Com poderes ilimitados e polpuda indenização em caixa, Pio XI moldou a estrutura do então recém-criado estado do Vaticano. E já incomodava seu vizinho, o ditador fascista Benito Mussolini.
Começou a circulação da moeda corrente do Vaticano, a lira vaticana, com a efígie do sumo pontífice, também aceita na Itália e que tinha valor equivalente ao da lira italiana. O serviço postal do Vaticano foi inaugurado em fevereiro de 1929. Já o Corpo da Gendarmaria Pontifícia e o Corpo da Guarda do Papa, com suas coloridas fardas desenhadas por Michelangelo, ganharam ainda mais liberdade dentro do Vaticano para assegurar a proteção do agora chefe de estado Pio XI.
Para completar, em junho deste mesmo ano, foi promulgada a Lei Fundamental do Estado do Vaticano, que dá ao sucessor de São Pedro a plenitude dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário no enclave de 0,44 quilômetro quadrado ao norte de Roma e em mais doze edifícios espalhados pela cidade, incluindo o Palácio de Castelgandolfo. Os bens da Santa Sé, sua administração, a biblioteca, o arquivo, a livraria e a tipografia do Vaticano também estão diretamente subordinados à vontade do pontífice. Tal lei criou a figura do governador, que poderia criar regras para a ordem pública na cidade-estado, com a anuência do Conselho. Porém, a escolha do governador é exclusiva do papa, e pode por ele ser revogada a qualquer momento, sumariamente. Qualquer semelhança com os plenos poderes de Mussolini não é mera coincidência – ao menos para os cartunistas locais, que não se cansavam de produzir caricaturas retratando Pio XI envergando a camisa negra do fascismo e o Duce com a tiara papal em sua cabeça.
Para acabar de vez com a animosidade, no fim do ano de 1929, de acordo com informações extra-oficiais, o Santo Padre recebeu pela primeira vez no Vaticano o rei Vittorio Emanuele III, em um encontro simbólico para selar a paz entre a monarquia e a Igreja. Mas também aí se descortinava um problema diplomático. Pelas rígidas regras cerimoniais do Vaticano, todo soberano católico deveria ajoelhar-se ao pé do papa e beijar seu dedão. Benito Mussolini, porém, foi radicalmente contra o ósculo, preferindo o tradicional aperto de mão entre dois chefes de estado. Fontes ligadas ao príncipe Umberto garantiram que este preferiu o cumprimento da formalidade.


