
“Não se tratava decerto, indo à África, apenas de obrar boas cousas conforme as Escrituras. Não era um impulso religioso o que mais movia as energias para as novas conquistas, e o ganho de almas para o Cristo, e a transformação das mesquitas, virgem de imagens, em templos e catedrais católicos, era puro engodo com que se disfarçava aos olhos do povo a ambição de pecúnia das classes dirigentes da nação” relata em suas crônicas o Príncipe D. João.
Desde daí a Igreja Católica constrói um discursso de legitimação desta escravização baseado na mitologia hebraica, com a passagem do Antigo Testamento onde Noé expulsa e amaldiçoa seu filho Can após o dilúvio, e este será, segundo a Bíblia, o responsável pelo povoamento da região que abrange parte do Oriente Médio e da África. Portanto, segundo a Igreja Católica, a escravização dos povos africanos era mais que justa e fundamentada na mitologia do Velho Testamento.
O Vaticano em 1454 edita a bula papal: Romanus Pontifex assinada pelo Papa Nicolau V que enumera entre os benefícios e títulos de glória de Portugal na África está o envio de negros apresados para os reinos, e estabelece o seguinte: “Muitos desses negros trazidos a Portugal, trocados por outro gênero de compra haviam recebido o batismo, sendo, portanto, de esperar, da continuação do tráfico à conversão de todos aqueles povos a fé cristã”. Este fragmento da bula papal resumiu o pensamento da Igreja Católica perante o eito dos africanos por séculos.
Os negros eram negociados em portos específicos da África, sendo uma das atividades mais rentáveis para a empresa mercantilista na época. Enfrentavam de três a quatro meses de viagem dentro de navios feitos especificamente para este fim e que eram conhecidos como Tumbeiros. As taxas de mortalidade dentro destas embarcações eram altíssimas, chegando a 1/3 dos negros que não conseguiam completar o martírio e desembarcar em território brasileiro.
Nos Tumbeiros os negros eram embarcados de maneira que as centenas de etnias existentes se misturassem, impossibilitando a comunicação entre elas. Eram Mandingas, Felupos, Cabindas, Gêjes, Fulas, Congos, Bundas, Bantos, Libolos, Caçanjes e tantas outros grupos étnicos; amontoados nos porões dos navios sem as mínimas condições de higiene, com alimentação precária e a mercê da própria sorte para completarem essa jornada desumana. Os que não suportavam o desgaste da viagem e morriam eram jogados ao mar, mesmo com uma taxa altíssima de mortalidade dentro dos tumbeiros a empresa mercantilista do tráfico humano, mesmo assim, era bastante rentável.
Ao completar a trágica viagem os negros eram desembarcados em três principais portos do Brasil, que eram a porta de entrada nestas paragens; eram eles: o porto do Recife, o do Rio de Janeiro e o da cidade de Salvador. Daí eram alojados em barracões para serem inspecionados pelos seus futuros proprietários, eram divididos entre homens, mulheres e crianças. Para só então partirem rumo às propriedades dos seus senhores.
Em território brasileiro os negros foram utilizados nas lavouras de cana-de-açúcar, em trabalhos dentro das casas-grandes e também nas cidades, nos primeiros núcleos urbanos que se desenvolviam no território conquistado. Estes povos africanos que viviam nas cidades, alguns eram mestres de ofícios (ferreiros, pedreiros,...) e outros trabalhavam comerciando frutas, verduras, e outros artigos; eles eram conhecidos como escravos de ganho, geralmente mulheres ou negros que já não suportavam a jornada desumana de trabalho nas lavouras canavieiras.
Os negros vivendo em condições subumanas dentro dessas gigantescas fazendas, eram tratados como animais e mercadorias, chegavam com uma expectativa de vida de, mais ou menos, 15 anos devido às péssimas condições de alojamento e alimentação, as jornadas diuturnas de trabalho e aos castigos submetidos nos engenhos, tudo isso com a benção da Igreja Católica Apostólica Romana e que também possuía escravos em seus domínios.
O Brasil foi o último país na América a abolir a escravidão e sofrerá por muito tempo às seqüelas dessa barbárie cometida a população indígena e africana. Sendo o país com a segunda maior população negra, ficando atrás apenas da Nigéria, esse segmento da sociedade é o que mais sofre com o processo histórico de nossa formação.
As relações sociais estabelecidas no Brasil se fundamentaram no cruel e desumano instrumento da escravidão. Sem o modo de produção escravista, o mercantilismo e o povoamento do “Novo Mundo” seriam inviáveis; haja vista os problemas enfrentados por diversos países europeus no início do século XVI. A escravidão vai deixar marcas profundas na história destes povos e é responsável pelo modo como ainda hoje os negros e os índios são vistos e tratados perante o Estado brasileiro e a sociedade em geral.
Com a abolição da escravidão no Brasil, em 1888, este segmento importante da sociedade brasileira vai ser jogado, novamente, à margem da sociedade. Uma vez que não terão mais espaço tanto na lavoura cafeeira como nas plantações de cana de açúcar. Com o advento da abolição o que vai se verificar é a intensificação do projeto, iniciado com o governo imperial, de incentivo a imigração européia, colocada em prática no início do século XIX. O objetivo principal da imigração européia era o branqueamento da população brasileira.
A política de branqueamento veio dar base pseudo-científica as teorias então vigentes que subestimavam os povos africanos afirmando que estes eram inferiores pela cor de sua pele. Esta política baseia-se na ideologia, então fortemente propagada, pelos teóricos da antropologia do século XIX e parte do século XX. Afirmavam os teóricos que a ‘raça’ branca era superior aos povos negros. Com isto incutiu na população brasileira o mito da raça superior intensificando o preconceito e o racismo aos povos negros.
Os povos negros não terão mais lugar no espaço rural e o que vai se verificar é um êxodo para as cidades, que não irão absorver esta mão de obra excedente. É o início da favelização do espaço urbano brasileiro.


