Se considerarmos o número de homens envolvidos e o poder de destruição dos navios em combate, a luta mais sangrenta aconteceu no golfo de Leyte, no Sudeste Asiático, em 1944. Essa batalha opôs americanos e japoneses no oceano Pacífico brigando pelo controle das Filipinas, que na época estava sob domínio nipônico. "Esse duelo reuniu 227 embarcações de superfície, 1 800 aviões e cerca de 183 mil homens. Uma outra batalha, a de Lepanto, ocorrida no Mar Mediterrâneo em 1751, teve mais navios - 546, ao todo. Mas eles eram menos poderosos e contavam com tropas menores, algo em torno de 150 mil homens", diz o historiador americano Josh Graml, do Museu dos Navegantes de Newport News, nos Estados Unidos. Em Leyte, os confrontos foram tão intensos que terminaram com um saldo de mais de 30 embarcações afundadas.
Seu resultado foi decisivo para o fim da Segunda Guerra Mundial, menos de um ano depois. O combate, entretanto, foi uma luta desigual. Apoiadas pela conversão total da indústria para atividades militares, as Forças Armadas dos Estados Unidos contavam com munições cada vez mais eficientes e poderosas. Os japoneses, de outro lado, estavam em minoria e lutavam com uma frota limitada - os melhores barcos, pilotos e marinheiros sucumbiram em duelos anteriores. No golfo de Leyte, a falta de aviões custou caro aos nipônicos: em vários momentos, os navios ficaram expostos a pesados bombardeios. O desfecho previsível foi uma esmagadora vitória americana. "A aniquilação da frota japonesa garantiu que as Filipinas fossem recapturadas pelos Estados Unidos, além de abrir o próprio Japão aos ataques aéreos americanos. Depois da batalha de Leyte, era uma questão de tempo até que a guerra terminasse", afirma Josh.
Mergulhe nessa
Na livraria:
History of United States Naval Operations in World War II, Samuel Morison, University of Illinois, 2002
Na internet:
http://geocities.yahoo.com.br/hpsgm/quedajapa.htm
www.battle-of-leyte-gulf.com
Mar vermelhoConflito sangrento terminou com mais de 30 navios no fundo do oceano Pacífico
1. A partir do dia 21 outubro de 1944, navios de guerra japoneses partem do Japão e da ilha de Bornéu rumo ao golfo de Leyte para atacar os americanos que desembarcaram no local. Antes disso, submarinos dos Estados Unidos localizam as embarcações inimigas e disparam seus torpedos, afundando dois cruzadores e avariando um terceiro perto da ilha de Palawan
2. O contra-ataque japonês vem na manhã do dia 24, quando aviões vindos das Filipinas bombardeiam uma frota de navios americanos perto da ilha de Luzon. Quase todos os aviões são derrubados, mas um deles avaria gravemente o porta-aviões Princeton, que explode e acaba no fundo do mar
3. Ao longo do dia 24, os americanos respondem com uma ofensiva aérea contra navios japoneses entre as ilhas de Luzon e Mindoro. À tarde, os aviões afundam o encouraçado Musashi e danificam o cruzador Myoko, que é posto fora de ação. Outros navios nipônicos também são avariados
4. O ataque americano segue noite adentro, quando destróieres avançam contra navios em Mindanao. O encouraçado nipônico Fuso é atingido e parte-se em dois. Outro encouraçado e ao menos dois destróieres também naufragam
5. Na manhã do dia 25, os combates continuam com a resposta dos navios japoneses, que surpreendem seis porta-aviões americanos junto da ilha de Samar. Mas os barcos americanos lançam uma cortina de fumaça para fugir do ataque e iniciam uma contra-ofensiva
6. Escondidos pela fuligem e pelas pancadas de chuva que caíam na região, os americanos investem contra os japoneses usando também dezenas de bombardeiros B-24. A estratégia surte efeito e liquida o cruzador japonês Abukuma, que havia sido danificado na madrugada anterior
7. Desmoralizada pela desvantagem numérica, a frota japonesa começa a se afastar das Filipinas, mas continua sendo atacada por aviões americanos. O último recurso é apelar para os pilotos suicidas, os camicases, que afundam um porta-aviões dos Estados Unidos e danificam vários navios. Mas os americanos se recompõem e revidam rapidamente
8. Em 26 de outubro, a frota japonesa segue sob ataque aéreo. No fim do dia, os japoneses se retiram e, em seguida, os americanos controlam a ilha de Leyte, abrindo caminho para a conquista do arquipélago filipino
Duelo asiático
A maior batalha naval da história tem como estopim o desembarque de tropas dos Estados Unidos na ilha de Leyte, no centro do arquipélago filipino, em 20 de outubro de 1944. Percebendo a manobra, os japoneses enviaram navios para impedir que os americanos conquistassem as Filipinas, que estavam sob domínio nipônico desde 1942. O conflito influenciou no fim da Segunda Guerra Mundial.
Fonte: http://mundoestranho.abril.com.br/materia/qual-foi-a-maior-batalha-naval-de-todos-os-tempos
22.1.14
Qual foi a maior batalha naval de todos os tempos?
Ainda existem samurais no Japão?
Não. Essa classe de guerreiros especializada em artes marciais e na luta com espadas desapareceu nas últimas décadas do século 19. Na verdade, o sumiço desses combatentes coincide com o fim do feudalismo e a chegada do capitalismo ao Japão, um processo que começou há apenas 132 anos, com o início da modernização nipônica. Até então, o país ainda era basicamente agrário e nele pipocavam conflitos de terra. Nessas brigas, os samurais consolidaram-se como a classe de guerreiros que defendia os senhores feudais. Essa situação durou até o século 17, quando a família Tokugawa conseguiu concentrar quase todo o poder no campo. Com isso, as guerras entre os proprietários praticamente acabaram e os samurais foram perdendo sua função militar. Por sua educação refinada e por serem os únicos japoneses autorizados a portar armas, eles ainda desfrutavam de grande prestígio na sociedade.
Sustentados pelos impostos pagos pelos servos, eles passaram a viver no luxo e no ócio, dedicando-se à arte e à literatura. A vida boa durou até 1872, quando os governantes interessados em transformar o Japão em uma potência capaz de concorrer com o Ocidente tentaram varrer qualquer vestígio do passado feudal. "Em dezembro daquele ano, o imperador Meiji anunciou a criação de um exército de 36 mil homens, composto por jovens japoneses de 20 anos de idade. Na prática, isso acabou com os privilégios dos samurais como classe guerreira do país", afirma a historiadora Célia Sakurai, do Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, em São Paulo. Apesar das reformas, o prestígio desses brigões permaneceu em alta por muitas décadas. "Até o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a classe dirigente do Japão ainda era predominantemente preenchida pelos descendentes das famílias dos antigos samurais", diz Célia.
O fim da pancadaria orientalDecadência dos guerreiros nipônicos coincide com a modernização do país, no século 19
1854
Depois de mais de dois séculos de isolamento, o Japão abre dois portos ao comércio internacional. Dirigentes nipônicos passam a defender a modernização do país para enfrentar a força das potências ocidentais
1868
O jovem Matsuhito, de 14 anos, é coroado com o nome de imperador Meiji e recupera os poderes imperiais tradicionais. O governante estabelece reformas para modernizar o Japão entre elas, o fim da casta de guerreiros samurais
1872
O imperador Meiji cria uma nova força militar com jovens recrutados entre a população. Guerreiros descontentes lideram rebeliões, mas são rapidamente derrotados. Nos anos seguintes, a profissão de samurai desaparece
Fonte: http://mundoestranho.abril.com.br/materia/ainda-existem-samurais-no-japao
Como era a vida em um harém?
por Tiago Jokura
Não era uma orgia maluca como alguns pensam. Pelo contrário, a coisa era tão organizada que tinha até escala para escolher a mulher que passaria a noite com o dono do harém. Havia também uma hierarquia, dividindo a mulherada em escravas, amantes e esposas oficiais. Hoje em dia, apesar de um certo tabu sobre o tema, ainda funcionam esquemas semelhantes a haréns em regiões mais conservadoras de países árabes. Nada, porém, que se compare ao que rolou no palácio Topkapi entre os séculos 16 e 17. Situado na atual cidade de Istambul, na Turquia, o palácio, que era sede do Império Otomano, abrigou o mais famoso harém do mundo, que chegou a contar com até mil mulheres! A maior parte delas chegava lá como prisioneiras de guerra, escravas comercializadas e até como presentes de outros líderes ao poderoso sultão otomano. Atualmente, as centenas de aposentos desse harém histórico estão abertos para visitação. Entenda como a coisa toda funcionava. : - )
CASA DA SOGRA
Mulher mais poderosa não era nenhuma esposa, nem odalisca, e sim a mãe do sultão
AS OUTRAS
Elas despertavam menos atenção que a esposa "favorita", mas outras três mulheres também ganhavam o direito de ser esposas do sultão. Esse status garantia luxos como quartos e eunucos particulares para cada uma delas.
PÔ, MANO!
Como podiam estar de olho no trono, os irmãos do sultão moravam em um aposento isolado, com vista para o harém, mas sem acesso ao mulherio. Por outro lado, alguns convidados do sultão podiam receber a honraria de ganhar uma odalisca de presente.
PRIMEIRO EMPREGO
As odaliscas ocupavam o cargo hierarquicamente mais baixo entre as mulheres do sultão e tinham também que fazer os serviços domésticos, como cuidar da limpeza. As que mais se destacavam podiam ser "promovidas" a amantes (concubinas)
AMANTES OFICIAIS
As concubinas eram as mais belas e educadas escravas, que cantavam e dançavam para o sultão. Em geral, tinham direito a só uma noite de amor com ele. Mas, se engravidassem, viravam amantes regulares - por supostamente serem mais férteis para gerar herdeiros.
ORA, BOLAS
Para evitar que uma mulher tivesse um filho que não fosse do sultão, os funcionários do palácio eram castrados e davam adeus a seus testículos. Havia tanto eunucos negros como brancos. Estes, normalmente capturados na Europa, assumiam funções administrativas.
PERDA TOTAL
Os eunucos negros eram escravos africanos que cuidavam da segurança das mulheres. O convívio próximo a elas custava-lhes a retirada não só dos testículos mas também do pênis! Era o chefe dos eunucos negros quem conduzia as amantes para os aposentos do sultão.
TODO-PODEROSO SULTÃO
Durante o dia, preocupado em liderar o império, o sultão quase não tinha contato com a mulherada toda que havia à sua disposição. Sexo mesmo só nas noites de amor e com uma mulher de cada vez - nada de chamar várias odaliscas para uma farra...
CHEFE DE FAMÍLIA
A verdadeira dona do pedaço era a mãe do sultão. Além de participar da administração do palácio como conselheira, ela selecionava as candidatas a ingressar no harém e escolhia as garotas que teriam direito a uma noite de amor com seu filho, na suíte imperial.
A FAVORITA
Entre as esposas oficiais, havia a "favorita", que era a segunda mulher mais poderosa do harém. Seu grande sonho era ver o filho assumir o trono quando o sultão morresse. Mas sempre havia o risco de o sultão indicar como herdeiro um filho com outra esposa.
Fonte:http://mundoestranho.abril.com.br/materia/como-era-a-vida-em-um-harem
Guerreiro extinto
Paleontólogos brasileiros descrevem nova espécie de crocodiloforme que viveu há 55 milhões de anos no estado do Rio de Janeiro. O predador, parente distante dos jacarés, sobreviveu à extinção dos dinossauros, mas não deixou descendentes.
Por: Sofia Moutinho
Reconstrução da nova espécie de crocodiloforme descoberta no estado do Rio de Janeiro. O animal, terrestre e carnívoro, viveu há cerca de 55 milhões de anos. (arte: Maurilio Oliveira; foto: Sofia Moutinho)
Ele sobreviveu à extinção em massa que dizimou os dinossauros, se consolidou como um temido predador, mas não chegou até os dias de hoje como seus parentes, os jacarés e os crocodilos. Estamos falando do Sahitisuchus fluminensis, a mais nova espécie pré-histórica de crocodiloforme descrita por paleontólogos brasileiros e cujo nome, originário do idioma indígena xavante e do latim, significa ‘crocodilo guerreiro do Rio de Janeiro’.
O fóssil do animal revela um carnívoro terrestre de três metros de comprimento e um metro de altura
O fóssil do animal, apresentado hoje na Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), no Rio de Janeiro, revela um carnívoro terrestre de três metros de comprimento e um metro de altura que viveu na região fluminense de São José de Itaboraí entre 58 e 55 milhões de anos atrás, durante o Paleoceno – período geológico seguinte à extinção dos dinossauros, há 65 milhões de anos, no final da Era Mesozoica.
Os restos do animal – um crânio, uma mandíbula e algumas vértebras – foram recuperados junto com vários outros fósseis em uma pedreira de uma indústria de cimentos na década de 1940. O material ficou guardado no Museu de Ciências da Terra da CPRM e só agora foi preparado e estudado por pesquisadores da instituição e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Os paleontólogos recuperaram o fóssil completo do crânio do ‘Sahitisuchus fluminensis’, com as mandíbulas e os dentes serrilhados típicos de carnívoros. (foto: CPRM)
“O fóssil apresenta um focinho característico de um animal predador de terra firme”, descreve o paleontólogo André Pinheiro, do Departamento de Geologia da UFRJ. “Os dentes eram serrilhados, típicos de carnívoros, mas os de trás, por não serem muito afiados, sugerem que ele tinha um comportamento alimentar variado, tanto de predador quanto de oportunista, se alimentando de animais mortos.”
Pinheiro: “O fóssil apresenta um focinho característico de um animal predador de terra firme”
A análise da anatomia do animal mostrou que ele era integrante do grupo dos sebecossúquios, crocodilos estritamente terrestres que surgiram há 100 milhões de anos e não têm mais representantes vivos. Para os pesquisadores, foi uma surpresa encontrar um novo integrante desse grupo no Paleoceno, visto que a extinção em massa que precedeu esse período dizimou grande parte dos crocodiloformes da época.
“No Mesozoico, os crocodiloformes alcançaram uma diversidade incrível de espécies, muito maior do que a que vemos hoje”, aponta o paleontólogo Alexander Kellner, do Museu Nacional da UFRJ. “Mas essa variedade sofreu um impacto muito grande na passagem para o Paleoceno e hoje os crocodiloformes são um dos poucos grupos de animais cuja diversidade era maior no passado quando em comparação com os dias atuais.”
Ficou pra trás
Apesar de o guerreiro Sahitisuchus fluminensis ter sobrevivido aos dinossauros, não teve a mesma sorte que outros grupos de crocodiloformes, como os aligatorídeos, que ainda hoje têm integrantes vivos, como os jacarés.
Os paleontólogos não sabem precisar o que levou à extinção dos sebecossúquios. Pinheiro diz que uma hipótese que poderia explicar o sumiço desses animais seria a chegada de carnívoros maiores e mais resistentes, como onças e guepardos, vindos da América do Norte há 23 milhões de anos, no período Mioceno.
O crocodiloforme, que provavelmente se alimentava de pequenos répteis e marsupiais, não teria resistido à competição com as onças vindas da América do Norte durante o Mioceno. (imagem: Maurilio Oliveira)
“Naquela época, houve uma queda do nível do mar e as Américas do Sul e do Norte se uniram, o que permitiu a descida de carnívoros que começaram a competir por espaço e alimento com os crocodiloformes terrestres”, explica. “De maneira ainda não clara, esses animais não aguentaram a competição e desapareceram, enquanto os crocodiloformes que viviam na água conseguiram escapar.”
Para melhor compreensão dessas mudanças, o paleontólogo Diógenes Almeida Campos, da CPRM, chama a atenção para a necessidade de se preservar a bacia de Itaboraí, onde hoje há um parque paleontológico mantido pela prefeitura local. “A fauna encontrada na bacia de Itaboraí é muito interessante porque está no limite entre o Cretáceo e o Paleoceno, um período de muitas transformações, com o fim dos dinossauros e o aparecimento dos mamíferos”, diz. “Sua preservação é muito importante para o estudo da paleontologia e a geração de conhecimento.”
Fonte: http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2014/01/guerreiro-extinto
Dom Pedro II e Princesa Isabel - De pai para filha
Por que um imperador culto, que afastou o Brasil do rumo dos caudilhos e das ditaduras sul-americanas, não foi capaz de assegurar a sucessão da princesa que aboliu a escravidão
Texto Wagner Gutierrez Barreira
O vapor Alagoas, que levava a família imperial para o exílio em novembro de 1889, afastava-se do continente sul-americano para o mar aberto, ao largo da costa da Ilha de Fernando de Noronha. Emocionados, dom Pedro e seus parentes resolveram enviar uma última mensagem à pátria. Apanharam um pombo a bordo e discutiram o conteúdo de seu derradeiro recado em território brasileiro. Escolheram uma única palavra - saudade - e soltaram o bicho, que deveria voar em direção ao país com a homenagem singela. Mas o pombo não tinha vocação para correio. Suas asas haviam sido aparadas. O resultado: a "saudade" foi ao fundo do oceano com seu portador, a poucos metros do navio. Talvez a cena da última tentativa de comunicação entre a família imperial e o povo brasileiro funcione como metáfora do que foram os anos da monarquia. As intenções sempre eram as melhores. As atitudes, por vezes desastrosas.
O órfão da nação
O menino tinha apenas 5 anos quando foi arrancado da cama e levado da Quinta da Boa Vista para o Paço Imperial do Rio de Janeiro. Assustado, chorava sem parar, encolhido no banco de trás da carruagem. No caminho, o veículo foi parado por populares, que tiraram os cavalos e se encarregaram de levar eles mesmos a carga preciosa ao seu destino. Havia cheiro de pólvora, vindo de tiros de artilharia. Uma multidão tomava as ruas. O pequeno Pedro, tornado imperador do Brasil naquela noite de 7 de abril de 1831, ocuparia o lugar do pai, que acabara de abdicar. Sua mãe, Maria Leopoldina, havia morrido quando ele era um bebê. Enquanto o garoto era levado ao paço, Pedro I já estava a bordo da fragata inglesa Warspite. Pai e filho nunca mais se viram outra vez.
Por quase meio século, o chamado "órfão da nação" ocuparia o papel de fiador do império. O golpe que lhe garantiu a maioridade aos 14 anos transformou Pedro de Alcântara no condutor do Segundo Reinado. Enquanto os vizinhos latino-americanos se fragmentavam em pequenas repúblicas, comandadas por caudilhos, o Brasil, grande e unido, era visto pelo resto do mundo como uma ilha de civilização em meio à barbárie. Pedro foi criado por tutores (o primeiro deles foi o Patriarca da Independência, José Bonifácio) e por funcionários do palácio. Sua formação foi uma só: seus professores trataram de lhe ensinar como ser magnânimo, justo, educado, comprometido e fiel ao Brasil. Pedro cumpriu à risca o que lhe foi ensinado. Quando morreu no exílio, aos 66 anos, em 1891, seu obituário no jornal The New York Times afirmou que ele "foi o mais ilustrado monarca do século".
Dom Pedro II foi um escravo de seu país desde a abdicação de seu pai. Seus passos eram vigiados, suas atividades se transformavam em relatórios analisados no Parlamento. O Marquês de Itanhaém, o tutor que sucedeu Bonifácio, preparou um regulamento para o garoto que incluía acordar diariamente às 7 da manhã. A partir daí, cada hora tinha uma atividade específica e até as conversas seguiam um tema definido. A rubrica "diversão" durava duas horas diárias. O dia acabava às 21h30 e o sono era precedido de mais leituras. O objetivo do tutor, como relata José Murilo de Carvalho, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, era criar um paladino. "Itanhaém queria formar um monarca humano, sábio, justo, honesto, constitucional, pacifista, tolerante", afirma Carvalho na biografia D. Pedro II. "Isto é, um governante perfeito, dedicado integralmente a suas obrigações, acima das paixões políticas e dos interesses privados."
A vida pessoal de Pedro, como se vê, não pertencia a Pedro. Visitas de parlamentares para checar in loco a educação do príncipe eram comuns. O Parlamento recebia relatórios sobre os avanços do futuro monarca. O de 1837, por exemplo, dava conta que Pedro falava e escrevia em francês e era capaz de traduzir do inglês. Mas, como registra José Murilo de Carvalho em seu livro, o deputado Rafael de Carvalho criticava a falta de exercícios e divertimento. "Segundo os observadores, era um menino tímido, ensimesmado e, seguramente, muito carente de afeto", definiu o historiador.
Imperador na puberdade, dom Pedro logo encontrou uma palavra que o acompanharia ao longo de toda a vida para descrever as cerimônias, rapapés e atividades inerentes ao mandato: "maçada". Fez uso dela ao comemorar seu primeiro aniversário na condição de imperador, quando anotou em seu diário, depois de um dia que começou às 7 da manhã e incluiu missa, te-deum, beija-mão e teatro: "Agora, façam-me o favor de me deixarem dormir. Estou muito cansado, não é pequena a maçada". Diversos diplomatas, ao longo de seu reinado, observaram o tédio que brotava do imperador brasileiro. Sobravam palavras como triste, infeliz e enfadado para descrevê-lo. Para Carvalho, porém, tratava-se de uma máscara. "O laconismo e o aparente enfado eram, sem dúvida, recursos de que o rapaz fazia uso para acobertar a enorme insegurança."
Talvez o golpe mais duro na vida do jovem imperador tenha sido seu casamento - e a vida em família. Para começo de conversa, encontrar uma noiva foi tarefa complicada. O imperador governava um país distante e atrasado. Não havia no Rio de Janeiro nada que nem de perto lembrasse uma corte (diga-se, os títulos nobiliários do império brasileiro não eram herdados). A cidade era impraticável no verão - e ainda havia a fama de garanhão do pai de Pedro II. Para piorar, o imperador era um sujeito alto e de lindos olhos azuis, mas sua voz... "Bastava que abrisse a boca para que essa boa imagem inicial rapidamente se esvanecesse: a voz era aflautada, fina e aguda, como em falsete, mais própria de um adolescente em início da puberdade do que de um adulto", registra o jornalista Laurentino Gomes no recém-lançado 1889.
A princesa carola
O encarregado de encontrar uma princesa para dom Pedro II, Bento da Silva Lisboa, rodou a Europa por dois anos em busca de uma candidata. Acabou por negociar com o rei Fernando, das Duas Sicílias, o casamento do imperador com sua irmã mais nova, Teresa Cristina. O ramo Bourboun de Fernando era uma casa de pouco prestígio na nobreza europeia e o rei tinha fama de déspota. Ainda assim, o noivo gostou do que viu ao receber um retrato da futura imperatriz. A achou "mui bela". O casamento foi feito por procuração, e, um século antes da invenção do Photoshop, Pedro não demoraria a se arrepender do comentário. Quando Teresa Cristina chegou ao Rio, em 3 de setembro de 1843, o imperador ficou mui decepcionado. Ela era quase 4 anos mais velha, baixa, manca e feia. "Enganaram-me, Dadama", queixou-se à sua aia. Depois, chorou no ombro do mordomo imperial. Do casamento nasceu Afonso, em 1845, que morreu aos 2 anos. No ano seguinte chegou Isabel e, depois, Leopoldina. Em 1848 nasceu Pedro Afonso, que faleceu ainda bebê.
O imperador ofereceu às filhas o mesmo ritmo de estudos a que foi submetido na infância. "A rotina diária de estudos prolongava-se por nove horas e meia, seis dias por semana. Incluía aulas de latim, inglês, francês e alemão, história de Portugal, da França e da Inglaterra, literatura portuguesa e francesa, geografia e geologia, astronomia, química, física, geometria e aritmética, desenho, piano e dança", escreve Laurentino Gomes. "Mais tarde, passaram a incluir também o italiano e o grego, história da filosofia e economia política. No começo, o imperador encarregava-se pessoalmente das aulas de geometria e astronomia. Chegou a escrever um tratado sobre astronomia para as princesas." Tanta cultura assim, porém, acabou fazendo mal às moças. A historiadora Mary del Priore, autora de O Castelo de Papel, sobre Isabel e seu marido, Gastão de Orléans, o Conde d'Eu, afirma que a erudição não deixou marcas na princesa Isabel. "Horas de aulas particulares massivas não significam a justa apreensão da matéria", diz Mary. "Que o diga a cartinha enviada ao pai quando chegou ao Recife: 'O que mesmo haviam feito por lá os holandeses?' Ela não se lembrava mais." A historiadora vai além: "Suas leituras eram censuradas pelo pai e pelo marido e seus melhores conhecimentos eram focados na vida doméstica".
O casamento de Isabel, tal como o do pai, foi um grande arranjo. Gastão de Orléans, filho do Duque de Namours, chamava a futura esposa em correspondência com o pai de Negócio nº 1 (o Negócio nº 2, claro, era a princesa Leopoldina, que se casaria com seu primo). Tal como Pedro, Gastão não gostou da prometida. Em carta à irmã, descreveu a noiva em tom pouco lisonjeiro: "Para que não te surpreendas ao conhecer minha Isabel, aviso-te que ela nada tem de bonito; tem sobretudo uma característica que me chamou a atenção. É que lhe faltam completamente as sobrancelhas. Mas o conjunto de seu porte e de sua pessoa é gracioso".
Mesmo assim, toda a correspondência e a pesquisa historiográfica posterior mostra que o casal era apaixonado e fiel. Havia apenas um problema - e gravíssimo. Isabel não engravidava. A primeira gestação da princesa ocorreu quase dez anos depois do casamento, e no lugar errado. O casal estava na Europa. O contrato pré-nupcial obrigava que o herdeiro do trono nascesse no Brasil. Atravessaram o Atlântico e no dia 25 de julho de 1874 Isabel teve as primeiras contrações. "Mãe e filho passaram 50 horas em dores e sofrimento", relata Mary del Priore. A criança, uma menina, morreu no útero. Para retirá-la - e salvar a vida da princesa - os ossos da feto, inclusive os do crânio, foram quebrados. O episódio dá início a um triste distanciamento entre Isabel e o pai, a quem ela culpou pela viagem de volta ao Brasil. Isabel e o marido mudaram-se para Petrópolis. A perda do bebê radicalizou a carolice da princesa, que se ligou cada vez mais à família e à religião. O casal teve mais três filhos.
O imperador não gostava do genro, considerado liberal demais. Na Guerra do Paraguai, Gastão se ocupou de perseguir Solano Lopes depois que o futuro Duque de Caxias tomou Assunção. Uma de suas primeiras providências foi abolir a escravidão no país vizinho. A imprensa, a quem dom Pedro II permitia uma liberdade raramente vista no país, via em Gastão um estrangeiro que tinha os olhos grandes no império brasileiro e manipulava a mulher. Além disso, o culpava de ganhar dinheiro explorando pobres nos cortiços no centro do Rio de Janeiro, que alugava.
Falta de apoio
Nas narrativas tradicionais sobre o Segundo Reinado, cabe a Isabel papel preponderante. Ela era "A Redentora", responsável pelo grande gesto do fim do século 19, a abolição da escravidão. A Lei Áurea, aliás, é um requinte de minimalismo com seus dois artigos curtos: abole-se a escravidão e revogam-se as disposições em contrário. Na prática, não foi bem assim. Em 13 de maio de 1888, Isabel perdeu o apoio do último grupo que sustentava a monarquia, os fazendeiros, ainda que, como um canto do cisne, seu gesto tenha levado a monarquia à sua fase mais popular no Brasil. "Vossa alteza redimiu uma raça mas perdeu seu trono", anteviu o Barão de Cotegipe, um dos últimos chefes de governo do império. A propósito, é de Cotegipe uma das boas frases sobre os estertores da monarquia brasileira: "Não precisamos ir para a República; ela vem para nós".
Na prática, Isabel estava isolada. Os jornais a tratavam por carola. O fato de Gastão de Orléans ser francês ajudava os propagandistas do temor de que o Brasil poderia ser governado por um estrangeiro - e a princesa submissa ao marido ajudava na avaliação. Gastão, em sua correspondência com o pai, atestava essa visão: "Ela estava habituada a nunca ter vontade", escreveu. "O campo estava livre para exercer todas as audácias de seu caráter." O próprio dom Pedro II não via na filha a melhor pessoa para assumir o papel de imperatriz. Deixava-a à margem das decisões da política. "A impressão que se tem, ao estudar a história do Segundo Reinado, é que dom Pedro nunca acreditou de fato que a filha pudesse assumir o trono", afirma Laurentino Gomes. Quando o imperador se mostrou preocupado com o futuro da monarquia brasileira e perguntou ao seu ministro José Antonio Saraiva o que seria o reino de Isabel, ouviu como resposta: "O reinado de vossa filha não é deste mundo". Uma óbvia indicação de que a carolice da sucessora não encontrava eco no Brasil do fim do século 19.
De acordo com Mary del Priore, não há nada que indique que dom Pedro tenha intencionalmente alijado Isabel do poder. "Mas não há dúvidas, comprovadas pela correspondência do Conde d'Eu com a França, que ele nunca incentivou o casal a ter envolvimento político maior, quer participando das reuniões ou das entrevistas com o ministério, quer circulando pela cidade para angariar simpatias." Ao contrário, diz Mary, dom Pedro não se importou quando o casal se afastou da corte para morar em Petrópolis. "Onde cultivaram poucas amizades e contatos, que lhes faltaram no momento do golpe." Em defesa do imperador, diga-se que Isabel tinha ojeriza à política.
Em carta ao pai, como regente em uma das viagens de dom Pedro ao exterior, Isabel contou como organizara a agenda: "Já marcamos as audiências para as quintas-feiras seguida de despacho; as recepções para as segundas e o corpo diplomático para as primeiras terças dos meses", registrou. "Por ora, eis meus únicos atos oficiais. Quem me dera não ter nenhum a fazer!!!" Durante suas viagens pelo país, as anotações em seu diário têm pouco espaço para discussões políticas, mas brotam comentários sobre jardins, concertos e jantares.
Contra o Terceiro Reinado nas mãos de Isabel também pesava uma questão pessoal. Desde a regência que substituiu dom Pedro I, havia alternância de poder, ainda que as eleições fossem viciadas. Mas nenhuma mulher podia votar no século 19. Mesmo que Portugal, de onde o Brasil herdou o ordenamento legal da monarquia, permitisse que mulheres assumissem a coroa, uma presença feminina no trono incomodava. "No Brasil, conservador e patriarcal, dom Pedro sabia que o exercício político de Isabel era tarefa difícil", afirma Laurentino Gomes. "Uma mulher no trono seria um desafio enorme. O imperador manteve a princesa próxima do trono apenas dentro dos limites do protocolo."
Dom Pedro tinha clareza de que emplacar a filha como sucessora era uma tarefa complicada. E a história mostra que ele não se empenhou muito em mudar esse destino. "Nunca pareceu interessado em preparar um terceiro reinado, para a filha ou para dom Pedro Augusto (veja quadro na página 35), o filho mais velho de Leopoldina", anota José Murilo de Carvalho na biografia do imperador. "Educou Isabel como tinha sido educado, mas não lhe entregou o governo nem mesmo quando já não tinha condições de governar." Para a historiadora Mary del Priore, o empenho de dom Pedro na sucessão simplesmente não existiu. "Sem agenda definida para o império, acho difícil imaginar que, tal como outros imperantes, dom Pedro tivesse interesse em organizar a transição. Em coroas europeias, essa era uma preocupação permanente", afirma Mary. "Mas não consegui identificar, na relação de dom Pedro com o casal D'Eu, nenhum impulso de ajuda ou incentivo nesse sentido."
A jabuticaba no trono
Monarca perfeito para uma democracia imperfeita, onde poucos votavam, Pedro detinha o Poder Moderador, uma jabuticaba política que permitia ao imperador derrubar gabinetes (tal como a fruta, isso só existia no Brasil). Por incrível que pareça, era a única forma de garantir a alternância de poder entre liberais e conservadores. A cada eleição, o partido vencedor trocava as peças de toda administração - e dessa forma tinha a faca e o queijo na mão para perpetuar-se no poder. Ainda assim (ou talvez por isso mesmo), o Poder Moderador e seu controlador, dom Pedro II, garantiram a estabilidade do império. Apesar de chefe do Poder Executivo, o imperador era considerado irresponsável por seus atos e não podia ser processado pelo Judiciário. A situação criava um sujeito com muito poder, mas que não devia satisfação a ninguém, nem à lei. "Durante todo o reinado discutiu-se o que significava na prática chefiar um poder que era operado por outros", afirma José Murilo de Carvalho. "O reinado terminou sem que se chegasse a um consenso sobre esse tema." "O Poder Moderador transformava dom Pedro II, mesmo à revelia de sua vontade pessoal, num soberano absoluto de fato, o que era já uma relíquia de museu no revolucionário século 19", afirma Laurentino Gomes. Para a historiadora Mary del Priore, o Poder Moderador contribuiu para que o Império fosse confundido com toda sorte de arcaísmos. "O povo e a opinião pública desejavam ardentemente a modernização do país", diz Mary. "Para eles, a coroa e seus representantes eram o que havia de mais antiquado e conservador."
Imperador republicano
Para complicar ainda mais a aspiração de Isabel, dom Pedro não parecia muito preocupado em perder o trono. Seus momentos de vida mais felizes ocorreram quando ele deixou o peso da farda de imperador para tornar-se apenas o cidadão Pedro de Alcântara, como gostava de ser tratado em suas viagens internacionais. Há evidentes sinais de que, para ele, a República era algo inevitável no Brasil. "Aparentemente, dom Pedro se resignou à marcha da história", afirma Laurentino Gomes.
De fato, em algumas correspondências, o imperador não esconde que vestiria melhor o figurino republicano. Em seu diário, em 1862, muito antes da explosão do movimento pela República no Brasil, ele anotou: "Nasci para consagrar-me às letras e às ciências, e, a ocupar posição política, preferiria a de presidente da República ou de ministro à de imperador".
Quando o golpe que levou à República eclodiu no Rio de Janeiro, dom Pedro estava em Petrópolis. Poderia ter fugido para o interior e comandado a resistência. Poderia ter parlamentado com o marechal Deodoro da Fonseca, seu amigo e, ainda que alçado a líder do movimento, sem grandes pendores republicanos. Mas ele simplesmente se acomodou e aceitou os fatos. "O imperador mantinha-se abúlico e fatalista", descreve José Murilo de Carvalho em D. Pedro II. "Quando lhe disseram que a República já podia estar proclamada, respondeu: 'Se for assim, será a minha aposentadoria. Já trabalhei muito e estou cansado. Irei então descansar'." No dia 16, a princesa Isabel, que na véspera pedira ao pai para que convocasse o Conselho de Estado, simplesmente pôs-se a chorar. Reuniu-se aos filhos e preparou-se para embarcar para o exílio.
Na Europa, pai e filha dedicaram-se ao que realmente gostavam. Pedro de Alcântara aproximou-se ainda mais de cientistas e intelectuais, como Louis Pasteur (a quem, como imperador, angariou doações ao seu hoje célebre instituto).
O médico que assinou seu atestado de óbito, por exemplo, era Jean-Martin Charcot, um dos pioneiros da psiquiatria. Dom Pedro morreu de complicações de uma pneumonia em 1891, mas Charcot havia chegado a outro diagnóstico ao imperador em sua última viagem à Europa como mandatário brasileiro: ele sofria de surmenage, fadiga física e mental. Curiosamente, no filme Augustine, recentemente em cartaz, o médico francês aparece em algumas cenas com um pequeno macaco de estimação, um presente de dom Pedro.
Isabel dedicou-se à família. Seu marido comprou o Castelo d'Eu, na Normandia. Durante a Primeira Guerra, a princesa se ocupou de gerir cozinhas comunitárias e o marido representava a Cruz Vermelha na região. Com uma baioneta, fazia a ronda noturna no vilarejo próximo ao castelo. Isabel morreu em 14 de novembro de 1921. Tal como o pai, sem nunca ter voltado ao Brasil.
O plano B da Monarquia
Nos últimos anos do Segundo Reinado, apareceu um novo candidato ao trono de dom Pedro II. Seu neto Pedro Augusto, filho da princesa Leopoldina, começou uma articulação de bastidores para transformar-se em dom Pedro III. Era uma forma de evitar a posse de uma mulher carola e ainda por cima casada com um estrangeiro e de prolongar um pouco mais a monarquia. "As tensões entre Isabel e o sobrinho eram enormes", registra Mary del Priore em O Castelo de Papel. "O grupo de 'pedristas' aproveitava e cabalava. Acreditava numa passagem menos radical em direção à República." Boa parte da elite brasileira acreditava que o rapaz era o nome perfeito para suceder dom Pedro II. Seu apelido era "o Preferido". Durante as angustiantes horas do 15 de novembro, Pedro Augusto se propôs a driblar a guarda e buscar contato com os sediciosos. Queria fazer algo pela família imperial. O avô o impediu - e o acusou de conspirar com os revoltosos. No navio que levou a família imperial para o exílio, o rapaz mostrou os primeiros sintomas do que hoje se chama transtorno bipolar - tentou esganar o comandante. Preso em seu camarote, jogava garrafas com pedidos de socorro no mar. A pedido de Jean-Martin Charcot, o médico de Pedro II, o "príncipe maldito", como o chamou Mary del Priore na biografia que escreveu sobre ele, foi examinado por Sigmund Freud. Internado em um sanatório depois de tentar o suicídio em 1893, Pedro Augusto morreu em 1934, 40 anos depois. "O Brasil se livrou de ter um rei louco, como já havia acontecido com Portugal, durante o reinado de Maria I, e com a Inglaterra de George III", diz Gomes.
Saiba mais
LIVROS
D. Pedro II, José Murilo de Carvalho, Cia das Letras, 2007
O Castelo de Papel, Mary del Priore, Rocco, 20131889, Laurentino Gomes, Globo Livros, 2013
Capítulo Inédito de 1889
O imperador cansadoUm enigma desafia até hoje historiadores e estudiosos da Proclamação da República no Brasil. Apesar das evidências de uma conspiração em andamento, o governo imperial permaneceu inerte. Nos dias anteriores ao golpe republicano, o imperador Pedro II comportou-se o tempo todo como se ameaça alguma rondasse o trono. A seu ver, estava tudo tão absolutamente calmo que julgou desnecessário reunir-se com qualquer membro do governo nos dias que antecederam a queda do Império. Nenhum de seus ministros, por sua vez, preocupou-se em alertá-lo sobre os insistentes boatos que tomavam conta da cidade e sobre o óbvio clima de agitação nos quartéis. Proclamada a República, nenhum comandante de armas ou governador de província saiu em defesa da Monarquia. As reações foram raras e isoladas, na maioria dos casos nas camadas mais humildes da população, que, obviamente, não tinham meios para contrapor-se ao fato consumado. Como explicar tamanha apatia?
Max Leclerc, jornalista francês que percorria o Brasil na época, registrou: "A revolução está terminada e ninguém parece discuti-la. Mas aconteceu que os que fizeram a revolução não tinham de modo nenhum a intenção de fazê-la e há atualmente na América um presidente da República à força. Deodoro desejava apenas derrubar um ministério hostil. Era contra Ouro Preto e não contra a Monarquia. A Monarquia caíra. Colheram-na sem esforço como um fruto maduro. Ninguém levantou um dedo para defendê-la".
Mais adiante, falando da verdadeira causa da queda do Império, Leclerc afirmou que a própria Monarquia, obsoleta e incapaz de se reinventar, fora decisiva para o triunfo republicano: "O edifício imperial, mal construído, edificado para outros tempos e outros destinos, já não bastava às necessidades dos novos tempos. Incapaz de resistir à pressão das ideias, das coisas e dos homens novos, já se tornara caduco e tinha seus alicerces abalados".
Ninguém simbolizava mais esse quadro de letargia e torpor do que o próprio monarca. No crepúsculo do Segundo Reinado, um dom Pedro II doente, cansado e "velho antes do tempo", como definiu o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, nem de longe lembrava a figura poderosa e carismática que por quase meio século conduzira com firmeza, paciência e sabedoria os destinos da nação. Confrontado com o avanço da propaganda republicana e a indisciplina nos quartéis gerada pela Questão Militar, parecia incapaz de exercer a liderança que o momento exigia. "O imperador cada vez mais esquecido das coisas presentes e alheio aos assuntos políticos", anotou o visconde de Taunay em seu diário de 19 de abril de 1889.
Dom Pedro II era um homem frágil, na juventude sujeito a frequentes ataques de epilepsia e, a partir da meia-idade, vítima de diabetes. Os problemas de saúde se agravaram muito nos dois anos finais do seu reinado. Em fevereiro de 1887, enquanto assistia a um concerto no Hotel Bragança de Petrópolis, foi atacado por uma dor de cabeça tão forte que se viu obrigado a se retirar do camarote em que estava. O desconforto persistiu por dois meses. Em abril, os médicos diagnosticaram um ataque de febre palustre, agravado pelo avanço do diabetes. Sua memória ficou bastante abalada. Alguns auxiliares chegaram a suspeitar que estivesse perdendo a sanidade mental. A princesa Isabel, que se encontrava na Europa, foi chamada a voltar às pressas ao Brasil. "Fiquei muito mal impressionado com o aspecto do imperador", escreveu o barão Von Seiller, representante da Áustria no Rio de Janeiro. "Envelheceu muito, está magro, o rosto abatido e não tem a mesma alegria de antes. Dá a impressão, às vezes, de que tem dificuldade em falar. Em suma, é um homem doente."
O quadro pareceu tão grave que os médicos aconselharam tratamento na Europa. Embarcou no dia 30 de junho de 1887, em companhia da imperatriz e do neto Pedro Augusto, enquanto a princesa Isabel assumia a regência pela terceira vez. Na sua ausência, de um ano e dois meses, era tal a convicção de que o imperador não retornaria com vida que, em artigo no jornal O País, o jornalista republicano Quintino Bocaiúva referiu-se ao navio que o transportava como "esquife da Monarquia". Na Europa, dom Pedro II ficou aos cuidados dos professores Charles Bouchard e Jean-Martin Charcot, duas sumidades médicas. Internado durante dois meses em uma estação de águas terapêuticas na Suíça, pareceu se recuperar. Na manhã de 3 de maio, no entanto, teve uma súbita recaída em Milão. Chamado às pressas, seu médico particular, Claudio Velho da Mota Maia, registrou que o aspecto de dom Pedro era assustador. Prostrado na cama do hotel, parecia agonizar. Chegou a receber a extrema-unção de um padre convocado às pressas, enquanto os médicos lhe aplicavam injeções de cafeína, um poderoso estimulante.
A situação era tão delicada que, ao receber o telegrama do Brasil com notícia da aprovação da Lei Áurea, a imperatriz Teresa Cristina inicialmente relutou em mostrá-lo ao marido. Temia que a emoção pudesse agravar-lhe o estado de saúde. Por fim, decidiu que era melhor contar logo as novidades que ele esperava havia muito tempo. Dom Pedro II abriu lentamente os olhos e mal teve forças para perguntar:
- Não há mais escravos no Brasil?
- Não há - respondeu a imperatriz. - A lei foi votada no dia 13; a escravidão está abolida.
- Demos graças a Deus - murmurou dom Pedro. - Grande povo! Grande povo!
E desatou a chorar copiosamente.
Ao retornar da Europa, em agosto de 1888, tinha a aparência de inválido, sem ânimo para nada e incapaz de conduzir os destinos da nação. "Todo o sistema de governo, que durante quarenta anos dependera da orientação e da inspiração do imperador, perdeu o rumo nos meses que se seguiram ao seu retorno", observou o historiador britânico Roderick J. Barman. "Aos 62 anos", relatou Heitor Lyra, biógrafo de Pedro II, "dava a impressão de um homem velho de corpo e de espírito, com a aparência de um ancião, barba e cabelos embranquecidos, andar pesado e arrastado - o todo um ar de homem cansado."
Tornou-se forte o rumor de uma abdicação em favor da princesa Isabel, o que, por sua vez, só fez aumentar a resistência a um eventual terceiro reinado, pelas suspeitas que a princesa e o marido despertavam entre boa parte da elite brasileira. Uma hipótese muito discutida foi que a própria Isabel também abdicaria em favor do sobrinho, o príncipe Pedro Augusto, filho de sua falecida irmã Leopoldina. Afastaria assim o risco de que o trono brasileiro fosse ocupado, indiretamente, por um estrangeiro, o francês conde d'Eu.
As preocupações a respeito da saúde do imperador e sua capacidade de conduzir os destinos da nação eram partilhadas na família real. "Nunca, nos últimos 40 anos, a situação da Monarquia brasileira pareceu mais instável do que hoje", escreveu o conde d'Eu numa carta ao pai, o conde de Nemours, em 23 de agosto de 1888. "O declínio da Monarquia não faz senão se acentuar cada vez mais", anotou em outra carta, de novembro do mesmo ano. "O imperador, por maior que seja a sua boa vontade, já é incapaz de governar como governava antes de adoecer."
Em maio de 1889, o conde d'Eu anunciou que faria uma longa viagem às províncias do Norte e do Nordeste. O objetivo era defender o Império contra os ataques cada vez mais agressivos dos republicanos. Dificilmente haveria pior garoto-propaganda para a Monarquia. O conde viajou sozinho, deixando a princesa Isabel no Rio de Janeiro. Os críticos viram nisso a prova de que, na eventualidade de um terceiro reinado, seria ele o verdadeiro imperador do Brasil. Ciente da impopularidade do adversário, o advogado Silva Jardim decidiu sair-lhe ao encalço. Aonde fosse o conde, lá estaria também o mais radical dos propagandistas republicanos. Por coincidência, embarcaram no mesmo navio. O conde foi recebido com festas em todas as cidades, mas logo se confirmou a sua falta de habilidade política. Em discurso premonitório no Recife, afirmou que, se a Monarquia fosse derrubada pela República, a família imperial teria de deixar o Brasil. A declaração causou polêmica no Rio de Janeiro. Enquanto isso, Silva Jardim enfrentava problemas com a polícia em meio a manifestações a favor e contra o Império.
No dia 15 de julho, quando a família imperial saía do teatro no Rio de Janeiro, alguém gritou "Viva a República!". Em seguida, ouviu-se um tiro de revólver, que teria passado de raspão no coche de dom Pedro II. O autor do disparo, o português Adriano Augusto do Vale, preso em seguida, era um caixeiro desempregado, sem qualquer ligação com o movimento republicano. No momento da prisão, estava embriagado, na porta de um bar onde, diante dos fregueses, vangloriava-se em alta voz de haver atirado contra o imperador, prometendo voltar à carga visto ter errado o alvo. Era um caso banal, mas serviu de combustível no clima de radicalização reinante na cidade. Em resposta ao suposto atentado, o chefe da polícia do Rio de Janeiro, conselheiro José Basson de Miranda Osório, publicou um edital proibindo qualquer pessoa de dar vivas à República, medida que logo caiu em descrédito.
Enquanto isso, o governo perdia apoio também no Congresso. Às vésperas da viagem do conde d'Eu, caiu o ministério de João Alfredo Correia de Oliveira, responsável pela aprovação da Lei Áurea. Em seu lugar assumiu o visconde de Ouro Preto, chefe do último gabinete do Império. Aos 52 anos, deputado por Minas Gerais desde 1864, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo, era o candidato favorito da princesa Isabel. Todos viam sua chegada ao poder como uma preparação para o impopular terceiro reinado.
Antes de Ouro Preto, dom Pedro II tentara convencer o liberal baiano José Antonio Saraiva a assumir o posto. Saraiva recusara alegando problemas de saúde, mas teve a coragem de entabular com o imperador uma conversa franca a respeito do que, na sua opinião, viria a ocorrer nos meses seguintes. Na sua opinião, a República parecia inevitável. Era preciso preparar o país para recebê-la. Preocupava-o a possibilidade de anarquia e derramamento de sangue numa eventual mudança de regime pela via revolucionária. Sugeriu que, por precaução, o governo tomasse a iniciativa de propor reformas para atender a algumas reivindicações republicanas, como a federação, de modo a tornar a transição o menos dolorosa possível.
- E o reino da minha filha? - perguntou-lhe o imperador.
- O reinado de vossa filha não é deste mundo - teria lhe respondido o político baiano, fazendo ver ao imperador que o "devotamento ao clericalismo" da princesa Isabel e a impopularidade do marido, conde d'Eu, tornavam a hipótese de um terceiro reinado inviável.
Ao assumir o governo, Ouro Preto apresentou ao Congresso um ambicioso programa de reformas. Propôs o fim da vitaliciedade no Senado, a redução dos poderes do Conselho de Estado, que passaria a ser um órgão meramente administrativo, sem funções executivas, a eleição das autoridades municipais, a escolha dos presidentes e vice-presidentes das províncias entre os candidatos mais votados (e não mais por mera indicação do imperador), o sufrágio universal, liberdade de culto, reforma no sistema de educação a fim de estimular a iniciativa privada. "A situação do país define-se, a meu ver, por uma frase: necessidade urgente e imprescindível de reformas liberais", resumiu o novo chefe do gabinente.
À primeira vista, era um programa ousado, mas na prática tratava-se da mesma proposta apresentada duas décadas antes pelo mesmo Partido Liberal agora comandado por Ouro Preto, sem nunca ter sido colocada em prática. Para os republicanos era mais uma cabal demonstração de que o Império não seria capaz de reformar-se a si mesmo, travado pelas suas próprias forças internas, uma prova de que só a mudança de regime poderia levar o país adiante. Por essa razão, ao ouvir o discurso de Ouro Preto, Pedro Luiz Soares de Sousa, deputado conservador pelo Rio de Janeiro, levantou-se e gritou:
- É o começo da República!
Ao que o ministro retrucou:
- Não, é a inutilização da República.
Ou seja, até aquele momento Ouro Preto ainda acreditava que o Império teria condições de atender às reivindicações que vinham das ruas e, dessa forma, assegurar a própria sobrevivência, pelo menos por mais algum tempo. Foi desmentido pelos acontecimentos das semanas seguintes.
Irritado com a apresentação do programa de reformas dos liberais, o deputado conservador Gomes de Castro, do Maranhão, apresentou uma moção de desconfiança ao ministério, que foi aprovada por 79 votos contra 20. "O resultado da votação testemunhava a incapacidade dos grupos dominantes de aceitar a mudança e as reformas necessárias", observou a historiadora Emília Viotti da Costa. Durante os acalorados debates, dois deputados - o advogado Cesário Alvim, de Minas Gerais, e o padre João Manuel de Carvalho, do Rio Grande do Norte - subiram à tribuna para fazer profissão de fé republicana.
- Não nos iludamos, a República está feita - afirmou João Manuel. - Ela existe de fato em todos os espíritos, em todos os corações brasileiros.
Diante do impasse produzido pela moção de desconfiança, o imperador decidiu, pela última vez nos 67 anos da Monarquia, dissolver a Câmara e convocar novas eleições, em uma tentativa de recompor a base aliada no Parlamento. Realizado em 31 de agosto, o pleito, de fato, conferiu maioria esmagadora ao partido do governo, como tinha acontecido ao longo de todo o Segundo Reinado. Desta vez, no entanto, os novos deputados não teriam tempo de assumir seus mandatos.
A República chegaria antes.
José Gervasio Artigas: o herói da construção do Uruguai
Herói nacional do Uruguai, José Gervasio Artigas criou uma nação no meio de guerras intermináveis no início do século 19. e plantou a semente do país mais liberal da América Latina
Texto José Francisco Botelho
No outono de 1820, um general derrotado cavalgava pelos campos da região de Misiones, às margens do Rio Uruguai, nos confins meridionais da América do Sul. Os únicos sobreviventes de suas forças eram doze guerreiros maltrapilhos. O líder tinha olhos esverdeados, rosto sisudo, bronzeado pelo sol, e cerca de 50 anos de idade. Pouco a pouco, aquelas feições foram reconhecidas pelos índios que viviam acampados aqui e ali, entre montes e matagais. A pé e a cavalo, eles começaram a se aproximar: beijavam sua mão e pediam sua bênção. Em seguida, sem perguntas, iam apanhar lanças e flechas, abandonavam suas cabanas e passavam a seguir em silêncio o guerreiro taciturno. Em oito dias, o general tinha um novo exército com 800 homens. E voltou à interminável sequência de guerras em que vivera durante os últimos dez anos. Seu nome era José Gervasio Artigas - ou don José, ou o Grande Cacique, ou apenas "mi General", como era chamado por seus multiétnicos seguidores.
Pouco conhecido no Brasil, Artigas foi um dos personagens mais enigmáticos na história de nossos vizinhos. Figura central nas lutas pela independência da América, ele é considerado o herói nacional do Uruguai - e um dos poucos mitos latino-americanos que mantêm a boa fama, quase 200 anos após sua morte. Até hoje, turistas brasileiros se espantam com a atmosfera solene que reina no túmulo de Artigas, situado no centro de Montevidéu; e uruguaios de todas as idades enchem os pulmões para entoar a canção Don José, homenagem ao "Prócer de la Patria" composta por Rubén Lena na década de 1960. Bustos de Artigas podem ser encontrados até em cidades brasileiras na fronteira com o Uruguai - região que, por sinal, Artigas invadiu em suas guerras contra o império luso-brasileiro. Em parte, a história justifica esse respeito longevo, mesmo entre adversários. "Ele defendeu a liberdade civil e religiosa em toda a sua extensão imaginável - e suas ideias se parecem de forma surpreendente com a defesa atual da diversidade multicultural", diz o historiador uruguaio Nelson Caula, autor da biografia Artigas Nemorañé, lançada em 2012. "Não é exagero dizer que o Uruguai laico e liberal deste início do século 21 seja, em grande parte, herança de Artigas."
Hombre suelto
Artigas nasceu em Montevidéu, em 1764 - na época, o país que hoje o idolatra ainda não existia. O território do atual Uruguai integrava o imenso império espanhol nas Américas, que se estendia da Argentina até fatias dos Estados Unidos. A região era conhecida como Banda Oriental - ou seja, as terras que ficam a leste do Rio Uruguai. Área de transição entre dois impérios, o lugar era disputado entre espanhóis e portugueses: as potências europeias cobiçavam os imensos rebanhos de gado e cavalos selvagens que pastavam e corriam pelo pampa.
Montevidéu era uma ilha urbana, com hábitos aristocráticos, habitada por espanhóis ou descendentes, em um oceano de campos planos a perder de vista - a chamada "campanha". Nessas terras sem dono, índios charruas, minuanos e guaranis misturavam-se com desertores dos dois impérios e negros que haviam fugido dos senhores de escravos. O cristianismo espanhol nunca vingou naqueles ermos: imperava ali um sincretismo que mesclava pedaços de religião cristã com crenças mágicas. Essa mistura cultural e racial deu origem aos hombres sueltos - gente de raça indefinida, que vivia acampada sob sol e chuva, domando cavalos, carneando bois para vender seu couro e sempre bebendo o chá da planta Ilex paraguariensis. Em espanhol, esses homens "sem rei, sem Deus e sem lei" - como dizia um adágio da época - eram chamados de paisanos ou gauchos. Em português, gaúchos.
Artigas era de uma família rica, de fina cepa espanhola, com vastas propriedades rurais. Cresceu no clima fidalgo de Montevidéu e estudou em um mosteiro de franciscanos, onde leu os clássicos - mas preferia filósofos liberais, como o norte-americano Thomas Payne e o francês Jean-Jacques Rousseau. Apesar da origem urbana, logo despertou nele o fascínio pelo deserto verde da campanha.
Aos 14 anos, Artigas fugiu de casa e se instalou entre os gauchos nas terras de ninguém. Anos depois, reapareceu liderando um bando de hombres sueltos que o idolatravam. Alguns historiadores acreditam que ele viveu entre as tribos charruas - e teve um filho com uma índia. "Seus amigos eram índios, mestiços e escravos fugitivos. E a maior parte das mulheres que amou, e que o amaram, pertenciam a esse universo", diz Caula.
Aos 33 anos, entrou para o serviço da coroa espanhola, no Corpo de Blandengues - uma divisão de cavalaria que lutava contra os bandoleiros que infestavam o pampa na Banda Oriental. Poderia ter passado o resto de sua vida como um honorável servidor de Sua Majestade. Mas, por volta de 1807, tudo haveria de mudar - graças à confusão armada no outro lado do Atlântico por Napoleão Bonaparte, imperador da França.
No início do século 19, as tropas de Napoleão andavam pela Europa depondo monarcas - o plano era não só transformar o Velho Mundo em um grande império francês mas também se apoderar das colônias europeias no além-mar. Em 1807, os franceses tentaram depor a coroa portuguesa - mas a família real conseguiu fugir para o Brasil, estabelecendo a corte no Rio de Janeiro em 1808. Em abril daquele ano, Napoleão fez na Espanha o que não lograra em terras lusitanas: aprisionou o soberano Carlos IV e colocou seu próprio irmão, José Bonaparte, no trono usurpado.
Deste lado do oceano, a queda da coroa espanhola foi o estopim para as lutas de independência. Os próprios descendentes de colonizadores - chamados criollos - se ressentiam com os impostos e as restrições ao livre-comércio. Os indígenas queriam se livrar dos dominadores europeus, e os africanos escravizados buscavam liberdade. Em 1809, a revolução se espalhou pela Província do Paraguai, o Vice-Reino do Peru, a Capitania do Chile e o Vice-Reino do Prata (que incluía o que hoje é Argentina, Uruguai e uma parte do Rio Grande do Sul). Em maio de 1810, a Junta de Buenos Aires - espécie de câmara revolucionária que substituiu o governo nas cidades coloniais - declarou independência. Já o governador de Montevidéu se manteve leal aos espanhóis. Batalhas se espalharam dos Andes até as fronteiras com o Brasil. Os defensores da coroa eram apelidados de godos ou maturrangos - palavra que também significa "sujeito moleirão, que não sabe andar a cavalo".
Guerra do pampa
Artigas, na época, era um dos oficiais mais respeitados no serviço do exército colonial. Seu conhecimento da geografia do pampa e sua popularidade entre os mestiços e gauchos faziam dele um líder natural. Em 15 de fevereiro de 1811, porém, desertou, atravessou o Rio de Prata e foi oferecer seus serviços à Junta de Buenos Aires. Um mês depois, retornava à terra natal à frente de um pequeno exército e com a missão de colocar os maturrangos para correr.
Ao iniciar sua revolução, Artigas comandava 180 homens contra milhares de soldados monarquistas. Mas bastou cavalgar pela campanha e em pouco tempo tinha um exército de gaúchos, índios e africanos - alguns destes fugidos de senzalas brasileiras. "Os soldados eram acompanhados por seus familiares, pois, curiosamente, era mais seguro estar próximo à frente de batalha do que nas casas desprotegidas", diz a historiadora Ana Ribeiro, da Universidade Católica do Uruguai. "Era uma espécie de nação que se movia como um corpo não só militar como político: guerreavam, deliberavam, se reuniam em assembleias ou congressos." Artigas não usava roupas de general, mas a indumentária típica de um gaúcho. Nos intervalos da batalha, costumava ler o Contrato Social de Rousseau, deitado sobre um pelego em uma carroça.
As lutas contra os monarquistas anteciparam, em muitos aspectos, as táticas de guerrilha que seriam usadas nos séculos 20 e 21, de Cuba ao Oriente Médio. Os exércitos da coroa seguiam a ciência militar europeia: tropas com formações fixas, movimentos lentos e disciplinados, sob o resguardo de canhões e obuses.
Boa parte do arsenal do grupo de Artigas era composto de carabinas velhas, lanças improvisadas, laços, facões e boleadeiras - arma indígena composta de três pedras redondas presas em cordões de couro trançado. Mas suas tropas tinham cavalos, muitos cavalos. Além disso, no espaço ilimitado da campanha, tropas ligeiras levavam vantagem. Os paisanos de Artigas atacavam de surpresa as rígidas formações espanholas e batiam em retirada, levando todas as armas de fogo que pudessem apanhar ao inimigo. Com essa guerra de atrito, Artigas derrotou as forças espanholas na Batalha de Las Piedras, em maio de 1811. Poucos meses depois, os guerrilheiros mestiços acampavam junto às muralhas de Montevidéu.
Prestes a cair, o governo colonial pediu socorro a um velho inimigo: o reino de Portugal, Brasil e Algarves. Em junho de 1811, o rei dom João VI enviou 3 mil soldados, vindos de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com o suposto objetivo de salvar a monarquia espanhola na Banda Oriental. Na verdade, a princesa Carlota Joaquina, esposa de dom João, sonhava em dominar as terras ao redor do Rio da Prata: ela era filha de Carlos IV, o deposto rei espanhol, e se considerava sua herdeira nas Américas. Apanhado entre as forças espanholas e o exército luso-brasileiro, Artigas levantou sítio e fugiu em direção ao Rio Uruguai, buscando refúgio na província de Entre Rios (hoje na Argentina). Mas não foi sozinho: mais de 700 famílias o seguiram.
Moisés uruguaio
Foi um êxodo de proporções bíblicas. Temendo as represálias dos espanhóis e os abusos do invasor lusitano, 80% da população da campanha abandonou casas e plantações: cerca de 16 mil pessoas seguiram Artigas para o exílio. Brancos, índios, negros e mestiços iam misturados, sob o fogo dos portugueses e brasileiros. Ricos fazendeiros viajavam em carruagens, e pobres iam a pé.
Ainda em 1812, a caravana voltou à Banda Oriental, após a retirada dos portugueses (veja na linha do tempo abaixo). Montevidéu foi tomada em 23 de junho de 1814, acabando aí o domínio espanhol sobre a região do Rio da Prata. Mas nem bem um conflito terminara, outro começou. A Junta de Buenos Aires quis anexar a Banda Oriental à então chamada União Argentina, mas Artigas se recusou e partiu para o ataque contra seus antigos aliados argentinos, derrotando- os na batalha de Guayabos, em janeiro de 1815. Em Buenos Aires, ele foi declarado "traidor, inimigo da pátria, o Átila dos pampas" - e sua cabeça, colocada a prêmio.
Mais uma vez, Portugal e o Brasil foram gentilmente convidados a invadir o Uruguai - e aceitaram a oferta. Agora, eram os próprios republicanos argentinos que recorriam ao vizinho monarquista contra Artigas. A segunda invasão brasileira foi ainda maior: 5 mil soldados de elite vindos direto de Portugal sob o comando do general Carlos Frederico Lecor. Durante cinco anos, Artigas foi perseguido pelos argentinos e pelas tropas portuguesas. Em represália, ele chegou a invadir o Rio Grande do Sul com 3 mil homens, ocupando a região de Missões e cidades na fronteira sudoeste - mas logo teve de bater em retirada. Em meio a fugas e escaramuças sem fim, deixou um esboço de Constituição ao estado que sonhou criar: pregava a liberdade religiosa, o fim da escravidão e a distribuição de terras entre os indígenas.
Derrota após derrota, don José conseguia escapar, galopando pelos campos - e juntava novos exércitos espontâneos aonde quer que fosse. Ao general Lecor, Artigas enviou uma mensagem com uma de suas frases célebres: "Quando não tiver mais homens, vou juntar os cães selvagens do campo para combatê-lo". Cenas como a narrada no início desta reportagem se repetiram até 1821. Foi só então que, após mais de dez anos de guerra, o Grande Cacique exilou-se no Paraguai.
Depois da derrota de Artigas, o Uruguai foi anexado aos domínios portugueses sob o nome de Província Cisplatina. A ocupação só acabou cinco anos depois, em uma rebelião liderada por Manuel Oribe e Juan Antonio Lavalleja - ambos, ex-seguidores de Artigas. Mas mesmo após a liberação do Uruguai, o antigo mestre dos paisanos não quis retornar à terra natal - por motivos até hoje obscuros. Passou suas últimas três décadas em uma quinta no interior do Paraguai, cuidando de sua horta. Os índios das redondezas o chamavam de Karay Guazú, "o grande Senhor", e Oberavá Karay, "o senhor que resplandece". Aos 86 anos, no leito de morte, deixou à posteridade suas últimas palavras. Não eram um ideário político, nem um epigrama contra seus muitos inimigos. O velho gaucho, não querendo morrer deitado, exclamou: "Meu cavalo! Me tragam meu cavalo!" Mas o cavalo não veio.
Uma história contada por batalhas sem fim
1776
Origem do Vice-Reino do Prata, parte do império colonial espanhol que incluía o que hoje é Argentina, Uruguai, Bolívia, Paraguai, fatias do Rio Grande do Sul, Chile e do Peru. Antes, os territórios integravam o Vice-Reino do Peru, criado no século 16.
1808
Napoleão Bonaparte depõe Carlos IV, rei da Espanha, e coloca seu irmão, José Bonaparte, no trono.
1809-1810
A queda da coroa espanhola deflagra lutas pela independência na América do Sul. É criada uma junta revolucionária em Buenos Aires, que declara independência, pondo fim ao Vice-Reino do Prata. O governo de Montevidéu apoia a monarquia.
1811
Artigas se une à revolução e começa a guerra contra os monarquistas na Banda Oriental. Os defensores da coroa são derrotados na Batalha de Las Piedras. Artigas cerca Montevidéu. Do Brasil, D. João VI envia exércitos para salvar os domínios espanhóis - sua verdadeira intenção é anexar o Uruguai. Artigas e seus seguidores fogem para a província argentina de Entre-Rios.
1812
A Inglaterra pressiona Portugal para que se retire do Uruguai. Os ingleses querem a queda do domínio espanhol nas Américas, pois a Espanha impunha obstáculos ao livre-comércio. As tropas portuguesas se retiram, e Artigas volta à Banda Oriental.
1814-181
A cidade de Montevidéu é tomada pelos revolucionários. Artigas se opõe ao domínio argentino na Banda Oriental. Os portenhos declaram Artigas "inimigo da pátria".
1816-1822
Começa a segunda invasão luso-brasileira à Banda Oriental. Cinco mil soldados de elite vêm de Portugal. O novo conflito dura cinco anos. Derrotado, Artigas foge para o Paraguai, onde morrerá 30 anos depois. O Uruguai é ocupado pelos portugueses. Com a independência do Brasil, em 1822, torna-se uma província do Império.
1825
Manuel Oribe e Juan Antonio Lavalleja lideram uma rebelião contra o domínio brasileiro, e o Uruguai acaba se tornando um país independente.
Lampião e Maria Bonita: Amor e morte no cangaço

Em meio à violência e fugas da polícia, o romance entre Lampião e Maria Bonita marcou o fim do banditismo no sertão
Texto Rodrigo Cavalcante
Na edição de 13 de fevereiro de 1926, o recifense Jornal Pequeno publicou a notícia da emboscada armada pelo tenente Optato Gueiros dando fim ao cangaceiro Lampião entre os municípios de Custódia e Alagoa de Baixo, em Pernambuco: Lampião estava morto. À época, Virgulino Ferreira da Silva não era mais um bandoleiro famoso no rastro de outros como Antônio Silvino e Sinhô Pereira. Era capitão. Convidado por Padre Cícero no início daquele ano para combater a Coluna Prestes, de passagem no Ceará, ele recebera a patente militar de um funcionário público de Juazeiro - que, mais tarde, diria que diante dele e de seus cabras assinaria até a demissão do então presidente Arthur Bernardes. Sua folha de crimes era tão popular que o nome Lampião passou a ser usado até em propaganda de pílulas para aliviar prisão de ventre.
O alívio em torno da notícia de sua morte, contudo, durou pouco. Para a decepção dos leitores que confiaram na estatura da notícia do Jornal Pequeno, tratava-se de mais um anúncio falso de sua morte. Lampião não apenas reaparecera como propôs meses depois ao governador de Pernambuco a divisão do estado em dois, para que ele pudesse ser nomeado governador do Sertão. Até a sua morte (definitiva) por tropas alagoanas, em 1938, na Grota de Angico, em Sergipe, ele viveria longos 12 anos. Tempo suficiente para se apaixonar, viver e morrer ao lado da baiana Maria Gomes de Freire, a primeira mulher na história do cangaço. Quando retratos da mais tarde chamada Maria Bonita circularam pelos jornais de todo o país, o Brasil surpreendeu-se com suas velhas ideias do sertão. Numa época em que as teorias raciais eram levadas a sério e a "civilização litorânea" vivia sob ameaça das constantes revoltas das "sub-raças sertanejas", tal como descritas pelo engenheiro Euclides da Cunha em Os Sertões, a presença feminina de uma sertaneja altiva e vaidosa vivendo em harmonia com o cangaceiro mais famoso do país chocou o Brasil. Em meio à violência, crueza e aridez do cangaço, haveria espaço para algum sinal de beleza ou de uma real história do amor?
No sertão, as fronteiras do Nordeste são outras, aproximando os estados que parecem mais distantes de quem só conhece o litoral. A cidade baiana de Paulo Afonso, por exemplo, onde Maria Bonita nasceu, está mais próxima de cidades vizinhas de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Paraíba do que de Salvador, a mais de 460 km de distância. Daí que, quando o cerco em alguns dos sete estados por onde o bando de Lampião andava se fechava, ele se movia por essas fronteiras com suporte de uma rede bem montada (e remunerada) de informantes, fazendeiros e pequenos proprietários dispostos a lhe dar refúgio - os chamados coiteiros. Foi de passagem pela propriedade dos coiteiros Zé Filipe e Dona Deia, no povoado de Malhada da Caiçara, em Paulo Afonso, que Lampião se engraçou no final de 1929 por Maria "da Deia", filha do casal de 18 anos que estava de volta à casa dos pais após mais uma briga com o marido, o sapateiro Zé Nenê. A aproximação de Lampião foi forjada por meio de uma "encomenda": segundo os parentes de Maria Bonita, Lampião solicitou que ela e suas irmãs bordassem as iniciais "CV" (Capitão Virgulino) em quinze lenços de seda, com a promessa de que em menos de um mês voltaria para buscá-los. "Minha família conta que ele demorou bem mais do que o prometido, mas, quando voltou, teve início o namoro com minha avó", diz Vera Ferreira, historiadora e neta de Lampião e Maria Bonita que vive hoje na cidade de Aracaju, em Sergipe, coautora do livro Bonita Maria do Capitão, uma coletânea de relatos e imagens da avó. Ela conta que somente após seus bisavós decidirem mudar para Alagoas após serem perseguidos por dar guarida a Lampião, que Maria Bonita tomou a decisão de ingressar no cangaço.
A decisão não tinha precedentes. Na secular história do cangaço, a regra era clara: a presença de mulher destruiria o bando, seja por razões práticas seja por outras de fundo místico. Entre as de ordem prática, estavam o atraso que elas causariam nos momentos de fuga e a facilidade com que entregariam os companheiros caso fossem pegas pelos macacos (como eram pejorativamente chamados os volantes policiais).
Além disso, a presença de mulheres em meio a cabras armados era uma ameaça constante de conflitos em casos de ciúme e traição. Quanto ao motivo místico em torno da presença da mulher, estava a crença de que elas abriam "o corpo fechado" do cangaceiro. "Homem de batalha não pode andar com mulher. Se ele tem uma relação, perde a oração, e seu corpo fica como uma melancia, qualquer bala atravessa", já dizia o cangaceiro Balão em depoimento transcrito no livro Guerreiros do Sol, do historiador Frederico Pernambucano de Mello.
Sinhô Pereira, cangaceiro lendário que havia chefiado Lampião, se disse surpreso com a novidade: "Fiquei muito admirado quando soube que Lampião havia consentido que as mulheres ingressassem no cangaço. Eu nunca permiti. Nem permitiria". Ou seja: mais do que a decisão de Maria Bonita, foi a permissão de Lampião do ingresso da baiana no grupo que mudou o cotidiano do cangaço. "Com a entrada de Maria para o bando, os outros cabras puderam juntar suas mulheres ao grupo", diz a historiadora Isabel Lustosa, autora de De Olho em Lampião.
Violência menor
Algumas garotas juntaram-se aos cangaceiros por vontade própria. Outras, como Dadá, companheira de Corisco, foram raptadas e terminaram se adaptando. Desde então, estima-se que mais de 40 mulheres tenham ingressado naquela vida. Mas o que de fato mudou no cangaço e no comportamento do próprio Lampião com a presença das mulheres?
De acordo com o relato dos cangaceiros e historiadores, a presença de Maria Bonita e de outras mulheres deu início a uma fase menos violenta do bando de Lampião, cujas ações passaram a ser mais seletivas e centradas na coleta de dinheiro (os resgates como garantia de que não tomariam de assalto uma cidade ou propriedade). Além de ações mais estratégicas, semelhantes às de organizações mafiosas, há relatos de que Maria Bonita intercedeu mais de uma vez pela vida de pessoas capturadas pelo bando. "Lampião costumava atender seus pedidos de clemência e, de resto, tanto pela idade dos cangaceiros quanto pelo ambiente doméstico que as mulheres trouxeram para os acampamentos, houve uma redução da violência de suas ações", diz Isabel Lustosa. "A presença de Maria Bonita e outras mulheres inibiu os casos de estupros", diz João de Sousa Lima, pesquisador da vida de Maria Bonita. "Até porque os relatos daqueles que conviveram com o bando são unânimes quanto ao respeito que a presença dela inspirava no grupo."
Como mulher do rei do cangaço, o respeito incluía o direito a uma espécie de guarda e secretário particular, conhecido por Sabonete. "Polia-lhe as joias, ocupava-se dos seus recados, de suas finanças, farmácia, armas e tudo mais da esfera pessoal, desfrutando nessa curiosa função de mordomo das caatingas do agrado de sua rainha e do capitão, seu rei", diz Pernambucano de Mello.
Mimos excessivos
Talvez, por isso, a cangaceira Dadá, parceira de Corisco, tenha descrito Maria Bonita como alguém de mimos excessivos para quem vivia no sertão. O cangaceiro José Alves de Barros, vulgo Vinte e Cinco, que conviveu com o casal, daria outro testemunho sobre ela: "Parecia uma menina grande. Ela era brincalhona, uma moleca e conquistava todo o mundo".
A presença das mulheres exigiu a criação de novas regras para definir o papel delas no bando. Mesmo não participando diretamente nos combates, tinham que aprender a atirar para se defender. "Em geral, elas portavam revólveres de calibre 28 e 32 e pequenos punhais para proteção", diz Germana Gonçalves de Araújo, coautora do livro Bonita Maria do Capitão. Além disso, nenhuma mulher podia entrar no bando sem já estar atrelada a um cangaceiro. Casos de traição costumavam ser punidos com execução, e há relatos até de viúvas que, não conseguindo mais se unir a outro cangaceiro, foram executadas para não se tornarem um fardo para o grupo ou presas fáceis da polícia. As crianças que nascessem no cangaço tampouco poderiam permanecer no bando, tendo que ser entregues para outras famílias.
Foi o caso de Expedita Ferreira, a filha de Lampião e Maria Bonita, que nasceu em 13 de setembro de 1932 debaixo de um pé de umbu numa fazenda em Porto da Folha, Sergipe, estado em que ainda reside prestes a completar 81 anos de idade. Entregue ao casal de vaqueiros Aurora e Severo Mamede, com quem foi criada até os 8 anos como uma das 11 filhas do casal, Expedita recebia sempre que possível a visita dos pais famosos. "Os encontros com minha mãe se davam na fazenda, e ao menos em uma ocasião no meio da caatinga", diz Vera Ferreira, neta dos cangaceiros. "Num desses encontros, minha mãe conta que foi a fisionomia do pai que mais lhe marcara." Ainda que não se metessem diretamente nas ações, as mulheres não estavam imunes aos combates. Três anos após o nascimento de Expedita, Maria Bonita foi baleada pelas costas após um ataque comandado por Lampião na Vila Serrinha do Catimbau, próxima da cidade de Garanhuns, em Pernambuco. Alvo fácil da artilharia por estar usando vestido branco, ela teve que ser levada às pressas para um local de difícil acesso na caatinga para ser tratada pelo grupo.
No mesmo ano, o estouro de revoltas militares no Rio de Janeiro e em Natal fez com que o governo de Getúlio Vargas endurecesse a repressão não apenas contra comunistas e integralistas, como a qualquer
Além disso, após uma série de acordos entre os governadores do Nordeste, as polícias estaduais ganharam passe livre para cruzar fronteiras, e armamentos pesados começaram a ser enviados para o combate aos cangaceiros, incluindo modernas metralhadoras jamais vistas por aqueles lados. Talvez por consciência disso, dali em diante o ritmo de ações do bando diminuiria. O próprio ímpeto de Lampião, beirando os 40 anos de idade, parecia arrefecido. "Na fase final de suas tropelias, entre os anos de 1936 e 1938, Lampião mostrava-se bem mudado", afirma Frederico Pernambucano de Mello em seu livro Guerreiros do Sol. De acordo com o historiador, ele trocou as constantes movimentações pelo sertão por uma vida mais sedentária e confortável em refúgios em Sergipe, "onde sua agressividade diluía-se nos braços de Maria Bonita, a quem amou profundamente, dedicando-lhe sempre calorosas palavras de elogio".
"O cego morreu"
Relatos dos cangaceiros confirmam que o casal tinha o que se pode chamar de uma convivência harmoniosa. "Nunca ouvi reclamarem. Eles se acostumavam. Nem faziam futuro, nem pensavam em morrer, porque eles sabiam que a qualquer momento podia acontecer, daí o que viesse estava bom", disse em 2009, em depoimento, o cangaceiro Vinte e Cinco. De acordo com ele, esse clima quase romântico, de foras da lei enfrentando seu destino sem muita preocupação, se estendia ao resto do grupo. "Chegasse o momento em que podíamos dançar, nós dançávamos; na hora de correr, nós corríamos; na hora de brigar, brigávamos; e a gente queria terminar aquele negócio logo, era matar ou morrer."
A morte viria de barco pelo Rio São Francisco no raiar do dia 28 de julho de 1938, na Grota de Angico, em Sergipe, no trecho do rio que faz divisa com o Estado de Alagoas. Foi da vizinha cidade alagoana de Piranhas, na outra margem, que partiria na véspera o tenente João Bezerra da Silva, acompanhado de 45 homens e três metralhadoras, com a determinação de exterminar o bando mais famoso do país.
Após prenderem o coiteiro Pedro Cândido, que apontou o lugar do esconderijo de Lampião, as forças policiais atravessaram o rio em direção ao acampamento, cercado de vegetação espinhenta - o local hoje faz parte da trilha do cangaço, um dos passeios oferecidos aos turistas que partem do litoral de Alagoas ou Sergipe em direção aos belos cânions do Rio São Francisco. Por ser um refúgio com uma única saída, o esconderijo era visto com maus olhos por quase todos os outros cangaceiros. Corisco, por exemplo, já tinha alertado Lampião de que considerava o local uma "cova de defunto". O líder do bando, no entanto, ignorou todos os conselhos e resolveu pernoitar ali.
Antes do nascer do sol, os volantes se dividiram em quatro grupos para cercar o acampamento. Assim que o dia começou a clarear e os primeiros cangaceiros saíram de suas tendas, o fogo abriu. Apesar dos 20 minutos de tiros e rajadas de metralhadoras, somente onze cangaceiros morreram. Outros 40 conseguiram escapar. Quando um dos volantes confirmou que "o cego também morreu", em referência à Lampião (que usava óculos sem grau para disfarçar um ferimento em um olho), e que Maria Bonita havia caído com ele, o tenente Bezerra sabia que entraria para a história. Para encerrar o episódio, faltava apenas um último ritual: decepar as cabeças para provar que, dessa vez, não se tratava de uma notícia falsa como a de 12 anos antes. De acordo com exames de medicina legal realizados pelo Instituto Nina Rodrigues, em Salvador, Maria Bonita estava viva quando teve a cabeça decepada.
Após a exposição macabra percorrer várias cidades do Nordeste, as cabeças embalsamadas foram levadas ao Instituto Nina Rodrigues, onde ficariam até 1962 - quando parentes dos cangaceiros exigiram o sepultamento delas. Com o fim do bando, o cangaço estava com os dias contados. Seu capítulo final deu-se com a morte de Corisco, que tentou suceder Lampião. Ele foi morto em uma emboscada em 1940, quando estava prestes a se entregar após Vargas promulgar lei concedendo anistia aos cangaceiros que se rendessem.
Um ano após a morte de Lampião, o mundo entraria na Segunda Guerra. Dali em diante, as teorias de inferioridade racial cairiam em desgraça, o Brasil se industrializaria e as histórias de Lampião e Maria Bonita influenciariam a cultura na música, no cinema e na moda - Maria Bonita é hoje nome de grife em desfiles concorridos do país. O que parece não ter mudado mesmo é a situação dos sertanejos em tempo de seca: no início deste ano, a estiagem deixou cerca de mil cidades em estado de emergência.
O homem que capturou Lampião em imagens
Se o governo de Getúlio Vargas já estava desmoralizado por não conseguir prender Lampião e seu bando, ficou ainda mais quando o libanês Benjamim Abrahão conseguiu capturar imagens do cotidiano de Virgulino, Maria Bonita e seu grupo entre março e outubro de 1936.
Benjamim trabalhou como mascate no Nordeste após chegar ao Brasil fugindo da Primeira Guerra, em 1915. Mais tarde, foi descoberto pelo Padre Cícero em Juazeiro e se tornou seu secretário particular. Ao lado do padre, conheceu Lampião em 1926, ocasião em que o cangaceiro foi convidado a comandar o combate à Coluna Prestes, que estava no Ceará.
Após a morte do beato, Benjamim deu início ao projeto de filmar Lampião, com apoio do cearense Ademar Bezerra de Albuquerque, dono da empresa de fotografia e material fotográfico Abafilm. Ele não tinha dúvidas de que a fama do cangaceiro encheria salas de cinema em todo o país. Mesmo conseguindo a autorização de Lampião para filmá-lo na caatinga, o libanês nunca teve a recompensa merecida. O material da filmagem foi apreendido pelo Departamento de Imprensa e Propaganda do governo Vargas e, em 1938, dois meses antes da morte de Lampião e Maria Bonita, Benjamim foi esfaqueado em Serra Talhada, terra natal do cangaceiro, em circunstâncias não esclarecidas. Trechos do filme foram recuperados e fazem parte do acervo da Cinemateca Brasileira.
Cangaço fashionista
Lampião e seu bando abusavam de acessórios e bordados coloridos
1. Chapéu
Feito de couro com a aba da frente levantada. Enfeitado com moedas e com medalhas de ouro que continham inscrições como saudade, amor ou recordação
2. Estrelas
O signo de Salomão (estrela de oito pontas) era comum nos chapéus, pois acreditava-se que protegiam contra o mau-olhado.
3. Bandoleira
Faixa de couro firme usada para prender a arma na vertical. Adornada com moedas e ilhoses. Para Lampião, usar a arma nas costas na diagonal seria como "botar nas costas o pau da cruz e chamar a morte".
4. Cantil
Coberto com uma capa de brim, rico em bordados coloridos. Eram feitos de estanho ou alumínio ou até de cabaça. Junto, uma caneca cheia de folhas, para evitar barulho.
5. Bornal ou embornal
Bolsas laterais de tecido resistente usadas para o armazenamento de provisões, desde munição até roupas e alimentos. Era um dos acessórios mais coloridos e o mais pesado.
6. Jabiraca
Para secar o suor, usavam um lenço de seda preso no pescoço por uma sequência de anéis, o cartucho. Servia também como coador.
7. Chapéu
Chapéu de couro era coisa de homem. As mulheres usavam de feltro, de aba média, com testeira e barbela. A única semelhança era o gosto pelos enfeites.
8. Cabelo
Maria Bonita apareceu em fotos com o cabelo à la garçonne, tendência que surgiu no fim da década de 20. Os broches eram parte do visual
9. Luvas
Várias camadas de brim costuradas. A função era proteger a mão de galhos e espinhos deixando os dedos livres. As de Maria Bonita eram feitas de algodão e traziam bordadas no pulso as iniciais M.O.S. (Maria Oliveira da Silva).
10. Cartucheira
Servia para carregar pentes de munição e pistolas de maneira anatômica. Somando todos os acessórios, o cangaceiro podia carregar 40 kg. As mulheres levavam menos carga que os homens.
11. Perneiras
Como as cangaceiras usavam saias até o joelho, era necessário o uso de meias elásticas e perneiras de couro ou de tecido grosso.
12. Bordados
Feitos de linhas com cores fortes, podiam ser flores, ziguezagues ou cruzes e enfeitavam todos os acessórios.

