25.8.20

História do Contestado – Livro

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Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Parte VI

Parte VII

Fotos Históricas


Parte I A Guerra

Os anos de 1912 a 1915 marcam a História de Santa Catarina com uma convulsão social armada que escreveu páginas de horror e de ódio no Vale do Iguaçu, ao Norte; pelo Planalto de Lages, no Centro-Sul; e nas terras de todo o Meio-Oeste.

As bases do conflito sangrento se estruturaram ao redor de uma legião de fanáticos religiosos composta por agregados das fazendas dos coronéis; por ex-operários demitidos ao terminar a construção de uma estrada de ferro; por “sem-terra”, ex-posseiros varridos dos seus lotes; por ervateiros sem erva para colher; por dezenas de pequenos proprietários expulsos de seus pinheirais; e por gente que perdeu seu pequeno negócio.

Toda essa gente cabocla, fora das leis da economia agropastoril, vive na região do Contestado, uma “terra de ninguém”, marcada pela persistência de uma velha rixa de 150 anos entre o Paraná e Santa Catarina, com a autoridade discutindo se os limites geográficos devem ou não ser molhados pela margem esquerda dos rios Negro e Iguaçu.
Dilemas de um confronto armado

Conflito social, revolução, banditismo


Nos primeiros anos deste século, o Vale do Iguaçu, o Planalto de Lages e o território do Meio-Oeste de Santa Catarina são atingidos por uma convulsão social armada que aniquila a convivência entre os diferentes grupos humanos e desmonta a vida econômica de toda a região.

As bases do conflito se estruturam ao redor de uma legião de agregados nas fazendas dos coronéis; de ex-operários demitidos da construção de uma estrada de ferro; de posseiros varridos do lote que ocupam; de ervateiros sem erva para colher; de pequenos proprietários que perderam seus pinheirais. E de toda a espécie de gente fora-da-lei porque vive nas terras contestadas pela velha rixa de 150 anos entre o Paraná e Santa Catarina, por conta dos limites geográficos.

Todos esses miseráveis, filhos de Caim, encontram esperanças e abrigo nas prédicas e nos remédios que o andarilho José Maria vai distribuindo pelas veredas empoeiradas de todo o Contestado.

Um dia, o andarilho, transformado em monge, e um grupo de devotos resolvem acampar no cantão de uma fazenda cedida pelo proprietário, entre Curitibanos e Campos Novos.

A incômoda presença dessa pequena legião de excluídos socialmente é tomada como o início de um possível conflito social e coloca em sobressalto as autoridades de Florianópolis, de Curitiba e do Rio de Janeiro. Curitiba conclui que o acampamento é uma estratégia de Santa Catarina para garantir a posse de um território que não lhe pertence.

O Exército Nacional, por sua vez, se apavora diante da perspectiva do surgimento de um Canudos aqui no Sul. E Florianópolis teme um enfrentamento entre os coronéis e os caboclos.

A tática de dissolver a organização da miséria pela força das metralhadoras e das balas do canhão transforma o presumido conflito social e político numa revolução entre as Forças Armadas e o povo. E descamba na lógica de um banditismo descontrolado, uma guerra de guerrilhas que ainda não foi devidamente bem-contada.

Resistindo a facão

Depoimento de João Maria Palhano, filho de jagunço, “gente valente”.

“A guerra quase nos matou de tanta fome. Não fosse a caça e o gado encontrado nas propriedades ninguém tinha resistido.

Do jeito que os mais velhos contaram, aqui em Taquaruçu tinha um acampamento igual aos dos colonos sem-terra que andam por aí ocupando fazendas. Era gente chegando de todas as partes.

As forças do Exército queimaram tudo – a igreja, as casas, o armazém. Foi tudo pelos ares. Não ficou quase nada. Dentro da capelinha tinha uns parentes nossos. Eles arderam no fogo. Também tive uns tios que morreram no combate do Irani.

Se meu pai não se escondesse no mato, todos nós teríamos sido fuzilados pelos soldados. Eles não poupavam ninguém. Morreu gente barbaridade. Até bucha de canhão encontramos lá no local do reduto. Dentro tinha 157 bolas de chumbo. Cada bola que só vendo. Onde estourava aquilo, Nossa Senhora. Imagina o estrago que fazia. E os caboclos resistindo a facão. Como é que pode?”

Apresentação

A extensa região de Santa Catarina, serra acima e planalto afora, entre os rios do Peixe e o Peperiguaçu, continua praticamente despovoada até começos do século XX. Fazendas e pastagens são disputadas pelo gado, pelo agregado – o trabalhador que cuida das pastagens. Mas também pelo coronel, dono das terras, das pastagens e do agregado.

Terras sem Deus, sem lei e sem rei – apesar de muitos coronéis -, nos anos 10 deste século, incendeiam a paisagem e todos os homens do lugar, com a revolta armada de uma legião de excluídos.


Desde o começo da década a região é percorrida pelo andarilho José Maria. Ele distribui remédios, prega as verdades do Evangelho e prevê o fim do mundo para quem não se dedicar a Deus. Centenas de devotos grudam-se nos passos e nos sermões do andarilho transformado em monge.

O monge e o grupo de fanáticos e seguidores instalam-se no quadro santo de Taquaruçu, município de Curitibanos. As autoridades se assustam com a reunião de tantos pequenos fazendeiros e peões e com o estranho comportamento do monge, que exige deles uma disciplina de convento e de quartel. José Maria e os fiéis seguidores cruzam o Rio do Peixe e se transferem para o Irani, nas terras que o Paraná afirma serem parte do seu território. As autoridades policiais e militares insistem que o grupo se desfaça. A reação é ostensiva e explode o enfrentamento armado.

Durante quatro anos o Exército Encantado de São Sebastião reage, derrota, mata e morre. Em desespero, o Exército e a Polícia Militar de Santa Catarina e do Paraná aplicam o princípio da terra arrasada e da solução final, inclusive com a utilização de aviões.

A Guerra do Contestado acabou como termina a noite: sem tratados, sem acordos, sem ata de rendição, sem vitória e sem glórias. O soldado regressa ao quartel. O revoltoso – sobrevivente aniquilado – ainda hoje se espalha pelas terras que lhe haviam custado quase todo o sangue.

A Guerra do Contestado será apresentada pelo Diário Catarinense em 12 cadernos, veiculados sempre na última sexta-feira de cada mês, em 10 capítulos intitulados: I – Povoamento nos limites; II – Terras confrontadas; III – Caminhos da miséria; IV – Monges e devotos; V – Estopins e labaredas; VI – Irani: incêndio mal-apagado; VII – Taquaruçu: o facho do incêndio; VIII – Caragoatá. Jagunços guerrilheiros; IX – Planalto Norte na violência – desespero; X – Uma guerra sem-fim.
A guerra inútil

Depoimento de João Paes de Andrade, o João Ventura.

“Eu falo a verdade sobre a Guerra do Contestado porque estive lá. Com os meus olhos avistei o povo, as lutas. Presenciei a organização dos redutos, onde os devotos do monge se abrigavam para uma espécie de vida em comunidade, obedecendo a uma disciplina misto de quartel e de convento. Bati tambor, puxei cânticos, ouvi rezas.

Passei a vida contando esta história para meus filhos e meus netos. Espero que eles passem os fatos adiante para que os seus descendentes conheçam a história da nossa gente.

A luta não valeu os sacrifícios. Não prestou para nenhum dos dois lados. Foi um banditismo. O governo com aquelas armas de fogo. Os caboclos com paus e facões. Algumas vezes se conseguia armas de fogo. E, aí, os estragos não respeitavam ninguém.

Meu pai era um homem rico. Foi morto numa tocaia. Mesmo depois de tudo passado, ficava a raiva entre as pessoas. Eu, pelo menos, não consigo esquecer. O fim da guerra não acabou com o ódio entre as pessoas. Muita gente ficou do lado dos caboclos. Mas muitos outros ficaram com o governo.

Nossa família perdeu tudo o que tinha. Meu irmão foi capitão a favor dos jagunços. Ele chamava-se Guilherme. Era um homem valente.

Tudo não adiantou nada.
Dúvidas e incerteza

De uma crônica do Jornal do Comércio, de Curitiba, 5 novembro, 1864.

“Muitos paulistas empreendedores, depois de insano fatigante trabalho, depois de repetidas tentativas, descobriram afinal os Campos de Palmas, que lhes aumentaram as posses.

Quais Colombos em miniatura hastearam no solo virgem das pegadas da civilização o estandarte da conquista feita aos selvagens.

Estabelecido o direito de propriedade, dividiram proporcionalmente o achado e entraram na posse das novas terras.

Não edificaram por lá ‘novo império que tanto sublimaram’, mas construíram palhoças que são hoje, se não sublimes, pelo menos importantes fazendas de criação de gado.

Com o suceder dos anos, as posses foram transferidas a outros, divididas e subdivididas. E os campos povoaram-se com rapidez.

Se para a descoberta dos Campos de Palmas só concorreram os paulistas, a que província deverão eles ficar pertencendo, especialmente não existindo limites?

O bom senso responde. Os habitantes ali domiciliados ficaram sujeitos às autoridades de São Paulo e, a partir de 1853, às do Paraná.

A presunção de direito, proveniente da posse sobre as terras de Palmas, tem que ser respeitada, porquanto, o que existe são dúvidas e incertezas sobre os verdadeiros, os justos e os convenientes limites, ainda não firmados.”
O Estado-Ilha

Parte de um discurso pronunciado na Assembléia Legislativa Provincial de Santa Catarina, na sessão de 10 de março de 1880, pelo deputado Eliseu Guilherme da Silva.

“O assunto principal, cada vez mais importante, cada vez mais vital e inadiável, porque o adiamento importa em longos anos de atraso e de miséria para a nossa pobre terra, prende de há muito a atenção desta província, clamando por uma solução. Trata-se de uma questão clamorosa e que brada aos céus pela injustiça altamente revoltante que encerra contra nós. É a velha questão de limites com a Província do Paraná. É essa espoliação, é essa tentativa de esbulho do nosso território, atentado inaudito, que fez um representante do Paraná, juntando o escárnio à afronta, exclamar em plena Câmara dos Deputados: “A Província de Santa Catarina seria muito feliz se o seu território se limitasse ao Desterro”. Esta proposição demonstra até que ponto levam os paranaenses as suas pretensões de absorção. Eles julgam-nos tão miseráveis, ou tão desprotegidos que entendem que seremos muito felizes se o nosso território se limitar somente à Ilha onde está localizada a Capital.

Realmente, esbulhada a Província de Santa Catarina do seu centro em favor do Paraná, ela será muito feliz se a limitarem só ao Desterro. Figurai-vos, porém, a província circunscrita a esta Capital ou pouco mais, depois da absorção, e vede se ela poderá continuar a ocupar a categoria de província, se terá recursos para isso, se não terá de desaparecer. Aquele deputado, pois, concluiu muito bem dizendo que seremos muito felizes se, após a absorção do centro pelo Paraná, ficar a província reduzida somente ao território da Capital, será ela muito feliz se de todo não desaparecer.

Ante tão terrível ameaça não podemos cruzar os braços; trata-se de defesa própria, trata-se de manter o império da lei. É a lei, e principalmente a lei fundamental do Estado, a Constituição do Império, que garante à Província de Santa Catarina a integridade de seu exígüo território, como já o demonstrou brilhante numa importante série de artigos, que correm impressos, o nosso distinto colega doutor Mafra.

Cumpro, pois, um dever vindo a esta tribuna, para tratar de tão grave assunto, reclamar o cumprimento da lei em prol de nossa desditosa província, que se fosse grande e poderosa, se ela se impusesse, como suas vizinhas, não se veria tão menosprezada, nem sob o terrível vaticínio, a que há pouco me referi, do deputado paranaense. Infelizmente parece uma verdade que, até com relação às províncias, a lei deixa de ser igual em seus efeitos quando se trata de grandes e pequenas.”
A clareza das confusões

Felipe Schmidt assume o governo do Estado em 28 de setembro de 1898 disposto a encontrar uma definitiva solução para o eterno problema dos limites com o Paraná.

Como primeira medida, o novo chefe do Poder Executivo autoriza a Procuradoria-Geral do Estado a contratar o advogado Manoel da Silva Mafra para dar entrada no Supremo, com uma ação de reivindicação, obrigando o Paraná a afastar-se do território em litígio.

Na segunda mensagem de governo ao Congresso Representativo, em 11 de agosto de 1900, Felipe Schmidt informa: “O Paraná não tem toda a necessária calma para aguardar a solução legal à questão. Autoridades invadem o nosso Estado; concedem terras; assaltam uma fábrica de rótulos em Papanduva; criam agência fiscal na Estrada Dona Francisca.”

Em 6 de janeiro de 1901, Manoel da Silva Mafra entra no Supremo Tribunal Federal com a ação reivindicatória na qual o jurista comprova a clareza dos títulos legais com que Santa Catarina confirma seus limites, pelos três rios, desde os tempos da Colônia. E demonstra a confusão em que anda metido o vizinho, com respeito aos seus limites, que nunca foram caracterizados concretamente: ora é um rio; ora, outro; às vezes, uma serra; outras vezes, uma outra.

Para o conselheiro Mafra, às terras que o Paraná exige não se aplica o direito de propriedade pela posse mansa e pacífica. A posse, pela força, dos territórios em litígio, sempre fora contestada por Santa Catarina.

Pelo Acórdão de 6 de junho de 1904, o Tribunal entendeu ser competente para tomar conhecimento da questão porque os limites, desejados por Santa Catarina, foram estabelecidos, através dos tempos, por quem podia fazê-lo.

“O Tribunal resolve a questão nos termos em que foi proposta. Trata-se de fazer respeitar limites que sempre existiram e não determinar limites, ainda não amparados em lei. Os catarinenses se baseiam em títulos históricos e jurídicos. E o Estado tem a seu favor os marcos naturais abertos pelos rios Negro e Iguaçu, ao Norte, e o Uruguai, ao Sul.Assim sendo, este Tribunal julga procedente a ação de reivindicação de Santa Catarina e condena o réu nas custas.”

Com a decisão do Supremo, o Paraná permanece com um território de 221.139 quilômetros quadrados, e Santa Catarina, com 114.436. Se tivéssemos perdido a questão, aos catarinenses restaria um minguado território de 74.135 quilômetros quadrados, enquanto os 258.740 fartariam os paranaenses com todas as águas dos rios Negro e Iguaçu.
Povoamento nos limites

Uma perigosa linha reta

A Guerra do Contestado finca suas raízes, primeiras raízes, há mais de 500 anos. Antes, portanto, de o europeu branco e conquistador desembarcar nas ilhas do Caribe – Cristóvão Colombo – ou de Pedro Álvares Cabral molhar os pés no litoral sul da Bahia.

Essa raiz primeira foi adubada pelo acordo entre Portugal e Castela, atual Espanha, que resultou na existência, desconfortável para o Brasil, do célebre Meridiano de Tordesilhas.

Diz frei Vicente do Salvador, na primeira História do Brasil, escrita em 1622: “Grandes dúvidas e diferenças se começavam a mover sobre as conquistas das terras do Novo Mundo. E elas haviam de crescer cada dia mais se os reis católicos de Castela, dom Fernando e dona Isabel, sua mulher, e el-rei de Portugal, dom João II, que as iam conquistando, não assinassem um acordo que fizeram entre eles.”

O acordo entre as duas famílias reais, as mais poderosas do mundo à época, é a assinatura, em 7 de junho de 1494, do Tratado de Tordesilhas. Pelo documento, abençoado pelo Papa, “todas e quaisquer ilhas e terras firmes achadas e por achar, descobertas e por descobrir”, situadas a oeste de um meridiano que passasse a 2 mil quilômetros do Arquipélago de Cabo Verde, pertenceriam à Espanha. A decisão do papa Alexandre VI, dividindo o sul da Terra em duas fatias, uma para Portugal e outra para a Espanha, não apresenta como base jurídica o chamado direito de conquista ou de descobrimento, equivalente ao primeiro ocupante.

O que vale para o Acordo de Tordesilhas foi a assinatura de um tratado solene, entre dois países, sancionado pelo Sumo Pontífice que, então, perante as potências cristãs da Europa tinha para as mesmas a força e o prestígio de um direito, a que elas próprias se haviam sujeitado.

O fato de Portugal declarar como suas terras ainda não descobertas, ou não “achadas”, para respeitar a linguagem da época a milhares de quilômetros mar afora, comprova que em 1494 julgava-se mais do que possível a existência de algumas terras mais para a esquerda da linha de demarcação.

A existência comprovada dessa grande extensão de terra presumida teve-a dom João II através do primeiro parágrafo da carta de Pero Vaz de Caminha, escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral.

“Posto que o capitão-mor desta vossa frota e assim os outros capitães escrevam a vossa alteza a nova do achamento desta vossa terra nova que ora nesta navegação se achou, não deixarei também de dar disso minha conta a vossa alteza assim como eu melhor puder, ainda que para bem contar e falar o saiba pior que todos fazer”.

A bendita linha imaginária reduzia o atual território brasileiro às terras situadas a leste de uma reta que ligava Belém, ao norte, e Laguna, ao sul. Antes de existir legalmente, Santa Catarina reduzia-se a um apertado retângulo de terras, com menos de 10 mil quilômetros quadrados, com 300 quilômetros de comprimento e com 20 de largura. É muito pouca terra. Alguém será obrigado a ceder território, mesmo que já esteja abençoado pelo Papa.
Sertões adentro

Em 1549, o navegador espanhol Alvaro Nuñez Cabeza de Vacca, nomeado governador do Paraguai, desembarca em São Francisco do Sul, Norte de Santa Catarina, para reabastecimento.

Por acaso, o navegador se encontra com dois padre jesuítas, que o convencem a realizar o resto da viagem a pé, sertões adentro, até Assunção. Os dois sacerdotes e um grupo de índios catequizados guiam a comitiva espanhola, composta por 250 pessoas. A comitiva embrenha-se nas florestas da Mata Atlântica, sobe a Serra Geral, acompanha os rios Negro e Iguaçu, atravessa o Rio Paraná e entra em Assunção, depois de uma caminhada de 99 dias.

O fato espelha uma dupla leitura.

Desde meados do século XVI, os jesuítas espanhóis estão em Santa Catarina. E, instruídos pelos índios, já haviam aberto um caminho terrestre entre o litoral atlântico e a capital do Paraguai, evitando o longo trajeto marítimo e fluvial que passava por Buenos Aires e depois subia os rios Paraná e Paraguai. É uma variante do Caminho de Peabiru, aberto pelos índios muitos e muitos anos antes da chegada dos jesuítas ao continente.

No entanto, as relações entre portugueses e espanhóis, no Sul do Brasil, tornavam-se cada vez mais hostis. Isso porque exploradores paulistas, os temidos bandeirantes, não respeitam os limites impostos pelo Meridiano de Tordesilhas e varrem as terras pertencentes à Espanha em busca das minas de ouro e do braço indígena reunido pelos padres nas famosas “reduções jesuíticas”.

Todo o sertão percorrido em 1549 pelo navegador Cabeza de Vacca constitui um território que a Espanha entregará a Portugal em 1777. Mas primeiro São Paulo e depois o Paraná impedem que a região integre o Estado de Santa Catarina.

Assim começa a História da Guerra do Contestado.
Colonização das terras de Santa Catarina

A História do Brasil, de frei Vicente do Salvador, escrita em 1627, esclarece que não há preocupação com a largura que a terra do Brasil tem no rumo do sertão, porque até aquele ano não houve “quem a povoasse”. É que, por negligência, os portugueses, grandes conquistadores de terras, não se aproveitaram delas, pois se contentaram apenas “de as andar arranhando ao longo do mar como caranguejos”. E, de fato, foi assim nos primeiros 250 anos de povoamento.

Em 1532, dom João III, rei de Portugal, distribui as terras do Brasil entre 12 protegidos do trono que receberam o título de capitães donatários. Claro que, com a medida, a Coroa se livra de novos gastos neste lado do Atlântico, uma vez que o povoamento de cada uma das capitanias, porque são hereditárias, deverá ser realizado às custas do novo proprietário.

A capitania situada no Extremo-Sul do Brasil, Terras de Sant’Ana, foi entregue a Pero Lopes de Sousa, irmão de Martin Afonso de Sousa, que também recebeu um quinhão um pouco mais ao norte, o atual Estado de São Paulo.

A carta de doação das Terras de Sant’Ana ao seu donatário faz referência apenas à colocação de marcos no litoral. O Extremo-Sul estava assinalado pela ponta de Itapirubá, próxima à Laguna, onde Portugal e Espanha confinavam, segundo os limites impostos pelo Tratado de Tordesilhas.

Com o passar dos anos e dos séculos, as terras de Santa Catarina, sertão adentro, sobem as encostas da Serra Geral e da Serra do Mar e espalham-se pelo Planalto, sob os protestos, não dos “espanhóis confinantes”, mas dos paulistas e curitibanos desconfinados.
Terras confrontadas

Nos limites dos três rios

No decorrer dos séculos XVI e XVII não foi emitido qualquer documento oficial para caracterizar os limites ao norte de Santa Catarina, desde a bacia do Rio São Francisco até os sertões dos espanhóis confinantes.

Em 11 de agosto de 1738, o rei de Portugal estabelece a criação da Capitania de Santa Catarina e a localização de um governo no Desterro para pôr debaixo de um só comando militar toda a região da costa sul do Brasil.

Uma outra provisão, em 9 de abril de 1747, determina que o brigadeiro José da Silva Paes, responsável pelo governo de Santa Catarina, escolha terras na Ilha do Desterro e regiões adjacentes, desde o Rio de São Francisco até o Serro de São Miguel, no alto da Serra Geral, para o assento dos imigrantes açorianos que começarão a chegar assim que houver “citios” disponíveis.

O documento exige especial atenção para que as terras entregues aos colonos não dêem razão de queixa aos espanhóis confinantes, já que o Meridiano de Tordesilhas passava bem próximo aos locais assinalados.

Um ano e meio depois, 20 de novembro de 1748, com centenas de casais açorianos instalados no litoral catarinense, Lisboa decide reorganizar a administração judiciária do Sul do Brasil e cria a Ouvidoria de Santa Catarina, com jurisdição sobre o Desterro, Laguna e o Rio Grande.

A nova provisão real ratifica o texto de 1747 quando estipula, de modo claro, que os limites ao Norte da Ouvidoria devem correr pelos rios São Francisco, Cubatão e Negro, que se mete no grande rio de Curitiba, isto é, o Iguaçu.

Pela determinação real, Santa Catarina, pelo Oeste, encontrava-se com os espanhóis confinantes nas Cataratas do Iguaçu, e com os paulistas, depois com os paranaenses, nas margens dos rios Negro e Iguaçu. Tanto os espanhóis confinantes, no Oeste, quanto os paulistas desconfinados, ao Norte, recusam-se a respeitar o limite dos três rios.
Avanços sobre o solo catarinense

A comarca de Curitiba ocupava todo o sul da Província de São Paulo. Em 29 de agosto de 1853, com a Lei Federal 704, o território da comarca é transformado na Província do Paraná.

As autoridades na nova província investem fundo contra Santa Catarina quando fixam os limites do leste pelo Rio Canoinhas, que corre em direção ao Rio Negro desde os campos de Lages. Cria-se uma nova zona de conflito e de terras-de-ninguém quando o Paraná exige que o vizinho do Sul exiba a legislação que lhe garanta a propriedade das terras contestadas.

Ousadia bem maior demonstra a nova província. Em abril de 1864, ela cria uma estação fiscal na região do Rio Chapecó para arrecadar uma taxa sobre cada animal em trânsito do Rio Grande do Sul para São Paulo. Santa Catarina protesta e exige que o governo imperial intervenha e acabe com a invasão nos dois lados do território que lhe pertence nos termos da legislação emitida pela Coroa Portuguesa em 1749.

Em resposta ao apelo dos catarinenses, em janeiro de 1865 as autoridades do Rio de Janeiro expedem o Decreto 3.378, que praticamente homologa os “avanços” do Paraná sobre o território contestado por Santa Catarina. Os limites foram estabelecidos pelo Rio Saí-Guaçu, Serra do Mar e Rio Marombas, desde a sua vertente até o Canoas e, por este, até o Uruguai. Pelo Aviso de 14/1/1879, foi mudado o Rio Marombas pelo Rio do Peixe, deixando Curitibanos e Campos Novos para Santa Catarina. Esta divisão foi respeitada por Santa Catarina e pelo Paraná até o Acordo de 1916.

Pelos termos do decreto, Santa Catarina deve contentar-se em ocupar a faixa do litoral e uma estreita nesga de terra nos contrafortes do Planalto Serra Acima. Os 114 mil quilômetros quadrados garantidos pela legislação do século XVIII ficam reduzidos a pouco mais de 74 mil.

Os protestos de toda a província forçam o governo imperial a suspender os efeitos do decreto. Mas os paranaenses continuam firmes nas terras que levaram para dentro de sua província.
As duas caras do Direito

A incorporação do Planalto de Lages, em 9 de setembro de 1820, ao território catarinense, define mais uma vez os limites de Santa Catarina com o seu vizinho do norte. Esses mesmos limites são reafirmados pelo artigo 2º da Constituição do Império do Brasil, em 25 de março de 1824, ao afirmar que o “território brasileiro é dividido em províncias na forma em que atualmente se acha”.

A nova constituição não corta a presença dos paulistas nos campos de Palmas, na região sul do Rio Iguaçu e nas terras a oeste do Rio do Peixe. O problema da disputa pelo território contestado toma um novo rumo porque Santa Catarina, baseada no artigo 2º da Lei Maior, argumenta com o “direito expresso”, com o “direito já constituído” e, portanto, alcançado pela expressão “em que atualmente se acha”.

Do outro lado, os paulistas apegam-se ao “direito da descoberta” ou da “primeira ocupação”. É o já conhecido “uti possidetis”, tal como os portugueses aplicaram em 1777 para se apoderarem das terras que, pelo Tratado de Tordesilhas, estavam sob domínio espanhol. As duas províncias apegam-se, uma no “direito já expresso”; a outra, no “vislumbre de direito”, ou de “um direito ainda não instituído”. Acontece que cada um dos dois lados apresentava o seu mapa, que era contestado pela outra parte.

O direito do “uti possidetis” era consagrado em todo o mundo, por aquela época, quando o Papa arbitrava questão de limites entre Coroas. Essa foi a tese do barão do Rio Branco na questão com a Argentina, definida a favor do Brasil, em 1895. Por isso, o Paraná apelou para este direito. Antes de passar um século, as duas caras do Direito vão desatar o nó do embrulho jurídico e político com facões de madeira e com metralhadoras.

Depois da mortandade inútil, tal como no caso de Salomão, o território contestado será dividido ao meio.
A vinda dos açorianos

Em 31 de agosto de 1746, o rei dom João V de Portugal comunica aos habitantes das ilhas dos Açores que a Coroa oferece uma série de vantagens aos casais ilhéus que decidirem imigrar para o litoral do sul do Brasil.

Nos termos do edital fartamente distribuído pelas nove ilhas do arquipélago, as vantagens do convite para a voluntária expulsão resultam evidentes:


Haverá um grande alívio nas ilhas porque elas não mais verão “padecer os seus moradores”, uma vez que vão diminuir os males resultantes da indigência em que todos vivem;
Haverá um grande benefício para o Brasil, já que os imigrantes irão cultivar terras ainda inexploradas.

O edital acena com uma série de mordomias a partir do transporte gratuito “até os citios que se lhes destinarem para as suas abitaçoens”.

“E logo que chegarem aos citios que haverão de habitar, se dará a cada casal uma espingarda, duas enxadas, um machado, uma enxó, um martelo, um facão, duas facas, duas tesouras, duas verrumas, uma serra com sua lima e travadeira, dois alqueires de sementes (27,5 litros), duas vacas e uma égua.

No primeiro ano se lhes dará a farinha, que se entende bastar para o sustento, assim dos homens como das mulheres, mas não às crianças que não tiverem sete anos, e aos que tiverem até os 14 se lhes dará quarta e meia de alqueire para cada mês.

Se dará a cada casal um quarto de légua em quadra, para principiar as suas culturas, sem que se lhe levem direitos nem salários algum por esta sesmaria. E quando, pelo tempo adiante tiverem família com que possam cultivar mais terra, a poderão pedir ao governador do distrito”.

Também fica definido por sua majestade que o primeiro estabelecimento de casais açorianos far-se-á na Ilha de Santa Catarina e nas suas vizinhanças, “em que a fertilidade da terra, abundância de gados e grande quantidade de peixes conduzem muito para a comodidade e fartura destes novos habitadores.”

Em menos de um ano, 7.817 pessoas comprovam o desejo de se transferirem para o outro lado do Atlântico.

Uma Provisão Régia de 9 de agosto de 1747 determina ao brigadeiro José da Silva Paes, governador da capitania da Ilha de Santa Catarina, que tome todo o cuidado em tratar bem os novos colonos.

“O dito brigadeiro porá todo o cuidado em que estes novos colonos sejam bem tratados, e agasalhados, e assim que lhe chegar esta ordem, procurará escolher assim na mesma Ilha, como nas terras adjacentes, desde o Rio de São Francisco do Sul até o Serro de São Miguel, nos altos da Serra do Mar, e no sertão correspondente a este distrito, com atenção porém que se não dê a justa razão de queixa aos espanhóis confinantes.”

A decisão de sua majestade em respeitar as terras dos espanhóis confinantes, plantados muito longe lá pelos lados do Oeste, fez esquecer a definição dos limites norte-sul das terras que açorianos de Santa Catarina poderiam ocupar.

Dom João V e muito menos o brigadeiro Silva Paes podiam prever que o descuido de Lisboa dava os primeiros passos para gerar um conflito de limites dentro das terras brasileiras e uma guerra encarniçada entre os próprios catarinenses.
Terras paulistas de Lages

A designação de Luiz Antônio de Sousa Botelho Mourão, o morgado de Mateus, para governador e capitão general da Província de São Paulo, em dezembro de 1764, tem profunda repercussão no povoamento do Planalto e na fixação dos limites entre Santa Catarina e as futuras terras do Paraná.

Um dos primeiros atos do morgado é o de fazer povoar metodicamente os sertões de Curitiba e todos os imensos campos da região, até a margem direita dos rios Pelotas e Uruguai. O forte argumento para essa tomada de decisão é o de fazer frente aos espanhóis confinantes, que haviam ocupado uma grande parte do território do Rio Grande do Sul.

Antônio Corrêa Pinto de Macedo, rico e experimentado fazendeiro daqueles sertões paulistas, em fins de 1766, instala-se “na paragem chamada as Lages”. Para facilitar a tarefa, o fundador está autorizado a convocar todos os índios carijós já civilizados “que andam vadios e não têm casa, nem domicílio certo”, nem são úteis à coisa pública. E ele pode obrigá-los a ir povoar as ditas terras.

A viajada oficial de Antônio Corrêa Pinto para o Sul e a missão de fundar uma povoação na referida “parada das tropas” irrita as autoridades do Rio Grande do Sul porque garantem deter a jurisdição de parte daquele território até a margem esquerda do Rio Canoas, afluente do Pelotas. E transtorna os catarinenses porque eles defendem que o limite sul é pelo Rio Pelotas e, ao norte, pelos rios Negro e Iguaçu.

Passado meio século, 9 de setembro de 1820, toda a região do Planalto é desanexada de São Paulo e unida à Província de Santa Catarina, com os seus limites a oeste indefinidos.

Com a decisão do governo de Portugal, os paulistas fundadores de Lages e seus descendentes tornam-se catarinenses com papel passado em Lisboa.

Mas São Paulo e, a partir de 1853, o Paraná não abrem mão de seu território e continuam a banhar-se nas águas do Pelotas e do Uruguai. Até que um dia, meio século depois, acontece o estouro da peonada que não se rendeu e acaba destruída pelas armas de um governo que age em nome da lei.
Cidades nascem no caminho dos tropeiros

O povoamento do Planalto de Santa Catarina adota uma estratégia bem diferente daquela que resultou da ocupação do Litoral, do Vale do Itajaí e das planuras do Sul. Na Serra-Abaixo, ao longo de 150 anos, adota-se a fixação do imigrante europeu em pequenas glebas de terra – o sítio, o lote, a colônia – como ponto de partida para a abertura do processo civilizador.

No planalto central da Serra-Acima a qualidade do solo não se adapta à fixação definitiva de um colono dedicado à agricultura. As imensas pastagens naturais obrigam a substituir o manejo da terra pela convivência com o gado. Esse mesmo gado resultará na produção do imenso estoque de carnes no Rio Grande do Sul.

O perigo de utilizar o transporte marítimo para entregar o boi gordo no mercado devorador de São Paulo e do Rio de Janeiro torna-se evidente pelos riscos que a medida acarreta como naufrágio, pirataria e a necessidade de alimentar os animais no decorrer do trajeto que, além de tudo, fica dependendo da colaboração de ventos favoráveis para empurrar o navio cargueiro.

A solução encontrada é simples e copia o exemplo de Alvaro Nuñez Cabeza de Vacca e sua comitiva deslocando-se a pé entre o porto de São Francisco do Sul e a capital do Paraguai. Dessa maneira, os próprios animais se deslocam ao local de consumo através do “caminho das tropas”, também chamado Estrada Real ou Caminho do Sul, que liga Vacaria, os campos de Lages e da Estiva com as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Dezenas de povoados e de cidades do Planalto Catarinense resultam de um “descanso das tropas e dos tropeiros”. Mas ocorre um fato novo na história desse povoamento. Enquanto Santa Catarina alega que tem a seu favor uma série de leis que lhe garantem a propriedade das terras, os paulistas, na quase totalidade proprietários das vacarias do Rio Grande, vão se fixando pelo Planalto e pelos campos de Palmas, muito ao sul dos rios Negro e Iguaçu.
Colonos e militares na fronteira

Pelos meados do século XIX, dom Pedro II dá-se conta de que o Brasil precisa definir e proteger suas extensas fronteiras com os diferentes países da América do Sul, uma vez que a maioria deles apresenta contornos indefinidos.

A saída encontrada pelo imperador é a fundação de colônias militares nas quais possam conviver a vigilância do militar com o trabalho do civil, ambos acompanhados da respectiva família. Nesta linha de pensamento, o Decreto 2.502, de 16 de novembro de 1859, cria as colônias militares do Chopim e do Chapecó, no extremo-oeste da região contestada por Santa Catarina e pelo Paraná e bem ao lado dos 30 mil quilômetros quadrados de território brasileiro exigido pela Argentina.

Mas o entusiasmo do imperador pela convivência entre civis e militares na fronteira esfria durante quase 25 anos. Só em 14 de março de 1882 o capitão José Bernardino Bormann instala a colônia militar de Chapecó. De imediato, o capitão abre várias frentes de trabalho destinadas a povoar a região com pequenos lavradores e criadores das redondezas, do Rio Grande do Sul e do Paraná e também para defender a fronteira, atrair os índios, implantar o progresso, difundir a cultura. Logo nos primeiros tempos, a colônia dispõe de duas escolas de primeiras letras, uma escola de música e respectiva banda. Existe até um jornal,O Xanxerê.

Em 1895, um laudo pericial do presidente Cleveland, dos Estados Unidos, define que a Argentina não tem nenhum direito sobre as terras do assim chamado Campos de Palmas e a região é definitivamente incorporada ao território brasileiro.

Em 1916, as terras contestadas serão divididas entre o Paraná e Santa Catarina. Solucionados os dois conflitos, Xanxerê e Chapecó, em Santa Catarina, Clevelândia e Palmas, no Paraná, começam a exercer um papel importante para o desenvolvimento das terras que a Argentina e os dois estados haviam cobiçado.
O papel do cacique Condá

Pelos meados do século XIX, dezenas de pequenos proprietários vão se estabelecendo nos campos de Palmas, região contestada por Santa Catarina e pelo Paraná. Sobre essas terras vivem índios kaingang.

A presença do homem branco contribui para o surgimento de pequenas fazendas de criação de gado, sem contornos definidos por estarem localizadas sobre terras devolutas, isto é, pertencentes ao Poder Público. As confrontações entre posseiros e os enfrentamentos com os índios são freqüentes e resultam em total desrespeito às divisas naturais que delimitam as fazendas.

Quando da ocupação dos campos de Palmas, em 1839, os moradores não encontram solução para as contínuas depredações e por isso buscam a colaboração dos árbitros João da Silva Carrão e José Joaquim Pinto Bandeira, de Curitiba. Os dois dirigem-se ao local e pedem o apoio do cacique Condá, profundo conhecedor da topografia daqueles campos. A determinação do cacique é a de que todos os índios do grupo se unam em torno dos moradores para assentar as bases de um povoamento ordenado e sem futuras rixas.

Em 1815, Athanagildo Pinto Martins abriu a Estrada das Missões, ligando Guarapuava, Clevelândia, Campos Novos e Lages. Trinta anos depois, Francisco Ferreira da Rocha Loures une Palmas a Goio-En.

Com a situação mais ou menos definida, em 1865 o governo imperial decide abrir uma estrada para ligar Palmas a Corrientes, na Argentina, passando pelo oeste das terras contestadas por Santa Catarina e pelo Paraná. Os primeiros estudos sobre o trajeto da estrada contam com a colaboração do cacique Condá e de 37 índios. Eles também acalmam os índios do Nonoai, no outro lado do Uruguai, revoltados com a invasão das terras pelos operários da estrada.

Os caciques Condá e Viri são personagens importantes para a história do povoamento dos campos de Palmas e dos sertões do Extremo-Oeste de Santa Catarina. Para alguns historiadores, Condá passou de “bugre a bugreiro”, pois recebia pagamento para cada índio que aldeasse.

Em Chapecó, uma enorme estátua exalta a memória do índio Condá.
Parte II
Terras em disputa

Nos primeiros tempos de sua história, o Planalto de Santa Catarina foi habitado pelos índios Gê, tradicionais inimigos dos Guarani, que viviam no outro lado do Rio do Peixe. Ao longo do século XVIII, o tropeiro, um homem branco, percorre a região no sentido sul-norte, conduzindo bois e cavalos entre o Rio Grande do Sul e São Paulo.

Com o passar dos anos, surge o homem típico do Planalto, conhecido como caboclo. Ele trabalha na condução das tropas, nas fazendas de criação de gado ou na colheita da erva-mate.

Esse novo habitante não consegue receber um título de propriedade, pois mesmo as terras devolutas estão reservadas para os “coronéis” do Planalto ou para os políticos do Litoral.

Além disso, Santa Catarina e Paraná disputam a administração do território, numa velha rixa começada em meados do século XVIII.

Assim começa a história do caboclo sem terra e sem governo, personagem central da Guerra do Contestado.
Alemães sobem a Serra

Em 1868 esgotam-se os lotes rurais na Colônia Dona Francisca para instalar os novos imigrantes alemães, que continuavam a chegar da Europa. A falta de terras para cultivar e o número considerável de alemães-sem-terra obrigam a direção da Colônia a abrir um novo núcleo Serra acima, onde existem 247 quilômetros quadrados de terras no campo de São Miguel, em direção ao rio de São Bento, também pertencentes à Dona Francisca.

Nos primeiros dias de setembro de 1873, as autoridades de Joinville escolhem 70 imigrantes robustos e desejosos de arriscar a odisséia de subir a serra para abrir picadas e preparar os ranchos necessários à instalação das respectivas famílias. Em 26 de novembro chegam as primeiras famílias para fundar o núcleo, que recebe o nome de São Bento.

As mulheres e as crianças seguiram em carroças até o limite do trecho carroçável da estrada Dona Francisca, no quilômetro 33, do Alto da Serra. O restante da viagem foi efetuado em lombo de burros e a pé. As crianças foram carregadas em cestos grandes, colocados um em cada lado da mula, os mesmos cestos utilizados no transporte da erva-mate.

Este primeiro transporte foi efetuado com 30 mulas. Sete dentre elas levavam cargueiros e mantimentos formados por seis sacos de farinha, três de feijão, seis arrobas de carne, três de toucinho, 30 quilos de açúcar e 15 de café. Outras três mulas levavam, além de sacos com sal, panelas e apetrechos de cozinha, pregos, ferramentas e dobradiças para portas e janelas. O novo povoamento, localizado em terrenos que o Paraná afirma estarem sob a sua jurisdição, vai desaguar em uma sucessão de enfrentamentos entre os novos colonos e as velhas autoridades de Curitiba.
Direitos adquiridos pelo esforço

No segundo semestre de 1876, a presidência da Província de Santa Catarina é ocupada por Alfredo d’Escragnolle Taunay, o famoso autor do romance Inocência e do livro de memórias sobre a Guerra do Paraguai, A Retirada da Laguna.

Nascido no Rio de Janeiro, engenheiro militar e com pouca ligação anterior com o Estado, o novo presidente sente de perto os problemas resultantes da questão de limites com o Paraná.

Em dezembro, poucas semanas antes de deixar o governo, Taunay visita o núcleo de imigrantes alemães, há pouco instalado no alto da Serra do Mar. Em relatório, diz o governador: “O sentimento das populações vivendo ao sul da linha do Rio Negro, ou melhor, à margem esquerda desse rio, excelente limite natural, é contrário, e de modo veemente, a qualquer possibilidade de desanexação desta província. O núcleo de São Bento encerra muitas esperanças e apresenta um rápido incremento. Tudo isso é efeito único da iniciativa particular e da emigração espontânea. Todos os colonos aí estabelecidos abraçaram com ardor a causa de Santa Catarina e mostram-se receosos de qualquer decisão que vá perturbar o bom encaminhamento que tem a prosperidade e o engrandecimento.

Como se vê, a questão tornou-se hoje mais complexa, indo afetar direitos adquiridos pelo esforço de uma grande sociedade particular que busca, por meio da atração de boa e moralizada colonização, desenvolver seus meios de ação, concorrendo simultaneamente para a grandeza do Brasil.”
Conflitos aumentam em São Bento

O progresso do núcleo de São Bento, fundado em 1873, exige a constante ajuda de novos imigrantes. Dois anos depois chega um outro grupo de alemães. Mas seis famílias não conseguem entrar no respectivo lote porque ele já está ocupado com posseiros oriundos do Paraná.

Para evitar um previsível conflito, as autoridades de Curitiba aplicam uma série de medidas que garantem a jurisdição paranaense sobre os imigrantes recém-instalados.

Três dessas medidas aumentam o conflito.


1. Os seis posseiros permanecem em seus lotes e as famílias alemãs precisam buscar o novo pouso mais para dentro da floresta.
2. O inspetor de quarteirão, nomeado por Santa Catarina, é multado ao recusar-se a entregar a lista com os nomes dos imigrantes jovens em idade de prestar o serviço militar.
3. Quatorze policiais invadem a localidade, aprisionam um morador e o levam para a cadeia, no outro lado do Rio Negro, território paranaense.

A intranqüilidade entre os alemães aumenta à proporção que o Paraná intensifica decisões autoritárias para comprovar a sua jurisdição. Assim, por exemplo, na região da Encruzilhada, um posto fiscal instalado por Curitiba, há dezenas de guardas, alguns fardados. E todos eles deixam bem à mostra as facas de ponta e as clavinas engatilhadas para entrar em ação contra o barriga-verde que levantar a crista.

O mais grave de tudo é que o Paraná arma conflitos em uma região que nunca havia sido contestada nos tempos da Província de São Paulo.
O vírus da rebelião

(DIÁRIO DE CAMPANHA DE UM OFICIAL DO EXÉRCITO QUE FEZ PARTE DA EXPEDIÇÃO PARA EVITAR UM ENFRENTAMENTO ENTRE DEMÉTRIO RAMOS E AS FORÇAS DO PARANÁ)

“Indignou-se Demétrio contras as violências que lhe infringiram as autoridades do Paraná e recorreu ao auxílio dos seus correligionários da Vila de Santa Cruz de Canoinhas. Com a alegação de que o Paraná desrespeitava direitos de Santa Catarina, Demétrio Ramos conseguiu facilmente reunir cerca de 600 sertanejos dessa gente inculta e supersticiosa, jeitosamente preparada por Antero Alves, comissário de polícia da vila. Consta mesmo que esse povo foi armado a comblain pelo governo do Estado de Santa Catarina e por ele próprio mantido, com o auxílio de algumas casas comerciais.

Uma série de conflitos mais ou menos criminosos foi desenvolvida por partidários apaixonados desses dois estados, vindo daí por diante alimentada a luta pelos maiores interessados na questão da zona contestada”.

O movimento organizado por Demétrio Ramos deixou nas terras contestadas o vírus da rebelião. Os habitantes do território em litígio continuaram não se sujeitando ao regime de qualquer autoridade dos dois estados, até porque não sabiam a quem respeitar ou obedecer. E sempre aprendiam estratégias que poucos anos mais tarde saberiam aproveitar muito bem no decorrer da Guerra do Contestado.
Vozes da guerrilha

A argumentação do Paraná, perante o Supremo Tribunal Federal, ao reivindicar a posse das terras também contestadas por Santa Catarina, apresenta como suporte básico a história do povoamento da região.

Para os juristas de Curitiba, Santa Catarina não tem direito às terras em litígio, pois apresenta em seu favor uma documentação histórica mais ou menos discutível e omite a “situação de fato” em que se encontra o referido território. Enquanto os catarinenses se baseiam em obscuras provisões régias do século XVIII e algumas leis obscuras do tempo do Império, Curitiba comprova que bandeirantes paulistas e povoadores paranaenses desbravaram a região, abriram estradas, fundaram núcleos coloniais, vilas e cidades. Em uma palavra, levaram para o sertão de ninguém todos os elementos da vida de uma civilização.

Na linguagem de Curitiba, a decisão do Supremo, ao dar ganho de causa a Santa Catarina, não foi uma vitória do Direito. Ela constitui uma derrota política do Paraná devido à falta de prestígio de sua representação na capital da República, em confronto com a força dos catarinenses, que contam com a presença de Lauro Müller no Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas. O Paraná garante, por isso, que a questão do Contestado jamais se resolverá dentro do terreno jurídico.

O senador Alencar Guimarães repete a opinião do ex-secretário de obras do Paraná, Niepce da Silva, em declaração à imprensa do Rio de Janeiro (Jornal A Noite, 24, abril, 1914): “Os paranaenses estão dispostos a defender o seu território até pela força das armas. Para isso, o Estado dispõe de um regimento de segurança, com um efetivo de mil homens armados com carabinas mauser. E existem armas e munições para mobilizar, de um momento para outro, um pequeno exército de 5 mil combatentes. São eles audaciosos bandos de volantes, que no sistema de guerrilhas mais adequadas em certos pontos do território litigioso, são suceptíveis de causar maiores males ao adversário.”
Preliminares do conflito

Em setembro de 1909, o catarinense Aleixo Gonçalves de Lima, capitão da Guarda Nacional, à frente de 500 homens, invade o território sob a Estrada Dona Francisca, que o Paraná alega pertencer-lhe, mesmo que esteja situado no lado de cá do Rio Negro. O capitão expulsa os funcionários do fisco e os guardas do pequeno destacamento policial. Mas de imediato, um forte destacamento “inimigo” restabelece as barreiras, rastros da presença da jurisdição paranaense.

Aleixo Gonçalves de Lima e seu batalhão vingador são recebidos com festas e foguetes na cidade de Joinville. Carros vão esperá-los na entrada da cidade. Passeata pelas ruas, espoucar de fogos, sons da banda de música, tudo anuncia e aplaude o regresso dos heróis.

“À frente de um grupo de revoltosos contra as odiadas barreiras paranaenses, o capitão afugentou a força policial daquele Estado que as protegia.” Este é o comentário generalizado entre os respeitáveis senhores e veneráveis senhoras que saíram de suas casas para abraçar os bravos guerreiros da Serra-Acima.

Governo e sociedade de Florianópolis e de Curitiba não se dão conta de que os enfrentamentos entre grupos de civis armados já duram mais de 20 anos. Cada desencontro joga lenha na fogueira de uma situação em alta periculosidade. Há um “inimigo” em marcha porque muitos sertanejos e caboclos se familiarizam com o manejo das armas e com as técnicas militares de ataque e defesa. Todos vão aprendendo hábitos e comportamentos que serão postos à prova na hora de se defenderem das forças do governo federal e das polícias militares dos dois estados encaminhadas para impor a ordem pela força da boca do canhão, a partir de 1912.

O mais grave: nas terras contestadas, terras de ninguém, todos se acostumam a viver e a impor suas ordens, “sem fé, sem lei e sem rei”, como dizia o colonizador português do século XVI a respeito dos indígenas que habitavam o litoral do Brasil.
Abuso político e econômico

A instalação de barreiras fiscais no alto da Serra de Joinville, pelo Paraná, em uma zona que Santa Catarina sempre considerou como terras que integram o seu território, desencadeia um sério problema econômico e um explosivo problema político.

A presença dos fiscais paranaenses impede a circulação da erva-mate produzida em São Bento e industrializada em Joinville, já que os ervateiros não estão de acordo com as duas cobranças: uma, ao fisco do Paraná, antes de descer a serra, e outra, ao Estado de Santa Catarina, na hora do embarque no porto de São Francisco. Mas o problema é também político, pois ele intensifica a animosidade entre os dois estados que, além da Serra de São Bento, enfrentam-se no Planalto, no Vale do Rio do Peixe e no Extremo-Oeste.

Para Santa Catarina, a invasão do Paraná constitui um criminoso abuso, tanto mais grave quando a União atravessa um momento de turbulência política. O sistema republicano, implantado em 15 de novembro de 1889, exige uma série de ajustes entre os monarquistas, que não aceitam a perda do poder, e entre os republicanos, divididos em facções ideológicas.

Vinte anos depois, quando o governo federal ouve dizer que, na zona do Contestado um grupo de fanáticos, comandados por um monge, estava pretendendo trazer de volta a Monarquia, o mundo vem abaixo. E os canhões vão falar todos os berros de uma boca enlouquecida.
A guerra entre SC e Paraná que não houve

A guerra que não aconteceu fora da manchete de um jornal de Curitiba, em 8 de agosto de 1896.

A guerra explodiu desse jeito. Duas semanas antes, 21 de julho, as autoridades paranaenses da vila do Rio Negro derrubam as pontes de madeira da estrada de rodagem que liga as vilas de São Bento e São Lourenço, todas elas construídas pelo Estado de Santa Catarina no território que lhe pertence.

Hercílio Luz, o nosso governador, se irrita e faz desabar um telegrama sobre a mesa do colega, Santos Andrade, repudiando o “ato vandálico” das autoridades de Curitiba. Ao mesmo tempo, ele manda reconstruir as pontes. Uma enxurrada de telegramas entre Florianópolis e Curitiba resulta na presença de tropas militares, cara a cara, fuzil contra fuzil, tudo despachado às pressas para o local da confusão pelos dois estados.

A guerra quase se acende, em 13 de novembro, quando duas centenas de homens armados assaltam um destacamento de Santa Catarina, instalado a seis quilômetros da margem esquerda do Rio Negro, em plenas e catarínicas terras. Vinte e sete soldados barrigas-verdes são metidos na cadeia, evidente que situada no outro lado do rio, onde Santa Catarina jamais reivindicou um palmo de terra. “Vandalismo paranaense”, protestam vozes nos quatro cantos do Estado.

O governo do Paraná pede desculpas pela agressão e devolve os 27 prisioneiros sãos e salvos. Embora um tanto assustados. Para esfriar a guerra que não houve, a segurança pública da região é entregue às forças federais, deslocadas de Curitiba.
Seis por meia dúzia

A oposição a Lauro Müller, governador provisório de Santa Catarina, nomeado pelo marechal Deodoro da Fonseca, logo nos primeiros dias da República, cresce rápida diante da inércia com que o jovem tenente enfrenta as contínuas investidas do Paraná contra a jurisdição de Santa Catarina, na região de São Bento.

Segundo os adversários do governador, ele se mostra vacilante e frouxo porque está absorvido apenas com a mesquinha questão política da indicação dos nomes às três vagas do Senado, às quatro cadeiras para a Câmara dos Deputados e, principalmente, interessado em esmagar os políticos monarquistas e até os republicanos que não se integraram à nova ordem.

Lauro Müller dá um golpe de mestre quando, para vencer o inimigo, aplica uma nítida estratégia militar que se mostra mais do que eficiente para calar o inimigo. O governador faz de conta que se desloca até Joinville para reforçar a lista dos candidatos do governo às próximas eleições de 15 de setembro de 1890. Mas, muito em segredo, ele vai a Curitiba e retorna com uma solução prática para o problema dos limites do Alto da Serra, baseada em quatro princípios, devidamente sacramentados pelos dois governadores:


Abolição do Imposto de Importação e Exportação, excluída a erva-mate;
Cobrança do Imposto da Erva-Mate apenas no porto de São Francisco e sua divisão em partes iguais entre Santa Catarina e Paraná;
Levantamento da planta exata do território contestado com o auxílio da União;
Encaminhamento da questão de limites ao Congresso Nacional.

O Imposto de Exportação da Erva-Mate, que era de 2%, foi elevado para 4%. A mesma taxa que o governo de Curitiba arrecadava no porto de Paranaguá.

É sempre assim nas terras do Contestado: Santa Catarina e Paraná vivem trocando seis por meia dúzia!
Ensaio para o conflito

Em 1899, o governador Felipe Schmidt busca uma nova saída para a questão dos limites e contrata os serviços do advogado Manoel da Silva Mafra. Ele deverá voltar ao Supremo Tribunal Federal, desta vez com uma ação de reivindicação de posse, para obrigar o Paraná a recolher-se no outro lado dos rios Negro e Iguaçu.

Em 6 de julho de 1904, o Tribunal proclama-se competente para tomar conhecimento da questão, com o argumento que os limites desejados por Santa Catarina foram estabelecidos, através do tempo, pelas autoridades que tinham competência para fazê-lo. E manda respeitar os limites já demarcados desde 1749.

O Paraná contesta a ação. Passados cinco anos, 24 de dezembro de 1909, o Supremo reafirma a decisão de 1904. As autoridades de Curitiba não reconhecem a decisão da mais alta corte do país com o argumento de que a Constituição Federal de 1891 estabelecia que os casos de limites entre os estados da Federação deveriam ser resolvidos politicamente e não juridicamente. Logo, a questão só poderia ser definida mediante acordo das respectivas Assembléias Legislativas homologado pelo Congresso Nacional.

A maioria das lideranças políticas do território em litígio, principalmente no Contestado Norte – região de Itaiópolis, Papanduva e Canoinhas – não aceita a administração catarinense. São poloneses, inimigos históricos dos alemães! Os poloneses também não gostavam dos alemães que o Paraná havia instalado em Mafra, Rio Negro e Porto União da Vitória. E a recíproca era verdadeira.

No decorrer de 1905, a situação torna-se explosiva na região de Canoinhas. O antigo maragato Demétrio Ramos reúne em torno de si alguns sertanejos assalariados, em armas. Ele age protegido pelo governo de Santa Catarina, de cujas autoridades recebe recursos de toda ordem, segundo é voz corrente na região.

Assustado, o Paraná também azeita as armas e recorre ao grupo armado do coronel da Guarda Nacional, Fabrício Vieira.

Na região disputada pelos dois estados, em Timbó, por questões de ordem policial, na véspera do Natal de 1905, três homens e uma mulher são assassinados por desconhecidos. Antes que as autoridades de Santa Catarina tomem providências para esclarecer o crime, forças policiais e civis do Paraná atacam a residência do coronel Demétrio Ramos, suspeito de ser o mandante dos quatro homicídios. Queimam-lhe a casa e prendem-lhe a esposa e os filhos. Nessa mesma invasão também são presos o inspetor de polícia da cidade e mais três catarinenses. Junto com familiares de Demétrio Ramos, todos são metidos na cadeia em Porto União da Vitória, cidade paranaense.

Enquanto isso, o Paraná mantém um vapor nas águas do Rio Iguaçu guarnecido com armas com o pretexto de garantir um território nunca invadido e jamais contestado pelos catarinenses. Tropas federais são enviadas às pressas e se metem entre os dentes afiados dos galos-de-briga. O estopim de um enfrentamento em marcha foi desarmado.

Demétrio Ramos concorda em debandar o seu pessoal e se transfere para fora do Estado. Mas o grupo chefiado pelo ex-maragato prefere ficar na região. Combustível fácil para os quadros santos dos seguidores do monge José Maria.
Solução judicial falha

Os últimos 10 anos do século XIX costuram uma difícil convivência entre Santa Catarina e Paraná pela radical impossibilidade de ser resolvida a questão dos 40 mil quilômetros quadrados de terras exigidos, ao mesmo tempo, pelos dois estados.

Santa Catarina arma uma tentativa de solução quando a Lei 242, de 1896, autoriza o governador Hercílio Luz a entrar em acordo com o Paraná para que a questão de limites seja resolvida por arbitramento. Os vizinhos também decidem entrar na mesma cartilha e escolhem o nome do vice-presidente da República, Manuel Victorino Pereira, como árbitro, condicionando que a decisão dele deveria ser homologada pelo Supremo Tribunal Federal.

Os dois contestadores, com a respectiva documentação, apresentam-se no Supremo Tribunal Federal. “Pelo amor de Deus, ministros, consertem os nossos limites. Já estamos no limite da impaciência”. O Tribunal não aceita pronunciar-se sobre o problema do arbitramento, alegando que só poderia manifestar-se quando fosse acionado por uma ação judicial.

Das memórias do senador paranaense Alencar Guimarães.

“A idéia do arbitramento para definir a questão dos limites entre Paraná e Santa Catarina resultou de estudo feito pelos advogados dos dois estados, Ubaldino do Amaral e conselheiro Mafra, sobre o processo a adotar para a validade e força jurídica do laudo arbitral, em questão dessa natureza, e depois de audiência do conselheiro Aquino e Castro, então presidente do Supremo Tribunal Federal.

Era opinião desse eminente jurisconsulto que o processo arbitral em casos desses só poderia produzir efeitos jurídicos se o respectivo compromisso fosse firmado perante o Supremo Tribunal Federal e este homologasse o laudo proferido pelo árbitro escolhido.

Foi exclusivamente por tal motivo que os representantes federais dos dois estados, em reunião celebrada a 22 de maio de 1896, na Rua do Ourives, 19, no Rio de Janeiro, firmaram um ajuste, em que incluíram as seguintes cláusulas:


I – Comprometem-se os representantes dos dois estados a promover nas respectivas Assembléias, no corrente ano, a adoção de uma lei autorizando o arbitramento na questão de limites, devendo os governadores nomearem de comum acordo um só árbitro.
II – Dentro de dois meses, depois de publicada a lei nos dois estados, os governadores elegerão o árbitro e nomearão procuradores perante o Supremo Tribunal Federal, e perante o árbitro com os poderes necessários para os fins das leis votadas.

De comum acordo, iniciarão os procuradores a ação perante o Tribunal, requerendo que, distribuído o feito, seja tomado o termo de compromisso e se expeça comunicação ao árbitro nomeado, cuja resposta se juntará aos autos. (…)

V – A decisão proferida será sem novas alegações, nem documentos, submetida à homologação do egrégio Supremo Tribunal Federal.

VI – Desde a homologação, torna-se obrigatória a sentença, mas não terá efeito retroativo e, portanto, serão respeitados os direitos adquiridos pelos particulares.

Essas cláusulas foram aceitas sem divergências pelos representantes dos dois estados, os senadores Raulino Horn, Esteves Júnior, Gustavo Richard, Arthur de Abreu, Alberto Gonçalves e Vicente Machado, bem como os deputados federais Tolentino de Sousa, Paula Ramos, Brazílio Luz, Alencar Guimarães, Lamenha Lins, Almeida Torres, Emílio Blum e Lauro Müller, cabendo a este último, segundo consta da respectiva ata, a exposição dos motivos que justificaram o ajuste feito.

As Assembléias Legislativas dos dois estados, conformando-se em sua unanimidade com tal deliberação de seus representantes federais, votaram sem demora as leis de autorização para o arbitramento combinado. Os dois governadores, em cumprimento e obediência às suas cláusulas, assentaram de comum acordo na escolha para árbitro, o doutor Manoel Victorino Pereira, então vice-presidente da República.

Quando, porém, foi necessário requerer ao Supremo Tribunal a assinatura do respectivo compromisso, o eminente Aquino e Castro, com surpresa para os advogados dos dois estados que o haviam ouvido previamente, como já ficou dito, declarou o Tribunal incompetente para intervir no processo arbitral combinado, e isso consta dos dois últimos itens da petição inicial de Santa Catarina na ação ordinária de limites entre os dois estados.” (GUIMARÃES, Alencar. Questão de Limites. Paraná-Santa Catarina. Atos e Fatos. Curitiba, Oficinas de O Estado, 1916, pág. 29-31).
A criação de Canoinhas

Em 1889, Francisco de Paula Pereira, proprietário de um engenho de erva-mate em São Bento, com algumas famílias da região, transfere-se para as margens do Rio Canoinhas, 100 quilômetros na direção oeste do ponto de partida, porque ali estava a erva-mate que em São Bento ele comprava dos caboclos.

Estabelecidos a poucos quilômetros da margem esquerda do Rio Negro, era natural que os novos povoadores catarinenses viessem a sofrer os atropelos e as correrias de um território contestado por Santa Catarina e pelo Paraná. Por isso, nos primeiros tempos, o novo núcleo vive uma situação de terra-de-ninguém e de todos. E seus habitantes não contam com o apoio de qualquer autoridade porque nenhum dos dois estados se atreve a exercer a respectiva jurisdição plena.

O território em disputa transforma-se num paraíso sem impostos e num refúgio sem castigo para toda a espécie de impostores. Na tentativa de reverter a perigosa situação, em novembro de 1899 o governo do Paraná cria o Distrito Policial de Canoinhas e nomeia Roberto Elke para o cargo de subcomissário. O escolhido recusa o posto argumentando que o território pertence a Santa Catarina e que, portanto, a indicação recebida é nula de pleno direito.

Como prova de que exerce a plena jurisdição sobre as terras da região, o coronel Albuquerque, prefeito de Curitibanos, cria o Distrito de Paz e Policial de Canoinhas e nomeia o mesmo Roberto Elke como subcomissário. O indicado aceita a designação.

Decorridos nove anos desde a sua fundação, a vila conta apenas com 60 casas e magras centenas de habitantes. Mesmo assim, e antes que o Paraná tome a decisão, com a Lei 907, de 12 de setembro de 1911, Santa Catarina transforma o distrito em município. O major Tomaz Vieira é designado como o primeiro superintendente.

A criação do município de Canoinhas desencadeia uma série de protestos do Paraná. Isto porque, por uma lei paranaense, o território do município de Rio Negro incluía toda a área do novo município de Santa Catarina. Ao sul, os limites de Rio Negro iam até Lages. Mais tarde se contentaram em chegar só até Curitibanos, nos campos da Estiva.

Anos depois, por sugestão de Oswaldo Rodrigues Cabral, a cidade Santa Cruz de Canoinhas inscreve em seu brasão o lema “Catharinensis semper”. De fato, “sempre catarinense”. Mas ela deverá pagar um alto preço de angústias e mortes durante toda a Guerra do Contestado.
Barreiras fiscais

O Decreto número 1, de 15 de novembro de 1889, assinado pelo marechal Deodoro da Fonseca, chefe do Governo Provisório, determina que as províncias sejam transformadas em estados e que elas mesmas organizem o respectivo governo. Nenhuma palavra sobre os eventuais problemas de limites que possam existir entre as antigas unidades do Império.

Para Santa Catarina e Paraná, a decisão do governo federal é desconfortável, já que os dois novos estados, nos últimos 15 anos do Império, haviam convivido com graves desencontros no alto da Serra do Mar, região de São Bento, pela impossibilidade de fixar o ponto exato dos respectivos limites.

Nos primeiros dias de julho de 1890, mais uma vez o Paraná cruza o Rio Negro e planta quatro barreiras fiscais que impedem a livre descida da erva-mate para a sua industrialização, em Joinville, e o posterior embarque no porto de São Francisco do Sul, rumo ao mercado consumidor do Rio da Prata.

As barreiras levantam protestos em São Bento, em Joinville, no Desterro e na colônia catarinense do Rio de Janeiro, comandada por Esteves Júnior, respeitado político do novo regime republicano recém-instalado.

O governador do Paraná, Américo Lobo, garante que as barreiras foram levantadas fora da zona contestada e que a medida protegia a erva-mate produzida no outro lado dos rios Negro e Iguaçu: o produto paga imposto para descer até o porto de Paranaguá. Como no lado de cá dos dois rios também era território do Paraná, o governador vizinho chega até a estranhar as pretensões de Santa Catarina, já que suas autoridades desejavam ocupar terras que nunca lhes haviam pertencido.
Soldados atacados pela fome

O Paraná defende a instalação e o funcionamento das barreiras fiscais na zona contestada por Santa Catarina com a presença ostensiva de algumas praças da força de linha, soldados da Polícia Militar, como se diria hoje. As barreiras fiscais eram coletorias que garantiam excepcional fonte de impostos para as províncias. Em Santa Catarina, elas começaram a ser instaladas nas estradas das tropas, no Planalto e no Oeste, há 200 anos. Estes pontos de cobrança de impostos sobre a erva-mate repetiam o procedimento sobre o transporte do gado no século XVIII.

O governo vizinho instala os soldados no território em litígio, mas esquece de entregar-lhes o respectivo farnel. As barreiras estão plantadas no meio do mato. Não deu outra. Roídos pela fome, os praças atacam aves e pequenos animais dos colonos catarinenses, consumidos sob o pretexto de não morrerem de fome, pois estavam sem provisão alguma. A aplicação do princípio evangélico “dar de comer a quem tem fome” revoltou os colonos dilapidados no seu reino animal, pois houve abusos.

Um morador da região conta uma história bem desagradável.

“Os militares que constituem a guarnição das barreiras vivem praticando repetidas cenas de selvageria e alegam que estão garantidos pela lei. Por exemplo, ao chegar numa pequena vila, a soldadesca parecia faminta e inveterada no crime. Ovelhas, galinhas e porcos, tudo era morto e devorado por essa magra e desenfreada soldadesca.

E os roubos, meu Deus! Na casa da viúva Antônia Maria de Jesus roubaram um ponche, dois chapéus de sol, uma ceroula, um chapéu de palha, um corte de calças, um paletó grosso, um alqueire de feijão, 30 mil réis, dinheiro de um santo. E, ainda por cima, o próprio santo!

Em vista desta e de outras cenas, o povo está fugindo, abandonando as propriedades e juntando-se em turmas para defender as suas famílias. Nós, aqui, estamos em uma revolução que, à primeira vista, parece pequena, mas que toma corpo e ameaça para o futuro graves conflitos, se os altos poderes da República não intervierem.” (Jornal do Comércio, Desterro, 18 de agosto de 1890.

Vinte anos depois, desata-se uma guerra com todas as dores e todas as letras. E nessa mesma região de gente morta de fome.
Caminhos da miséria

Caboclo do Planalto

Nos primeiros tempos da história do Planalto de Santa Catarina estavam os índios Gê, tradicionais inimigos dos Guarani, que eram donos das terras do outro lado do Rio do Peixe.

Ao longo do século XVIII, o homem branco, um tropeiro, percorre a região no sentido norte-sul, conduzindo bois e cavalos entre o Rio Grande do Sul e São Paulo. Com a fundação de Lages em 1771, ao longo do chamado Caminho do Sul, surgem pousos, currais e invernadas, enfim, as primeiras fazendas de criação de gado e os primeiros registros (coletorias) para a cobrança de impostos.

As terras contestadas pelo Paraná e por Santa Catarina povoam-se com o mameluco, mescla do tropeiro luso-castelhano com o índio. O novo homem típico do Planalto, também conhecido como caboclo, trabalha na condução das tropas, o tropeiro, ou na fazenda, o peão.

As terras do Planalto, na sua totalidade, constituem enormes extensões, as sesmarias, doadas pelo governo imperial a proprietários que, muitas vezes, nelas não residem. Há impossibilidade de receber títulos de propriedade, que já pertencem ao sesmeiro. O tropeiro, o índio civilizado, os que desejam instalar-se na região são obrigados a fixar-se nas terras devolutas e inexploradas, sempre na condição de posseiro – aquele que está na terra mas não é proprietário.

Assim começa a história do intruso do século XIX e do caboclo guerrilheiro da Guerra do Contestado.Vivendo em liberdade no isolado sertão de pinhais e de pastagens, esse novo tipo de morador, o caboclo, ali fixa o seu hábitat e tira da mata os meios de subsistência para a família.

“Além de assimilar a cultura indígena, o caboclo fica marcado pelos traços das tradições de origem ibérica, do tradicionalismo dos bandeirantes paulistas e do comportamento dos gaúchos dos pampas. Este caboclo é, pois, uma síntese antropológica de suma importância para a história do Planalto. Portador que é de diferentes culturas, ele deve ser olhado e tratado com muito respeito e admiração.” (THOMÉ, Nilson. Ciclo da Madeira. Caçador, Impressora Universal, 1995, p. 51).
Perigos na estrada

CRÔNICA DE UM JORNAL

Os bugres mataram a 3 ou 4 do corrente, janeiro de 1890, na estrada que de Curitibanos conduz a Blumenau, o ex-guarda policial Roque Celestino de Matos, que para ali seguia, como camarada, ajudando a conduzir uma tropa de bois.

Na estrada da serra que desce para o Vale do Itajaí, teve a infeliz vítima que atrasar-se da tropa, a fim de carnear um boi que havia cansado enquanto as outras pessoas iam mais adiante fazer parar o gado.

Daí a pouco tempo, voltando um pardinho com os cargueiros para ser conduzida a carne do dito boi, apenas encontrou a mula em que montava Roque, morta à lança e vestígios que os bugres haviam deixado.

Dias depois, o cadáver de Roque foi encontrado dentro de um arroio, à pequena distância do lugar onde tinha ficado carneando o boi.” (Jornal do Comércio, Desterro, 28, janeiro, 1890).

Mesmo no final do século XIX, as estradas entre o Planalto e o Litoral apresentavam sérios riscos de enfrentamento entre o homem branco, dito civilizado, e o índio, que reconhece o perigo da própria sobrevivência por causa do processo civilizador que está em andamento.

Mas o problema do Planalto não está apenas escondido na boca da serra que se encaminha para a região de Blumenau. Problema bem maior está escondido em todo o Planalto que desce para o Vale do Rio do Peixe. Centenas de ranchos abrigam caboclos e posseiros que mal e mal conseguem arrastar a vida como peões das grandes fazendas de criação de gado, como pequenos lavradores avulsos ou catadores de erva-mate.
Soma de todo tipo de pobreza

Até os últimos anos do Império, a principal via de ligação entre o Rio Grande do Sul e a parte central do Brasil era a Estrada das Tropas, aberta pelo casco das mulas e pelo passo lento das boiadas, rumo ao mercado consumidor de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Ao longo da rota que corta as imensas extensões de terras devolutas do Planalto e dos Campos de Lages, durante um século e meio foram se instalando pousos, currais e invernadas para o descanso do tropeiro ou para a engorda da boiada. Por interferência quase sempre da política, grandes porções dessas terras vão sendo doadas a particulares. Eram as sesmarias, a maioria delas transformadas em fazendas para a criação de gado, de cavalos ou de mulas.

O desenvolvimento da pecuária, no decorrer dos anos, é prejudicado pela ameaça constante dos ataques dos índios missioneiros, sobreviventes das reduções jesuíticas do Sul, destruídas pelos bandeirantes paulistas.

Entre os poucos moradores da região, sesmeiros e posseiros, na maioria pequenos criadores e lavradores, mais agregados, peões, ervateiros e ex-escravos, havia também descendentes de gaúchos, vítimas da invasão espanhola, da Revolução Farroupilha, da Guerra do Paraguai e da Revolução Federalista.

Pelos campos e pelas matas espalhavam-se índios mansos, sem casa e sem condições de trabalho, quase sempre por inapetência ou por falta de forças para lidar com gado xucro ou boiadas selvagens. Pelo fim do século XIX, esses grupos de índios arredios ao processo civilizador haviam dado origem ao caboclo, sem terra e sem inclinação para os trabalhos pastoris. Tudo uma soma de grandes misérias, fácil de ser pescada pelo fanatismo religioso que toma fôlego em meados do século XIX e que explode assim que o século XX abre as portas.
Parte III
Taquaruçu, cidade santa

Os caboclos sobreviventes do massacre do Irani retornam às suas terras na região de Campos Novos e Curitibanos.

Passado um ano, em dezembro de 1913, um dos seguidores do monge, Euzébio Ferreira dos Santos, com toda a sua família, inicia a organização de uma nova irmandade em Taquaruçu, no exato local escolhido um ano antes, por José Maria, para implantar o primeiro reduto.

O acampamento cresce de imediato, pois corre a notícia de que o monge em breve ressuscitaria para orientar os seus fiéis na organização da cidade santa.

O governo de Santa Catarina teme que surjam confrontos entre os acampados e as populações vizinhas e solicita a presença do Exército para garantir a segurança da região.

No primeiro ataque ao reduto, as forças militares são derrotadas pelos caboclos.
A nova peregrinação

Dias antes do combate do Irani, em 22 de outubro de 1912, entre os devotos seguidores do monge e as forças do Regimento da Polícia Militar do Paraná, José Maria diz que iria “morrer” no enfrentamento. Mas não era morrer mesmo, pois ele passaria para o outro reino. Quase que nem Jesus Cristo.

– Vocês me esperem no Taquaruçu. Dentro de um ano eu vou estar de volta para organizar o Exército Encantado de São Sebastião. E, com ele, vamos vencer todos os nossos inimigos.

Euzébio Ferreira dos Santos, pequeno fazendeiro, seguidor das idéias do monge, vive nas suas terras, em Perdizes, município de Curitibanos, aguardando o retorno de José Maria.

Em uma tarde de agosto de 1913, Teodora, a neta do fazendeiro, jura perante o avô:

– O santo monge Zémaria falou comigo. Foi lá embaixo daquela árvore.

As aparições do monge se tornam cada vez mais freqüentes. Ele dá ordens e até cura doenças, sempre através da menina privilegiada.

Depois de algumas semanas, o monge dá o ultimatum à pequena vidente:

– Para que eu continue aparecendo, exijo que dentro de três dias todos vocês se instalem em Taquaruçu. Lá vai ser a nossa Terra da Promissão, a minha cidade santa.

No dia 1º de dezembro de 1913, Euzébio Ferreira dos Santos conclui que havia chegado a hora de encontrar-se com José Maria no Taquaruçu.

De imediato, o pequeno fazendeiro e toda a sua família, com oito cargueiros, abandona as terras em que vive para encaminhar-se ao local assinalado pelo monge.
A volta do monge

A morte de José Maria, no Irani, em 22 de outubro de 1912, determina a completa dispersão dos devotos do monge. Na sua maioria, os sobreviventes da chacina decidem regressar para Santa Catarina; cruzam o Rio do Peixe e voltam a conviver com as suas famílias nos municípios de Curitibanos e Campos Novos.

O movimento fanático-religioso parece extinto. Santa Catarina perde-lhe os passos no decorrer de quase todo o ano de 1913.

No final da primeira semana de dezembro, uma notícia se espalha na região e até pela Serra Abaixo. O estimado frei Rogério, que tinha vindo da cidade de Lages, por solicitação do poderoso coronel Albuquerque, superintendente de Curitibanos, havia seguido para um novo acampamento de fanáticos, mais uma vez no Taquaruçu, a fim de conferenciar e obter a dispersão do grupo.

No dia seguinte, já se conhece que os esforços do padre haviam fracassado. E até que ele fora mal recebido e forçado a retirar-se, diante das ameaças de morte.

O número de fanáticos é de 60 a 80 homens e todos estão dispostos a oferecer resistência se forem atacados pelo governo.

Boa parte dos acampados saiu dos matos da região. Eles nada têm em comum com os poucos moradores de Taquaruçu, que até se retiraram para outros pontos.

Para o jornal O Dia, de Florianópolis, a notícia da reinstalação do reduto deve preocupar as autoridades públicas e militares, já que renasce a possibilidade de futuros enfrentamentos radicais entre os fanáticos e as forças do governo. “A existência do reduto comprova o grau de fascinação que os celebérrimos monges exercem sobre o espírito da pobre gente ignorante daquelas paragens que, segundo dizem, acha-se reunida para aguardar a volta do monge.” (O Dia, 11 e 12, dezembro, 1913).
José Maria aparece em visões

A família de Euzébio Ferreira dos Santos, um dos sobreviventes do primeiro reduto de Taquaruçu, decide abandonar a localidade de Perdizes, onde vive com a família, e instala-se de novo em Taquaruçu, à espera da volta do monge José Maria.

A comitiva entra na pequena localidade e apresenta-se na casa do negociante e amigo Praxedes Gomes Damasceno.

– Peço uma pousada nesses terrenos para esperar o Zémaria, que deve estar chegando.

Praxedes Gomes e seu irmão Joaquim Gomes Damasceno haviam acompanhado José Maria até o Irani e ambos foram feridos no combate de 1912. Por isso não queriam mais entrar na confusão.

Euzébio e família recebem autorização para acampar dois quilômetros mais à frente, ao redor da casa de Francisco Paes de Farias, o Chico Ventura.

Euzébio dos Santos e Chico Ventura fornecem comida e até dinheiro para os caboclos que se agregam ao acampamento. Em poucos dias, já estão reunidos 170 homens, fora mulheres e crianças.

Instalado o acampamento, o monge não aparece em pessoa, mas fala aos caboclos através de Teodora, a neta de 11 anos de Euzébio.

Logo, logo, o monge deixa de lado a menina como porta-voz e se comunica com Manoel, filho de Euzébio, um jovem de 17 anos.

Sempre que precisa entrar em contato com o monge, Manoel se retira para o mato. Recebe as ordens e, ao repassá-las em reunião de todo o grupo, os caboclos ouvem-no com atenção.

Uma série de lendas se espalha de imediato.

Uma delas é que a intimidade entre Manoel e o monge é tão profunda que o jovem é capaz de distinguir nos matos os ramos das árvores que o monge tocou quando por ali estivera. E, por isso, ramos e árvores se tornam objeto de veneração.

Em determinadas ocasiões, os devotos chegam a beijar as mãos e os pés do jovem.

Conta-se, igualmente, que Manoel, na hora das refeições, conduz para o mato, numa bandeja, as iguarias mais apetitosas dizendo serem para o monge. Horas depois, volta com a bandeja vazia.

– O monge estava com uma fome de todo o tamanho!
O sonho da cidade santa

Euzébio Ferreira dos Santos, um homem avançado em anos, líder dos acampados, é um paranaense que vive no município de Curitibanos desde 1878.

Quando chegou à região, ainda jovem, era posseiro de umas terras devolutas e sobre elas começou a criar uma ponta de gado, que lhe deu razoável sustentação econômica.

Com o aparecimento do monge, Euzébio deixou-se envolver com as idéias do “santo homem” e com ele conviveu no primeiro acampamento de Taquaruçu, no segundo semestre de 1912.

Naquele tempo era assim. O interessado entrava nas terras-sem-dono, escolhia um pedaço, tomava posse e depois tentava requerer as terras mediante o “Título de Legitimação de Posse”.

Euzébio Ferreira dos Santos e Elias de Morais estavam lutando pelo título de propriedade, mas não conseguiam porque elas haviam sido compradas por um especulador de Florianópolis.

O pequeno fazendeiro não acompanhou José Maria na aventura do Irani. E até andou escondido, logo após a morte do líder. Com a instalação do segundo reduto, Euzébio é um fervoroso crente da anunciada ressurreição do monge.

E vive dizendo:

– Feliz daquele que avistar a cola do cavalo de São Sebastião.

Euzébio Ferreira dos Santos tem plena certeza que o Exército Encantado de São Sebastião vai levantar a cidade santa de Jerusalém, ali mesmo, no Taquaruçu.

“E então Euzébio exibia aos amigos um canivete, cujo cabo, aparelhado com uma lente, mostrava lá dentro a cidade santa de Taquaruçu, tal como José Maria costumava descrevê-la, templos de pedra, edificações majestosas, ruas largas, imensos jardins – uma lindeza de cidade.” (SASSI, Guido Wilmar. Geração do Deserto. Rio, Ed. Civilização Brasileira, 1964, pág. 53).
A vida no reduto

No reduto, Euzébio Ferreira dos Santos e o amigo Chico Ventura realizam venda de gado e outros bens para organizar o Exército Encantado de São Sebastião e para alimentar os quase 200 caboclos, fora as mulheres e as crianças. Todos se encontram no trabalho de levantar a nova Jerusalém.

Perto da residência de Chico Ventura levanta-se uma igreja de madeira. Em torno dela vai crescendo rápido um conjunto de casas improvisadas com lascas de pinheiros e distribuídas em ruelas surgidas ao acaso. Com o passar do tempo, 500 metros adiante, foi instalada uma segunda parte do reduto.

Durante a primeira semana do ajuntamento, qualquer pessoa pode entrar e sair do reduto. Mas, logo em seguida, quem entra para receber comida ou para visitar parentes e conhecidos é obrigado a permanecer.

Euzébio tem um filho chamado Manoel, que se diz intérprete do monge, que ainda não apareceu. Manoel diz que se comunica com o monge, cujas ordens transmite aos acampados. Todas as manhãs os fiéis vão beijar-lhe os pés.

Nas primeiras semanas da vida em comum, os caboclos ocupam o tempo em rezar e em repetir procissões de louvor e de cantorias. Em todas elas, Manoel abre o desfile, acompanhado pelas virgens, meninas colocadas a serviço do monge, jovens e mulheres não casadas. Depois, vêm as mulheres casadas sem filhos, em seguida, as casadas com filhos. Os homens encerram o desfile com as suas armas e com os meninos, que preferem acompanhar os pais.

A alimentação é preparada com gêneros comprados e pagos à vista. Os animais abatidos para o consumo também são pagos a dinheiro.

O filho de Euzébio, de vez em quando, vai ao mato próximo. Lá, ouve o que lhe diz o monge para ser comunicado ao reduto.

“A vida no reduto é de orações e súplicas às vezes, acompanhadas com razoável consumo de cachaça”. (O Dia, 23, dezembro, 1913). Os caboclos afirmam que não pretendem fazer mal a ninguém. Segundo ordens recebidas de José Maria, eles desejam levantar uma cidade só deles e onde possam viver em paz com todos, e felizes com eles mesmos.
Disciplina militar

O jovem Manoel, porta-voz do monge, também fala com São Sebastião e dele recebe ordem para organizar o Exército Encantado.

A vida no reduto toma um novo rumo pois, ao lado das rezas e das procissões para atrair as bênçãos do santo, os caboclos são submetidos a uma rígida disciplina militar para se tornarem capazes de repelir as maldições dos homens.

Exercícios militares acontecem todas as manhãs e são orientados por um tal Manecão Teixeira, um negro pernambucano, desertor do Exército.

A bandeira branca que se movimenta do alto de um tronco é a cor-símbolo dos acampados, a mesma dos revolucionários maragatos de 1891-1894. É proibido usar o vermelho, o distintivo dos pica-paus, os governistas daquele tempo.


O pano está atravessado por uma faixa verde em forma de cruz para copiar a bandeira de Carlos Magno e também para lembrar as cruzes de aroeira que o monge João Maria e o sucessor andaram plantando por todo o Planalto. A cruz pode ser substituída pela imagem de São Sebastião, padroeiro da capela de Perdizes, onde vivia Euzébio Ferreira dos Santos quando formou a Irmandade.

Laços de fita branca no chapéu largo com as abas caídas para trás, de longe, também distinguirão os escolhidos da cidade santa daqueles que não fazem parte do reduto.

Ao mesmo tempo em que se intensificam os exercícios militares, Manoel determina que o reduto passe a fabricar facões de madeira e que os fiéis de São José Maria realizem exercícios de combate simulado.
Santo e devasso

os residentes do Taquaruçu acreditam que José Maria aparece ao Manoel, um jovem de 17 anos, filho de Euzébio Ferreira dos Santos, o líder maior da nova cidade santa. Entre as ordens dadas pelo monge através do jovem está o rígido treinamento militar, que inclui combates simulados com facões de madeira.

Depoimento de Francisco Palhano, em 1984:

“O Izébio tinha um menino, o Mané Izébio, que era o deus. Bobão que era, não sei como era que o pessoar foram se iludi com ele. E quem não fosse beijá nos pés dele pra vê o que acontecia. Tinha que beijá, tinha que chegá, se benzê, se apoiá, beijá nos pé dele, aquele amardiçoado, todos tinha que fazê isso, não tinha bão.

Diziam que Deus tava junto ali, mas Deus não podia tá junto, fazendo aquele banditismo que faziam pros outro, faziam só banditismo, surrava com a espada, fazia o pessoar passá acordado. Toda a noite faziam porcissão também, rezavam de luz acesa, caminhando. Nóis também fumo nessa porcissão, aí, nóis tinha medo, né. O véio Izébio tinha a espada, surrava com a espada. Passemo sono e não sei o que mais, passemo tudo isso, nóis passemo”. (THOMÉ, Nílson. Os Iluminados. Florianópolis, Ed. Insular, 1999, pág. 171).

Certa vez, por decisão de José Maria, Manoel passou a dormir entre três donzelas. No fim de um mês, o escândalo: o santo fizera mal às três moças. As virgens deixaram de sê-lo. O santo é demitido. No lugar dele, entra o sobrinho Joaquim, 12 anos.

De qualquer maneira, o poder no reduto continuava nas mãos de Euzébio Ferreira dos Santos, o “presidente de um sistema parlamentarista” que já havia nomeado três primeiros-ministros da mesma família: a neta Teodora, o filho Manoel e, agora, o neto Joaquim.
Impertinência do Paraná

A notícia do ajuntamento dos devotos do monge de Taquaruçu levanta uma forte reação nos meios políticos do Paraná. Não pelo perigo que o reagrupamento pudesse trazer à região do Contestado, já que, afinal, o reduto estava localizado em terras que mansa e pacificamente são admitidas como pertencentes ao Estado de Santa Catarina.

A impertinência é política e se torna bem mais nervosa a partir de 1904 e, principalmente, depois de 1909, quando, nas duas vezes, o Supremo Tribunal Federal decide que o Paraná não detém nenhum direito nas terras localizadas ao sul dos rios Negro e Iguaçu.

Face ao rápido crescimento do novo reduto, Curitiba garante que os caboclos estão sendo reagrupados dentro de um plano das autoridades de Florianópolis. A lógica intervenção das forças federais iria garantir a posse de todo o território Contestado para as gulas de Santa Catarina. A análise dos paranaenses que envolve os acampados do Taquaruçu não passa de considerações puramente especulativas e por isso recebe pronta resposta do governo Vidal Ramos:

“Só uma grande dose de má-fé pode encontrar correlação entre o novo levantamento do reduto e um possível desejo por parte de Santa Catarina de ampliar a sua jurisdição sobre o território que está em litígio no Supremo Tribunal Federal. A impertinência injustificada e a mania de perseguição dos nossos vizinhos esperam arrebatar um território que sempre pertenceu a Santa Catarina conforme, por duas vezes, acaba de definir o Supremo Tribunal Federal”.
Tentativa de padre fracassa

A notícia do ajuntamento dos devotos de José Maria, em dois locais, um distante do outro cerca de meio quilômetro, no reduto de Taquaruçu, bem como a sua nítida organização e treinamento militares, deixa em sobressalto a cidade de Curitibanos.

Notícias alarmantes chegam de todos os lados. As autoridades municipais começam a temer possíveis ataques dos caboclos em busca de alimentos ou de armas.

Antes de solicitar a presença de um reforço militar para restabelecer a tranqüilidade da região, o coronel Albuquerque, superintendente de Curitibanos, convence o frei Rogério, agora vivendo em Curitibanos, a deslocar-se ao reduto para tentar a dissolução dos acampados.

Das memórias de frei Rogério:

“No dia 8 de dezembro, às 10h da noite, cheguei debaixo de uma chuva torrencial à casa de Praxedes Gomes Damasceno. Disseram-me que o grupo de Euzébio estava ali a dois quilômetros, organizado ao redor da casa de Chico Ventura. Às 7h do dia 9, com quatro pessoas, consigo entrar no acampamento. Exponho o motivo da minha visita.

“Eu vos considero como meus filhos. Quero bem a vós todos. Até estou pronto a dar a minha vida por vós. Convido-vos para assistir à Santa Missa e, depois, cada um volte para a sua casa”.

A demorada entrevista se mostra inútil. Euzébio e o filho Manoel se recusam a desfazer o acampamento. Continua o frade:

“Dirigi-me a algumas mulheres pedindo que, por amor aos seus filhinhos, se retirassem. Replicou uma delas:

– Se morrermos, morreremos na fé de Deus.

Montei na mula, dirigindo-me, ainda uma vez, a Euzébio:

– Se o senhor não quiser aceitar meus conselhos, digo-lhe o último adeus, porque o senhor morrerá”.
Remédios inúteis

Os órgãos de Segurança do Exército nacional vêem o ressurgimento do reduto de Taquaruçu com os olhos ainda voltados sobre os destroços da estratégia militar aplicada em Canudos. A nova Canudos, plantada no sertão de Santa Catarina, deve ser cortada nas suas raízes, tanto mais que ela está brotando pela segunda vez. Mas a tropa se mantém calada, em estado de alerta, recolhida aos quartéis, à espera da manifestação concreta dos governadores de Santa Catarina ou do Paraná.

Em 16 de dezembro de 1913, o presidente do Estado do Paraná, Carlos Cavalcanti, através de telegrama, despacha um recado autoritário ao seu vizinho do Sul.

“Mais uma vez está ameaçada a paz pública com os fatos que se estão desenrolando nos sertões de Taquaruçu. A única causa que determina esses fatos e continuará a determinar de futuro, é a situação criada pela questão dos limites entre os dois estados, porque ela torna incerta, hesitante e precária a ação dos respectivos governos, em certos pontos do Contestado. Adotemos o arbitramento para dirimir a nossa contenda.”

No dia seguinte, Vidal Ramos devolve o troco.

“Permita que eu manifeste o meu desacordo quanto à afirmação de que a causa única das lamentáveis ocorrências, que vêm perturbar a tranqüilidade das populações dos nossos dois estados, seja a velha questão de limites. Em minha opinião, esses tristes fatos têm sua origem na degradante e mesquinha condição a que o analfabetismo reduz os infelizes habitantes dos nossos sertões. Quanto ao arbitramento, sérios motivos me levam a discordar desse processo, em se tratando de pleitos ainda não julgados definitivamente.”

O Exército nacional e os dois governadores manejam línguas diferentes. Estratégia militar, procedimentos jurídicos e ações do governo no campo da educação, tudo no mesmo laboratório, são remédios inadequados para dissuadir os caboclos a abandonarem pacificamente a cidade santa que estão construindo, sob as bênçãos de São José Maria.
Relato sobre os fanáticos

O coronel Zacharias de Paula Xavier, proprietário da Fazenda Butiá Verde, próxima ao reduto do Taquaruçu, entrevistado por um jornal da Capital, presta as seguintes informações:

– Coronel, o que nos diz em relação aos fanáticos?

– Eles estão acampados em dois grupos, um a meio quilômetro do outro, chefiados por Praxedes de tal, Euzébio e seu filho, que tem grande influência sobre o pessoal.

– Qual o verdadeiro intento dos sertanejos?

– Sei que não os anima ideal algum. São fanáticos simplesmente, cujo desejo é o de brigarem se forem atacados. Contam mesmo com a vitória, profetizada pelo filho de Euzébio, que se diz vidente.

– É verdade que os fanáticos estão armados?

– Sei que parte dos fanáticos está armada com facões fabricados no Rio Negro e em Blumenau. Outra parte carrega facões de pau e outra tem cacetes falquejados em quatro faces com um prego na ponta. Poucos são os que carregam carabinas.

– Parece que eles têm uma organização militar?

– É verdade. Dizem que todas as manhãs há exercícios de ataque e defesa, servindo de instrutor um soldado do Exército que desertou.

– De onde tiram os elementos para a sua subsistência?

– Todos eles são abastecidos por Euzébio e seus lugares-tenentes, os quais alardeiam possuir 10 contos de réis para sustentar os acampados. A verdade é que até agora não atentaram contra a propriedade alheia. Entre eles existem, ao que consta, homens honestos e abastados.
Perigo à vista

A notícia da presença, no Taquaruçu, de um grupo de seguidores do monge José Maria, reacende a movimentação das autoridades civis e militares de Santa Catarina.

A cada dia que passa, aumentam os boatos sobre o número de acampados. Num primeiro momento, frei Rogério pôde contar “entre 60 e 80 homens capazes de oferecer resistência”. Dois dias mais tarde, os fanáticos seriam 200, pois o frade não viu uns tantos outros que podiam estar reunidos no acampamento não visitado. Uma semana decorrida, a confusão e os boatos misturam os números para baixo e para cima.

– Dizem alguns informantes que esse número não passa de 100 homens; outros, que ele se eleva a 300.

Informado através de seu compadre, coronel Francisco Ferreira de Albuquerque, superintendente municipal de Curitibanos, o governador Vidal Ramos comunica a existência dos caboclos acampados ao presidente do Estado do Paraná e ao general Alberto de Abreu, inspetor da Região Militar com sede em Curitiba.

O governador catarinense não se limita apenas a expedir telegramas. No dia 9 de dezembro, o chefe de polícia do Estado, o desembargador Sálvio Gonzaga, acompanhado por um destacamento de 60 praças do Regimento de Segurança, inicia viagem a Curitibanos. O objetivo da operação é “evitar que a ignorância explorada pelo banditismo produza derramamento de sangue, perturbando consideravelmente a ordem nos sertões catarinenses”.

O desembargador-policial leva instruções positivas e severas de Vidal Ramos para, antes do emprego da força e da violência, lançar mão de todos os meios possíveis para conseguir “suasoriamente a dispersão e o desarmamento” dos caboclos acantonados.
Plano para o ataque

O coronel Vidal Ramos, governador do Estado, comunica ao general Alberto de Abreu, inspetor da Região Militar com sede em Curitiba, que no lugar denominado Taquaruçu foi localizado um ajuntamento de 150 homens e 50 mulheres, a maior parte, armados.

Quatro dias depois, em outro telegrama, remetido ao ministro da Justiça e Negócios Interiores, Rivadávia da Cunha Corrêa, Vidal Ramos solicita do governo federal medidas eficazes para evitar que “o bando de fanáticos, como da outra vez, tome o caminho de Palmas, ou se interne pelos sertões de Canoinhas e Timbó”.

O governador catarinense toma a liberdade de sugerir que a força federal, dois contingentes, seja transportada pela Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande. Um destacamento deveria desembarcar na estação de Rio Caçador para tomar a direção de Curitibanos e o outro teria como destino Herval ou Capinzal e daí seguir para Campos Novos.

Os dois grupos deveriam reunir-se, nas proximidades de Taquaruçu, com um outro destacamento da Polícia Militar de Santa Catarina que já estava subindo de Florianópolis, para Lages e Curitibanos.

O governo federal atende à sugestão do governo catarinense. De Porto União da Vitória, despacha dois destacamentos expedicionários. Os 100 homens, sob as ordens do capitão Adalberto de Menezes, desembarcam em Rio Caçador, e outros 60, sob o comando do capitão Esperidião de Almeida, seguem até a estação do Herval.

As ordens recebidas, tanto de Curitiba quanto de Florianópolis, são claras: “Observar os movimentos de um grupo de fanáticos que se reuniu em Taquaruçu, mas evitar hostilizá-lo.”
Marchas fora de compasso

A marcha, via terrestre e a pé, desde Rio Caçador até Taquaruçu, da tropa do capitão Adalberto de Menezes, convive com uma série enorme de imprevistos. Primeiro, o capitão deve bater-se com inúmeros contratempos para organizar o sistema de apoio que acompanhará o grupo. Os tropeiros e os proprietários das mulas levantam dúvidas sobre o pagamento do aluguel e a indenização dos que se perderem ou forem mortos.

Os animais são conseguidos porque o negociante Guilherme Gaertner decide servir como fiador da operação de empréstimo. Foi muito difícil pôr em marcha a tropa de mulas. Algumas delas corcoveavam e disparavam com a carga que lhes era colocada sobre as costas. Acontece ainda que os soldados não sabem conduzir a tropa, que deveria atravessar terrenos montanhosos e praticamente sem veredas adequadas para permitir a passagem do animal carregado com a respectiva bruaca.

No trajeto, o capitão se depara com a péssima qualidade dos caminhos. Os soldados equipados, em completa ordem de marcha, com o farnel de comida e demais apetrechos, desde logo, sentem-se extenuados pelas íngremes subidas e descidas bastante freqüentes. A coluna é obrigada a parar muitas vezes para aguardar que um ou outro animal desgarrado retome o trilho, ou para carregá-lo novamente porque ele cuspiu a carga aos corcovos, diante do obstáculo que se apresentava à sua frente.
Três frentes da confusão

O plano de ataque ao Taquaruçu foi elaborado pelo capitão do Exército Lebon Régis, secretário-geral dos Negócios do Estado de Santa Catarina. Dentro do esquema, três destacamentos militares marchariam por veredas separadas em demanda ao ajuntamento.

Do norte, a partir de Rio Caçador, desceriam 100 homens do capitão Adalberto de Menezes; do sul, desde Herval-Campos Novos, subiriam os 60 soldados do capitão Esperidião de Almeida; de Curitibanos, marchariam rumo noroeste, os 60 praças da Polícia Militar de Santa Catarina, comandados pelo capitão Euclides de Castro.

Ao todo eram 220 soldados bem armados e muito bem guarnecidos de armamentos, nele incluído algumas metralhadoras. Os três destacamentos trazem ordens expressas do governador Vidal Ramos:

“Dispersar e desarmar os sertanejos sem derramamento de sangue. Em seguida, fazer incidir sobre os criminosos a ação enérgica da polícia.”

O capitão Esperidião de Almeida, na sua qualidade de oficial mais antigo, é o comandante-geral das forças em marcha. Os três destacamentos iniciam a caminhada em pinça sobre Taquaruçu, desde Caçador-Campos Novos-Curitibanos. A partir de uma certa altura da marcha, nenhum dos três grupos dispõe de mapas, de informações sobre o terreno, de garantia da colaboração dos guias, os vaqueanos.

Antes da chegada ao reduto, a uma légua de distância, a tropa do capitão Adalberto junta-se ao destacamento dos soldados da Polícia Militar. Mas os soldados do capitão Esperidião de Almeida não se reúnem aos companheiros, já que o comandante prefere permanecer alojado em uma fazenda das proximidades.
Trapalhadas e festejos

O destacamento da Polícia Militar de Santa Catarina está aquartelado nas proximidades de Taquaruçu enquanto aguarda a chegada de uma força do Exército, sob o comando do capitão Adalberto de Menezes. O grupo catarinense está constituído por 60 praças, um capitão, um alferes e 60 civis. Também integra o destacamento o desembargador Sálvio Gonzaga, chefe de Polícia do Estado.

No dia 27 de dezembro, os dois destacamentos, já agrupados, recebem correspondência do capitão Esperidião de Almeida, comandante do outro grupo e de toda a operação, determinando que a marcha sobre o reduto ocorra no dia 29. E iniciaria o ataque o contingente que primeiro chegasse ao local. Para confirmar que tinham recebido a notícia sobre o dia do ataque, quatro civis são enviados à fazenda onde está acampado o comando-geral. Os emissários são confundidos com espiões. Oficiais e praças do capitão Almeida ameaçam-nos de morte e seqüestram-lhes as armas que levam.

Para complicar o mapa do ataque, com a proximidade do entrevero, vários civis incorporados ao destacamento da Polícia Militar, sob diferentes pretextos, desligam-se do batalhão catarinense. A fileira de civis vai rareando a cada hora que passa e fica reduzida a 15 homens, para supremo desgosto e irritação do desembargador Sálvio Gonzaga.

No dia 29, às portas do reduto, caboclos e militares se enfrentam em inesperado tiroteio. A coluna do capitão Adalberto é recebida à bala quando se aproxima de Taquaruçu. Há troca de tiros durante três horas.

Taquaruçu está defendida só por nove caboclos. Os outros tinham ido fazer guarda ao sul da cidade santa, pois esperavam o ataque da coluna do capitão Esperidião. Um tiro de metralhadora feriu Euzébio na perna. Os caboclos, entrincheirados, balançam bandeiras e dão vivas a Zémaria.

O tiroteio atraiu os outros caboclos. A coluna descobre a possível chegada de reforço dos caboclos. Ela sai em correria e abandona aquilo que não pode carregar. A derrota das forças legais convence os fanáticos que eles são invencíveis porque estão protegidos pelo monge. A notícia se espalha por toda a região e mais gente adere ao movimento dos caboclos.
Retirada em ordem

O capitão Adalberto de Menezes relê o relatório que vai encaminhar ao general Alberto de Abreu, inspetor da Região Militar, sobre o ataque-surpresa dos caboclos às forças militares do governo.

“Após 3 horas e 40 minutos de lenta marcha, alcançamos a casa do chefe Chico Ventura, abandonada, porém tendo ainda aceso o fogo de lenha. Estávamos, portanto, em pleno Taquaruçu.

Contávamos encontrar ao menos um insignificante povoado. Mas Taquaruçu não é absolutamente o que se nos afigurava. De tanto repetir o nome, esperávamos entrar em um enorme aglomerado de ranchos e acampamentos.

De repente, uma descarga de Winchester desaba sobre as nossas tropas. Um soldado cai atingido. Uma enorme confusão de nossa parte deixa escapar o prisioneiro que nos havia servido como guia para chegar até o reduto. Apesar do tiroteio, a força sob o meu comando avança em ordem, procurando posição para melhorar o ataque e a defesa.

Uma incessante fuzilaria mostrou a impossibilidade de sustentar o combate. Ao toque de preparação para cessar-fogo, tudo entrou em ordem, mesmo ouvindo-se o continuado estrépito das Winchester dos fanáticos.

Respondemos com as nossas metralhadoras. Mas a luta tornou-se inviável, já que a força do capitão Almeida não apareceu para nos auxiliar. Uma retirada em regra se impunha diante da impossibilidade de uma vitória, nada provável, devido à natureza do terreno e do tipo de inimigo a combater.

Infelizmente tenho a registrar a morte do segundo-sargento Augusto César de Oliveira, vítima de uma lesão cardíaca.”
Vitória do Exército Encantado

Para os acampados no reduto de Taquaruçu, o Exército Encantado de São Sebastião havia derrotado, quase sem sangue, os inimigos do santo monge, mesmo representados por dois destacamentos militares do Exército Nacional e um da Polícia Militar do Estado de Santa Catarina.

Depois do encontro, é voz corrente no reduto:

“Só oito de nós enfrentamos os atacantes. O resto todo estava deitado na grama esperando os ‘peludos’. Mas os ‘pés redondos’ debandaram desde o primeiro instante, com medo de nossas espadas e de nossos facões.

A confusão entre os soldados foi tanta que um dos nossos laçou uma metralhadora e arrastou ela amarrada na chincha do cavalo.”

Também servem para aumentar a auto-estima dos “soldados” do Exército Encantado outros fatos acontecidos no decorrer do enfrentamento. Durante a fuzilaria, grande parte da tropa de mulas que trazia armamento e alimentação para os soldados da Polícia Militar disparou para o meio do mato e muitos animais foram mortos pelos tiros das próprias forças militares.

O mais comentado é o fato que o capitão Euclides de Castro não conseguiu comandar em ordem a sua tropa, carente de qualquer instrução militar para exercício real de ataque e defesa. Na sua maior parte, os praças de Santa Catarina sempre estiveram em destacamentos com pouco exercício para enfrentar um inimigo de verdade e muito bem organizado.

Por último, caiu prisioneiro um soldado ferido, que veio a morrer no dia seguinte. Pouco antes de morrer ele solicita:

“Quero que me tirem o fardamento e que me ponham roupa civil. Vou morrer paisano.”
Capitão de campo limpo

O capitão de Exército Esperidião de Almeida, na qualidade de oficial mais antigo, era o comandante-geral das forças que participaram do ataque ao reduto de Taquaruçu.

Na impossibilidade de cronometrar uma operação coordenada pelos três destacamentos militares, ficou decidido que a força que primeiro alcançasse o reduto, a ela competiria romper o fogo. Portanto, não se tratava mais de dialogar com a liderança da cidade canta. Era atacar e pronto. No entanto, as ordens do ministro da Justiça e Negócios Interiores e do governador Vidal Ramos eram claras: procurar por todos os meios possíveis impedir o derramamento de sangue.

O capitão Esperidião de Almeida, por uma estranha decisão, não chegou a incorporar-se aos dois destacamentos ,que acabaram sendo atacados pelo reduto. Informado da surpresa do ataque dos caboclos, o capitão preferiu retornar a Campos Novos com o seu destacamento já que, segundo ele, nenhum dos vaqueanos que o acompanhava conhecia o terreno no local das operações. Os vaqueanos conheciam muito bem o terreno, pois eram da região.

Em Curitiba, o capitão justifica o fracasso da missão. “Não atacamos o reduto porque não ouvimos o tiroteio das forças do capitão Adalberto. O local era extremamente perigoso. Parece que existe telepatia entre os fanáticos. Eles tudo sabem, enquanto nós, os atacantes, nada sabemos.

Tudo indica que os habitantes da região estão de acordo com esses malfeitores, já que nada informam sobre o reduto. Apenas dizem que são homens inofensivos, dominados por idéias religiosas. O capitão Albino Barros, do Herval, me disse que o atual movimento do Taquaruçu se parece muito com uma fita cinematográfica. Enquanto gritam fogo, uns correm e abandonam o bando; outros sabem que não há fogo e ficam nos seus lugares tranqüilamente.

Os catarinenses estão interessados em perturbar a ordem na zona contestada. Eles levam o terror às autoridades paranaenses, a fim de que estas abandonem os seus postos para deixarem o campo limpo às pretensões de Santa Catarina sobre a posse de todo o Contestado.” (O Dia, 13, janeiro, 1914).
Inobservância do dever militar

Em julho de 1915, os catarinenses tomam conhecimento de um fato bastante desagradável ocorrido dentro das forças armadas que se empenham na luta contra os rebeldes do Planalto.

Dezoito meses antes, mais precisamente em 13 de janeiro de 1914, o Supremo Tribunal Militar havia condenado o capitão Esperidião José de Almeida a 14 meses de prisão simples, com acréscimo de sexta parte, pelo crime de inobservância do dever militar. O comandante do destacamento havia deixado de colaborar com uma coluna do Exército e outra da Polícia Militar de Santa Catarina, que acabaram desbaratadas pelos rebeldes entocados no reduto de Taquaruçu, em 13 de dezembro de 1913.

O capitão havia recorrido da sentença, mas o tribunal confirmou a punição. O governo do Estado de Santa Catarina, um dos denunciantes, manda publicar em primeira página do jornal O Dia (3, julho, 1915), os termos da sentença confirmatória.

O fato incriminatório ao comportamento do capitão teve início quando a tropa do capitão Adalberto Gonçalves de Menezes quase foi destroçada pelos fanáticos acampados no reduto que deveria ser tomado pela força das armas.

Meio que justificando a vergonheira do desastre, o capitão Adalberto, um dos derrotados, apresenta relatório ao general inspetor da XI Região Militar, em Curitiba, comunicando que o capitão Esperidião José de Almeida, com sua tropa, havia deixado de colaborar com o assalto ao reduto, uma vez que permaneceu inativo a menos de seis quilômetros do local do enfrentamento.

A ausência do reforço acarretou perdas de vidas durante o ataque e posterior retirada das forças militares.

Em sua defesa, o capitão incriminado alega que não se uniu às forças legais atacadas pelos fanáticos pela falta de guias, os vaqueanos, capazes de conduzi-lo às portas do reduto. O Supremo Tribunal Militar confirmou a sentença, baseado numa lei da Física: mesmo sem guias, o capitão poderia ter-se orientado pelo tiroteio, que durou cerca de três horas.
Parte IV
Canhões contra a espingarda

A derrota das três colunas militares frente aos caboclos acampados no reduto de Taquaruçu desencadeia fortes estragos na auto-estima e no prestígio das Forças Armadas. O clamor É preciso destruir Taquaruçu chega aos altos escalões dos comandos militares que decidem pôr em movimento, rumo ao Planalto catarinense, modernas e destruidoras bocas-de-fogo.

Enquanto isso, o governador Vidal Ramos recomenda a seus comandados que os caboclos sejam submetidos a meios brandos e suasórios para que, espontaneamente, eles se dispersem.

Mal-decorridos 40 dias da primeira derrota, os estrategistas militares instalam canhões e metralhadoras frente ao reduto e anulam o poder de fogo dos caboclos.

Taquaruçu é arrasado ao preço de quase uma centena de mortes.
Carregamento seqüestrado

No embalo da vitória das forças do Exército Encantado de São Sebastião contra as tropas militares, dias depois do combate no Taquaruçu, Praxedes Gomes Damasceno, simpatizante da causa cabocla, vai a Curitibanos com alguns dos seus amigos para um ajuste de contas.

Existe alguma razão para explicar o gesto ousado de Praxedes. Embora simpático aos devotos do monge, ele continua à frente de sua casa comercial em Taquaruçu, fora do reduto, em forte concorrência aos negócios do coronel Albuquerque, superintendente do município.

Praxedes entende que o aprisionamento, pelo prefeito, de uma tropa de 20 mulas, com toda a carga de mantimentos e de tecidos despachados para ele de Florianópolis pela firma Hoepcke, não passa de um golpe comercial do concorrente desleal instalado na cidade.

O coronel Albuquerque garante que tomou a decisão de seqüestrar a carga porque no meio dela estavam escondidas seis winchesters e uma caixa de balas.

Segundo a descrição oficial da viagem de Praxedes a Curitibanos, no dia 3 de janeiro, pelas 7h da manhã, um grupo de 21 caboclos do reduto entrou na cidade, protegido por um cerrado tiroteio. À frente do grupo está o Praxedes, que conduz a bandeira branca do acampamento.

A cidade reage, protegida pelos praças do Regimento de Segurança do Estado e por um grupo de civis a mando do coronel Albuquerque.

Do enfrentamento entre os dois grupos resultam quatro mortos. Praxedes recebe um tiro que o fere gravemente, em conseqüência do qual vem a falecer no dia seguinte.

A bandeira branca, com a costumeira cruz verde e com as iniciais S. J. D. que, referindo-se ao monge, poderia dizer “São José Deus”, foi exposta na Capital do Estado para comprovar a vitória das forças do governo sobre os fanáticos que saíram de seu reduto para atacar Curitibanos.

Um filho de Praxedes, informado da morte do pai, esclarece:

– Sei que meu pai foi morto em Curitibanos. Não muda nada. Ele agora faz parte do Exército Encantado de São Sebastião. Em vida, ele combateu com um inimigo. Agora, ele poderá combater com 10.
A voz da testemunha

Depoimento de uma testemunha da invasão a Curitibanos por um grupo de caboclos de Taquaruçu, comandados por Praxedes Gomes Damasceno.

– “Os fanáticos nunca quiseram atacar a vila, apesar da grande animosidade deles contra o coronel Albuquerque.

O Praxedes, com 24 amigos seus, recebeu informação que foram apreendidos vários cargueiros de mercadorias de sua propriedade, comprados na Casa Hoepcke, de Florianópolis.

As mercadorias haviam sido confiscadas pela polícia, a pretexto de que junto com elas estavam cinco espingardas winchesters.

Sentindo-se prejudicado nos seus negócios, Praxedes foi à vila para tentar, por meios brandos e a intervenção de amigos, resgatar o que lhe pertencia.

Eram mais ou menos 9h da manhã quando o grupo entrou na vila.

Na frente ia o Praxedes com uma bandeira branca na mão. Na entrada da cidade, não houve disparo de um só tiro.

O grupo parou em frente à casa de Albuquerque. Praxedes apeia-se do cavalo. Ainda com a bandeira branca na mão, ele estende o braço em direção ao superintendente para cumprimentá-lo.

Sem qualquer explicação, o prefeito desfecha-lhe um tiro. Outros indivíduos dão-lhe dois tiros pelas costas.

Fica estabelecida a confusão. Praxedes é ferido gravemente. Sem nenhuma assistência médica, ele morre na cadeia no dia seguinte.

Dois caboclos também morrem. Os outros escapam rumo ao cemitério velho onde se entrincheiram e continuam atirando sobre a cidade.

Houve outros mortos e feridos.”
Armas do direito

Na viagem a Curitibanos para reaver mercadorias compradas em Florianópolis e seqüestradas pela polícia, Praxedes Gomes Damasceno, ferido a bala, é feito prisioneiro.

Mais morto do que vivo, é submetido a imediato interrogatório, pelas autoridades policiais:

– Qual o motivo do ataque à cidade?

– Eu não queria atacar ninguém. Eu só precisava reaver as minhas coisas aprisionadas pelo coronel Albuquerque e cobrar os prejuízos sofridos.

– Por que veio armado?

– Vim armado e com gente armada porque sabia que, de outro jeito, as cargas não me seriam entregues. E eu precisava delas.

– O senhor não sabia que a cidade estava protegida por uma guarnição da Polícia Militar?

– Sabia. Mas o tropeiro Juca Ramos me garantiu que a guarnição estava com pouca gente e era até fácil tomar a carga de volta.

– A luta mantida em Taquaruçu era contra quem?

– O nosso povo não quer briga. Mas está disposto a repelir toda a força do governo que aparecer por lá. Este é o desejo do santo monge.

– Por que na hora em que as forças do governo começaram a abandonar o reduto, vocês não atacaram?

– Porque o menino Manoel, o nosso líder, não quis.

Ferido e esvaziado em sangue, por ordem do coronel Albuquerque, Praxedes foi levado para a cadeia da cidade e, ali, faleceu no dia seguinte.

Frei Rogério quis prestar-lhe assistência, mas não recebeu autorização.

O superintendente municipal de Curitibanos não gostava de Praxedes Gonçalves Damasceno, pois o armazém dele, em Taquaruçu, era concorrente do prefeito, que também tinha armazém, em Curitibanos.

E mais: o coronel tinha rixa com o líder dos fanáticos desde quando Praxedes trouxe José Maria ao Taquaruçu e o acompanhou ao Irani.

A rixa vinha de muito longe. O dono do armazém em Taquaruçu era da facção política do coronel Henrique Paes de Almeida, adversário de Albuquerque.
Meios brandos e outros nem tanto

O desastre do combate de Taquaruçu traz ao governo do Estado a certeza de que a intervenção armada, pura e simples, não é solução para eliminar o conflito com os caboclos do Contestado.

Para o governador Vidal Ramos seria preciso movimentar um novo tipo de forças, inclusive do lado de fora das armas, para evitar que bandoleiros e criminosos mesclados entre os seguidores do monge, cada vez se tornassem em maior número e cada vez demonstrassem mais capacidade de provocar a ordem pública.

O governador distingue muito bem o fiel seguidor do monge e o infiel infrator da Justiça, fonte de toda a espécie de desordens.

Logo no dia seguinte à derrota de Taquaruçu, o secretário geral do Estado, Gustavo Lebon Régis, recebe ordens para se deslocar ao Planalto e “tomar as providências que de momento as circunstâncias fossem aconselhando”.

Desde setembro do ano anterior, também se encontra na região do Contestado o desembargador Sálvio de Sá Gonzaga, chefe de Polícia do Estado.

Uma continuada troca de mensagens entre o governador e as duas autoridades civis demonstra que as ordens da autoridade máxima são por demais claras.

Antes do primeiro ataque ao Taquaruçu, em fins de dezembro, o governador recomenda a aplicação de “meios suasórios”.

– “Os sentimentos de humanidade para com os infelizes sertanejos, as mulheres e as crianças que, talvez, mais por ignorância do que por outra causa, constituem no momento ameaça para a tranqüilidade do Planalto aconselham, antes de empregar a força, procurar todos os meios possíveis para dispersá-los sem derramamento de sangue.” (17 de setembro).

Mas, ao mesmo tempo, o governador manda verificar se entre os moradores do reduto não se escondem “criminosos ou bandidos”. Sobre eles é preciso fazer cair pelos meios adequados, a ação da polícia.

Depois da inesperada derrota das forças legalistas, nos últimos dias de dezembro, o governador catarinense continua a insistir que os seus delegados façam todos os esforços para uma tentativa bem dirigida de pacificação.

– “Seria de grande conveniência para a tranqüilidade da zona, a dispersão dos fanáticos por meios brandos, além de outras vantagens de ordem moral.” (19 de janeiro).

Vidal Ramos deixa a critério do secretário de Estado para definir quais sejam essas vantagens de ordem moral já que elas não escaparão “ao esclarecido espírito de Lebon Régis.”

A preocupação humanista de Vidal Ramos sobe até o comandante das forças do governo, o tenente-coronel Dinarte de Aleluia Pires, e pinta-lhe um desejo pacifista e bem explícito.

– “Tendo encarregado o dr. Lebon de conseguir, em Campos Novos, a organização de uma missão para uma nova tentativa de pacificação dos fanáticos do Taquaruçu, por meios suasórios, espero que concordeis em esperar o resultado desta tentativa para encetar qualquer movimento militar contra o reduto dos fanáticos.” (18 de janeiro).

O governador não desconhece as dificuldades dessa tentativa porque já fora constatada a existência de criminosos e bandoleiros perigosos entre os sertanejos fanatizados. No entanto, ele insiste perante o comandante:

– “Os meus sentimentos humanitários e o sincero desejo de ver o mais depressa possível restabelecida a tranqüilidade no Planalto, aconselham-me a lançar mão mais uma vez do aludido recurso para a dispersão do ajuntamento de sertanejos em Taquaruçu.”

Não é conhecida a resposta do comandante militar ao governador civil.

Mas, em 15 dias, os caboclos do Taquaruçu recebem a resposta pela boca do canhão instalada a 600 metros do reduto.
Duas direções

A frustrada investida dos três destacamentos militares em fins de dezembro, para acabar com o reduto de Taquaruçu, sobressaltou a opinião pública e a auto-estima das autoridades civis e militares, todas a exigirem uma pronta solução para o problema.

As tentativas para descascar o abacaxi armado, caminham em duas direções.

De um lado, os órgãos de Segurança Pública e das Forças Armadas exigem um completo desmantelamento do reduto. Chegam mesmo a planejar a destruição física dos fanáticos que promoverem qualquer tipo de reação.

Enquanto isso, o governador Vidal Ramos continua com a idéia de obter a dispersão dos acampados pela “ação persuasiva dos conselhos e dos meios brandos e suasórios”.

Em 14 de janeiro de 1914, o jornal Diário da Tarde, de Curitiba, cobra do governador de Santa Catarina uma “intervenção amistosa, antes de qualquer procedimento militar”.

Acontece que o enfrentamento no Taquaruçu, que havia obrigado as forças militares a uma vergonhosa retirada, trouxe ao governador a convicção de que outras providências tinham que ser imediatamente desencadeadas.

O primeiro impulso militar de Vidal Ramos foi o de envolver um maior número de soldados da Polícia Militar para impedir que os “bandoleiros fanáticos, cada dia mais perigosos” promovessem uma total perturbação à ordem pública.

O Exército, por sua vez, decide agrupar um forte número de militares, protegidos por um armamento pesado.

O governo do Paraná, depois da vergonheira do Irani, prudentemente tira o corpo fora. Afinal, Taquaruçu não é o Irani. O acampamento está situado no outro lado do Rio do Peixe, terras que sempre haviam sido administradas por Santa Catarina.
Cartucho inútil

A partir de meados de janeiro de 1914, a linguagem dos órgãos encarregados da Segurança Pública proclamam ser urgente e indispensável a dispersão dos sertanejos pois eles estão movidos pela “psicose de um fanatismo religioso aliciado à criminosa sugestão por parte de alguns bandidos conhecidos”. (O Dia, 21 de janeiro de 1914).

O governador de Santa Catarina ainda está dividido. De um lado, a pressão das Forças Armadas que exige a guerra. De outro, a imprensa de Curitiba que reclama uma “intervenção amistosa” do povo e do governo de Santa Catarina e do Paraná para a pacificação de “nossos patrícios fanatizados pelos irresponsáveis do Taquaruçu”.

Como último cartucho da paz, o coronel Henrique Rupp, de Campos Novos, determina a ida de mais um emissário ao reduto na esperança de encontrar uma desesperada saída para o confronto.

O novo emissário, Damásio Padilha, afamado curandeiro e benzedor, entra no “reino encantado” dos caboclos, em 21 de janeiro. Ele leva uma carta pessoal de Rupp pedindo a dispersão dos líderes. A carta é respondida por Euzébio e Francisco Paes de Almeida que se prontificaram em receber a visita do coronel Rupp.

A resposta não saiu de Taquaruçu e foi encontrada nos destroços do reduto por ocasião do segundo ataque.

Das declarações do emissário:

– “Assim que cheguei ao reduto fui apresentado a um menino de 8 anos, atual chefe dos fanáticos, filho de Antônio Linhares, de raça negra, um dos acampados.

Ao anoitecer, todos os homens do reduto, uns 150, entram em forma para me escutarem.

Por ordem do menino, fui desarmado. Em seguida, vozes me aconselham a queimar a carta que eu trazia solicitando a dispersão.

Insisto em apresentar o documento ao menino. Nesse meio tempo, chega o pai do garoto. Ele aceita receber o papel, mas determina que seja encaminhado ao novo reduto que já estava em organização, em Caraguatá, meia centena de quilômetros ao norte, próximo à localidade de Rio Caçador.

O grupo, na sua totalidade, me confirma estar disposto a bater-se com qualquer força que se aproximar do reduto com intenção de ataque.

Alguns acampados, em sinal de escárnio, sugerem que os inimigos nunca venham com menos de 2 mil homens.

Antes de regressar, consegui receber de volta o facão. Mas perdi uma pistola.” (O Dia, 24 de janeiro de 1914).
Canhão do presidente

os chefes do reduto estavam reunidos e aguardando a chegada do próprio para conversarem. Diversas pessoas estiveram em contato com o seu Venuto e os demais responsáveis pelo reduto de Taquaruçu, mas não encontraram um caminho de pacificação.

Agora vinha um deputado do Paraná e trazia a palavra do presidente da República.

Chegou cedo e foi levado para a casa do seu Venuto, onde estava sendo esperado e onde também se encontrava seu Euzébio, com quem tinha conhecimento.

O emissário do governo aconselhou os chefes para que debandassem e não reunissem gente no reduto, porque o governo teria que destruí-lo.

A réplica foi negativa e alegaram, inclusive, que eram pacíficos e só se defendiam. Foram as tropas do Hermes, (o presidente da República), essa foi a expressão do seu Venuto, que vieram provocá-los.

– Essas tropas estão esperando a minha resposta. Se os senhores não concordarem, eles vão atacar e destruir o reduto.

A presença do deputado procurava apenas impedir o massacre que se avizinhava, porque a posição dos chefes dos jagunços era irredutível: como haviam conseguido uma vitória no primeiro combate, esperavam repetir o feito.

As negociações continuaram lentamente. Segundo o deputado, o governo daria terras para eles voltarem ao trabalho e os ajudaria,

– Nós já tínhamos nossas terras; o governo veio e tomou. Agora quer dar de novo.

– O senhor não acha que está errado? Como podemos acreditar nessa promessa?

– Tem que haver confiança no governo. Ele fará o que promete.

– É, mas não confiamos.

As conversas continuavam e o deputado tentava mostrar a impossibilidade de eles acabarem vitoriosos.

Os chefes fanáticos procuravam protelar as conversações para ver se chegavam os próprios que saíram com a ordem de convocar os piquetes e tentar conhecer as forças dos peludos.

Foi o deputado quem deu a informação sobre a tropa. Afirmou que eram aproximadamente mil homens e que traziam metralhadora e canhão.

– Então é verdade que vamos conhecer a metralhadora e o canhão, aqui em Taquaruçu?, perguntou seu Euzébio. Não era só conversa?

– Tudo indica que eles vão atacar. Estão só esperando a volta do deputado. Foi isso que eles falaram.

Mas seu Venuto era um homem astuto e violento e, como acreditava que eles possuíam a proteção de Deus, tinha suas dúvidas quanto ao ataque.

– Eles estão só querendo meter medo.

– Você disse que eles só estão esperando a volta do deputado? …

– Eles falaram isso.

– Então temos que segurar a conversa com o deputado por mais tempo. Enquanto isso, pode ser que os próprios voltem com os piquetes.

O dia estava para terminar e as conversas continuavam. O deputado prometeu entregar 100 mil contos de réis e ajeitar as terras depois.

– É melhor o senhor pousar aqui enquanto nós estudamos a proposta. Até amanhã dará tempo para conhecer a opinião dos outros. Assim seu Venuto tentava protelar a palavra final (…)

No dia seguinte, os chefes voltaram à nova reunião com o deputado e, desta vez, as respostas foram negativas. Sabiam pelos bombeiros (espiões) quais as condições da tropa de peludos que estava no Espinilho e o armamento que possuíam.

A resposta final, e isso bem tarde, terminou a conversa. Disseram que queriam conhecer o canhão do bandido do Hermes.

Eles é que vieram provocar. Viviam quietos no reduto e as forças dos peludos é que tinham vindo de longe para atacá-los. E por quê? E assim justificavam suas negativas.

Finalmente o deputado retirou-se sem conseguir demovê-los da decisão, apesar de ter insistido que evitassem uma guerra desigual.

(OLIVEIRA, FERNANDO OSVALDO DE, O JAGUNÇO, UM EPISÓDIO DA GUERRA DO CONTESTADO, FLORIANÓPOLIS, GOVERNO DO ESTADO DE SANTA CATARINA, 1989)
Ventos do incêndio

A movimentação a favor de uma solução pacífica para o mal-estar provocado pela ameaça que representava o ajuntamento dos caboclos no Taquaruçu recebe um forte e decidido apoio de alguns líderes do Paraná.

Ainda em meados de janeiro, o reduto recebe a visita do deputado federal Manoel Correia Defreitas, acompanhado do coronel Antônio da Rocha Tico, emissário do jornal Diário da Tarde, de Curitiba.

A comitiva conta ainda com a participação de Antônio Cordeiro de Sampaio, Generoso Ribeiro e Firmino Melo. Os três tinham parentes em Taquaruçu e tinham a esperança de conseguir tirá-los de lá.

Os negociadores são recebidos com toda a hospitalidade ao mesmo tempo em que conversam com os líderes e sondam opiniões. Os acampados insistem:

– “Se formos atacados, vai correr sangue. E muito sangue.”

Ao mesmo tempo em que os emissários paranaenses se encontram no reduto, o advogado de Curitiba, Diocleciano Martyr, dá entrada no Supremo Tribunal Federal de um pedido de habeas-corpus em favor de Francisco Paes de Farias e mais cerca de 300 indivíduos que se dizem perseguidos pela Força Pública e ameaçados de prisão e morte pelas autoridades de Santa Catarina, sob o pretexto da prática de ritos religiosos.

O Supremo requisita informações ao governador do Estado para instruir o habeas-corpus.

No alongado telegrama-resposta que remete ao “venerando Tribunal”, o governador abandona os proclamados sentimentos humanitários para com os infelizes sertanejos e enumera uma série de provas para concluir que os meios brandos e suasórios até então empregados para tentar a dispersão haviam se mostrado ineficazes.

– “Pelas informações que me têm sido transmitidas em minuciosos despachos telegráficos, verifiquei que os sertanejos se reuniram em Taquaruçu, grande parte deles movidos por uma perigosa exaltação religiosa.

Essa reunião, porém, assumiu desde logo uma feição perturbadora da ordem pública.

Além de estarem quase todos os sertanejos armados de carabinas, winchesters, revólveres, etc.; de terem estabelecido trincheiras ao longo do caminho que conduz a Taquaruçu, desde uma légua de distância do reduto; de terem mortalmente ferido uma das praças empregadas nesse serviço; de dois ataques consecutivos à vila de Curitibanos; dos saques que praticaram em várias casas comerciais; dos roubos de gado que estão iniciando, os fanáticos estão fazendo constantes exercícios militares sob as ordens de perigosos criminosos, como Benevenuto Alves de Lima e outros contra os quais existem mandatos de prisão.

Foi para impedir a prática de tais atos, para restabelecer a ordem naquela longínqua zona e para a conseqüente prisão dos criminosos que ali se acham, que o governo entendeu de seu dever tomar providências decisivas e enérgicas, evitando assim conseqüências talvez muito tristes para o Estado.

O governo do Estado pretende, com as providências tomadas, impedir a reunião de indivíduos armados, que dão guarda a criminosos, atacam as forças encarregadas de manter a ordem pública, assaltam audaciosamente a vila, saqueiam casas, roubam gado como já o fizeram e estão fazendo os fanáticos de Taquaruçu.

O governo continua, entretanto, a fazer todos os possíveis esforços para conseguir a dispersão dos sertanejos fanatizados, por meios brandos e suasórios.”

O pedido de habeas-corpus é negado.

E acendeu-se o facho de um incêndio medonho.
Lições para uma nova guerra

A derrota de 29 de dezembro dos três destacamentos militares, frente aos caboclos acampados no Taquaruçu, motivou uma completa reformulação na estratégia do governo para a repetição do futuro assalto ao velho ninho subversivo.

O Exército Nacional conclui, de imediato, que a tarefa de comandar a nova operação contra o aldeamento deveria ser entregue a um oficial de graduação mais elevada e aproveitar soldados catarinenses mais familiarizados com a configuração do terreno da região.

A escolha para dirigir e executar a operação recai no tenente-coronel Dinarte de Aleluia Pires, comandante do 54º Batalhão de Caçadores de Florianópolis.

O novo comandante recebeu um reforço do 5º e do 6º regimentos do Exército, oriundos de Porto União, um deles comandado pelo capitão Adalberto de Menezes. O capitão Esperidião de Almeida, em parte responsável pela derrota de 29 de dezembro, foi excluído da operação.

A tropa está reforçada em número de efetivos, 750 homens; em unidades de apoio, 150 cargueiros; e com uma secção de artilharia de montanha, remetida pela Capital Federal.

O ponto de encontro entre os vários contingentes em operação foi marcado para a Fazenda do Espinilho, a poucos quilômetros de Taquaruçu. Todos os soldados descansam três dias na fazenda para se refazerem dos incômodos de uma longa viagem a pé, pelo Planalto, a partir de Curitibanos, de Campos Novos e de Rio Caçador.

No decorrer do trajeto, o comandante percebeu que a natureza reage vantajosamente contra a geometria das táticas de guerra. E que o caboclo, por sua vez, conhecedor dos recôncavos e das modalidades do terreno circundante, aproveita habilidosamente estas dificuldades para enfrentar os expedicionários.
Granadas contra espoletas

No dia 8 de fevereiro de 1914, domingo, dia do Senhor, pela manhã, as forças do governo, 750 homens e 150 cargueiros, comandadas pelo tenente-coronel Dinarte de Aleluia Pires, acampadas nas proximidades do reduto, iniciam a marcha do assalto sobre a vila dos fanáticos.

Depois de uma caminhada de dois quilômetros, descobrem uma patrulha dos caboclos. Ela acaba fugindo sem enfrentar os tiros dos soldados da Lei e da Ordem.

Logo adiante, numa encruzilhada do caminho, acontece o primeiro encontro com os jagunços que parecem dispostos a impedir a realização do ataque.

A troca de tiros põe o reduto em pé de guerra e todos os acampados estão a postos. Aqui, enfurnados nas curvas do terreno; ali, metidos nos buracos das trincheiras abertas à margem do rio. Por toda a parte, eles estão muito bem escondidos quando não se movimentam rápido, engatilhando os bacamartes apontados bem firmes em direção à estrada que conduz ao reduto.

A vanguarda dos soldados legalistas consegue dirigir-se para uma elevação de onde poderá dominar a vista sobre os mirrados e desconformes casebres que compõem a cidade santa.

Quase no topo da elevação, os soldados conseguem instalar estranhas peças de artilharia que abrem feroz bombardeio a apenas 600 metros do alvo.

Canhões e metralhadoras cospem relâmpagos e trovões que vão abrindo buracos entre as ruas e sobre os ranchos de madeira cobertos de palha. E os acampados respondem com frágil poder de fogo cujo tiroteio não chega ao topo da colina. A luta entre o soldado e o caboclo, entre a montanha e a planície é feroz e desproporcional, mas não menos acesa.

A cada silêncio do canhão ou da metralhadora para reabastecimento, ouvem-se vozes dos acampados gritando por José Maria e desafiando os soldados a descerem da colina para brigarem a “ferro branco”. Por toda a vila, os soldados conseguem distinguir bandeiras brancas que se movimentam. O seguidor do monge acredita que o pano sagrado tem a capacidade de abater 50 soldados cada vez que forem descritas três cruzes no ar. Pelas 16h, algumas casas começam a arder.

A partir do fato, os atacantes percebem que o reduto está sendo abandonado dentro de uma certa ordem. O vozerio que sobe pela colina indica que as mulheres parecem estar rezando, enquanto os homens lançam ao ar o já cansado desafio:

– Pé redondo, vem brigar comigo a ferro branco!

Inesperadamente cessa o tiroteio.

Logo a seguir, um temporal desaba sobre a região o que obriga os soldados a recolherem as armas e a se meterem nas barracas, ali mesmo, ao lado dos canhões e metralhadoras.

Ao amanhecer, o reduto encontra-se vazio ou, pelo menos, sem viva alma que se movimente entre as cinzas dos ranchos.

As tropas legais iniciam o reconhecimento dos estragos provocados pelo canhão e pela metralhadora que, pela primeira vez haviam sido postos em ação no território brasileiro.

E esbarram com um espetáculo macabro. Cadáveres de homens, corpos de mulheres e de crianças despedaçados estão desordenadamente distribuídos pelo terreno ensangüentado.

– “Era o horror! Era a tremenda obra de 150 granadas fulminantes que durante três horas e meia caíram sobre o aldeamento.” (Peixoto, Demerval, Raízes da rebeldia, Curitiba, Fundação Cultural, 1955).

O toque de vitória foi saudado pelas ovações retumbantes de todos os vencedores que percorrem o acampamento vazio.

Os militares não sabiam, mas a maior parte dos caboclos já havia saído de Taquaruçu, rumando para Caraguatá, ao Norte, um lugar mais seguro. A maioria dos seus componentes escapou de Taquaruçu durante a noite, aproveitando a chuva.

Foram feitos dois prisioneiros: Fabrício Soares dos Santos e Claudina de Tal. E nada mais, além de cinzas e destruições.

O comandante vitorioso comunica ao general Alberto Ferreira de Abreu, inspetor da Região Militar, em Curitiba, o extermínio dos bandidos, e recebe como resposta:

– “Não posso furtar-me ao dever de elogiar o sr. tenente-coronel Dinarte de Aleluia Pires e os seus bravos companheiros aos quais o Estado vizinho ficará devendo a tranqüilidade em seu território. Baldados foram os esforços empregados especialmente pelo governador catarinense para a dispersão desse ilícito e prejudicial ajuntamento no Rio Taquaruçu.”

O general encerra a comunicação “com a esperança de poder, em breve, considerar terminada a ação militar nos sertões catarinenses”.

Grosso engano do general! Os mortos de Taquaruçu vão cobrar milhares de vidas, inclusive entre as Forças Armadas, durante os anos de 1914 e 1915.
Franca simpatia popular

A marcha do 54º Batalhão de Caçadores, de Florianópolis, até Curitibanos, para integrar os dois destacamentos do Exército que serão lançados na destruição do reduto, foi realizada na maior ordem possível.

A caminhada não registrou o menor ato de indisciplina, apesar de terem sido percorridas 51 léguas (300 quilômetros) a pé, debaixo de chuvas, dentro do barro e em meio a calores insuportáveis do mês de janeiro.

O bom humor dos 132 soldados e o seu gênio folgazão serviram de estímulo para suportar todas as adversidades.

A média de 30 quilômetros diários possibilitou vencer o trajeto até Lages em nove dias. E mais três dias foram gastos para percorrer o resto da estrada até Curitibanos.

Durante a marcha foram realizados serviços de vanguarda e exploração, treinamentos que a arte militar aconselha como garantia para manter o espírito de grupo e a permanente jovialidade.

Em todo o percurso, o contingente colheu notícias, as mais desencontradas, a respeito dos assim chamados jagunços ou fanáticos que os jovens recrutas do quartel da Capital vão enfrentar à bala.

Nos tropeiros em rota entre Lages e o Litoral catarinense com os quais o grupo entrou em contato, e até com pessoas de responsabilidade, foi percebida uma franca simpatia pelos caboclos acampados no reduto.
Mulheres enfrentam o dragão

No romance O dragão vermelho do Contestado, de A. Sanford de Vasconcelos. O personagem Saturnino encontra-se no reduto, por acaso.

– “Saturnino não era um guerreiro.

Era um músico. Com a sensibilidade de um músico.

Acordara em sobressalto sob o ribombar das granadas, dos obuses e dos gritos histéricos das mulheres. Ainda estava escuro. Forte petardo destruiu-lhe um lado inteiro do frágil casebre. Acordara-se no meio do inferno. Sofria Taquaruçu, naquele instante, um bombardeio brutal, uma varredura de ininterrupto fogo. Que se prolongou durante horas, não deixando dúvidas quanto ao seu objetivo de um extermínio completo.

Saturnino, no meio da ensurdecedora metralha, salta para a rua. Silhuetas locomoviam-se espavoridas por entre a fumaça e o fogo.Os estampidos aconteciam sem trégua.

Algumas mulheres xucras, decididas, empunhavam um porrete, ali um espeto de madeira, prontas pra lutar, possuídas de histeria e de cego fanatismo.

– “Viva a Monarquia. Viva São João Maria. Viva São Sebastião.”

Recebiam, como brutal resposta às suas histéricas invocações, o permanente ribombar da artilharia pesada.

Outras mulheres, sempre fortes na sua fé, oravam e erguiam os braços para os céus em busca do Exército Encantado.

Acreditava-se no poder mágico das bandeiras. Acreditava-se possuírem elas o poder de aniquilar 50 soldados cada vez que, ao agitá-las, riscassem no ar a formação de três cruzes.

Aqueles braços femininos armados de espetos e de porretes, todos, um a um, foram tombando, os seus corpos estraçalhados aqui por explosões, ali transpassados por balaços.

Olhando em torno, o gaiteiro viu-se rodeado por tal cenário horripilante e assustador.
Fúrias da montanha e do céu

Foi de manhã, nem bem o sol surgira, e já os vultos dos soldados se recortaram, em silhueta, no alto da colina. O povo do reduto, a defesa preparada, esperava.

E então, de repente, o canhão cuspiu fogo e aço, e a granada, rebentando no meio do Quadro Santo, se transformou em estrondo, pavor, morte (…)

De cima do morro o canhão estrondeou de novo, e a metralhadora varreu as choupanas de taquara e pranchões de pinho. Gritos de mulheres e de crianças, de gente com o ventre furado pelas balas, de gente com as pernas e os braços arrancados pela metralha.

As mulheres irrompiam em lamentações:

– A nossa igreja! Corram! Acudam! A nossa igreja tá pegando fogo.

Baldados foram os esforços para apagar as chamas. As tábuas secas ardiam com facilidade e o fogo se alastrou pelos casebres vizinhos. Calor e fumaça tocaram as pessoas para fora das casas, e a metralhadora, lá em cima, fazia a sua caça (…)

Outros projéteis caíram onde estavam os animais. Relinchos de cavalos em pânico se casaram ao mugir triste de bois feridos. Os cães, ganiçando, corriam apavorados, sem poder descobrir de que lado se encontrava o caminho da fuga.

Mas os jagunços não se atemorizaram, não perderam o entusiasmo e nem, tampouco, a fé.

– Aqui não entra pé redondo! São Sebastião tá do nosso lado. Viva São José Maria.

– Morra a República! Morra a fraqueza do governo!

– Viva a Monarquia! Viva a coroa do Império!

– Venha brigar a ferro branco, pé redondo de m… !

De balde, os Doze Pares de França, atrás das trincheiras, atiravam sem cessar. O pouco alcance de suas armas impedia-os de atingir o alvo. Além do mais, suas balas tinhas cruzes entalhadas no chumbo, o que lhe modificava a trajetória. A eficácia era nula. Gasparino de Melo deixou de lado a winchester e foi buscar a bandeira santa de São José Maria.

Os soldados pararam de atirar. Os oficiais haviam comandado.

– Cessem o fogo. Os fanáticos tão se rendendo.

Engano. Das trincheiras, de novo atiravam, enquanto Gasparino Melo, bem visível, levantava a bandeira e baixava-a outra vez. Tranqüila e compassadamente.

Pausadamente, Gasparino continuava a agitar o estandarte. Enquanto isso, aproveitando a folga que os soldados haviam dado, os jagunços disparavam continuamente. Era só o tempo de embalar, puxar o gatilho e carregar de novo. Os canos das armas começaram a aquecer. Os projéteis, contudo, jamais alcançavam a elevação onde se encontravam os soldados do governo. Mas não importava que as balas não os matassem. A bandeira de São José Maria continuava matando: 50 de cada vez.

O dia inteiro o canhão Krupp despejou destruição e morte em cima do reduto. E a metralhadora, pipocando de contínuo, não ficou nunca sem resposta – não se calaram um só momento os mosquetões e as comblains dos jagunços. Nos raros instantes de trégua, as mulheres socorriam os feridos. Somente os Pares de França possuíam o milagroso bálsamo de Farrabrás, fabricado pelo monge. Para os outros, tão-somente havia o picumã, para estancar o sangue das feridas.

Penugem de pó também servia, mas ninguém podia ir caçar socós àquela hora. Caçar peludos interessava mais. Os tiros porém, nunca atingiam o objetivo, e o recurso portanto era a bandeira do monge. Gasparino Melo se cansara de agitá-la. Os Pares substituíram-no, revezando-se.

Ao entardecer, outros ruídos se fizeram ouvir, acompanhando o clamor da artilharia. Era a fúria do céu que também se desencadeava, em relâmpagos e trovões.

A chuva, desabando numa verdadeira tempestade, impediu o ataque final. Junto aos soldados, um raio caiu sobre um pinheiro, fendendo a árvore de alto a baixo.

Outro rebentou no reduto, incendiando um rancho de palha. Anoiteceu chovendo. Chove a noite toda.

No dia seguinte, o arraial amanheceu em silêncio. Cessara a chuva e os caminhos estavam enlameados. Cautelosamente, armas embaladas, ouvidos atentos, os soldados avançaram. Taquaruçu estava deserto. Nenhum tiro foi disparado, voz alguma se ouvia. Por toda a parte, ruína, a mortandade; escombros e cinzas, de permeio com membros dispersos e cabeças esfaceladas; cadáveres de bois, de cavalos e de cães, juntamente com os horrendos e mutilados cadáveres dos jagunços.

A chuva não conseguira limpar a sangüeira.
Melhor ignorar

A brutal e estúpida destruição de Taquaruçu, com mulheres e crianças destroçadas pelos dois canhões do Exército Nacional, foi energicamente condenada por lideranças não militares tanto de Santa Catarina como do Paraná.

Um dos revoltados com o episódio chega a dizer: “Coisas houve e fatos há que ficam melhor quando ignorados.” (Folha do Comércio, 25, abril, 1914).

Oficiais da tropa de assalto, diante dos dois canhões, chegaram ao humor e à ironia:

– “Como será que os jagunços vão resistir diante desses dois argumentos?”

É verdade, também, que o comandante da operação, tenente-coronel Dinarte de Aleluia Pires, e alguns elementos do seu contingente demonstraram repugnância em tomar parte naquele tipo de operação.

– “Estavam convencidos de que não iam combater inimigos, mas arrasar, levar à morte o reduto de pacatos e inofensivos sertanejos.”

Acontece que toda a tropa estava submetida pelo dever e pela rigorosa obediência militar, no caso, representada pelo general Alberto de Abreu. O inspetor da Região Militar tinha pressa em apresentar serviço perante os altos escalões para reerguer a auto-estima do próprio Exército Nacional, manchada pela vergonheira do primeiro ataque ao reduto.

Está suficientemente provado que em “telegramas impróprios para um general”, Alberto de Abreu exigiu ação de seus comandados chamando-os até de covardes, porque demoravam em começar o ataque para fulminar os caboclos.

O “serviço” foi muito bem-feito.

– “O estrago da artilharia sobre o povoado de Taquaruçu foi pavoroso. Grande número de cadáveres, talvez uns 90, estavam com os corpos destroçados entre bois e cavalos mortos e casas queimadas. Fazia pavor e pena o espetáculo que então se desenhava aos olhos do espectador. Pavor motivado pelos destroços humanos; pena das mulheres e das crianças que jaziam inertes por todos os cantos do reduto.” (Alves Cerqueira, médico da expedição).
Parte V
Caraguatá: sabor de vitórias

A feroz destruição de Taquaruçu, a cidade santa dos caboclos, pelos canhões das forças militares, muda o rumo e o ritmo da vida dos acampados que buscam refúgio no reduto de Caraguatá.

O comandante da nova cidade santa submete os moradores e suas famílias a um regime de convento e de quartel. Dentro de uma vida em comum, as orações, as rezas e as procissões entremeiam horas de rígido treinamento de táticas de guerra para garantir a defesa do reduto.

Em 10 de março de 1914, duas colunas militares marcham em direção ao Caraguatá. Antes de alcançarem o objetivo, os soldados são varridos pelo fogo dos caboclos. A morte de três dezenas de militares e um igual número de feridos aumentam a auto-estima dos acampados. A partir do episódio, eles têm a prova de que o santo monge vai levá-los a novas vitórias.
Mudança de rumos

A brutal e inútil destruição do reduto de Taquaruçu, em 8 e 9 de fevereiro de 1914, com dezenas de mulheres e de crianças esfareladas pelos canhões do Exército Nacional, muda o rumo e o ritmo da vida dos caboclos, fanáticos seguidores do monge José Maria.

No primeiro semestre do ano, o evidente fanatismo dos acampados, movido a orações, cantos e esperanças, cede espaço ao surgimento de uma guerrilha de ataque às forças armadas e, mais tarde, aos povoados da região.

Um pouco antes da destruição de Taquaruçu, grande parte dos abrigados no acampamento resolve mover-se algumas dezenas de quilômetros mais ao Norte, para fixar-se em Caraguatá.

O novo reduto estava plantado ao pé da Serra do Espigão, nas terras de Euzébio Ferreira dos Santos, a seis quilômetros do povoado de Perdiz Grande, que era sede do distrito de São Sebastião. Na sede do distrito, no dia 20 de janeiro, os abrigados realizaram a festa em honra a São Sebastião, o padroeiro da capela.

Caraguatá está mais próximo à estrada de ferro e da estação de Rio Caçador do que a distância que existe entre o Taquaruçu e a mesma via de chegada das forças militares. Além disso, o novo reduto está protegido pela quase inexistência de estradas, pela espessa mataria que o cerca, pelas encostas escorregadias, pelos riachos e pelas correntes de água, que se tornam instransponíveis com as fortes e rápidas chuvas que desabam durante o Verão.

A mudança de local para instalar o novo acampamento provoca alterações na organização e na defesa dos caboclos, em guerra com as forças militares. O comando “militar” da nova cidade santa é entregue a notórios valentões do Contestado, entre eles o Venuto Baiano, perigoso bandido; o Joaquim Germano, peão gaúcho que se tornou jagunço, e o Agostinho Saraiva, o Castelhano, originário da fronteira uruguaia.

Os acampados também mudam de tática para garantir a defesa do reduto: não mais vão permitir que as forças legalistas conquistem posições no alto de uma colina para eliminar o acampamento, depois de intenso bombardeio.

A partir dessa nova fase, do enfrentamento com armas, ao lado das rezas e da vida em comum, os jagunços vão ao encontro dos soldados para destroçá-los antes que instalem os canhões e as metralhadoras que haviam aniquilado o Taquaruçu.
Espião bem-tratado

Taquaruçu continua um montão de cinzas enquanto as forças legais, há quase dois meses, estão acampadas na estação de Rio Caçador à espera de ordens superiores para caminhar sobre o Caraguatá, o novo reduto dos jagunços. As ordens de ataque não saem dos comandos militares e provocam um forte ressentimento entre os soldado,s desejosos de retornar ao quartel protetor.

Alguns militares revelam o seu mal-estar diante da inércia. Mas, claro, em silêncio, que a disciplina, e ainda mais em tempo de guerra, não permite questionar decisões da hierarquia. Lá dentro, bem às escondidas, é voz corrente: “Estamos perdendo um tempo enorme. Os dias que passam permitem que os bandidos tomem fôlego e preparem muito bem as defesas do reduto.

Foram feitas três tentativas para dispersar os fanáticos em Caraguatá: uma pelo deputado paranaense Defreitas, outra pelo secretário do Interior de Santa Catarina, Gustavo Lebon Régis, e outra por emissários do capitão Adalberto de Menezes. Nenhuma delas deu certo, pois os caboclos fizeram uma contraproposta que exigia “um milhão de contos de réis, a titulação das terras, a derrubada dos coronéis, a restauração da monarquia e a devolução da vida a todos os massacrados em Taquaruçu”.

Enquanto isso, alguns jagunços são astutos e ousados. Chegam a visitar o quartel em missão de espionagem. São os temíveis “bombeiros”. Na linguagem do Contestado, “bombeiro” é aquele que observa atentamente os atos de outrem.

O assistente do comandante e alguns oficiais bem que gostariam de meter na prisão uns tipos desconhecidos que passam pelo quartel, fingindo grande humildade, para falar com o comandante, o tenente-coronel do Exército José Capitulino Freire Gameiro. Claro que o coronel Gameiro aplica essas amabilidades para investigar a situação do reduto e descobrir o sistema de defesa instalado no novo acampamento. Ao jagunço-bombeiro, o comandante sempre pergunta se nas adjacências de Caraguatá existe algum ponto elevado de onde se possa descortinar o reduto. O caboclo espertalhão compreende qual será o plano de ataque. Ele não esqueceu a estratégia militar aplicada na destruição do Taquaruçu.
Lei do governo do céu

Carta de Francisco Pais de Farias, o Chico Ventura, com a data de 23 de fevereiro de 1914, ao compadre Altino Gonçalves de Farias. A carta é verdadeira. Nela, Chico Ventura revela que está completamente fanatizado e empolgado.

“Grassas adeus aqui não se tem medo nem um. Participo-lhe que aqui não é tão feio como as notícias que corre pois quem tem medo da morte não à lugar que sirva aqui.

Sobre os amigos não desejo mar de amigos nem um estamos comprindo ordem de nosso rei José Maria só comprimos ordem o que vier contra nós as providências de deus nosso senhor e que ade valler nós tamos aqui a irmandade cuidando de obedecer a santa religião pois não obedecemos lei de governo se não só a lei do governo do céu lembre-se do que eu lhe disse tantas vezes que a lei que deus deixo no mundo é a lei de rei e essa é a que estamos e se deus quizer avemos de ver se deus quizer.

Nada mais aceite muitas lembranças de nós todos seu compadre e amigo todo o bem lhe deseja. A minha família vai tudo bom grassa a deus.

Faça o favor de dar muita lembrança para o meu padrinho Marcos Gonsalves de Farias lembre-se bem que nos primeiro governo que nós sabia que tinha era Império e esse é que estamos esperando e se deus quizer avemos de ter nem que chova sangue. Mande-me contar algumas notícias de minha mãe e fassa o favor de dizer para ella que nós imos todos bem grassas a deus e dê Muitas lembranças para a comadre Clará e para minha mai Luiza Derfina Vebre. Se for pocivel requisitar meus jornais. Mande-me por o primeiro portador.” (O Dia, Florianópolis, 6, março, 1914).
Venuto Baiano

O comandante maior dos caboclos acampados em Caraguatá é Venuto Baiano, em torno de cujo nome formou-se uma verdadeira lenda de banditismo, de esperteza e de coragem.

Em várias ocasiões, a Força Pública deixou de pôr-lhe as mãos. Ele sempre escapa, mesmo com o sacrifício de sua escolta, que nunca é maior do que 20 homens.

A fama do “comandante” vem de longe.

Venuto Baiano era o apelido de Benevenuto Lima, ex-marinheiro de guerra. Era da Bahia. Estava na região desde o final da Revolução Federalista e Campanha de Canudos. Fixou residência na Campina do Bode, uma fazendola na margem do Rio Tamanduá. Era amigo de Demétrio Ramos e com ele participou das escaramuças no Timbó em 1905-1906. Depois que Demétrio foi embora, para evitar perseguições, ficou “amigo” dos paranaenses.

Amigo de Eusébio Ferreira dos Santos, ele esteve em Taquaruçu entre o primeiro e o segundo ataques à cidade-santa. Quando do segundo ataque, encontrava-se na região de Canoinhas, onde foi buscar gente (e conseguiu arrebanhar mais de 100 homens), por isso não combateu. Exerceu o papel de instrutor da arte-de-guerra dos fanáticos, tanto em Taquaruçu quanto em Caraguatá. Por causa disso foi declarado “inimigo” pelos paranaenses.

Baiano foi o articulador entre os dois grupos de “rebeldes”, que até então agiam separadamente. Um, no Timbó, motivado pela questão de limites, que tinha à frente Conrado Grober, Bonifácio dos Santos, Antonio Tavares e Aleixo Gonçalves de Lima. Outro, em Caraguatá, motivado pelo messianismo, que era liderado por Eusébio Ferreira dos Santos, Elias de Moares, Alexandre de Souza, Francisco Paes de Farias e o próprio Venuto Baiano.

Durante a construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, ao longo do Rio do Peixe, 1907-1910, Farquhar contratou-o para integrar a força policial particular encarregada da segurança dos dirigentes da empresa e dos operários da ferrovia. O grande número de assassinatos de trabalhadores, nos quatro anos de implantação dos trilhos, atribuído até aos índios, é creditado à estranha força policial.

Em 1911, quando, mais uma vez, a Polícia do Paraná invadiu o território do município de Canoinhas, portanto região de Santa Catarina, Venuto Baiano serviu de guia aos invasores. Nos começos de 1914, o vaqueano dos militares paranaenses entrou para a irmandade dos fanáticos e se tornou “comandante de briga” no Caraguatá.

Nas incursões para fora do reduto, ele não dorme junto com a escolta: pousa com ela. Mas, quando todos adormecem, mete-se algumas centenas de metros pela mataria adentro até encontrar um abrigo bem seguro.

A última. Depois que as forças do coronel Gameiro saíram de Rio Caçador para enfrentar o Caraguatá, Venuto entrou na estação, com seu piquete, e forçou o telegrafista a transmitir ao Diário da Tarde, de Curitiba, um telegrama em que os fanáticos se declaravam solidários com o Paraná na disputa pela larga faixa de terras à margem esquerda dos rios Negro e Iguaçu.

Nesse tempo, no local, havia apenas a Estação e o Armazém Gaertner, que foram as primeiras construções da atual cidade de Caçador.
Guerreira iluminada

A menina Maria Rosa, 15 anos, filha de Elias de Sousa, o Eliazinho da Serra, no decorrer da sangreira do Contestado, ocupa um papel bastante similar ao de Anita Garibaldi na Revolução Farroupilha.A filha do pequeno agricultor, que se tornou fanático, acompanhou a família quando o pai decidiu entrar no reduto de Taquaruçu.

Algumas semanas antes do ataque das forças legais, Elias de Sousa e a família marcharam para o refúgio de Caraguatá.

“Maria Rosa não sabia ler nem escrever, mas falava com desembaraço. Andava com um vestido branco, enfeitado de fitas azuis e verdes e de penas de pássaros de todas as cores. Era ela que, nas procissões, marchava à frente, carregando uma grande bandeira com a cruz verde.”

Os acampados consideram a jovem uma santa e alguém que tudo sabe.

De imediato, Maria Rosa é reconhecida como intérprete das vontades do monge. Assume a posição, dá ordens, indica e substitui os chefes para as diversas missões do dia-a-dia, dentro e fora do acampamento.

A personalidade da adolescente dinamiza a vida no Caraguatá quando ela consegue a adesão do subdelegado do distrito, do juiz de paz e de quase todos os habitantes de São Sebastião das Perdizes, proximidades do reduto.

O porte esbelto e o sorriso permanente marcam a presença da jovem em qualquer ambiente. Mas nos momentos de tomar decisão, ela assume a postura de uma estrategista, demonstrando conhecimentos muito superiores à idade e ao nível cultural em que vive.

Todo o reduto conhece o episódio que ocorreu com Nhôca Quadros. Um dia, o moço aparece no reduto para buscar a noiva ali recolhida com a família. Tomado por espião, é preso. Maria Rosa manda chamá-lo, já com a sentença tomada. “Se ele ficar companheiro, mando amar ele; se ficar contrário, mando degolar.”
Socialismo caboclo

Em 26 de outubro de 1917, trabalhadores em armas, soldados e marinheiros comandados por Lênin tomam o poder na Rússia e proclamam uma nova maneira de governar, baseada em dois princípios:


– Toda a terra aos camponeses;
– Todo o governo à ditadura do proletariado.

Quatro anos antes, nos sertões do Planalto Serrano de Santa Catarina, a irmandade cabocla que vive no reduto de Caraguatá orienta-se pela mesma filosofia.

“Quem tem mói; quem não tem mói também, e no fim todos ficarão iguais”.

As propriedades e os bens dos caboclos que decidem incorporar-se ao reduto são postos em comum. O gado e as lavouras são utilizados para o consumo coletivo; o dinheiro que cada um traz, entra para o “bolo”.

Os acampados Euzébio Ferreira dos Santos e Elias de Morais simplesmente abandonaram suas pequenas propriedades. Outros caboclos destruíram e tocaram fogo nos seus casebres e nas escrituras dos terrenos.

Era norma geral de comportamento no reduto:

– Do que um come tudo tem que comer. Todos são irmãos. Ninguém tem direito de vender nada para o outro. Tudo é dado para todos.

As necessárias posições de liderança para a ordem dentro do reduto ou para o êxito no momento do entrevero com as forças militares eram conquistadas no dia-a-dia da vida em comum.

Líder, para o caboclo, é quem apresenta determinadas destrezas como rezar, benzer, atirar, organizar estratégias militares para a defesa e para o ataque.

“Nos jagunços, não havia pai por filho, nem mulher por marido”, segundo as palavras de Maria Alves Moreira, acampada no Caraguatá.
Nuvem da salvação

Em princípios de abril de 1914, o enfrentamento das forças do governo com os “soldados” de São Sebastião está a ponto de explodir.

Elias de Morais, o comandante supremo, e Venuto Baiano, mentor das táticas para as operações bélicas do lado dos jagunços, concluem que o Exército Encantado da irmandade apresenta ótimas condições de responder ao ataque das forças legais.

São 3 mil homens prontos para manejar armas brancas (facas e facões) ou arma de tiro (revólver e espingardas), auxiliados por 200 caboclos mais do que peritos no manuseio de Winchesters e Mausers.

Mais de duas mil mulheres, maiores de 17 anos, junto com 500 crianças, estão prontas para, dentro da Guerra Santa da Libertação, também fazerem frente aos 2 mil soldados que vão iniciar a grande caçada.

Quanto ao futuro destino de Caraguatá, os caboclos acreditam que aquela pequena nuvem branca, que sempre rodeia o acampamento, é o próprio monge que protege o reduto. E, no momento oportuno, o santo José Maria vaia aparecer à frente do exército de 3 mil homens para conduzir os seus fiéis seguidores à vitória final.

Os acampados na fortaleza natural de Caraguatá não desejam iniciar as hostilidades e abrir o enfrentamento com as forças militares. Mas todos eles proclamam:

“Se formos atacados, o Zémaria, aquela nuvem que está ali, vai derrotar a tropa dos peludos e dos pés redondos.”

Como São José Maria no Irani, os caboclos desprezam a morte, pois não contam com a possibilidade de serem surpreendidos por ela.

“Morrer em combate é passagem para ressuscitar e vencer na guerra seguinte.”

Fora da irmandade do santo monge não existe salvação, garantem os quase 6 mil lutadores fanatizados pelo santo monge que, em forma de nuvem, protege o reduto de Caraguatá.
Prisioneiro bem tratado

Arcino Zacharias da Rosa, 20 anos, foi feito prisioneiro pela tropa do Exército. Entregue às autoridades policiais do Estado, ele está recolhido à Chefatura de Polícia da Capital.

“Sou filho do finado Vicente Zacharias da Luz. Tenho parentes na Palhoça. José Maria da Luz e Jorge da Luz são meus primos.

Estava eu na venda do meu amigo Pedro Carlin dos Santos quando fui aprisionado pelos fanáticos do Caraguatá e levado para dentro daquele reduto.

Ali chegando, minha cabeleira foi cortada a facão e, de leve, me fizeram uma cruz na testa à ponta de faca.

No reduto, havia muita gente, muitos homens e muitas mulheres. Devido aos saques ou às compras, havia à disposição de todos uma grande quantidade de roupas, fazendas, mercadorias.

Meninas, as tais virgens de seis a 12 anos, que viviam quase nuas quando estavam com seus pais, agora se apresentam bastante bem vestidas.

Na venda do Pedro, os fanáticos compravam fiado, garantindo que o monge passaria por lá e pagava tudo.

A muito custo, consegui escapar de Caraguatá. Disse que ia colher milho e fugi.

Antes de voltar para casa, prestei serviço às forças legais em Caçador. Não sei por que, o capitão Matos Costa me aprisionou e me trouxe para a Ilha. Não conheço o motivo.

Sempre fui muito bem tratado pelas forças do governo, tanto pelos oficiais quanto pelos praças.”
Guerra ao governo e à polícia

O capitão Matos Costa está à frente de uma coluna encarregada de proceder o reconhecimento do reduto de Caraguatá.

Entre os colegas de farda, o capitão é reconhecido pela maneira pouco militar com que analisa o comportamento dos caboclos envolvidos na luta contra as forças legais.

O capitão vive dizendo:

“Eles não são inimigos da ordem e da segurança pública. Apenas exigem condições de ter uma vida melhor.”

Para convencer os escalões superiores do Exército sobre essa nova ótica de encarar o problema do relacionamento entre os fanáticos e a tropa legalista, o capitão apresenta-se em Curitiba, acompanhado dos fanáticos José Fogliese, de origem alemã, e Alfredo de tal, brasileiro.

Em todas as oportunidades, os dois caboclos insistem em explicar que decidiram incorporar-se ao grupo de fanáticos porque Benevenuto Baiano lhes garantiu que o monge havia determinado aos sertanejos que, em nome de São Sebastião, eles declarassem guerra ao governo e à polícia. E repetem a ordem recebida:

“Todo aquele que fugir da guerra receberá vários castigos, entre eles o de ser envolvido pelas trevas durante três dias.”

José e Alfredo acrescentam ainda que seus companheiros vivem atemorizados e, por isso, obedecem cegamente a Venuto Baiano, que orienta os caboclos para enfrentar os soldados, fazendo contínuos exercícios de tiro e de marchas forçadas.

Quase ao mesmo tempo das declarações em Curitiba, 80 acampados fogem do reduto de Caraguatá e se apresentam às autoridades paranaenses pedindo proteção, pois desejam retornar à vida normal que tinham antes de unir-se ao grupo de fanáticos.
Na boca do reduto

No dia 6 de março de 1914, duas colunas militares, entre elas soldados da Polícia de Santa Catarina, acampadas em Rio Caçador, entram floresta adentro dispostas a desalojar os atrevidos moradores de Caraguatá, refúgio de muitos fanáticos que haviam escapado à destruição de Taquaruçu.

A primeira coluna, 400 homens, e a segunda, 355, estavam sob o comando do tenente-coronel José Capitulino Freire Gameiro.

Também integra a tropa legal um destacamento de cavalaria, sob as ordens do capitão Zaluar.

Três dias são gastos no trajeto a pé, entre a estação da estrada de ferro e o local do futuro entrevero. A marcha é lenta porque os soldados precisam mover-se por estreitas picadas e com lamaçais que, muitas vezes, se elevam acima dos joelhos.

No dia 9, pela manhã, chega a ordem do assalto. A decisão, por escrito, é enigmática. Não vá ela cair nas mãos dos terríveis bombeiros.

“Amanhã, a expedição marchará a… hora para lugar desconhecido”.

Bobagem. Tivesse o coronel comandante lido o jornal O Dia, de Florianópolis, de 6 de março, teria esbarrado com esta notícia:

“O capitão Euclides de Castro, delegado regional de Campos Novos, declarou ter-se encontrado com um grupo de fanáticos, dos quais aprisionou um deles, que declarou haver entre os fanáticos de Caraguatá uma grande animação para a luta, devendo a força militar ser atacada duas léguas antes de Caraguatá.”

Como os caboclos não encontram diferença entre a idéia de “légua” (seis quilômetros) e “quilômetro”, o lugar já havia sido anunciado três dias antes: o “lugar desconhecido” seria exatamente a boca do reduto.

Ao entrar na picada que se dirige para o reduto, dois quilômetros antes da fortaleza, os soldados do governo recebem “nutrido fogo pela frente e pelos lados. Os jagunços atiram de dentro da mataria sem serem vistos.”

Dado o toque de retroceder, as forças legais contam o desastre. Há 28 mortos, entre eles um capitão, um tenente e 26 praças; 21 soldados feridos e três extraviados.

A tropa do governo nem chegou a descobrir onde estava plantado o “local desconhecido”, que era o reduto de Caraguatá.
Carnificinas e loucuras

No seu livro, em preparo, A Irmandade Cabocla de Caraguatá, o historiador Nílson Thomé descreve detalhadamente o sangrento e irracional encontro armado entre os soldados e os caboclos, através do depoimento de participantes ou de estudiosos da guerra.

A um quilômetro de Caraguatá, os soldados foram vítimas da primeira emboscada. “Travou-se o tiroteio e eles foram desalojados e recuaram em fuga. Mais adiante, uma trincheira deles despedia balas sobre os nossos; tiroteio de parte a parte; montaram-se os canhões e um schrapnell foi desalojá-los, matando oito.

Continuávamos a avançar debaixo do tiroteio de suas emboscadas. Montam-se as metralhadoras para auxiliar a desalojá-los das trincheiras e emboscadas. Neste andar, de onde em onde, uma emboscada ou uma trincheira”.

Como a configuração do terreno não permitia bom aproveitamento das metralhadores e dos canhões, a infantaria atacava pelos flancos da coluna, mas também com pouco sucesso. Mesmo assim, “a fuzilaria travava o tiroteio na direção dos seus disparos, no que era auxiliada pelas metralhadoras; a artilharia atirava sobre suas trincheiras. Os canhões vantajosamente vomitavam morte e destruição.”

Mostrando ser profundo conhecedor de estratégias de guerra, no lado noroeste de Caraguatá, junto ao acesso pela estrada a Perdiz Grande, Venuto Baiano dispôs os defensores em pequenos grupos, de nove a 15 elementos cada, posicionados a cerca de 100 a 200 metros um do outro, escondidos dentro de troncos de imbuias queimadas, por trás de grossos pinheiros e em trincheiras rasas cavadas nas elevações do terreno.

Os soldados lutavam irritados, pois viam seus companheiros ser abatidos pelas Winchester e Comblaim e não enxergavam os caboclos. “A posição deles era somente conhecida pela fumaça dos tiros de Winchester, sendo essa fumaça o único ponto de mira dos soldados”, relatou o tenente Edgard Facó. (Deve haver equívoco neste relato, pois o disparo de Winchester não forma fumaça, mas sim o de Comblaim).

Por volta das 13h, quando conseguiu chegar no passo do Arroio Canhada Funda, a cerca de 500 metros do quadro santo de Caraguatá, a infantaria obteve permissão para tentar desalojar a resistência nos flancos da coluna à baioneta. Era o que os caboclos queriam. Na luta corpo-a-corpo, as baionetas e as espadas dos militares foram superadas pelos facões dos sertanejos. “Estabeleceu-se a confusão entre os soldados, que ficaram desorientados diante da inferioridade”.

Os soldados eram cortados, degolados e picados pelas afiadas lâminas. O Exército sentiu a carnificina até no seu Serviço de Saúde, o qual, instalado na retaguarda, foi atacado por trás e salvo da destruição pelo contingente que acompanhava o capitão Vieira da Rosa, após o que “a vanguarda ainda tiroteou por alguns minutos, desalojando a última trincheira, depois do que cessou o fogo por não mais responder o inimigo”. Os sertanejos suspenderam o tiroteio quando viram que as forças começaram a se retirar, assim economizando munição, ao mesmo tempo em que começaram a festejar.

Depois de seis horas de combate, por volta das 15h30min, ciente de que, se continuasse a tentar avançar, as forças seriam destroçadas, o tenente-coronel Gameiro mandou tocar a corneta de cessar-fogo, decidindo parar o ataque e voltar para Perdiz Grande, levando os corpos de 28 mortos (um capitão, um tenente, dois sargentos e 24 praças), os 21 soldados feridos e um sem-número de estropiados.

Ali, no cemitério do arraial, montado o acampamento, foram sepultadas as 28 vítimas fatais e verificado que três soldados estavam extraviados. “A expedição pernoitou em Perdizes. A pequena igreja de São Sebastião serviu de hospital de sangue. Os médicos, durante a noite, faziam curativos, à luz baça de uma velha lanterna, minorando a dor dos feridos. No dia seguinte, pela manhã, enterrou os mortos no cemitério do vilarejo”.

Dois dias depois, os caboclos dirigiram-se à abandonada Perdiz Grande e desenterraram os soldados mortos. Para a crônica militar, “haviam sido desenterrados os cadáveres e as carnes pútridas serviam de pasto aos porcos famintos. A jagunçada visitara o cemitério improvisado, cometendo ali uma série de ferocidades.

Entre outras misérias, deceparam os dedos dos soldados para retirarem os anéis ordinários” ou “foram eles desenterrados pelos bandidos, saqueados, picados a facão e entregues à saciedade de porcos!”

Sobreviventes do combate relatam que, de verdade fizeram isso, mas, também, que a maioria dos cadáveres foi levada para as proximidades da estrada que ligava Caraguatá a Perdiz Grande, na passagem do Arroio Caraguatá, onde foram amarrados pelo pescoço, enforcados e pendurados em galhos de pinheiros para que o mau cheiro da putrefação se espalhasse por todo o sertão e servisse para mostrar ao Exército e à Polícia o que lhes aconteceriam se tentassem novamente investir contra o reduto.
Luto e vingança

Bem no estilo da época, os jornais de Santa Catarina noticiam o entrevero na boca de Caraguatá, entre os caboclos do reduto e as forças militares que estão à caça dos jagunços.

“Impressionaram dolorosamente à população catarinense as notícias chegadas dos sertões onde operam as forças legais contra os fanáticos e os bandidos.”

No combate morreram 28 militares e 21 ficaram feridos, sem contar os três que se encontram extraviados.

O trauma do catarinense da Capital é muito forte, uma vez que boa parte da tropa em operação está vinculada a famílias que vivem na região. A lista dos mortos inclui pessoas muito conhecidas, como o capitão Alves Pinto, o tenente Belísio Leite, os sargentos Adolpho Monteiro e João Nunes, além de vários praças, todos eles do 54º Batalhão de Caçadores, respeitado quartel do Exército, de Florianópolis.

Em sinal de luto, as casas de diversões não funcionam no dia 11. No dia 16, na Catedral Metropolitana, foi celebrada Missa de Sétimo Dia, em memória às vítimas, com a presença do governador e das autoridades.

A revolta das famílias dos militares atingidos é muito forte porque alguns dos mortos foram vitimados no ataque ao “hospital de sangue”, barraca montada à retaguarda, em plena floresta, para atender aos soldados feridos. Uma quebra frontal a todos os códigos, sempre respeitados pelos envolvidos em qualquer tipo de guerra.

A dor entre as famílias da Capital concorre com a sede de vingança dos militares que participaram da operação, mais uma vez recolhidos à estação de Rio Caçador para se refazerem da refrega.
Mais uma retirada

A perda de meia centena de militares em operação contra o reduto de Caraguatá demonstra ao comando das operações legais um tipo de “inimigo” que não está descrito nos manuais de estudo, utilizados na escolas militares, mais ou menos bem traduzidos do francês.

À boca pequena, todos os catarinenses comentam a nova tática dos caboclos armados: “Antes de serem varridos à metralhadora, em Taquaruçu, os fanáticos não atacavam o Exército. Agora, o fazem. Claro que é por vingança pelo massacre das mulheres e das crianças, que não tiveram tempo de escapar do reduto destroçado pelos dois canhões, colocados a poucos metros do reduto.” (Folha do Comércio, Florianópolis, 28 de março de 1914).

O tenente-coronel Gameiro, comandante-geral das forças em operação contra o Caraguatá, em relatório ao general Alberto Ferreira de Abreu, inspetor da XI Região Militar, com sede em Curitiba, não esconde que a expedição regressou sem ter conseguido penetrar no reduto, sem poder perseguir e nem tampouco conhecer dos estragos que poderia ter causado. Para o chefe militar do desastre, o reconhecimento ao ninho dos rebeldes decorreu, “à viva força”, já que o contingente foi atacado em caminho, dentro da mata.

Pelas palavras do autor do documento conhecido como Parte de Combate, o inimigo foi “levado de vencida” até a proximidade do acampamento. E se os militares tiveram 28 mortes, os jagunços perderam 37 atiradores. A estranha vitória, narrada pelo comando das operações, conclui que teria sido temerário o ataque final ao reduto. Isto porque os caboclos estavam dispersos nas matas, aguerridos e armados. O comandante não podia esconder: acontecera mais uma retirada. E pela quinta vez desde que foram iniciados os enfrentamentos.
Pouco dinheiro e muita doença

No local denominado Cachoeira, dentro do território Contestado, o Paraná conta com um forte contingente militar composto por um major, dois capitães, dois tenentes, quatro oficiais e 180 praças. Um pouco distante de Cachoeira, na vizinhança de Calmon, está a sede da Fazenda dos Pardos, e nela se aloja a tropa da Polícia Militar de Santa Catarina, com três oficiais e pouco mais de 70 praças.

Os catarinenses decidem fazer uma visita de cortesia aos vizinhos. Afinal, os dois destacamentos podem entrar em luta, passo a passo, contra o inimigo comum: o caboclo armado que não se deixa ver na hora do enfrentamento. Os paranaenses oferecem um “lauto jantar” aos companheiros barrigas-verdes. Mas a gentileza não pode ser retribuída. Os “catarinas” estão sem fundos.

No encontro entre os dois destacamentos, conversa vai, conversa vem, entra a questão dos soldos e das diárias recebidas em tempo de guerra. Um escândalo, a diferença. O major do Paraná recebe uma diária de 10 mil réis; o capitão, oito mil; o tenente, seis mil, e o alferes, quatro mil. Os catarinenses ficam tristes, pois os oficiais do lado de cá não recebem nenhuma vantagem, a não ser o miserável reforço de um mil réis por dia.

Depois de Taquaruçu e Caraguatá, a maioria dos praças da Polícia Militar acha-se doente. Baixaram ao hospital 28 soldados e dado parte de doentes, cinco oficiais. O contingente está reduzido a três oficiais e 70 praças. Muitos já terminaram o tempo estipulado para a missão de guerra e não querem continuar.

Nos Pardos, o destacamento da Polícia Militar de Santa Catarina foi “dispensado” no final de março pelo comandante-provisório da expedição, tenente-coronel Adolpho de Carvalho (que substituiu a Gameiro até a chegada do novo comandante, general Carlos de Mesquita). Da mesma forma, as forças do Paraná foram convidadas a se retirar de Cachoeira. A catarinense foi para Canoinhas, e a paranaense, para Vila Nova do Timbó.
Vendaval de fogo

O tremendo sucesso do Exército Encantado de São Sebastião contra as tropas do governo, na boca do Caraguatá, sedimenta o entusiasmo da caboclada aguerrida, que resolve inundar todo o Planalto Norte. A região é propícia para a investida. As tropas da Polícia Militar de Santa Catarina e do Paraná vivem aos empurrões e às tropelias, já que o Paraná se considera dono de uma larga faixa de terra no lado de cá dos rios Negro e Iguaçu. E entre os rios Timbó e Paciência, um destacamento do Exército impede o enfrentamento entre as forças policiais dos dois estados.

A guerra santa dos caboclos não é mais apenas para defender o reduto. Ela se movimenta na mira da arma de fogo, que sai atirando em todas as direções. Famílias inteiras fogem. Não existe mais o poder de polícia ou a força da lei e da autoridade. E, ainda por cima, no Caraguatá, a vidente Maria Rosa anuncia que não está longe o momento em que a força do governo vai estar de volta.

Mal passadas três semanas do enfrentamento com as forças legais, Caraguatá levanta acampamento. Um dos principais motivos da retirada foi o tifo. Muitos caboclos morreram sem qualquer assistência. Maria Rosa, qual Joana d’Arc, encabeça a forçada peregrinação. Famílias de fanáticos, a pé, a cavalo, trouxas à cabeça, carregam objetos ou tocam dezenas de cargueiros. O cortejo fecha com 100 homens a cavalo, para garantir a retaguarda.

O novo reduto se chama Pedras Brancas, nos Campos do Bom Sossego, perto das nascentes do Rio Paciência. Em poucos dias ergueram-se bairros inteiros de casebres improvisados de madeira.

Em meados de maio, nova tropa do governo marcha sobre Caraguatá. O reduto foi encontrado vazio. A caboclada tinha sumido.
Cinco contra um

Com o vergonhoso duplo fracasso do assalto a Caraguatá, o governo federal decide entregar a operação de comando pelo resgate do Contestado a um general do Exército. Em meados de abril, o general Carlos Frederico de Mesquita é indicado pelo ministro da Guerra para ser o novo comandante. O primeiro passo da nova autoridade é conceder uma entrevista aos jornais do Sul do Brasil.

– General, qual será o seu plano de ação?

– A minha missão não é de extermínio. Empregarei todos os meios suasórios para chamar ao aprisco os infelizes fanáticos.

– E se as atenções pacíficas não derem resultado?

– Procurarei estabelecer um cerco apertado para que eles se rendam. As hostilidades das forças sob meu comando somente romperão se eles nos atacarem.

– Qual o efetivo das forças que o general Mesquita presume poder organizar?

– Talvez uns 2 mil homens, neles incluídos tropas de infantaria de Santa Maria, esquadrões de cavalaria de Curitiba e o 54º Batalhão estacionado em Santa Catarina.

– É grande o número de fanáticos?

– Tenho informações que devem ser uns 400 ou 500.

– Pouca gente para tanto soldado, não?

– Não há dúvida. Mas não é a força numérica que devemos atender. É o sistema de guerrilhas no mato que os fanáticos adotam. Além disso, os fanáticos são audaciosos e valentes. Lançam-se à luta temerariamente e atacam as forças legais até a facão. Apesar disso, tentarei, quanto for possível, alcançar a volta da normalidade de um modo bastante pacífico.

– E se isso não for possível?

– Então procederei com energia para restabelecer a calma e a ordem nos lugares em que campeiam os fanáticos. (O Dia, 14 de abril de 1914)

O general estava completamente equivocado. O Exército Encantado já contava com 3 mil caboclos dispostos a conquistar a vitória prometida pelo santo monge.
Parte VI
O terror da vingança

A Primavera de 1914 espalha o terror entre a população civil do Planalto Sul.

As forças legalistas descobrem-se incapazes de enfrentar os bandoleiros, que se multiplicam pelas noites afora e pelos campos adentro.

A vila de Curitibanos é praticamente destruída. Lages e São Joaquim escapam do festival da morte, mas centenas de famílias da borda do Planalto voam Serra abaixo, no desespero da sobrevivência.

Enquanto isso, o novo comandante das forças militares, o general Fernando Setembrino de Carvalho, enreda-se nas malhas da política e no despreparo de suas tropas para fazerem frente ao ódio posto a serviço da vingança a qualquer preço.
Guerrilha de fanáticos e políticos

Nos primeiros dias de setembro de 1914, o Planalto Norte de Santa Catarina é submetido a um permanente estado de terror. Para um jornal de Florianópolis “a situação anárquica dos nossos sertões, assolados por um bando de bandoleiros fanáticos, tornava-se cada vez mais crítica e ameaçadora.” (O Dia, 11 de setembro de 1914).

As preocupações dos habitantes da região assentavam-se em dados evidentes. Os fanáticos abandonavam os entrincheiramentos, espalhavam-se por toda uma vasta zona, atacavam povoados, seqüestravam alimentos e matavam a três por dois.

Nessa onda de violência dos novos bárbaros, as cidades de Porto União da Vitória, Rio Negro, Curitibanos, Campos Novos, Canoinhas, Itaiópolis (antiga Colônia Lucena) e mais os povoados de Vila Nova do Timbó, Papanduva e Três Barras, sede do imperialismo norte-americano na região, reclamam a proteção dos militares.

Para complicar ainda mais a situação e o estado de pânico, o inspetor da 11ª Região Militar, general Alberto de Abreu, já com substituto indicado, atribui ao governo de Santa Catarina a responsabilidade de ter entregue armamento aos guerrilheiros para atacarem o território contestado pelo Paraná.

As declarações da maior autoridade do Exército, com jurisdição sobre o Paraná e Santa Catarina, repercutem feio na Câmara Federal.

Segundo o deputado catarinense Celso Bayma, “as palavras do general não passam de uma agressão irresponsável ao governador Vidal Ramos, que chegou a sacrificar as obras de saneamento da Capital para aplicar os recursos no combate aos fanáticos.”

O general e o deputado perdem o seu tempo e apenas tentam colher aplausos entre as respectivas platéias do Paraná e de Santa Catarina, uma vez que Alberto de Abreu já fora substituído pelo general Setembrino de Carvalho e em menos de 15 dias o governo de Santa Catarina seria entregue a Felipe Schmidt, também militar, e líder do Partido Republicano Catarinense. Por sinal, ex-governador entre 1898 e 1902.
Convicções de comandante

Depoimento do general Setembrino de Carvalho.

“Eram do domínio público os insucessos das expedições anteriores, cujas causas eu não aprecio; mas em meu relatório, apresentado ao senhor ministro da Guerra, eu descrevo as operações efetuadas pelos meus dignos camaradas que as dirigiram.

Foi no Exército onde os seus efeitos repercutiram com mais intensidade, pois vimos tombar no campo da luta bravos e esperançosos oficiais, sem o conseguimento do objetivo desejado.

E como não é raro ver-se a razão por instantes suplantada pelo erro, inversão motivada ou pela deficiência de meios para julgamento dos fatos que nos impressionam, ou porque estes ao nosso juízo chegam transfigurados, gerou-se a opinião nos meios militares de que não era coadunável com as funções do Exército o ato de perseguição aos fanáticos, cabendo exclusivamente às polícias dos estados conflagrados. Como conseqüência, chegaram-me pronunciamentos atribuídos a oficiais desta e da guarnição de Curitiba que, se não fosse eu dotado de certa fortaleza moral, me teriam compelido a desistir da empresa, solicitando demissão de um cargo mesmo sem ainda o ter exercido.

Semelhante modo de pensar dos que julgavam deprimente ao Exército sua intervenção contra os bandoleiros, seria perfeitamente exato se se tratasse de uma rebeldia de insignificantes conseqüências; mas, o que o país inteiro presenciava era o trágico espetáculo atentatório dos seus foros de povo civilizado, espetáculo cuja ação se desenvolvia em um vasto cenário, onde os atores contavam-se por milhares.

E a prova mais cabal de que a polícia dos dois estados era impotente para derrotar os baluartes do fanatismo, consiste em que haviam sido infrutíferos os esforços das expedições do Exército que contra eles foram enviadas. Não era lícito, pois, compartilhar dessa opinião.
Um trágico espetáculo

Em 11 de setembro de 1914, o general-de-brigada Fernando Setembrino de Carvalho desembarca em Curitiba para assumir o cargo de inspetor permanente da 11ª Região Militar. Ao mesmo tempo, o ex-interventor militar do Ceará é designado, interinamente, para executar o serviço de limpeza do Contestado e de “suprimir os desordeiros que em Santa Catarina e no Paraná atentavam contra as autoridades da União e dos dois estados.”

O general vem precedido de nada boa fama, desde suas intervenções na Revolução Federalista e na Campanha de Canudos. Como interventor militar no Ceará para pôr fim ao caos instalado por questões de ordem interna, ele havia atraído os rancores de uma forte camada de políticos com prestígio nacional.

Dentro do Exército, o novo cargo do general também provoca constrangimentos. Grande parte dos comandantes de tropas, inclusive o general Carlos de Mesquita, que estivera no Contestado uns poucos meses antes, defende a premissa de que não cabe às tropas federais e sim às polícias estaduais perseguir os bandoleiros que infernizam o Planalto de Santa Catarina.

O general se defende e aplaude a tarefa que recebeu do Ministério da Guerra: “O modo de pensar dos que julgam deprimente ao Exército sua intervenção contra os bandoleiros seria perfeitamente exato se se tratasse de uma rebeldia de insignificantes conseqüências. Acontece que o país inteiro presencia um trágico espetáculo atentatório aos seus foros de povo civilizado, espetáculo cuja ação se desenvolve em um vasto cenário, onde os atores contam-se por milhares.”

Setembrino de Carvalho aponta como prova do que afirma o fato que as polícias de Santa Catarina e do Paraná se haviam mostrado incapazes de liquidar os focos de fanáticos que haviam explodido no Irani, em Taquaruçu e no Caraguatá.

O general pensou mas não disse que o governo da União desconfiava da fidelidade das duas forças estaduais, já que elas viviam se enfrentando na região de Canoinhas-Porto União da Vitória desde os últimos anos do século anterior.
Autoridades novas, idéias secretas

A Primavera de 1914 traz modificações substanciais no desenrolar da guerra entre as tropas militares e os caboclos em armas.

No dia 11 de setembro, o general Setembrino de Carvalho assume o comando das tropas federais em ação no território conflagrado, e o também militar, Felipe Schmidt, é empossado governador de Santa Catarina no dia 28.

Mal terminado o mês de outubro, em Curitiba, confirma-se o boato de que o general Setembrino havia escrito uma carta ao governador catarinense. O documento confidencial – como veio a público, ninguém sabe explicar – analisa o problema dos caboclos rebelados. O general comandante manifesta a opinião que o conflito, alimentado pelos fanáticos do monge José Maria, tem como origem dois problemas centrais: a posse das terras em que os caboclos vivem e trabalham e a questão dos limites entre os dois estados.

Setembrino de Carvalho deseja marcar um novo rumo à questão e se oferece como intermediário para tentar um acordo.

O governador catarinense não se manifesta sobre a carta recebida, mas o general confirma a expedição e o destinatário. “Dirigi ao meu amigo e companheiro de armas, coronel Felipe Schmidt, uma carta confidencial, particular, na qual externei o meu modo de apreciar, como cidadão patriota e republicano, a situação delicada dos dois estados em cujo território, contestado por ambas as partes, estão ocorrendo gravíssimos acontecimentos a que me cumpre pôr um paradeiro”. (O Dia, 31 de outubro/13 de novembro de 1914).

O coronel não faz eco ao general. O texto era tão secreto que morreu nas mãos do destinatário.
As quatro linhas do ódio

O general Setembrino de Carvalho assume o comando geral das operações militares contra os guerrilheiros do Contestado em 11 de setembro de 1914. Antes de completar os 30 dias de comando, o chefe supremo da caçada aos bandidos divulga o “Plano de uma pequena guerra”. O documento traz pouca ou nenhuma originalidade, uma vez que repetia, em escala maior, as táticas militares do frustrado assalto ao reduto de Taquaruçu, nos últimos dias de dezembro do ano anterior, e do nervoso comando do general Carlos Frederico de Mesquita, que mal se agüentara 30 dias à frente das tropas do Exército, em abril/maio de 1914.

Para o novo estrategista, o conjunto da tropa sob suas ordens foi dividido em quatro destacamentos denominados Linhas Norte, Sul, Leste, Oeste. As sedes das operações no teatro da guerra foram localizadas nas vilas mais populosas da respectiva região conflagrada: Canoinhas, Curitibanos, Rio Negro e Porto União da Vitória.

Uma parte da tropa deveria ocupar os pontos de maior concentração populacional, por onde os sertanejos costumavam comunicar-se ou abastecer-se. A outra parte, em colunas móveis, penetraria pouco a pouco nos sertões para localizar os rebeldes e exterminá-los. Para executar o seu projeto, o general-comandante solicita do Ministério da Guerra um contingente de 6 mil soldados e um sistema completo de radiotelegrafia para orientar diretamente os seus camaradas no campo das operações.

Setembrino de Carvalho faz ampla divulgação do seu plano na esperança que, ao tomar conhecimento dele, os guerrilheiros decidam entregar-se. Por uma série de razões ainda não bem contadas, o plano do general só foi desencadeado em janeiro de 1915, quando o ódio dos guerrilheiros contra as autoridades militares, contra os políticos civis e contra os coronéis donos das terras tinha atingido o ponto mais alto da soma de todos os ódios.
Paz na terra aos jagunços de boa vontade

Logo nos primeiros dias de comando, o general Setembrino de Carvalho depara-se com o estado precário em que se encontram os corpos encarregados de garantir a segurança na região. Faltam homens, armamentos, munição, estratégias para o ataque e para a defesa.

Pior ainda foi descobrir o evidente contraste entre a situação das tropas militares, que estão desmotivadas, ao lado do furor com que os sertanejos espalhavam o pânico à vasta região em conflito.

Diante dos vergonhosos fracassos das tropas legais anteriores postas à caça dos caboclos em armas, o novo comandante transforma-se em diplomata quando oferece uma saída honrosa, esperando a conversão dos jagunços de boa vontade.

De repente, portas de bodegas, esquinas das cidades, das vilas e dos povoados, estradas de acesso aos pequenos redutos que foram nascendo depois de Caraguatá, casas de gente de bem, chácaras e fazendas dos coronéis, tudo está enfeitado com um papel colorido que contém impresso um apelo contendo a voz do general.

Pena que quase 100% dos fanáticos sejam analfabetos. Se não o fossem, poderiam ter lido: “Dirijo um apelo aos habitantes da zona conflagrada que se acham em companhia dos fanáticos para que se retirem, mesmo armados, para os pontos onde houver forças, a cujos comandantes devem apresentar-se”.

Setembrino de Carvalho não desconhece que no Planalto Norte a guerra é dirigida contra os coronéis ladrões de terras e contra o governo do Paraná, que dá razão aos larápios e garante a propriedade com a força das armas. E ainda por cima, o novo comandante escolheu como colaboradores um grupo de civis e de policiais paranaenses, além de oficiais do Exército que moravam em Curitiba. Para o militar gaúcho, a região do Contestado pertencia ao Paraná e não a Santa Catarina.

É por isso que está escrito no “Apelo”: uma vez apresentado às forças militares, ou no próprio local da entrega das armas, o jagunço arrependido receberá meios de subsistência “até que o governo do Estado do Paraná lhes dê terras, das quais se passarão títulos de propriedade”.
Sem medo de jagunço

Das memórias do deputado estadual Enedino Ribeiro.

“No dia 16 de setembro de 1914 chega a notícia a Lages que um dos mais ferozes e temíveis bandoleiros, o Castelhano, fora destacado, com numeroso bando, para atacar a nossa cidade, que seria incendiada e as famílias desonradas.

Diante da pavorosa ameaça do Castelhano e seu bando, os homens válidos da cidade se mobilizaram com as armas que tinham para resistir até a morte aos bandoleiros assassinos e ladrões.

Às nove horas da noite, tocava o silêncio e ninguém mais podia andar pelas ruas. Além disso, a qualquer hora da noite, a corneta tocava o sinal de sentido, avisando a população do perigo.

É fácil calcular o estado de alarme que se apossava das famílias em tais momentos.

Certa madrugada, chamaram o meu pai e perguntaram se ele tinha um vaqueano para guiar três homens até a trincheira atrás do Posto Zootécnico.

Os referidos cidadãos iriam levar munição e reforçar a guarda daquela trincheira, pois se dizia que os jagunços atacariam a cidade ao romper do dia.

Papai era um homem inválido. Não havendo outra pessoa em casa para desempenhar a missão, me perguntaram se me atrevia a ir. Eu já tinha meus 15 anos.

Aceitei a missão com alegria. Levei a Winchester de meu pai e guiei os três homens até a trincheira.

Eu não tinha medo e não queria voltar para casa. Meu desejo era assistir ao combate. Dada a minha situação de menor, tive que voltar para casa.”
Golias e o pequeno príncipe

As últimas semanas de setembro de 1914 espalham medos, sangues e mortes na região campeira de Lages, Curitibanos, Campos Novos e nas matas de Porto União da Vitória, Canoinhas e Rio Negro.

Dois aspectos da ação dos bandoleiros aterrorizam as populações atingidas: a ferocidade dos atacantes e a omissão das forças armadas. Está claro para toda a região envolvida na guerra que os bandidos de Golias se organizaram em duas poderosas frentes. A primeira compõe-se de bandidos que atacam as cidades para destruir e matar. A outra é representada pelos grupos que vivem em permanente atividade de assaltos e de pilhagens às fazendas para recolher animais, víveres e toda a sorte de mantimentos. Claro que estes últimos grupos, conhecidos como piquetes, também matam quando encontram resistência.

Os dois setores do banditismo agem em constante comunicação, embora estejam espalhados dentro de um território de cerca de 10 mil quilômetros quadrados entre Lages, Curitibanos e Caçador. Sempre a cavalo, os rebeldes movimentam-se livremente. Portanto, só seria possível detê-los com uma força militar bem ágil e bem montada.

Acontece que as tropas do general Setembrino de Carvalho destinadas ao Planalto Sul, integradas pelo 54º Batalhão de Caçadores, sediado em Florianópolis, mal somam 300 praças. Junto com um bisonho grupo de civis, disposto a guerrear, a tropa legalista manifesta total incapacidade de impedir a ação predatória dos bandidos.

Para uma grande parte dos moradores do Planalto, o general Setembrino vive entocado em Curitiba, de braços cruzados. Ele esqueceu a missão de combater os bandidos. Tudo indica que o comandante percorre um caminho alheio à sua missão militar, já que insiste na idéia de transformar-se em príncipe mediador entre Santa Catarina e o Paraná na questão jurídica e política dos limites entre os dois estados.
Mediador embrulhado

O general Setembrino de Carvalho, comandante das operações militares contra os fanáticos guerrilheiros do Planalto, mal assume o cargo e começa a deitar falação, que lhe rendem pesados aborrecimentos.

Pelos fins de outubro, com apenas 30 dias à frente do Poder Executivo catarinense, Felipe Schmidt já definiu que o Contestado é uma questão do governo federal e que Santa Catarina daria todo o apoio, dentro de suas possibilidades.

“O caso dos fanáticos, cujas conseqüências já têm sido muito dolorosas, está entregue à ação do governo federal, mas o Estado não pode deixar de coadjuvar, dentro de suas forças, em tudo o que se fizer mister”. (Folha do Comércio, 26 de outubro de 1914).

O general Setembrino não acerta o passo com o governador. O novo comandante militar entende que o movimento dos fanáticos apresenta como dínamo a questão dos limites. E ele, general do Exército, tem poderes para negociar um acordo entre os dois estados.

A opinião pública, principalmente os moradores do Planalto, reage a pedradas e fala bem alto para que o general escute, lá de sua toca, em Curitiba: “A questão dos limites pode ter contribuído para o ajuntamento inicial dos grupos de bandidos. Acontece que, a partir do segundo semestre de 1914, os fanáticos só tratam de saques, latrocínios, incêndios e assassinatos, que nada têm a ver com a questão de limites”.

Segundo um jornal de Florianópolis, a missão do general era aniquilar os bandidos e não exibir-se como mediador entre os estados, envolvidos num conflito jurídico de limites. (Folha do Comércio, 31 de outubro de 1914). O jornal exagera. O “conflito jurídico de limites só preocupava a minoria dos coronéis da Serra, temerosos de perder as imensas sesmarias caídas do céu e das graças da Santa Política”.
Brios de soldado ferido

Notícias e boatos tomam conta do estado de espírito da população e das forças militares encarregadas da segurança, enquanto os bandoleiros seguidores do monge José Maria cercam a cidade de Lages, dispostos a invadi-la.

No dia 19 de novembro, um jornal que faz oposição ao governo do Estado aborda o problema do medo generalizado. “Não há dúvida que o banditismo na região serrana constitui um perigo gravíssimo para a população e um problema muito sério para o nosso Estado, que se encontra sem nenhuma possibilidade de efetuar qualquer arrecadação nos municípios conflagrados. É escusado pretender diminuir a razão do pânico que tomou conta de todos os habitantes da Serra. É evidente que esses homens brutais, de instintos grosseiros e dispostos a toda sorte de crimes, não podem deixar de apavorar. Mas é preciso reconhecer que o medo tem sido excessivo.” (Folha do Comércio, 19 de novembro de 1914).

Essa história de “medo excessivo” provoca indignação dentro dos órgãos militares encarregados da segurança e do controle dos movimentos dos bandidos. Os ofendidos procuram o abrigo da imprensa para se defenderem do que entendem ter sido uma grave acusação.

“Nós, oficiais do 54º Batalhão de Caçadores, protestamos contra o gratuito ataque covardemente feito ao nosso brio de militares. Medo é o que não existe aqui. E nem jamais existiu entre a oficialidade, os soldados e os civis que pegam em armas para colaborar com a defesa.”

O protesto se transforma em desafio quando a oficialidade intima o jornalista da oposição, “se tiver brio”, a acompanhar as operações que os militares continuadamente realizam no Alto da Serra. (O Dia, 24 de novembro de 1914).

Para felicidade do jornalista convidado, em começos de dezembro os fanáticos suspenderam o cerco de Lages e se dirigiram para o Norte.
Desentendimentos caboclos e confusões militares

Durante o cerco à cidade de Lages, os líderes dos 350 fanáticos envolvidos na operação se desentendem feio. Castelhano, um dos chefes mais ousados do grupo, está decidido a promover a invasão o quanto antes, mas os outros dois líderes, Paulino Pereira e Chico Ventura, se opõem a fazê-lo enquanto não houver certeza do êxito.

Para evitar uma perigosa divisão dentro da irmandade invasora, fica decidido: “Os que quiserem ficar, ficam; os que quiserem ir que venham comigo”, teria desafiado Castelhano. Cento e trinta caboclos resolvem aderir à idéia da imediata invasão. Apertando o cerco para desferir o bote final, o grupo faz uma parada em uma fazenda a oito quilômetros da cidade.

Sem apresentar uma razão convincente, os rebeldes pedem licença ao comandante do destacamento do Exército, Dinarte de Aleluia Pires, para se dirigirem à igreja matriz e celebrar um culto religioso. Depois, todos iriam embora sem qualquer agressão. Claro que o estranho pedido é recusado. Como revanche à ousadia da proposta, um batalhão patriótico decide caçar os fanáticos e os obriga a retroceder alguns quilômetros.

Chico Ventura e Paulino Ribeiro abandonam a região. Mais uma vez Castelhano se opõe e fica praticamente sozinho. O guerrilheiro, atacado por um destacamento do 54º Batalhão de Caçadores, comandado pelo capitão Vieira da Rosa, em São Cristóvão, mesmo bastante ferido, consegue escapar. Ele decide voltar para os pampas. Seu companheiro fiel, Joaquim Germano, o “Nego Germano”, também ex-maragato, foge para a Serra do Espigão, onde veio a ser amigo inseparável de Adeodato, o futuro comandante-geral dos rebeldes.

Na passagem do Rio Pelotas, Castelhano, surpreendido por um piquete de civis, trava um pesado tiroteio com as forças legais e é morto. Lages explode em festas quando recebe como troféu as orelhas do “famigerado assassino”. Unânimes são os louvores que a população presta ao “ilustre major Valgas Neves”, comandante interino do 54º Batalhão de Caçadores, que havia tomado a iniciativa da perseguição eficaz aos bandoleiros.

As homenagens ao comandante interino, que havia decidido correr atrás do bandoleiro, foram vistas como uma ostensiva crítica ao coronel Aleluia Pires, comandante efetivo do batalhão. Semanas antes ele definira que sua tropa estava na região para guarnecer a cidade e não para entrar na perigosa aventura das operações ofensivas.
Hino à subversão

A região de Palmas, sudoeste do Paraná, noroeste de Santa Catarina, região do Contestado, vive longe dos ataques dos bandoleiros que infernizam a vida dos moradores de Lages, Curitibanos e Canoinhas.

Mas em Palmas, quase estoura uma guerra particular por causa do Hino de Santa Catarina, aquele que abre assim: “Sagremos num hino, de estrelas e flores/Num canto sublime de glórias e luz/As festas que os livres frementes de ardores/Celebram nas terras gigantes da Cruz!”

A quase guerrinha particular toma fôlego desse jeito. Os padres da cidade estão organizando uma banda de música e escolhem um mestre nascido em Santa Catarina. Daí, a Philarmonica Palmense entende afinar os instrumentos e aquilatar a versatilidade dos músicos com o Hino de Santa Catarina.

A partir do fato, correm duas versões: uma no Paraná, outra em Santa Catarina. A música mal sonante para os ouvidos dos patriotas paranaenses de Palmas exigiu a intervenção do delegado de Polícia para, com a força de sua autoridade, obrigar a filarmônica a calar-se. Caso contrário, baixos e trombones, clarinetes e flautins iriam transformar-se em armas de combate.

Nas terras de Santa Catarina correram outros sons. Ao ouvirem o seu hino, os catarinenses que vivem na cidade, e havia muitos, entravam a aplaudir a execução, pedindo “bis” e mais “bis”.

No fim da história, com o Contestado roncando também no outro lado do Rio do Peixe, os catarinenses de Palmas, com o coração rubro-verde ensopado de dores, ficaram calados, amarelos de raiva, à espera de tempos menos beligerantes.
Passaporte para o nada

O plano de guerra do general Setembrino para isolar os guerrilheiros e vencê-los, primeiro pela fome e depois pela metralhadora, estava pronto em fins de setembro de 1914. Mas a imediata marcha dos quatro destacamentos saídos de Canoinhas, Porto União da Vitória, Rio Negro-Mafra e Curitibanos, rumo ao sertão infestado de caboclos em armas, logo, logo mostrou-se inviável.

Era difícil vasculhar palmo a palmo 28 mil quilômetros quadrados de montes e de vales, de serras empinadas e de florestas impenetráveis, em contraste, nas planuras dos campos, com picadas e atalhos abertos em todas as direções. Tudo isso exigia a participação e o auxílio do próprio caboclo, bom conhecedor da região.

Sem a presença de vaquenaos nativos ou íntimos com a natureza e com a geografia do lugar a ser percorrido pela tropa, o soldado se perdia na amplidão do mataredo ou caía nas barrancas e nos banhados. E o perigo de ver-se perdido no meio do mato? Sem o apoio do guia, a tropa era presa fácil e o alvo preferido da certeira pontaria da caboclada em fúria.

Os sertanejos que chegam aos quartéis improvisados, para se oferecer como vaqueanos, não são confiáveis. Outros se recusam a colaborar com a tropa com medo da vingança implacável que desabava sobre o “peludo”, aquele que traía a irmandade: ser “refrescado”, o novo nome da degola sumária.

O primeiro passo da estratégia do general para sair da enredada em que os militares se haviam metido foi instituir a necessidade de um salvo-conduto para a população civil poder circular na região ou para sair dela. Com ou sem passaporte, os jagunços continuaram mandando para fora de seu território o couro do gado que era abatido e a erva-mate que era triturada.

Em troca do couro e da erva-mate, os caboclos adquiriram armas, munições de guerra, alimentos, remédios, e principalmente o açúcar e o sal. Este necessário à conservação da carne, transformada em charque.

A inutilidade do passaporte estava confirmada no fato de que os guerrilheiros negociavam com elementos infiéis da própria tropa para circularem à vontade na região e até para desencadearem ataques a localidades muito afastadas. Com o estratagema, desviavam a atenção dos colaboradores do general-comandante e podiam percorrer os campos para executar o arrebanhamento e a coleta.
Bandido nos campos, soldado nos quartéis

Setembro e outubro de 1914 são meses negros para todo o Planalto dominado pelos bandoleiros, que ainda se dizem seguidores de José Maria.

A partir do começo de setembro, os guerrilheiros do monge decidiram não mais atacar as tropas do governo na boca dos redutos, como haviam feito em Taquaruçu e Caraguatá. A nova estratégia substitui a defesa pelo ataque desencadeado por pequenos grupos que, às dezenas, agem dentro do mato e, às centenas, metem fogo nos campos e destroem as cidades.

Como primeiro passo, os caboclos em armas abandonam os seus redutos e se espalham pelos vales dos rios Marombas e Canoas, arrebanhando gado e alimentos e preparando-se para atacar centros populacionais.

O que mais impressiona as autoridades civis e militares é o grande número de mulheres e de crianças que acompanham os passos guerreiros dos rebelados.

Lages, Curitibanos, São Joaquim e Campos Novos, onde existiam os currais do coronel Vidal Ramos, vivem dias de pânico porque não há na região forças militares suficientes para deter os avanços dos rebeldes, que já praticaram toda a sorte de crimes. Era preciso defendê-los. Na alegria e na tristeza! Na riqueza dos coronéis-de-roça e na pobreza do povo.

Ao lado deste ímpeto dos rebeldes, o grupo de civis que colabora com as forças legais, os “patriotas”, está moralmente abalado pelo desamparo em que se encontra, quase sem armamento e com escassa munição.

Felipe Schmidt, com menos de duas semanas de governo, no dia 8 de outubro, despacha um desesperado telegrama ao general Setembrino de Carvalho pedindo reforços para impedir a destruição de novas cidades, lá no alto da Serra.

Resposta do general comandante das operações: “Tenho reclamado urgentes medidas para guarnecer a região do Planalto Sul. Apesar do senhor ministro ter ordenado a marcha do 5º Regimento de Cavalaria de Santa Maria, até hoje ele não saiu do Rio Grande do Sul por falta de pagamento dos soldos atrasados.” (O Dia, 11 de outubro de 1914).

Moral da burocrática situação: enquanto os vencimentos não vêm, os guerrilheiros vão vencendo.
Terror no Planalto Sul

Em fins de setembro, os caboclos, transformados em guerrilheiros, espalham o terror também no Planalto Sul, na região de Curitibanos e de Lages.

No dia 25, uma onda de 500 guerrilheiros, 200 dos quais montados, sob as ordens da família Sampaio e Oliveira, Agostín Saraiva, Olegário Ramos, Chico Ventura e Paulino Pereira da Silva, vindos do Marombas, aproxima-se da vila de Curitibanos. As forças militares tentam resistir fora dos limites da vila, mas são obrigadas a ceder, pois contam apenas com 30 homens. Depois de 12 horas de fogo, a tropa legalista perde três soldados e esgota toda a munição.

No ataque à cidade, várias construções são devoradas por um incêndio descontrolado, entre elas o prédio da Superintendência Municipal, a Estação Telegráfica, cinco estabelecimentos comerciais, o Cartório do Tabelionato, a Escola Pública, a Cadeia Pública e 18 residências particulares, inclusive a casa de moradia do coronel Ferreira de Albuquerque, superintendente do município. Também foram destruídas as instalações do jornal O Trabalho, de propriedade do mesmo coronel Albuquerque.

Em Lages, naquela última semana do mês, o aspecto é desolador. As casas de comércio estão fechadas, as repartições públicas, suspensas e as estradas que levam à cidade, semeadas de trincheiras guarnecidas dia e noite. O medo dos habitantes transforma-se em pânico quando se descobre que os fanáticos, em número de 300, estão acampados no Cerrito, a poucos quilômetros da cidade.

A situação em todo o Planalto Sul é muito séria porque, ao mesmo tempo em que metem fogo nas fazendas, os guerrilheiros arrebatam os animais que vão encontrando na sua marcha de destruição.
A casa que não ardia

Carta de um morador de Curitibanos a um amigo da Serra.

“É com o coração transpassado pela dor que venho por meio desta relatar-vos as tristes ocorrências da madrugada do dia 25 de setembro, em Curitibanos, praticadas pelos malvados fanáticos (se é que ainda tenham esse nome) numa série de acontecimentos horrorosos que compunge o mais duro coração humano.

Pelas três horas da madrugada, começou uma chuva fortíssima. Enquanto isso, os jagunços vinham vindo pela estrada geral, todos em forma.

Ao passarem em frente ao portão do local onde nos encontrávamos, demos uma descarga. Mas não pudemos repeti-la porque fomos de pronto cercados pelo inimigo.

Damos graças a Deus pelo auxílio da escuridão, de não sermos todos agarrados pelos bandidos.

Desta vez, fomos todos extraviados e os que ficaram na vila abandonaram-na com a chegada do inimigo.

Ao romper da aurora, estava nossa desventurada vila, toda sitiada, rompendo os bandidos uma vozeria infernal com estrepitosos vivas a São Sebastião, ao José Maria e à Monarquia.

Conservando-me de espia sobre os arredores da vila, pelas 8h, vi uma forma de fumo de vulcão, pelos ares. Era o princípio de um grande incêndio. O edifício do açougue, em 15 minutos, ficou completamente reduzido a cinzas. Logo em seguida, arderam a prefeitura, o Telégrafo, o Correio, a Escola Pública Masculina.

O incêndio se espalhava com fúria devido às grandes chamas que torrencialmente desabavam sobre a desditosa vila, tornando-se um verdadeiro eclipse. Na casa do coronel Albuquerque havia um que quer que seja, pois os bandidos tentaram queimá-la desde a manhã e só conseguiram já pela tarde. Queimaram cozinha e os galpões, mas a casa continuava intacta. Diziam mesmo que aquela casa tinha qualquer mistério. Ao entrarem na casa para incendiá-la, os bandidos encontraram diversas imagens de santos. Quando foram retiradas essas imagens e estampas, a casa começou a pegar fogo.”

Caso verdadeiramente misterioso! (O Dia, 22 de outubro de 1914).
Piquetes de defesa local

Em fins de setembro, o aspecto de Lages é de pânico generalizado ante a iminência de ser atacada por um piquete com centenas de fanáticos, tal como havia acontecido com Curitibanos, poucos dias antes.

O Exército e a Polícia Militar de Santa Catarina não têm condições de garantir a defesa da cidade e pedem o apoio à população civil para que sejam formados piquetes de defesa local. A estratégia de agrupar a população e metê-la em armas define que sejam formados grupos de 10 civis. O número é considerado ideal para facilitar os movimentos da defesa e o mais adequado para a melhor distribuição das forças para os postos de vigilância e as trincheiras que rodeiam a cidade.

O coronel Belisário Ramos, superintendente municipal, lança um apelo dramático sobre inscrições de voluntários para os grupos de 10. “Existe a ingente necessidade de impedir, pela resistência da cidade, que os fanáticos avassalem todo o município”.

O grito do experimentado político recebe uma chuvarada de presenças. No primeiro dia de inscrições apresentam-se 300 voluntários, que são imediatamente incorporados às trincheiras da cidade. No dia seguinte, o coronel Emiliano Ramos, chefe político de Capão Alto, reforça o número com mais uma centena de inscritos.

A guarnição federal de 50 homens e os 40 soldados da Polícia Militar comemoram o reforço e todos se preparam para a defesa. O número de homens em armas deve ter assustado os bandoleiros. Eles desistem de atacar a cidade e de repetir nela os estragos que haviam plantado em Curitibanos.
Provocações do Castelhano

Um dos líderes do movimento guerrilheiro dos jagunços é o Castelhano. Era assim conhecido porque Agostín Saraiva Perez, nascido no Uruguai, falava um espanhol aportuguesado. Ele era sobrinho, por parte da mãe, Carminda Saraiva, dos caudilhos Gumercindo e Aparício Saraiva, líderes da Revolução Federalista de 1893. E caudilho ele também se considerava, mesmo sendo o primo pobre da família.

Nos primeiros tempos de sua permanência no Planalto Catarinense, Castelhano era tratador de animais de corrida. Envolvido em questões de divisão de terras, o superintendente de Lages, Belisário Ramos, teria mandado matá-lo. Para se proteger, o gaúcho espanholado passou-se para o lado dos fanáticos e entrou a dar conselhos aos chefes da guerrilha.

Em meados de setembro de 1914, Castelhano comanda um grande piquete encarregado de cercar e invadir Lages. Antes de executar a ação, Agostín Saraiva escreve uma carta ao coronel Emiliano Ramos, um dos líderes políticos da região.

“O motivo da presente é fazer saber que vou entrar na cidade, com o favor de Deus e de São João Maria. Así es que así que o señor aceitar a mia sentencia peço se retirar da sidade porque comprenda o amigo que como praça pública tenho o direito de passar em ella além disso eu sou o comandante geral da campanha do partido federalista. E (eu) tenho meus patrões a quem obedecer ordens. Es así coronel. O señor, como pai caritativo do povo peço faça sair as famílias pois es um ser franco e debemos olhar por ellas es uma pena que sofram injustamente.

Eu so quer brigar com esses baianos intimidadores que falam muito mal e por causa deles sofrem otros. So penso em mia felicidade por ajudatório de Deos e San João Maria de Agostinho. Pois essos baianos me mandaram probocar e aceito a probocason.”

“Baianos”, para os fanáticos, era o designativo atribuído aos soldados do Exército.
Parte VII
Passos do ódio

Nas últimas semanas de 1914, a força do misticismo fanático e o espírito predominantemente religioso do caboclo-sem-futuro não são mais necessários à coesão da Irmandade, que havia nascido em meados de 1912, no primeiro reduto de Taquaruçu.

Um considerável número de marginais e de foragidos da polícia integra-se aos rebeldes e instala o banditismo institucionalizado.

Desse modo, a guerrilha se torna mais sangrenta pela inépcia das autoridades militares em dominar os rebeldes e pela omissão dos governos de Santa Catarina e do Paraná em resolver a questão da propriedade das terras roubadas pelos coronéis.

Os dois lados em conflito definem os últimos passos do ódio:

– Vencer a qualquer preço!
Do fanatismo ao banditismo

A escolha de Adeodato Manoel Ramos ou também Joaquim José de Ramos, o Adeodato, ou ainda o Leodato, para assumir o comando-geral dos guerrilheiros fanáticos, desvia as razões da guerra para um eixo completamente modificado em comparação aos dias de Taquaruçu I.

O misticismo e o espírito religioso dos tempos da vida real do monge já não são mais necessários à coesão da Irmandade, agora transformada em piquetes de bandoleiros que aterrorizam os campos, os matos e as serras do Planalto Norte.

Um bom número de marginais infiltrado no movimento havia encontrado uma ocupação, um trabalho-quase-profissão, cujo pagamento era a manutenção própria e da respectiva família.

A guerra alimentada pelo caráter de reforma religiosa, exigida pelos devotos dos monges, cede espaço a uma luta armada que, uma vez concluída, proporcionaria a cada guerrilheiro a desejada situação econômica e social.

A destruição dos redutos, com a conseqüente dispersão dos combatentes, poderia trazer como resultado a volta à marginalidade anterior, o retorno à miséria, à falta de terras para cultivar ou à inexistência de meios para manter o guerrilheiro e seus familiares.

A continuação das hostilidades contra as populações pacíficas e, principalmente, contra as tropas do governo, alimentava esperanças de resolução dos problemas que haviam lançado o caboclo na miséria, e o marginal, no crime.

Nos redutos, o prestígio do chefe espiritual cede lugar exclusivo ao comandante-das-armas. O fanatismo religioso cede espaço ao banditismo de marginais, promovido também pelos vaqueanos civis, a serviço das tropas do governo.
Assassinos a serviço do governo

A etapa mais sangrenta da Guerra do Contestado toma corpo e alma na região de Canoinhas, a partir do final de 1914. Correndo em paralelo com as habituais investidas dos bandoleiros e dos fanáticos, em busca de alimentos ou procurando defender-se, a região é atravessada por bandidos profissionais, que se agregam às tropas do governo como vaqueanos, com o intuito exclusivo de exercer vinganças pessoais ou de servir como matadores profissionais para os proprietários das terras arrebatadas dos posseiros, que posteriormente se haviam incorporado aos fanáticos em armas.

Esses facínoras fazem parte do grupo que obedece às ordens de Manoel Fabrício Vieira. Armados com carabinas de guerra, como a metralhadora Mauser, eles também aparecem como apaziguadores todas as vezes que acontece um ataque aos fanáticos.

Um dos mais conhecidos entre os bandidos profissionais é Pedro Ruivo, “um celerado vaqueano promovido a herói”. O bandido Pedro Ruivo agia do mesmo modo que os outros comandantes de piquetes, como Manoel Fabrício Vieira, Salvador Pinheiro, Pedro Vieira, Leocádio Pacheco e João Alves de Oliveira, que sempre atacavam em duas frentes: como bandido profissional, a matar desafetos, e como vaqueano, a serviço das tropas legalistas.

Como legalista, Pedro Ruivo estava encarregado de dar fim aos prisioneiros suspeitos ou àqueles que se entregavam voluntariamente sem apresentar uma razão convincente do seu gesto de desespero. Para cumprir com a sua tarefa escabrosa, Pedro Ruivo conduzia as vítimas para fora da cidade e degolava culpados e suspeitos.

Os corpos permaneciam insepultos. Só nesse trabalho, o assassino profissional teria “refrescado” uma centena de vítimas. Em outras ocasiões, integrando piquetes de civis, o serial-killer assassinava desafetos que nunca haviam sido fanáticos.

Terminada a guerra, Pedro Ruivo transferiu-se para a cidade da Lapa e terminou seus dias como um homem bastante rico.
Guerrilheiros vendedores de cavalos

De repente, a notícia escorre pelo Vale do Itajaí e inunda o Litoral:

“Trinta e sete fanáticos, além de mulheres, crianças e muitos animais estão acampados na região de Hansa-Hamônia.” (Ibirama).

Os boatos se repetem e garantem que, dentro de poucos dias, os fanáticos plantados Serra-Abaixo vão crescer e devem chegar a 200, entre os homens e as respectivas famílias. O que assusta mais ainda é todos se darem conta que essa gente está acampada a centena e meia de quilômetros do Planalto em conflito.

O delegado Mafra Cardoso, responsável pela ordem na região, investiga o fato e conclui:

“Os indivíduos acampados em Hansa-Hamônia não são fanáticos. São caboclos ambulantes que negociam animais.”

As garantias do delegado não convencem, já que os motivos das suspeitas carregam sólidos fundamentos. Além do caminho que teriam percorrido, cheios de terrenos alagados, um dos componentes apresenta ferimentos na mão e no joelho e o outro está com um braço amputado. Eles explicam ao delegado que sofreram acidente no decorrer das operações de compra e venda de animais. Para clarear toda essa história, apresentam documentos assinados pelas autoridades paranaenses.

As suspeitas continuam:

“Esta história de acidente é papo furado. E a assinatura das autoridades do Paraná não prova nada. Ao contrário, aí mesmo que aumenta o perigo. Elas estão se livrando de guerrilheiros arrependidos que buscaram asilo no outro lado do Rio Iguaçu.”

Para os moradores de Hansa-Hamônia só o delegado acredita que negociantes de animais, acompanhados por mulheres e crianças, percorrem o interiorzão para vender cavalos.

A permanência dos vendedores estropiados aumenta o pavor dos moradores da região. De um momento para outro, os desconhecidos somem como haviam aparecido: sem deixar rastro. (O Dia, 24 de outubro de 1914).

Hansa-Hamônia, uma colônia de imigrantes alemães no Alto Vale do Itajaí, nunca foi incomodada pelos rebeldes do Contestado. Era comum os caboclos visitá-la. Vender cavalos e mulas era comércio habitual.
Perigos do medo

Em meados de novembro, a presença dos guerrilheiros nos campos do Planalto Sul cria o pânico em Lages e São Joaquim.

A publicação da carta de Castelhano, escrita ao coronel Emiliano Ramos, anunciando que iria invadir Lages, aumenta o número de famílias que busca abrigo fora da região, rumando até Palhoça, São José, Brusque e Itajaí. O medo deságua Serra-Abaixo, acampa em Tubarão e está de malas prontas para inundar a Capital.

João de Oliveira, respeitado dirigente político de Tubarão, está em Florianópolis para fazer eco aos temores espalhados pelo Sul.

“Os boatos que correm na minha região têm um grande fundamento e atingem uma gravidade incontestável.

Várias famílias da borda do Planalto estão refugiadas em Tubarão. Se os fanáticos dominarem São Joaquim, minha cidade será imediatamente assaltada. Não por eles, mas por gente muito pior.

Na encosta da Serra do Rio do Rastro vive um terrível bando de criminosos, chefiados por verdadeiros assassinos, capazes de cometer as maiores atrocidades.

Eles são mais ou menos 40 indivíduos perigosos. Enquanto isso, a autoridade policial dispõe apenas de oito soldados, inclusive um que está doente e, por isso, fora de ação.”

“Os seguidores do monge José Maria, transformados em bandoleiros, muito bem armados e colhendo inegáveis vitórias, começam a gerar filiais do terror que infernizam populações a centenas de quilômetros de distância.” (Folha do Comércio, 21 de novembro de 1914).

Ninguém invadiu Lages e muito menos São Joaquim. Os bandoleiros assassinos da Serra do Rio do Rastro preferiram manter-se abrigados nos grotões da montanha.
A morte do comandante-geral

Na colônia de Rio das Antas, às margens do Rio do Peixe, poucos quilômetros ao sul de Caçador, a Southern Brazil Lumber and Colonization Company vendera lotes a imigrantes poloneses e alemães. As propriedades vendidas aos imigrantes já estavam ocupadas por sertanejos, que há muitos anos ali viviam como posseiros. Mas, para os efeitos legais, tratava-se de terras devolutas.

Os caboclos em armas, praticamente senhores do Contestado pela inércia das tropas do general Setembrino de Carvalho, decidem vingar a espoliação e planejam um ataque ao agrupamento de imigrantes.

O comandante-geral dos guerrilheiros, Francisco Alonso de Sousa, com antecedência de 30 dias, solicita aos colonos estrangeiros que abandonem as propriedades. Caso contrário, seriam expulsos à bala ou mortos. Os imigrantes, movidos pela esperança que sua defesa teria o reforço da tropa do general Setembrino, acampada em Caçador, decidem resistir à violência dos jagunços.

No Dia de Finados, 2 de novembro de 1914, Francisco Alonso, à frente de um piquete de 35 homens de briga, desencadeia o ataque prometido. No primeiro enfrentamento, os jagunços matam quatro colonos. Alertados pelos tiros, muitos colonos se protegem dentro de suas casas. Os soldados do Exército escutam o tiroteio, mas não se movem, imaginando tratar-se de tiro ao alvo!

Uma cerca dupla de arame farpado protege a entrada da sede da colônia. Os atacantes não conseguem romper a barreira. Doze deles são mortos. Um dos atingidos é Francisco Alonso de Sousa, o comandante-geral da irmandade em armas.

O historiador Nílson Thomé, baseado em “informação confiável de um caboclo que participou do ataque”, esclarece que, no meio da confusão, Adeodato Manoel Ramos matou Francisco Alonso de Sousa pelas costas. O assassino queria ser o comandante e também desejava a mulher da vítima. A vingança dos imigrantes é selvagem. Armam uma grande fogueira e transformam em cinzas os corpos dos jagunços abatidos. Entre os sobreviventes do ataque está Adeodato Manoel Ramos, o substituto de Alonso, e futuro “flagelo de Deus”.

Depois do ataque, todos os colonos pegaram o trem e se mandaram para Marcelino Ramos. Não ficou ninguém em Rio das Antas.

Mas eles voltaram no final de 1915.
O cavalo e a viúva

Sobrevivente do ataque à colônia de imigrantes de Rio das Antas, o jagunço Adeodato Manoel Ramos é encarregado de entregar o cavalo de Francisco Alonso de Sousa, o Chiquinho, à respectiva viúva. Adeodato entrega o cavalo de Chico Alonso à viúva e ao mesmo tempo declara a ela que a tomava como esposa.

Para não ser infiel à companheira anterior, com a qual havia “casado” no reduto, o novo comandante decide matá-la também.

Cumprida a missão, em Caçador, Adeodato vai conversar com Elias Antônio de Moraes, um dos primeiros moradores de Caraguatá e considerado o guia da Irmandade. Durante a conversa, Adeodato informa que, com a morte de Chico Alonso, ele estava assumindo o comando-geral.

Enquanto se delicia com o novo posto, uma noite Adeodato é possuído por um sonho gostoso e sai dizendo por aí: “Noite dessas o santo monge me apareceu em sonho e ele me ordenou que eu assumisse o posto de comandante-geral.”

Para demonstrar que aceita a ordem do santo protetor de todos os jagunços, Adeodato começa a carregar uma bandeira branca enquanto proclama: “Agora eu sou o comandante-geral. Sou eu que vou tocar a guerra contra o governo, contra os coronéis, ladrões de nossas terras, e contra os peludos.”

Elias de Morais e Maria Rosa não gostam do golpe aplicado por Adeodato. Já assumido como novo e exclusivo líder, Adeodato toma a primeira decisão de “imperador”: manda fuzilar Antoninho, vidente de 20 anos e candidato a comandante, apoiado por Maria Rosa. Um grupo de descontentes com a nova situação também é passado pelas armas.
Nas cinzas da vila

Nos primeiros dias de dezembro, os guerrilheiros suspendem o cerco à cidade de Lages e abandonam a região do Planalto Sul. Muitos deles são presos ao deixarem o mataredo que os abrigava, outros se entregam às autoridades. Entre os detidos são encontrados menores, que também se dedicavam às pilhagens e aos incêndios.

Para os oficiais do Exército envolvidos na perseguição aos bandoleiros, o moral dos fanáticos começava a sofrer uma profunda depressão, graças à capacidade militar do general Setembrino, que antes do ataque final havia preferido responder com uma espécie de guerrilha contra os piquetes que varriam a região em armas. Vã e passageira ilusão dos estrategistas militares.

Coincidindo com a afirmativa oficial que o “inimigo” estava em depressão, no dia 23 de dezembro incêndios devoram Canoinhas, 300 quilômetros mais ao norte de Lages, junto com dezenas de casas na zona rural da mesma região. Era o quinto ataque frontal a uma vila defendida por tropas do Exército.

A fuzilaria, com toques de alarma, reforços, munições, padioleiros carregando feridos, coloca em pânico os poucos habitantes que ainda permaneciam na sede do município. Os guerrilheiros rechaçados conseguem escapar, mas abandonam armas, munições, sacolões com alimentos. Seis mortos são encontrados pelas ruas desertas, agora em cinzas. Ignácio de Lima, o chefe dos bandidos, resulta gravemente ferido.

Feito o balanço das queimadas, 243 pessoas de famílias polonesas, arruinadas pela destruição das casas e das plantações, encontravam-se sem qualquer meio de subsistência. O problema é resolvido, em parte, quando o governo federal decide considerar os flagelados como imigrantes em trânsito. A medida permite assentá-los em núcleos agrícolas, bem longe dos tiros e das chamas dos fanáticos endiabrados. (O Dia, 9 e 10 de dezembro de 1914).
Brigas por terras no Sudeste acirram conflito

Os estados de Minas Gerais e do Espírito Santo também alimentaram, por longo tempo, uma questão sobre um território contestado pelas duas unidades da federação. O problema, submetido a um laudo arbitral, foi definido em dezembro de 1914, com a decisão de entregar as terras em conflito ao Estado de Minas Gerais. (O Dia, 18 de dezembro, 1914).

Mas o Espírito Santo recusa-se a respeitar o laudo. O gesto de rebeldia encontra forte eco em Santa Catarina e no Paraná, que também sofrem o mesmo intrincado problema jurídico, já bastante deteriorado pelo movimento guerrilheiro que meteu fogo no Planalto. Cada semana que passa, os ódios e as tintas de largas camadas da imprensa de Florianópolis e de Curitiba atingem a calúnia e beiram à perfídia.

Em 13 de fevereiro de 1915, os paranaenses são informados, pelos jornais, que o chefe do reduto de Moema, Antônio Tavares Júnior, depois da destruição do seu acampamento pelas autoridades militares, foi recebido com foguetes e abraços em Florianópolis. A alegria, na capital dos catarinenses, segundo a lógica dos vizinhos do Norte, teria sido uma homenagem à campanha que o “famigerado cabecilha” vinha pregando em todo o Contestado contra o Paraná.

Não havia acontecido festa nenhuma e muito menos o cabecilha havia estado na Ilha.Na verdade, as autoridades policiais de Santa Catarina haviam sido informadas que o temido chefe do reduto de assassinos fora visto no interior do município de Blumenau. As ordens de captura demonstraram-se inúteis. O “famigerado chefe de bandidos assassinos” não havia deixado rastro algum em qualquer ponto da Serra-Abaixo e muito menos nas areias brancas do Litoral. (O Dia, 21 de fevereiro de 1915).

Antônio Tavares Júnior, barriga-verde convicto e idealista de quatro costados, era amigo de Felipe Schmidt, que o acobertava. Desconfiado que o superintendente de Canoinhas, Manoel Tomaz Vieira, pretendia entregar a vila para as autoridades paranaenses, chegou a destituí-lo. Em seguida, telegrafou ao governador comunicando que o cargo estava vago. Só o devolveu a Tomaz Vieira sob pressão da polícia. Com a destruição do seu reduto, Tavares Júnior foge para o Sul do Estado, protegido por Felipe Schmidt, o governador do Estado. Fixou residência primeiro em Tubarão e depois em Araranguá, onde veio a falecer.
Poeta e jagunço

Antônio Tavares Júnior, nascido em São Francisco do Sul, tem grandes sonhos que não cabem na pequena ilha do norte de Santa Catarina. Garoto, com dúzia e meia de anos, ele sai de casa, mete-se no Rio Grande do Sul e sobrevive com a sorte que tem no jogo. Os pagos tranqüilos da gauchada perdedora não retêm o catarinense, que decide voltar para o Norte.

Mas Tavares Júnior não se mete na ilha natal. Em Canoinhas, ele vai trabalhar no Fórum, como assistente de promotor, e casa com uma viúva rica, quarentona, futuro mais garantido do que os azares do jogo. Ao mesmo tempo, em sociedade com um francês, vende dormentes utilizados na construção da estrada de ferro, abre um hotel e um bar. Aí começam os azares da vida, que também estava em jogo. O novo empresário vai à falência, tem a casa penhorada e acaba secretário de Bonifácio José dos Santos, o Bonifácio Papudo, para as freqüentes festas e leilões que o velho maragato de 60 anos vinha organizando como meio de subsistência.

Antônio Tavares era também um homem de letras, pois chegou a ocupar o posto de inspetor de escolas em Canoinhas. Poetava de vez em quando, jornais de Curitiba chegaram a publicar-lhe composições amorosas que rimavam “saudade” com “maldade”. Um belo dia, Bonifácio Papudo e seu secretário levantam-se contra as autoridades de Canoinhas porque elas não resolvem os problemas das terras roubadas dos posseiros e entregues, pela Lumber, aos colonos alemães e poloneses que chegavam em pencas da Europa. Em 14 de junho de 1914 os dois integram o grupo dos 500 caboclos que praticamente arrasou Canoinhas.

Para aprofundar a luta contra as autoridades e contra os ladrões das terras dos posseiros, Antônio Tavares dá início a um reduto para agrupar nele os descontentes decididos a brigar contra o governo. O Reduto Tavares localizava-se Iracema e Moema, numa pequena localidade nas nascentes do Rio Itajaí-do-Norte, próximo a Papanduva e Itaiópolis.
Fanático arrependido

Estanislau Schumann, um colono alemão arrependido de ter entrado para o grupo dos caboclos em armas, escreve uma carta ao primeiro-tenente Hermínio Castello Branco, chefe do destacamento da Polícia Militar em Canoinhas. Na abertura do documento, o ex-fanático garante que, como bom patrício, não é contra as leis que regem o país. Ele e todos os rebeldes são contra as autoridades do Paraná.

“Este povo daqui de Canoinhas não quer ser paranaense. Muitos dos meus conhecidos perderam as suas propriedades, que foram entregues aos amigos do governo que moravam em Curitiba. Para nós, não há leis e nem garantias.”

Para o autor da carta, o governo do Paraná vive tomando as terras que os colonos cultivam. E os novos donos, que moram na cidade, nem deixam tempo para os colonos colherem o que haviam plantado. Os rebeldes não têm queixas contra Santa Catarina porque o governo do Estado respeita as propriedades que foram vendidas aos colonos.

Estanislau Schumann vai fundo no problema pessoal. “Eu, como estrangeiro, não posso fazer nada. E nem tampouco devo decidir sobre o que quer que seja.

Faço o possível para respeitar a Constituição Brasileira. Por isso, não sou contra a República, nem contra o governo que nos rege. Mas não posso aceitar que os donos das terras sejam expulsos de suas propriedades, pior do que se fosse índio do mato.”

O colono também entra na questão dos limites entre os dois estados e entende que o governo deve dividir o território contestado, em partes iguais, entre os dois brigões. Quanto aos fanáticos, Estanislau Schumann manifesta toda a certeza que eles vão brigar até a última gota de sangue, pois, de jeito nenhum aceitam o domínio do Paraná. (O Dia, 13 de janeiro de 1915).

As profecias do colono alemão se realizam: o Contestado será dividido entre o Paraná e Santa Catarina e os caboclos agüentam a luta até a última gota de sangue.
Cartas inúteis

Em meados de dezembro de 1914, o chefe do reduto, Antônio Tavares, recebe uma carta do major Atalíbio Taurino de Rezende, comandante de um atalhão do Exército responsável pela segurança da área de Canoinhas. Nessa carta, o major sugeria a rendição dos acampados no reduto para evitar que fossem massacrados pela tropa, já em preparativos para o assalto final.

Os termos da resposta do poeta, transformado em chefe de guerrilha, deixam evidentes os objetivos da subversão armada que destrói o Planalto.

“Não aceitamos o epíteto de “campanha inglória”, como vossa excelência batiza o nosso movimento armado. Nós nos debatemos dentro dos limites de um programa que observamos com o maior respeito, com a maior fidelidade e com a maior lisura. Defendemos uma causa sacrossanta, mas que infelizmente até hoje tem sido descurada pela nefasta negligência dos ex-governadores do meu pobre Estado: a apodrecida questão dos limites.

Só temos um lema e esse lema é:

– Execução da sentença do Supremo Tribunal Federal ou morte.

São 10 mil famílias que imploram essa execução; são 10 mil famílias que se encontram ignominiadas por essa conspurcação vexatória do Direito, da lei, da Justiça, feita exclusivamente para satisfazer capricho de meia dúzia de politiqueiros e acolitados pela sede insaciável dos nossos vizinhos. São 10 mil famílias que choram o longínquo bem-estar de suas residências; são 10 mil famílias, enfim, que preferem entregar-se em holocausto a suportar a ambição desmedida e as perseguições contínuas do sequioso Paraná.

Foi, pois, impulsionado por esse brado de desespero e de Justiça que corri às armas para, ao protesto espontâneo e unânime desse povo bem digno de chamar-se brasileiro, juntar o meu e os meus reduzidos esforços, esquecendo dos filhos, da vida e das propriedades e não para espalhar o sangue e me tornar o bandido de que me acoima o Paraná.

Tenho, pois, a dizer a vossa excelência que tudo se conseguirá, desde que o preclaro chefe da nação queira fazer Justiça.

Prevenimos aos interessados que, com ameaças, nada conseguirão, porque os mil homens que existem neste acampamento, sob as minhas ordens, só se entregarão contra o Direito depois de o último deles cair inânime.

Ao convite verbal que vossa excelência se dignou mandar-me fazer, pode vossa excelência marcar o lugar, assim como se quiser, poderá vir até este acampamento, onde teremos o prazer indizível de recebê-lo. Pode vossa excelência vir sem o menor receio, que será garantido. Não costumamos violar as nossas promessas. Subscrevo-me com estima.” (O Dia, 29 de dezembro de 1914).

Os dois líderes trocam uma série de cartas e até chegam a encontrar-se em um terreno neutro. Tudo inútil. Em 8 de janeiro de 1915, as forças militares cercam o reduto. Um incêndio transforma o casario em cinzas. São aprisionados “270 patrícios desviados”. (O Dia, 12 de janeiro de 1915).
Tragédia em quatro atos

Ato I – Estranha oferta

Em abril de 1914, o comando das operações de guerra no Contestado está sob as ordens do general Carlos Frederico de Mesquita. Ele é um vitorioso da Guerra de Canudos, mas não consegue derrotar os sertanejos catarinenses em armas. O novo comandante das forças do governo em luta contra os devotos do monge José Maria fica bastante surpreso quando recebe do aviador Cícero Marques a proposta de uma estranha colaboração. “Ofereço ao Exército Brasileiro, e gratuitamente, os meus serviços profissionais para enfrentar o elemento sertanejo em armas contra a lei.”

Para colaborar com os militares, o corajoso aviador pede que lhe seja fornecido um dos grandes aeroplanos da Escola Brasileira de Aviação, situada no Rio de Janeiro. Cícero Marques dispõe de um avião, mas o motor da aeronave não desenvolve força suficiente para vôos de observação nos acidentados terrenos da região catarinense.

O ministro da Guerra nega apoio à idéia por julgar sem chances de êxito a utilização de aeroplanos na vasta zona das operações bélicas em Santa Catarina.

Ato II – Segredo militar

No Aeroclube Brasileiro, Capital Federal, 19 de setembro de 1914, a rotina é quebrada pelo tipo de atividade que se nota em uma das secções.Os aviadores Ricardo Kirk e Ernesto Dariolli encaixotam, muito às pressas, um material que já está devidamente separado.

– Porque tanta pressa no manuseio deste material se por aqui não tem guerra nenhuma como lá na Europa?, pergunta um freqüentador do Aeroclube.

– Acontece que o mecânico que fazia este serviço partiu para a Europa no mês passado. Agora, nós, os próprios aviadores, é que devemos preparar o material para o próximo vôo.

– Para onde?

– Segredo militar!

É verdade o segredo militar. Os dois aviadores acabam de receber ordem do Ministério da Guerra para seguir rumo ao Contestado, em Santa Catarina, a fim de auxiliar a força federal na desesperada luta contra um bando de fanáticos religiosos transformado em fanáticos armados. (O Dia, 20 de setembro de 1914).

Ato III – Aviões no Contestado

Na última semana de setembro de 1914, o pessoal e o material da Secção de Aviação destinado às forças militares em luta contra os rebeldes do Contestado, partem do Rio de Janeiro, via trem, rumo ao norte de Santa Catarina.

O reforço aéreo para as tropas do general Setembrino de Carvalho, sob a direção dos aviadores Kirk e Dariolli, está constituído por cinco aviões monoplanos: um Bleriot, 80 cavalos, dois lugares; um Morane Saulnier, 90 cavalos; um Parrascal Morane, 60 cavalos, e dois outros, de 50 cavalos.

Os dois aviadores confiam no êxito da missão. Eles esperam que a nova tática de guerra aérea dê bons resultados, apesar de os campos do Planalto catarinense não se prestarem para aterrissagens. (O Dia, 26 de setembro de 1914).

Enquanto o Exército construía os primeiros campos de aviação em solo catarinense – em Canoinhas, Porto União, Caçador e Lebon Régis -, os cinco aviões do Rio de Janeiro vieram de trem. Uma fagulha da maria-fumaça queimou três deles.

Ato IV – Asa quebrada

Primeiro de março de 1915. A caminho de um vôo de reconhecimento sobre o grande reduto de Santa Maria, o avião de Ricardo Kirk perde altura, dá de encontro a um pinheiro, arrebenta um pedaço da asa esquerda e se espatifa no chão, no quilômetro 44 da estrada de rodagem Porto União da Vitória-Palmas.

O piloto morre. A guerra aérea no Contestado termina antes de começar. Mas o corte de vidas continuará por muitos anos.
Guerrilheiro de olhos azuis

A bela estampa física de Henrique Volland, desertor de uma canhoneira alemã aportada em São Francisco do Sul, percorreu uma vida de aventuras nas terras ensangüentadas do Planalto catarinense. Logo depois do desastre de Caraguatá, o jovem alemão aparece como fotógrafo ambulante no reduto de Tamanduá, na Serra dos Vieiras, onde se apresentou ao comandante, coronel Aleixo Gonçalves de Lima, disposto a lutar pela causa dos rebeldes.

Inteligente e com fama de valentia indiscutível, o ex-fotógrafo assume o posto de comandante. Maria Rosa confirma-lhe o cargo, nele incluído o poder de trancar estradas e de combater os peludos na região de Papanduva, Rio Negro, Campo Alegre e até na Serra-Abaixo, em Joinville e Blumenau.

Toda a irmandade, sob as ordens do novo guerrilheiro, vive em rígida disciplina de quartel. Nos piquetes de arrebanhamento ou de ataque, ninguém pode falar alto, muito menos rir ou beber cachaça. “Uns tratem bem dos outros. Ninguém tenha pressa de voltar, nem pergunte para onde vai, nem de onde vem. É proibido falar com qualquer senhora sem que seja preciso.” Todo mundo conhecia muito bem as ordens do Alemãozinho, repetidas muitas e muitas vezes.

As repreensões, sempre públicas; conselhos, na hora da forma; surra, com vara de marmelo, em caso de reincidência; algumas vezes, pena de morte. Nessa posição, o ex-marinheiro de olhos azuis, acompanhado apenas de 15 jagunços, ocupou Itaiópolis para destruir o cartório, que vivia fazendo escrituras das terras roubadas dos posseiros.

Em determinado momento, sem maiores explicações, Maria Rosa o destitui do cargo de comandante. Alemãozinho toma uma decisão de nítida vingança. Ele e mais duas centenas de rebeldes se entregam às forças do general Setembrino declarando que deixaram de acreditar na guerra. “A partir de agora estou disposto a combater, à frente de meu piquete, junto com o Exército. O fanatismo não passa de puro banditismo.”

Num mapa que o general lhe apresenta, o ex-guerrilheiro localiza os redutos que se espalham pela região.
Novo reduto santo é erguido

O jagunço Adeodato Manoel Ramos, agora comandante-geral de todos os caboclos, determina que o reduto-capital dos rebeldes seja levantado no vale do Rio Santa Maria, 10 quilômetros a leste de Caçador, para nele instalar os fiéis que ainda acreditam na ressurreição do monge que se havia “passado” no Irani.

O local do acampamento, protegido por ladeiras empinadas e penhascos profundos, é de complicado acesso e está defendido pela mata impenetrável de pinheiros e de imbuias. Entre os sertanejos engajados na guerra, corre a crença que o novo reduto está assentado em território santo, onde existem montanhas de bijus, onde corre um riacho de leite e onde os que nele se banharem tornam-se imortais. Caboclos da região invadem a nova Jerusalém. No mesmo local também se reúnem os bandoleiros derrotados nos enfrentamentos com as tropas do governo.

Em pouco tempo, o reduto-capital abriga uma população de 5 mil habitantes. O prestígio e a segurança de Santa Maria atraem fanáticos de todo o Contestado.

Só de uma vez, aproximadamente mil caboclos chegaram de Lages. Na grande praça central, desembocadouro das ruelas do casario em madeira, uma igreja abriga a estátua de São Sebastião, o padroeiro dos sertanejos. Para alimentação de tanta gente, os carneadores abatem 30 a 40 cabeças de gado por dia.

Com a fundação de Santa Maria, Adeodato comete um erro fatal de estratégia para a sobrevivência do movimento rebelde. O local fornecia segurança contra as forças armadas, mas ele se tornou uma arapuca apetitosa para os planos de general Setembrino, que havia decidido substituir o ataque e o confronto aos fanáticos pelo cerco e, com isso, impedir a entrada de alimentos no território dominado pela guerrilha e, principalmente, nos redutos.
Cai o reduto de Santa Maria

Nos últimos dias de dezembro de 1914, o general Setembrino de Carvalho deixa o quartel-general de Curitiba e realiza uma demorada inspeção às linhas de combate do Planalto Norte. Na região, divulga um novo apelo aos “patrícios rebeldes”:

“Desde o dia 11 de setembro que lutamos, e os nossos soldados cada vez mais se sentem encorajados para a vitória final, que não tarda. Mas é preciso parar; é forçoso que se termine esta luta; que o sangue brasileiro não continue a manchar as nossas terras, onde a natureza acumulou tesouros inesgotáveis, para a grandeza da nossa pátria.

Não venho trazer-vos a morte ou o presídio pela vitória das nossas tropas, senão concitar-vos mais uma vez a que deponhais as armas e aceitais as garantias que vos ofereço em nome do governo e da lei. Impõe-se, portanto, que volteis novamente ao trabalho, meio único capaz de garantir a felicidade do lar e promover a felicidade da nossa grande pátria, que tanto precisa do patriotismo dedicado dos seus filhos.”

Diante das ameaças das garras da artilharia e das bocas-de-fogo dos canhões legalistas, pequenos redutos espalhados no trajeto de cada uma das colunas vão sumindo um a um. Outras vezes, os próprios comandantes do reduto se rendem na certeza que só assim poderiam salvar a pele e a de todos os seus guerrilheiros encurralados. Com a mesma lógica de render-se para sobreviver, líderes desativam o respectivo reduto e evitam a sangreira inútil. É o caso dos acampamentos de Antônio Tavares, Bonifácio Papudo e Henrique Wolland, o Alemãozinho.

Dando início ao assalto final contra os rebeldes, no dia 8 de fevereiro de 1915, o coronel Francisco Raul d’Estillac Leal, comandante da Coluna Sul, tenta invadir o reduto de Santa Maria. Mas as forças do governo recolhem 29 mortos, inclusive dois oficiais, e 39 feridos. O coronel não retorna à base e inicia o cerco ao reduto-capital à espera do auxílio das outras três colunas, já em marcha.

O corte de suprimentos instaura a fome e o desespero entre os 5 mil moradores. O abate das 10 reses por dia vai-se reduzindo. À falta de carne, soma-se a ausência completa de sal, o que inutiliza a preparação de qualquer tipo de sopa ou da carne de caça. Para sobreviver, os moradores lambem o suor; devoram frutinhas silvestres, coletam mel de abelhas do mato, devoram couro em correia e até a bruaca, uma bolsa confeccionada com couro ressequido. Dois homens chegam a enfrentar-se a facão porque um havia comido o cinto do outro.

Santa Maria cai em 3 de abril, depois de ser atacada pelos 7 mil soldados das quatro frentes organizadas pelo general Setembrino.
Prisioneiros complicados

A operação de cerco e de caça aos fanáticos, pelos quatro destacamentos militares comandados pelo general Setembrino de Carvalho, aberta em meados de janeiro de 1915, resulta na prisão de uma enorme quantidade de rebeldes. A vitória das forças militares contra a violência armada dos caboclos gera um sério problema: não há prisões suficientes para metê-los e muito menos estruturas para alimentar centenas de prisioneiros.

Em meados de março, o general-comandante despacha para Florianópolis o seu ajudante-de-ordens, primeiro-tenente Antônio Guilhon, a fim de, com a intervenção do governador Felipe Schmidt, transferir para núcleos agrícolas os fanáticos aprisionados.

Durante a permanência na Ilha, o tenente participa de uma reunião social na qual toma parte o deputado Paula Ramos, representante de Santa Catarina na Câmara dos Deputados. No decorrer da reunião, alguns interlocutores tecem referências desabonadoras ao comportamento militar do general Setembrino pela maneira como trata os fanáticos que se rendem às forças legais. A situação era de fato complicada. Alguns fanáticos que haviam deposto as armas, depois de receberem o salvo-conduto para se movimentarem pela região em busca de trabalho, retornavam aos redutos. Ali, eram encontrados pelo Exército com armas na mão lutando contra as forças legais. Outros, utilizados como vaqueanos, cometiam traições e levavam os soldados a cair em emboscadas. Além disso, as tropas legais reclamavam do modo como os fanáticos tratavam os cadáveres dos oficiais e praças, que eram desenterrados para servirem de pasto aos animais da floresta e às aves de rapina.

No fervo da discussão, o tenente teria dito que os militares deveriam aplicar o fuzilamento a todos os fanáticos encontrados nos redutos. O deputado Paula Ramos transmite a opinião a um jornal do Rio de Janeiro. Estoura o escândalo nacional. “Militar propõe o fuzilamento de todos os fanáticos do Contestado!”

O péssimo retrato da presença das tropas do Exército no Planalto Norte de Santa Catarina nem foi retocado quando o tenente jurou que apenas havia dito: “Os fanáticos deveriam ser tratados de acordo com as leis da guerra: todo inimigo que fosse encontrado com arma na mão e salvo-conduto, anunciando-o como ex-prisioneiro, deveria ser submetido a conselho de guerra e até fuzilado, se fosse o caso.” (O Dia, 21 de março de 1915).
Despojos de guerra

Estas memórias de um soldado vitorioso referem-se ao ataque da força do capitão Tertuliano Potyguara à guarda de Maria Rosa, reduto de Caçador, dois dias antes de ele entrar em Santa Maria.

“O reduto, composto de muitas casas de madeira, abandonado precipitadamente pelos jagunços e suas famílias, adquiriu logo um aspecto estranho, com os soldados se espalhando em várias direções, penetrando nas casas para o exame e para as buscas necessárias.

Durante os trabalhos, apreenderam os soldados, em duas habitações mais confortáveis, diversas cartas, cujo texto veio revelar coisas comprometedoras para certa gente de posição, naturalmente os instigadores da cruenta batalha entre brasileiros humildes e uma falange do glorioso Exército brasileiro.

Em outra casa, foi encontrado um saco de aniagem com a cor verde e amarela pertencente ao Correio.

Um soldado descobriu uma garrafa de vidro com avantajado bocal branco. Em seu interior havia um pequeno caixão de defunto, trabalhado em madeira, ao lado de quatro pequenas velas, também de madeira branca, e mais uma caveira microscópica. Descobrimos logo que era uma tola e inofensiva feitiçaria feita à coluna dos soldados pelos nossos inimigos supersticiosos.

Num baú de madeira foi encontrado um vestido da virgem Maria Rosa. Era branco e todo enfeitado com fitas azuis e verdes e com uma profusão de pássaros de todas as cores. O vestido e o baú foram entregues ao nosso comandante.

Antes de acampar, ateamos fogo às casas, bem como a uma pequena igreja tendo à frente um grande cruzeiro de madeira.”


Fotos Históricas


Livro de reza, objeto inseparável dos fanáticos


Locomotiva tombada ao longo da linha São Paulo – Rio Grande


Uma locomotiva conduzindo os trabalhadores para frente de construção da ferrovia


Os primeiros diretores da Lumber: Erneto Bishop (E), Henry Weimaster (C) e Jaime Bishop (D, junto à estação de Três Barras


Comfortável casa de Sherman Bishop, um dos primeiros diretores da Lumber


Arma de cartucho, de carregamento pela coronha, utilizada pelos caboclos.
Espingarda do tipo Winchester, calibre 44, cano curto, arma muito utilizada pelos caboclos


Forças acampadas em Porto União


Forças do Governo, na cidade de Porto União, em marcha contra os fanáticos do Contestado


A instalação da rede teleférica na região, muito importante na organização da ofensiva nos últimos anos de combate


Trincheira em Três Barras


Aleixo Gonçalves de Lima, Capitão da Guarda Nacional


Grupo de Vaqueiros, vendo-se ao centro o Coronel Fabrício Vieira – 1915


Os abuseiros em União da Vitória


A serraria com sua esteira mecânica e a pequena locomotiva de transporte


Embarcação a vapor, mandada construir pela Lumber.
Na época, muito comum no transporte de passageiros, nos rios Iguaçu e Uruguai


Uma parte do ramal ferroviário da Lumber em Três Barras, de onde era exportada a madeira produzida na região


A gaita e o banjo, símbolos da musicalidade cabocla sob a influência norte-americana


O Hospital da Lumber (1915), que destoava do pobre equipamento hospitalar existente na região


Poderosos guinchos da Lumber (1914), colhendo toras de pinheiros e imbuias, num raio de 500 metros em torno da estrada de ferro


Boca de fornalha de três caldeiras acopladas, que forneciam vapor à grande serraria da Lumber – (1912)


Trincheira em Três Barras, aguardando o avanço jagunço


Trincheira de defesa da Lumber em Três Barras, a proteção era feita com dormentes da linha ferrea


Capitão João Gualberto, Comandante do Regimento de Segurança do Paraná, morto no combate do Irani


O corpo do Capitão João Gualberto, hoje patrono da Polícia Militar do Paraná – em Palmas, depois do combate em Irani


A guarda de segurança da Lumber, organização sempre ameaçada pelos jagunços e fanáticos


Cartucheira de balas de grosso calibre utilizada pelos fanáticos


Capitão João Teixeira de Matos Costa


Capitão João Gualberto, com um destacamento do Regimento de Segurança do Paraná


Forças do Regimento de Segurança do Paraná, partindo de União da Vitória rumo ao Irani, em Outubro de 1912


O auto grau de mecanização da serraria Lumber demandava a operação constante de grandes geradores, em Três Barras – 1912


Funcionários e seguranças da Lumber (1912) jogam pôquer de dados


Autoridades de Canoinhas às vésperas de um ataque dos jagunço à vila


O paranaense Coronel João Pacheco dos Santos Lima, assassinado em sua fazenda, dos Pardos,
pelos jagunços do “comandante de briga” Aleixo Gonçalves de Lima


Acompanhamento no Rio do Sul


Hospital militar e feridos na campanha do Contestado


Acampamento do 29 Batalhão em Iracema – janeiro de 1915


Munição utilizada pelo Exército Brasileiro durante o conflito


A insurreição xucra


Capitão Tertuliano Potyguara, que chefiou o ataque ao reduto de Santa Maria


Kit de refeição de emergência e material de primeiros socorros utilizados pelas forças federais


Canoinhas – 1915


Trincheira do 16 Batalhão de Infantaria nas cabeceiras da ponte do Rio Canoinhas


Revista passada ao 56 Batalhão de Infantaria – 1915


O banquete celebrando o acordo de limites


Soldados junto a um dos areoplanos utilizados pela primeira vez no Brasil


Par de guapas, chifres de boi serrados e selados com resina


Oficiais do 56° Batalhão de Caçadores


Facão norte-americano encontrado na região


Duelo simulado de jagunços


Greve dos funcionários da Lumber, em Três Barras – 1917


Grupo de “vaqueanos” sendo homenageados anos depois da campanha


Bonifácio Papudo conversa com o tenente Castelo Branco após sua rendição em 1915


Grupo de Jagunços e fanáticos após sua rendição


A assinatura do Acordo no Palácio do Catete – outubro de 1916

Fonte: www.alca-bloco.com.br