do séquito dos generais e imperadores romanos, e seguiriam influenciando as instituições de Roma e o cur-so de sua história. Mais um ele-men-to que se somou a outros fortalecendo as raízes etruscas que sobreviveram en--tre os romanos.
Para saber mais:
A guerra sem fim
(SUPER número 1, ano 1)
Na montanha dos deuses
(SUPER número 10, ano 3)
Prometeu, martir e herói
(SUPER número 4, ano 4)
Uma nação chamada Europa
(SUPER número 9, ano 5)
O vilão reabilitado
(SUPER número 10, ano 7)
Possíveis sobreviventes
O que restou dos etruscos além de esculturas, pinturas, inscrições e tumbas? Quem sabe, descendentes. Eles podem ser os 2 000 habitantes da pequena Murlo, na província de Siena. Ao menos é a hipótese levantada pela equipe do professor Alberto Piazza, diretor do departamento de Genética da Universidade de Turim, Itália. Para começar, os cientistas recolheram amostras de sangue de 150 murlenses a fim de estabelecer por meio do exame do DNA molécula que determina as características das pessoas se seu patrimônio genético é igual ou parecido com os dos antigos habitantes da Toscana.
O Projeto Murlo nasceu depois que os pesquisadores liderados por Piazza concluíram uma detalhada análise dos marcadores genéticos dos povos itálicos: grupo sanguíneo, dados antropométricos como altura, cor dos olhos e da pele. A análise desses fatores permitiu mapear detalhadamente os povos que se estabeleceram na Península Itálica na época pré-romana, divididos em três grupos principais: celta-ligúrios ao norte, etruscos no centro e gregos no sul. Esses dados, no entanto, são insuficientes para saber se há uma continuidade biológica entre os etruscos e um determinado grupo de homens de hoje.
A resposta mais segura pode ser dada comparando-se o DNA dos murlenses com o DNA dos ossos que se encontram nas necróples etruscas que rodeiam Murlo. A escolha dos murlenses para a experiência se explica: o local foi bastante preservado ao longo dos séculos, não foi invadido nem destruído e por isso, provavelmente, não sofreu misturas étnicas que caracterizaram outras po-pulações. Ainda não escolhemos as técnicas para extrair o DNA dos ossos, explica o professor Piazza, ouvido por SUPERINTERESSAN-TE. A dificuldade é que eles estão contaminados por diversos tipos de materiais, devido à manipulação por parte dos arqueólogos. Outra pista curiosa é a sugestão de uma equipe de glotólogos estudiosos da linguagem de que os etruscos deviam aspirar o C (pronunciando hasa em vez de casa) como se faz em algumas áreas da Toscana. A pes-quisa mal começou e por isso ainda vai demorar um tempo para sabermos se, de fato, os etruscos deixaram herdeiros.
Um berço da emancipação feminina
Mesmo nas mais avançadas sociedades da Antigüidade ocidental, as mulheres sempre ocuparam papel secundário, reduzidas à sombra dos maridos. Na Grécia, por exemplo, encerravam-se no mundo doméstico e em Roma sofriam inúmeras restrições. Na Etrúria havia maior consideração pelas representantes do sexo feminino, em relação a outras culturas do mundo antigo e, por isso, os etruscos não eram vistos com bons olhos. Para se ter uma idéia do que os romanos pensavam sobre as mulheres etruscas basta ler um fragmento de um escrito do dramaturgo latino Plauto (284-187 a.C.): Receberás de teu pai vinte mil talentos, para que não tenhas que ganhar um dote à moda etrusca, prostituindo vergonhosamente teu corpo.
Toda essa violência verbal se deve ao fato de que a etrusca vivia menos enclausurada, sentava-se ao lado do marido nos banquetes e trocava carinhos com ele, em vez de se retirar das reuniões, como acontecia entre os gregos. Ela também assistia aos jogos e espetáculos misturando-se com os homens e não perdia seu sobrenome nem seu nome ao se casar como era costume em Roma. Isso fazia parte de seus direitos. Havia casos em que, em suas tumbas, escreviam-se os nomes do pai e da mãe.
Fonte:
Quando as Malvinas foram argentinas
Em 1982, a ditadura de Galtieri precisava desviar a atenção do contexto econômico catastrófico e do desgaste de seu governo autoritário. A solução foi arrumar uma guerra contra os ingleses 
Os britânicos, que ocupavam desde 1833 essa antiga possessão espanhola, situada a 480 milhas náuticas da costa argentina, batizaram-na de ilhas Falkland. Mas Buenos Aires nunca deixou de reivindicá-las, colocando sua recuperação como uma grande causa nacional. Ora, em 1983 a soberania britânica nas ilhas completaria 150 anos. Um chefe de Estado argentino que lograsse conquistá-las antes dessa fatídica data certamente iria garantir um lugar privilegiado no panteão nacional! Como escrevera o jornal Convicción, em 27 de janeiro de 1982: “Se, tendo ganhado a guerra contra o terrorismo, conseguirmos agora recuperar as Malvinas, a história irá perdoar nossas burrices econômicas”. De fato, soava um pouco ingênuo...
A empreitada não parecia apresentar a menor das dificuldades pois aquele posto avançado do Reino Unido era guardado somente por 67 homens da marinha real. Além disso, durante 15 anos os argentinos negociaram com Londres a devolução das Malvinas e tinham a impressão de que seus interlocutores não estavam mesmo muito interessados em conservar aquelas ilhas desoladas, que custavam à Coroa muito mais do que rendiam. O diálogo fracassou apenas porque os 2 mil insulares fizeram questão absoluta de permanecer sob a administração britânica.
Mesmo assim, os militares argentinos pensavam que os ingleses não iriam criar dificuldades em reconhecer o fato consumado de uma ocupação. Além disso, contariam com a benevolência dos Estados Unidos, que acreditavam precisar da Argentina para sustentar sua campanha anticomunista na América Latina. Restava ainda uma última consideração, que não deixava de ter sua importância em um país onde o machismo permanecia como um conceito familiar: o primeiro-ministro britânico à época era uma mulher, Margaret Thatcher, e ninguém em Buenos Aires esperava que o sexo fraco desse prova de ter um espírito belicoso.
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Algumas rebarbas, apesar de tudo, apareceram. Excetuando-se algumas tropas de elite, os “libertadores” vinham, em sua maioria, das províncias subtropicais do norte da Argentina e não suportavam os ventos polares que sopram nas Malvinas e fazem as temperaturas cair para -20oC. Além disso, em Stanley, os royal marines capturados foram fotografados deitados com o rosto no chão, dominados por seus vencedores, e essas imagens deram a volta ao mundo. Tal ultraje ajudaria a despertar o velho leão inglês entorpecido do outro lado do Atlântico. Para finalizar, os argentinos aportaram suas tropas nas ilhas da Geórgia do Sul, a 900 milhas a sudoeste das Malvinas, lugar que nunca fora possessão argentina, nem mesmo espanhola.
A verdade é que a invasão tomou Londres de surpresa. Mas nada aconteceu como o governo de Galtieri previu. No dia seguinte, 3 de abril, Margaret Thatcher fez um discurso extremamente firme e obteve unanimidade na Câmara dos Comuns, que integra o parlamento inglês. “Devo dizer a esta Câmara que as ilhas Falkland e suas dependências continuam sendo território britânico. Nenhuma agressão, nenhuma invasão mudará isso. O governo tomará as providências para que essas ilhas sejam libertas da ocupação e retornem à administração britânica o mais rápido possível”, declarou.
Em seguida, a primeira-ministra anunciou que sua frota já se preparava para ir ao Atlântico Sul. A partida aconteceu em 5 de abril, com os porta-aviões Hermes e Invincible à frente, escoltados por 11 fragatas e destróieres, três submarinos, um navio de assalto anfíbio e o paquete de cruzeiro Camberra, transportando 3 mil homens da terceira brigada de royal marines. Naturalmente, a operação era muito arriscada. Afinal, o objetivo estava a 8 mil milhas dali e as provisões teriam de ser alongadas ao máximo. Além disso, por causa das condições meteorológicas do inverno austral, qualquer desembarque se tornaria impossível até o final de maio e as operações terrestres seriam inexecutáveis depois do final de junho. Enfim, a perda de um só porta-aviões comprometeria irremediavelmente a operação.
Enquanto os ingleses rumavam em direção às Malvinas, contatos diplomáticos indiretos eram feitos entre Londres e Buenos Aires, com o secretário de Estado americano Douglas Haig servindo de intermediário. Thatcher exigia a retirada das ilhas como prerrogativa a qualquer acordo, e a junta argentina não podia realizá-la sem perder todo o capital de popularidade adquirido em 2 de abril. Rompido o diálogo, uma pequena unidade de marines e do Special Air Service (Serviço Especial Aéreo), sustentada por um bombardeio naval, desembarcou dia 25 de abril perto da base de Grytviken, na Geórgia do Sul, obrigando a guarnição argentina à rendição.
Mais surpresas desagradáveis aconteciam à medida que a força-tarefa britânica se aproximava das Malvinas. Em 2 de maio, o cruzador argentino General Belgrano foi torpedeado pelo submarino nuclear Conqueror e afundado com 320 membros da tripulação. Nas próprias Malvinas começava-se a sentir o peso da réplica britânica: a pista de vôo de Stanley foi destruída pelo bombardeiro Vulcain, vindo da ilha de Ascensão, e as posições argentinas eram submetidas a bombardeamentos navais intermitentes. Em 4 de maio, os argentinos conseguiram uma pequena reação ao acabar com o destróier inglês Sheffield, afundado por um míssil Exocet lançado de um Super Etendard. Mas, no combate aéreo, a vantagem voltava para o grande leão: os aviões Harrier eram mais modernos, mais manejáveis e mais bem equipados que os Mirage III e os Skyhawk argentinos. Além disso, em 15 de maio, uma incursão-surpresa de comandos SAS sobre a ilha de Bourbon causou a destruição dos 11 aviões argentinos que estavam estacionados no local.
E as notícias diplomáticas só pioravam para Buenos Aires: em 30 de abril, o presidente americano Ronald Reagan, infl uenciado por Thatcher, declarou que a invasão argentina era inadmissível e que os Estados Unidos responderiam favoravelmente a qualquer demanda britânica de material militar. Em Londres, a opinião pública e a imprensa sustentavam a posição da primeira-ministra, que aparecia a muitos como “o único homem do governo”, e aqueles que tentaram frear seu ardor patriótico compreenderiam rapidamente por que ela era chamada de “a Dama de Ferro”.
Comandos ingleses desembarcaram secretamente nas ilhas para recolher informações. Concluíram que perto da embocadura norte do estreito das Malvinas, a noroeste da ilha oriental, a baía de San Carlos era grande o sufi ciente para permitir um desembarque anfíbio. Além disso, era muito mal defendida e seus acessos não estavam minados. Claro, ela ficava a cerca de 100 km de Stanley, mas nem tudo podia ser perfeito. Em 12 de maio, os britânicos decidiram: a reconquista das Malvinas começaria por San Carlos.
Lançada à 1h30 da manhã de 21 de maio, a operação “Corporate” teve de enfrentar apenas 12 horas depois a aviação argentina, que interveio com força, afundando as fragatas Ardent eAntelope. Mas já era tarde demais para evitar o desembarque, e a invasão inglesa se ampliou inexoravelmente em direção ao sul nos dias que se seguiram: em 29 de maio, no istmo de Darwin, 450 homens do batalhão de pára-quedistas atacaram os 1.600 argentinos da guarnição de Goose Green, infligindo-lhes duras perdas e obrigando-os a capitular. É importante lembrar que os royal marines e os pára-quedistas britânicos eram profi ssionais muito bem treinados, enquanto seus adversários eram, em sua maioria, sumariamente formados, mal enquadrados, pouco combativos e maltratados por seus ofi ciais, sofrendo cruelmente de frio e até mesmo de fome. Seu armamento era excelente, mas eles estavam mal entrincheirados, com quase nenhuma mobilidade e particularmente vulneráveis aos tiros da artilharia.
Desde os primeiros bombardeios, os heróis se faziam raros e as rendições se multiplicavam. Em parte foi por isso que o general Menendez, comandante-em-chefe das forças argentinas, não ordenou uma contra-ofensiva terrestre sobre San Carlos: tinha pouca confiança na capacidade de manobra de suas unidades. Além disso, pensou que San Carlos fosse apenas uma distração, que o verdadeiro desembarque seria feito em Stanley, onde suas melhores tropas permaneceram concentradas.
Mas os pilotos argentinos não conseguiram desviar o curso da guerra, pois, à medida que o conflito se prolongava, os melhores dentre eles eram abatidos e seus substitutos se mostraram claramente menos eficientes. Atacavam de preferência os destróieres e as fragatas, que eram troféus prestigiosos, mas só iriam comprometer a expedição britânica se conseguissem afundar sistematicamente os navios de transporte. Voavam baixo para evitar os radares, mas suas bombas eram reguladas para serem lançadas em alta altitude e atingiam freqüentemente o alvo sem explodir.
Os mísseis Exocet fizeram terríveis estragos, mas os argentinos possuíam apenas cinco deles. E os serviços secretos britânicos, com a cooperação dos franceses, tomaram todas as providências para que o inimigo não obtivesse outros. Os Harrier britânicos, a partir de então equipados com o último modelo de míssil Sidewinder, fornecido em caráter de urgência pelos americanos, lhes infligiram perdas consideráveis. Mas o verdadeiro ponto fraco da estratégia argentina continuava a ser a coordenação ar-terra-mar: praticamente nenhuma. Tanto que o exército permanecia imóvel e a marinha não saía mais de seus portos depois da desventura do cruzador General Belgrano.
No início de junho, a 3a brigada de royal marines do general Thompson, reforçada por pára-quedistas e integrantes avançados da 5a brigada de Welsh Guards, Scots Guards e Gurkhas – que acabava de desembarcar em San Carlos –, tomou o caminho de Stanley. Um destacamento avançava ao norte por Teal Inlet, um segundo ao sul por Fitzroy – que cairia em 4 de junho –, enquanto, ao centro, um batalhão foi transportado em helicópteros até o monte Kent. Os obstáculos eram imensos: as estradas estavam destruídas; a chuva e a lama transformaram as pistas em lodaçais; a BBC (British Broadcast Corporation, sistema público de comunicação inglês) anunciava os ataques previamente; o envio de mais munições era malfeito; os calçados de marcha eram permeáveis; e os lança-mísseis Blowpipe se revelaram inefi cazes contra os aviões argentinos.
As regras clássicas da arte militar exigem que se tome a ofensiva apenas quando se têm três contra um, mas os britânicos decidiram defl agrar o combate fi nal com a proporção inversa, um contra três. Em 14 de junho, em face de bombardeios aéreos, terrestres e navais, o general Menendez julgou mais prudente hastear a bandeira branca. Naquele dia, 12 mil argentinos se renderam a 4.500 britânicos, que começariam a repatriá-los cinco dias mais tarde, com atenções e cuidados que deixariam os vencidos sem palavras.
Enquanto a bandeira de Sua Majestade tremulava novamente sobre as Falkland, em Buenos Aires o ditador Galtieri era deposto. A vitória iria devolver as Malvinas aos argentinos, mas a derrota lhes deu uma recompensa muito maior: lhes devolveu a democracia.
Arqueólogos encontram antigos poços funerários no norte do Amapá
Sítio tem cerca de mil anos, diz pesquisador do Iepa.
No local, foram encontradas peças de cerâmica com formas humanas.
Uma equipe de arqueólogos descobriu dois poços funerários com vasos de cerâmica num sítio em Calçoene, no norte do Amapá. O local já era conhecido desde 2006 por causa de círculos de pedra que foram encontrados sobre o solo.
Agora, no entanto, o grupo liderado por João Saldanha e Mariana Cabral, do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (Iepa) explorou o que havia sob as grandes placas rochosas depositadas no local.
Saldanha explica que os poços têm cerca de mil anos e que os vasos encontrados são surpreendentes porque têm formas humanas, como as cerâmicas encontradas pelo célebre pesquisador Emílio Goeldi no século XIX na região do Cunani.
O povo que cavou os poços tinha por hábito descarnar e separar os ossos de seus mortos, colocando-os em grupos separados nas urnas funerárias acomodadas em câmaras laterais ao buraco principal no solo. Os círculos de grandes pedras sobre o solo caracterizam que o local tinha função religiosa.
De acordo com Saldanha, há atualmente na região do Oiapoque índios que têm modo semelhante de sepultamento, mas não está claro se seriam descendentes do povo que viveu em Calçoene.



