A filosofia inicia o conflito entre razão e fé quando tenta deixar para trás a fé cega nos mitos, explicando racionalmente tais fenômenos.
Fé vs. Razão - conflito existente desde a Grécia antiga
Tradicionalmente, o capítulo da História da humanidade relativo ao tema “conflito entre razão e fé” é atribuído a um período medieval em que se travava um confronto entre os adeptos da boa nova, isto é, a religião cristã, e seus adversários moralistas gregos e romanos, na tentativa de imporem seus pontos de vistas. Para estes, o mundo natural ou cosmos era a fonte da lei, da ordem e da harmonia, entendendo com isso que o homem faz parte de uma organização determinada sem a qual ele não se reconhece e é através do lógos que se dá tal reconhecimento. Já para os cristãos, a verdade revelada é a fonte da compreensão do que é o homem, qual é sua origem e qual o seu destino, sendo ele semelhante a Deus-pai, devendo-lhe obediência enquanto sua liberdade consiste em seguir o testamento (aliança).
Desse debate, surgem as formas clássicas de combinação dos padres medievais: aqueles que separam os domínios da razão e da fé, mas acreditam numa conciliação entre elas; aqueles que pensam que a fé deveria submeter a razão à verdade revelada; e ainda aqueles que as veem como distintas e irreconciliáveis. Esse período é conhecido como Patrística (filosofia dos padres da Igreja).
No entanto, pode-se levantar a questão de que esse conflito entre fé e razão representa apenas um momento localizado na história. A filosofia, tendo como característica a radicalidade, a insubordinação, a luta para superar pré-conceitos e estabelecer conceitos cada vez mais racionais através da história, mostra que, desde seu início, esta relação tem seus momentos de estranhamento e reconciliação. Por exemplo, na Grécia antiga, o próprio surgimento da filosofia se deu como tentativa de superar obstáculos oriundos de uma fé cega nas narrativas dos poetas Homero e Hesíodo, os educadores da Hélade. A tentativa de explicar os fenômenos a partir de causas racionais já evidenciava o confronto com as formas de pensar e agir (fé) do povo grego que pautava sua conduta pelos mitos. O próprio Sócrates, patrono da filosofia, foi condenado por investigar a natureza e isso lhe rendeu a acusação de impiedade. Mais tarde, a filosofia cristã se degladiou para fundamentar seu domínio ideológico, debatendo sobre os temas supracitados. Na era moderna, com encrudescimento da inquisição, surge o renascimento que apela à razão humana contra a tirania da Igreja. Basta olhar os exemplos de Galileu, Bruno e Descartes, que reinventaram o pensamento contra a fé cega que mantinha os homens na ignorância das trevas e reclamava o direito à luz natural da razão. A expressão máxima desse movimento foi o Iluminismo que compreendia a superação total das crenças e superstições infundadas e prometia ao gênero humano dias melhores a partir da evolução e do progresso.
Hoje, essa promessa não se cumpre devidamente. O homem dominou a natureza, mas não consegue dominar as suas paixões e interesses particulares. Declarado como expropriado dos meios de produção e forçado a sobreviver, eis que o homem se aliena do processo produtivo e se mantém em um domínio cego, numa crença inconsciente de si e do outro (ideologia). O irracionalismo cresce à medida que se promete liberdade aos seres humanos a partir de outra fé: o trabalho. O homem explora e devasta o mundo em que vive e não tem consciência disso. E tudo isso para enriquecer uma classe dominante, constatando o interesse egoísta e classista.
Parece, pois, que a luta entre razão e fé não é apenas localizada, mas contínua, já que sempre há esclarecidos, esclarecimentos e resistência a esses esclarecimentos. A razão se rebela com o estabelecido e quando se impõe, torna-se um dogma incutido nos homens de cada tempo. Numa linguagem hegeliana, uma tese que se torna antítese e necessita já de uma síntese para que a razão desdobre a si mesma.
Por João Francisco P. Cabral
Fonte:
23.4.12
Conflito entre Razão e Fé
Ato de Navegação
Por Antonio Gasparetto Junior
O Ato de Navegação foi publicado pela Inglaterra em 1651 determinando que as mercadorias importadas pelos países europeus só poderiam chegar a seus respectivos portos se fosse através de navios ingleses ou do país em questão. A medida resultou no completo poderio da Inglaterra sobre o comércio marítimo.
Desde o final do século XVI, a Holanda havia alcançado um patamar expoente no comércio marítimo mundial, desenvolvido em função das grandes navegações que apresentaram à Europa o Novo Mundo. AHolanda caracterizou-se por realizar transportes e comércio marítimos de boa qualidade, o que causou o seu enriquecimento. A frota mercante holandesa era a maior do mundo, o suficiente para ser capaz de alcançar os negócios em todas as partes do planeta. Naturalmente, o crescimento e poderio conquistado nos mares refletiram sobre a capital Amsterdã, tornando-a uma referência mundial para finanças. Os enriquecidos bancos holandeses emprestavam dinheiro a outros países, deixando claro que a principal potência econômica mundial era a Holanda.
A Inglaterra era outro país europeu em pleno crescimento. Portugal e Espanha foram os dois primeiros países a se lançarem aos mares, mas não souberam administrar corretamente as riquezas que encontraram pelo mundo e acabaram sucumbindo a outras nações. No século XVII a Inglaterra já desenvolvia sua marinha satisfatoriamente, estava preparada e equipada tanto em condição de mercante, quanto de bélica. Os recursos conquistados pelos ingleses serviram para o desenvolvimento das pioneiras indústrias no país e o processo de constituição do capitalismo. O Império Inglês se expandia através do comércio internacional, alcançando influência econômica e ideológica em várias partes do mundo.
A condição de potência comercial da Holanda e o crescimento do Império Inglês inevitavelmente iriam se cruzar em algum momento, como aconteceu. A Inglaterra era o único país na época capaz de desafiar o poderio holandês. Como o interesse de ambos os países era comum, ocorreu o choque.
Em 1949, Oliver Cromwell assumiu o governo inglês e proclamou a república. Dois anos depois, em 1651, promulgou o ato que abalaria as fontes financeiras da Holanda, o Ato de Navegação. Segundo este, todos os países europeus só poderiam importar mercadorias se elas fossem transportadas por navios próprios ou da Inglaterra. A medida atacou diretamente o poderio naval e comercial dos holandeses, os quais acumularam riqueza promovendo o transporte de mercadorias para outros países. No ano seguinte ao Ato de Navegação, em 1652, o mesmo foi ampliado especificando que o capitão do navio, dos países que promoviam a importação de produtos, juntamente com três quartos da tripulação deveriam ser britânicos.
A reação ao Ato de Navegação foi imediata, alguns países europeus não concordaram com a medida, porém não tinham como revidar. Somente a Holanda, principal agredida pelo ato, tinha capacidade de revidar e assim o fez. A ira dos holandeses, golpeados em sua fonte de lucros, levou ao confronto bélico com a Inglaterra. A guerra entre os dois países teve início em 1652 e só terminou em 1654, com a Inglaterra sagrando-se vencedora.
A vitória da Inglaterra sobre a Holanda marcou o início efetivo de sua hegemonia nos mares mundiais, passando a ser considerada como “a rainha dos mares”. O Ato de Navegação encerrou com a supremacia da Holanda e permitiu que o acúmulo de capital impulsionasse o capitalismo e a industrialização na Inglaterra. A medida inglesa vigorou até o século XIX, a hegemonia nos mares da Inglaterra era tão enorme e notável que o Ato de Navegação já nem era necessário para sustentá-la.
Fontes:
http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=186
http://www.culturabrasil.org/revolucaoinglesa.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ato_de_Navegação
Arte Gótica - História da Arte Gótica
Arte Gótica, Quando a arte gótica foi empregada pela primeira vez, A arte gótica foi relegada, A escultura da arte gótica.
Como tantas denominações atribuídas por críticos e historiadores a estilos e períodos artísticos, a de arte gótica, empregada pela primeira vez por Vasari, em 1550, no seu livro sobre as Vidas dos Mais Excelentes Pintores, Escultores e Arquitetos, possuía, a principio caráter depreciativo. Baseava-se na divisão das eras artísticas preconizada por Ghiberti: Idade Áurea da arte clássica, declínio desde Constantino e, a partir de Giotto, a Renascença Italiana.
Para Ghiberti, como para Vasari, o intervalo compreendido entre a época de Constantino e o advento de Giotto foi artisticamente nulo, pois os pintores, os escultores e os arquitetos afastaram-se da tradição clássica, influenciados pelo novo ideal estético: o gótico. Gótico, logicamente, seria o estilo particular aos gôdos, tribo bárbara do N. da Europa; a arte gótica, contudo, nada tem a ver com esse povo, pois nasceu com a arquitetura religiosa da Normandia e da Borgonha, durante o séc. XII.
A arte gótica foi relegada a discreto segundo plano, combatida e negada até ao último quarto do séc. XVIII, quando começou sua valorização, graças, principalmente, ao Pré Romantismo, em países como a Grã-Bretanha e a Alemanha. Com o advento do romantismo, e devido à pregação de Viollet-le-Duc, o gótico passou a reunir a preferência de todos os artistas e arquitetos.
Hoje, após os minuciosos estudos de ensaístas como Mâle, Focillon, Dvorák e outros, entende-se por gótico o estilo de arte medieval que tendo-se originado por volta de 1150, na França, transformar-se-ia em estilo internacional durando até 1420 na Itália e até 1500 nos países setentrionais. O estilo gótico é, antes de tudo, um estilo arquitetônico; mas o adjetivo gótico é empregado também para caracterizar a pintura e a escultura do período.
Como a arquitetura gótica vai estudada em separado (Gótica, Arquitetura), analisemos, a seguir, a pintura gótica presencia o aparecimento e a rápida difusão de nova modalidade pictórica: a pintura de cavalete, o quadro ou o retábulo. A temática é acima de tudo religiosa. Quanto a técnica, importantes inovações começam a aparecer com os irmãos Hubert e Jan van Eyck (há duvidas quanto a existência de Hubert; Jan van Eyck faleceu em 1441), que recorrem à pintura a óleo, e não mais à têmpera como até então.
Ficou dito a pouco que a pintura gótica era principalmente de índole, religiosa. No entanto, o período assiste também ao nascimento da pintura profana – como, por exemplo, nos painéis, verdadeiros discursos políticos, executados entre 1337 e 1339 no Palazzo Pubblico de Siena por Ambrogio Lorenzetti, e nas ilustrações de calendários, tratados científicos e moralités, baseadas nos escritos de autores clássicos, como Esopo e Ovídio. Como típica manifestação do nascente individualismo, especial menção deve ser feita ao retrato, que faz então sua aparição: retrato de João o Bom, 1350-1364, na biblioteca de Paris. Grandes Retratistas tornariam, no séc. XV, o gênero prestigiadíssimo: Van Eyck, Van der Weyden e Memling, nos países baixos, Masaccio, Uccello, Veneziano e Pisanello, na Itália.
O estrilo gótico em pintura parece ter tido sua origem nas miniaturas irlandesas e inglesas de princípios do séc. XIII. Em fins desse mesmo século, e possivelmente sob a influência da escultura, dá-se um passo gigantesco no sentido da tridimensionalidade, dop detalhe naturalista e da interpretação psicológica. Com Giotto, falecido em 1337, todas essas qualidades cristalizam-se pela primeira vez. De avignon, cidade papal, o estilo gótico giottesco, modificado por Simone Martini, falecido em 1344, ganha os demais países europeus.
Na segunda metade do séc. XIV chegará mesmo a Praga, até onde se faz sentiro influxo da arte de alguns pintores setentrionais italianos, discípulos ou seguidores de Giotto. Desde princípios do séc. XIII pode-se falar na internacionalidade do estilo gótico; mas é no séc. XV que a pintura atinge a seu mais alto desenvolvimento, com a criação de escolas nacionais, como a que desenvolveria na Borgonha e nos países e nos Países Baixos. Nesses países a pintura, já anunciada pelos livros-de-hora vividamente ilustrados, atinge a altíssimo nível com os Van Eyck, Petrus Christus, Van der Weyden, Memling, Van der Goes.
O fim da pintura gótica parece estar contido na obra de dois pintores singulares: o holandês Jheronimus Bosch (falecido em 1516) e o alemão Mathias Grunewald (falecido em 1528), que encerram um ciclo e, de certo modo, inauguram novos tempos.
Escultura – A escultura gótica somente pode ser compreendida em toda a sua importância se entregada ao esquema arquitetônico ao qual estava subordinada. Tal como na pintura, a escultura é sobre tudo religiosa, muito embora o fim do período gótico presencie a imposição do individualismo que iria conduzir ao retrato de cunho naturalista.
Os primeiros escultores são ainda anônimos: são os estatuários de Chartres, Reims e Strasburgo. Em fins do séc. XIV surge a figura talvez mais notável da escultura gótica: Claus Sluter (falecido em 1406), e que irá influenciar toda a arte de seu tempo, mesmo a pintura de Van Eyck, de quem, aliás, era primo. Ao lado de Sluter, e como representante do estilo gótico meridional, merece ser citado o escultor italiano Jacopo della Quércia (falecido em 1438), cuja arte anunciada já a Renascença. A última fase da escultura gótica (1480 – 1520) caracteriza-se por um maneirismo de que é expoente máximo o alemão Tilmam Riemenschneider, falecido em 1531.
Bibliografia:
Enciclopédia Barsa
Volume 7
Elaborada sob a suprvisão dos editores da Encyclopedia Britânnica.
William Benton, Editor
Encyclopedia Britannica Editores Ltda
Rio de Janeiro, São Paulo
Fonte: Equipe Brasil Escola
Empirismo

Para Locke quando nascemos somos como uma folha em branco
O empirismo é a escola do pensamento filosófico relacionada à teoria do conhecimento, que pensa estar na experiência a origem de todas as ideias. O nome empirismo vem do latim: empiria (experiência) e -ismo (sufixo que determina, entre outras coisas, uma corrente filosófica). Temos, assim, a “corrente filosófica da experiência”.
Ao longo de toda a história da filosofia, diversos pensadores abordaram a questão, dando importância ao conhecimento da experiência (da sensibilidade) ao invés de apenas ao intelectual. Entretanto, o principal defensor do empirismo foi John Locke (1632-1704), filósofo inglês. O empirismo defendido ficou conhecido como empirismo britânico, e influenciou diversos filósofos.
Locke defendeu que a experiência forma as ideias em nossa mente, no seu livro Ensaio acerca do entendimento humano, de 1690. Na introdução, ele escreve que “só a experiência preenche o espírito com ideias”. Para argumentar a favor, Locke critica o conceito de que já existem ideias em nossa mente (ideias inatas). Ele procura demonstrar que qualquer ideia que temos não nasce conosco, mas se inicia na experiência.
A experiência, para Locke, não são as experiências de vida. Experiência para ele são as nossas sensações (sentidos). Ouvimos, enxergamos, tocamos, saboreamos e cheiramos. Cada um dos cinco sentidos leva informações para o nosso cérebro. Quando nascemos não sabemos o que é uma maçã, mas formamos a ideia de maçã a partir dos sentidos. Vemos a sua cor, sentimos o seu aroma, tocamos sua casca e mordemos a fruta. Cada uma dessas sensações simples nos faz ter a ideia de maçã. A partir da sensação, há a reflexão. Dessa forma, nossas ideias são um reflexo daquilo que nossos sentidos perceberam do mundo.
Com essa constatação, Locke afirma que, ao nascermos, somos como uma folha em branco. São, então, os sentidos responsáveis pelo preenchimento dessa folha.
Para confirmar sua teoria, o filósofo inglês antecipa futuras críticas. Entre as possibilidades de crítica, existe o argumento de que somos capazes de ter ideias de coisas que nunca foram percebidas pelos nossos sentidos. Locke argumenta contra este tipo de crítica, pois mesmo ideias de seres mitológicos como sereias, unicórnios e faunos são apenas junções de ideias que já tivemos anteriormente. Uma sereia é a união da ideia de mulher e peixe. Um unicórnio é a união da ideia de cavalo com a de chifre. Um fauno é a mistura de homem com bode. Não há nada nessas ideias que não tenha sido conhecida previamente. Até mesmo a ideia recente de alienígenas nada mais é do que a ideia de um homem deformado (com cabeça e olhos maiores, corpo pequeno etc.)
Depois de Locke, o empirismo britânico conheceu a reformulação feita pelo irlandês George Berkeley (1685-1753). Para ele, o que conhecemos do mundo não é realmente o que o mundo é. O mundo não é o que percebemos dele. Podemos perceber o mundo através dos sentidos, mas não conhecê-lo de verdade.
Mais radical do que o empirismo de Berkeley está o que pensou David Hume (1711-1776), natural de Edimburgo, Escócia. De acordo com Hume, só existe o que percebemos. Todas as relações que fazemos entre o que conhecemos não são conhecimentos verdadeiros. Podemos conhecer uma bola e podemos conhecer um pé, porém se chutamos uma bola não há nada que confirme que a bola se move porque foi o pé que a moveu. Com isto, Hume critica as ciências, pois trabalham com a ideia de causa e efeito. Essa relação de causalidade (causa-efeito) é uma relação entre ideias e é, portanto, não verdadeira. Tudo o que pensamos ser verdadeiro, como a causa do movimento da bola, é imaginação.
Se o que sabemos vem da experiência e a experiência apenas nos informa um pouco sobre como o mundo é, precisamos, de acordo com o empirismo, estar atentos e críticos às falsas ideias que não podem ser verificadas pelos sentidos.
Filipe Rangel Celeti
Colaborador Mundo Educação
Bacharel em Filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie - SP
Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie - SP
Por Filipe Rangel Celeti
Fonte:
O Empirismo, por Jon Locke
Introdução
No âmbito da disciplina de filosofia foi-me proposta a elaboração de um trabalho individual escrito mediante o tema racionalismo/empirismo.
Dos filósofos que se debruçaram sobre o conhecimento optei por trabalhar John Locke, um filosofo inglês tido como fundador do empirismo. Optei por um texto argumentativo onde Locke explicita a origem das ideias.
Mediante o trabalho pedido analisarei o texto elucidando a sua tese, problema, principais conceitos e argumentos. Incluirei também no trabalho uma pequena biografia de John Locke.
As ideias e a sua Origem
Chamo ideia a tudo aquilo que é o objecto da alma, ou que a ocupa, quando pensa. Ninguém terá dificuldade em me conceder que o homem acha em si estas tais ideias; nem há pessoa que delas não tenha um sentimento interior e pelas palavras, e acções dos outros, não possa julgar que eles têm outras semelhantes. Assim a primeira questão, que se nos oferece, é: como adquirem os homens as suas ideias?
Há muitas pessoas que estão persuadidas, como de uma verdade incontestável, de que o homem tem certos princípios inatos; certas noções primitivas; certos caracteres, que logo no primeiro momento da sua existência lhe são, por assim dizer, gravados. Porém esta opinião expusemos, e refutámos no primeiro livro desta obra.
Os homens podem ter todos os conhecimentos, que possuem, e os podem ter acompanhados de uma perfeita certeza sem o auxílio de nenhum dos tais princípios, mas pelo só uso das faculdades que a natureza lhes concedeu. De facto seria absurdo dizer que Deus imprimiu a ideia de cor na alma de uma criatura, que dotou da faculdade de a receber pela impressão dos objectos exteriores sobre os seus olhos. E não será então demais que tiremos a mesma conclusão no que diz respeito aos outros sentidos e demais conhecimentos? Porque assim o entendo passo a mostrar por que meios, e por que graus adquire a nossa alma todas as suas ideias; e de quanto disser tomo por testemunhas a experiência e observação de cada homem particular.
Suponho portanto que a alma é em princípio, uma tábua rasa sem ideias, sem caracteres; e que os conhecimentos, que depois adquire os adquire por meio da experiência; que se chama sensação, todas as vezes, que nos faz sentir a impressão dos objectos externos e sensíveis; e reflexão quando nos faz reflectir atentamente sobre as operações da nossa alma. Pela reflexão nos vêm as ideias de vontade, de raciocínio, de pensamento, de dúvida, e de outras operações do nosso espírito. Pela sensação recebemos as de frio, de quente; de doce, de amargo; de cor; e enfim de todas as qualidades chamadas sensíveis; porque entram na alma pelos sentidos. E estas são as únicas fontes onde o espírito bebe todas as suas ideias, por mais numerosas e várias que elas sejam.
É coisa bem clara, e evidente, que as crianças adquirem todas as ideias dos objectos com que familiarmente tratam. E se elas depois não se lembram do tempo em que pela primeira vez as receberam é porque rodeados logo que nascem de muitos objectos, que actuam continuamente e por diferentes modos sobre os seus sentidos, todas têm livre entrada no seu espírito, onde se vão gravar, sem que ele para isso concorra a tempo que a sua memória não pode ainda notar o quando pela primeira vez as recebeu. Por isso daqueles tão somente que adquirimos já numa idade mais crescida, ou que são menos comuns, é que temos esta lembrança. Assim parece-me que se poderia criar uma criança de modo, que até chegar à idade perfeita não tivesse mais que umas muito poucas ideias.
Pode-se dizer que o homem então começa a ter ideias quando começa a ter percepções, visto que não são coisas diversas.
Por conseguinte nenhuma razão vejo para que a alma tenha de pensar antes de os objectos fornecerem por meio dos sentidos ideia sobre a qual pense. Antes pelo contrário entendo muito bem que enquanto ela se exercita sobre as ideias que pelos sentidos recebeu, e a memória lhe conserva, por diferentes modos aperfeiçoa a faculdade, que tem de raciocinar: e como combinado depois estas mesmas ideias, e reflectindo sobre as suas operações, aumenta os seus conhecimentos, e ganha o hábito de se lembrar, de imaginar, de raciocinar, e finalmente de produzir todas as outras espécies de cogitações.
John Locke, in Ensaio Philosóphico sobre o entendimento humano,
Pub. Joaquim de Carvalho, Coimbra, Coimbra Editora, pp.88 a 91
Análise do texto
Tese: “A alma é uma tábua rasa sem ideias, e que os conhecimentos que depois adquire os adquire por meio da experiência”
Tema: As ideias e a sua origem.
Problema: Como são adquiridas as ideias.
Principais Conceitos: Ideias; alma; princípios inatos; sentidos; experiência; percepções.
John Locke parte da noção geral de ideia, aquilo que ocupa a alma quando pensa, para levantar o problema do texto: a origem das ideias. Critica a tese racionalista que defende que o homem nasce com ideias implícitas. John Locke considera absurdo que Deus tenha imprimido a ideia de cor na alma humana e por isso não terá decerto imprimido as outras ideias.
A tese empirista defende que a alma é uma tábua rasa, sem ideias, e os conhecimentos que adquire adquiri-os por meio da experiência e da sensação, sendo assim as únicas fontes de conhecimento. Relativamente às ideias de vontade, raciocínio, pensamentos, duvidas, entre outras, estas são reflexões de alma.
Enquanto crianças adquirimos enumeras ideias, tantas que a memória é incapaz de as armazenar a todas e sendo assim só os conhecimentos que adquirimos já mais crescidos é que temos recordação de como o adquirimos. O Homem começa então a ter ideias aquando começa a ter percepções, sendo uma percepção algo compreensível, ou seja: as ideias e as percepções são aquilo que o homem é capaz de compreender.
A alma não tem que pensar antes que os objectos lhe forneça a ideia sobre a qual pense, pelo contrário, é aceitável que ao pensar sobre os objectos recebidos através dos sentidos e guardados na memória a capacidade de raciocinar seja aguçada. E assim, juntando todas as ideias que lhe são transmitidas e realizando operações mentais Locke conclui que a alma aumenta os seus conhecimentos, ganhando o habito de se lembrar, de imaginar, de raciocinar e de produzir assim todas as outras considerações necessárias.
O empirismo é a teoria segundo a qual todo o conhecimento provém da experiência.
Segundo esta corrente não existem ideias, conhecimentos ou princípios inatos. O conhecimento assemelha-se a uma página em branco, onde, antes de qualquer experiência, nada se encontra escrito.
As ideias podem ser simples ou complexas, derivando as complexas da combinação das simples. O conhecimento resultará da ligação de ideias simples adquiridas pela experiência. As ideias mais complexas e abstractas podem ser decompostas nas mais simples e associarem-se formando ideias mais complexas, esta combinação e associação de ideias são uma análise de natureza psicológica, o psicologismo.
A experiência seja ela externa (a sensação) ou interna (a reflexão) marca os limites do conhecimento. O conhecimento encontra-se duplamente limitado pela experiência que pela sua extensão, sendo o entendimento incapaz de ultrapassar os limites impostos pela experiência (que é a única fonte de conhecimento), e pela certeza, sendo as certezas disponíveis referentes àquilo que se encontra dentro dos limites da experiência.
Concluindo o empirismo baseia-se em três aspectos fundamentais:
. a experiência é a origem de todo o conhecimento;
. todas as ideias têm uma base empírica, mesmo as mais complexas;
. o objecto impõe-se ao sujeito.
Se o empirismo admite a experiência como origem de todo o conhecimento, o racionalismo considera a razão a fonte principal do conhecimento, sendo a única fonte do conhecimento verdadeiro. O conhecimento verdadeiro só existe quando é logicamente necessário e universalmente valido.
Por exemplo, afirmar que 2 + 2 = 4 é apresentar um conhecimento com essas características: logicamente necessário pois tem de ser assim, caso contrário entraria em contradição e é universalmente válido pois vale sempre, em todo o lado e para todos os seres humanos.
Este modelo de conhecimento verdadeiro é-nos dado pela matemática, que é valida para todos e nos obriga à sua aceitação, caso contrário entraremos em contradição lógica. Para os racionalistas o conhecimento empírico existe mas não pode ser considerado verdadeiro precisamente porque não se conforma à necessidade racional.
Uma das filosofias representativas do racionalismo é a filosofia platónica, que defende a existência de dois mundos: o mundo sensível, acessível através dos sentidos, caracterizado pela mudança, pela instabilidade, pela aparência, pela imperfeição e o mundo inteligível, a que acedemos através da razão, e que constitui a verdadeira realidade, formando-se nas ideias, essências, formas imutáveis, das quais as coisas sensíveis participam.
Concluindo, o racionalismo baseia-se em três aspectos fundamentais:
. a razão é a origem do conhecimento verdadeiro (universal e necessário);
. as ideias fundamentais dos conhecimentos são inatas;
. o sujeito impõe-se ao objecto através das noções que traz em si. 
John Locke
John Locke nasceu em 1632 numa pequena aldeia inglesa, filho de um pequeno proprietário de terras. Estudou na escola de Westminister e Oxford. Foi admitido na Sociedade Real de Londres para estudar medicina.
Locke é o fundador do empirismo a qual propõe que todo conhecimento humano pode ser obtido por meio da percepção sensorial ao longo da vida, a mente do ser humano ao nascer seria como uma folha em branco e tudo que se sabe é aprendido depois.
Afirmava que o mal não era parte de um plano de Deus, e sim produzido por um sistema social criado pelos indivíduos, sendo assim também possivelmente modificado por eles.
“Ensaios”, a sua obra, constitui um grande contributo para a filosofia, debruçando-se sobre temas como: a natureza do ser, o mundo, Deus e níveis de conhecimento.
Foi escritor de economia, activista político e revolucionário dando ideias que levaram à vitória da revolução Gloriosa contra o absolutismo.
Na política, defende que o Estado deve ter por principal objectivo a garantia dos direitos naturais do povo como a protecção da vida, da liberdade e da propriedade de todos. Se o governo não respeitar esses direitos a oposição deverá derrubá-lo e substituí-lo por outro mais competente.
Locke exerceu uma enorme influência sobre todos os pensadores de seu tempo e foi uma das principais referências teóricas para os líderes das revoluções que, a partir do final do século XVIII, transformaram a sociedade ocidental.
Conclusão
Com este trabalho posso concluir que John Locke é um filósofo que defende que as ideias são da origem da experiência e ele vai contra a tese racionalista em que as ideias são inatas.
John Locke defende que a alma é uma tábua rasa e que esta só é preenchida através de experiências, sendo assim o conhecimento limitado.
Fonte: http://www.notapositiva.com
Conhecimento Empírico
Lizie Cristine da Cunha
Também conhecido como “vulgar”, o conhecimento empírico é o que todas as pessoas adquirem na vida cotidiana, baseado apenas na experiência da vida ou transmitida por alguém. Geralmente é o resultado de experiências de erro e acerto, sem observação metódica nem verificação sistemática, por isso carece de caráter científico. Pode também fazer parte das tradições de uma coletividade, passando de geração para geração.
Não é necessário estudar Psicologia para se saber se uma pessoa está alegre ou triste. Você conhece o estado de humor dessa pessoa porque empiricamente já passou por muitas experiências de contato com pessoas alegres ou tristes, e já esteve alegre ou triste também. É igualmente empírico o conhecimento que o lavrador iletrado tem das coisas do campo. Ele interpreta a fecundidade do solo, os ventos anunciadores de chuva, o comportamento dos animais. Sabe onde furar um poço para obter água, quando cortar uma árvore para melhor aproveitar sua madeira. Ela pode, inclusiva, apresentar argumentos lógicos para explicar os fatos que conhece, mas seu conhecimento não penetra os fenômenos, permanece na ordem aparente da realidade. Como é fruto da experiência circunstancial, não vai além do fato em si.
Apesar de ser um nível inferior ao científico, o conhecimento vulgar não deve ser menosprezado, pois constitui a base do saber e já existia muito antes do homem imaginar a possibilidade da ciência.
Fonte: 
A Cruzada do Descobrimento
Como a Ordem de Cristo, organização criada por cavaleiros medievais, tramou a viagem de Cabral ao Brasil
Domingo, 8 de março de 1500, Lisboa. Terminada a missa campal, o rei D. Manuel I sobe ao altar, montado no cais da Torre de Belém, toma a bandeira da Ordem de Cristo e a entrega a Pedro Álvares Cabral. O capitão irá içá-la na principal nave da frota que partirá daí a pouco para a Índia. Era uma esquadra respeitável, a maior já montada em Portugal, com treze navios e 1500 homens. Além do tamanho, tinha outro detalhe incomum. O comandante não possuía a menor experiência como navegador. Cabral só estava no comando da esquadra porque era cavaleiro da Ordem de Cristo e, como tal, tinha duas missões: criar uma feitoria na Índia e, no caminho, tomar posse de uma terra já conhecida, o Brasil.
A presença de Cabral à frente do empreendimento era indispensável, porque só a Ordem de Cristo, uma companhia religiosa-militar autônoma do Estado e herdeira da misteriosa Ordem dos Templários, tinha autorização papal para ocupar - tal como nas Cruzadas - os territórios tomados dos infiéis (no caso brasileiro, os índios). No dia 26 de abril de 1500, quatro dias depois de avistar a costa brasileira, o cavaleiro Pedro Álvares Cabral cumpriu a primeira parte da sua tarefa. Levantou onde hoje é Porto Seguro a bandeira da Ordem e mandou rezar a primeira missa no novo território. O futuro país estava sendo formalmente incorporado às propriedades da organização. O escrivão Pero Vaz de Caminha, que reparava em tudo, escreveu para o rei sobre a solenidade: "Ali estava com o capitão a bandeira da Ordem de Cristo, com a qual saíra de Belém, e que sempre esteve alta." Para o monarca português, a primazia da Ordem era conveniente. É que atrás das descobertas dos novos cruzados vinham as riquezas que faziam a grandeza e a glória do reino de Portugal. A seguir, você vai entender como essa organização transformou a pequena nação ibérica em um império espalhado pelos quatro cantos do planeta.
Uma ideia delirante leva os portugueses ao mar
No começo do século XV, Portugal era um reino pobre. A riqueza estava na Itália, na Alemanha e em Flandres (hoje parte da Bélgica e da Holanda). Então como foi que os lusitanos encabeçaram a expansão europeia? A rica Ordem de Cristo foi o seu trunfo decisivo. Fundada por franceses em Jerusalém em 1119, com o nome de Ordem dos Templários, acabou transferindo-se para Portugal em 1307, época em que o rei da França desencadeou contra ela uma das mais sanguinárias perseguições da História. Quando o infante D. Henrique, terceiro filho do rei D. João I, tornou-se grão-mestre da Ordem, em 1416, a organização encontrou o respaldo para colocar em prática um antigo e ousado projeto: circunavegar a África e chegar à Índia, ligando o Ocidente ao Oriente sem a intermediação dos muçulmanos, que então controlavam os caminhos por terra entre os dois cantos do mundo.
No momento em que D. Henrique, à frente da Ordem de Cristo, resolveu dar a volta no continente africano, a ideia parecia uma doidice. Havia pouca tecnologia para navegar em oceano aberto (o Meditarrâneo é um mar fechado) e nenhum conhecimento sobre como se orientar no Hemisfério Sul, porque só o céu do norte estava mapeado. Mais ainda: acreditava-se que, ao sul, os mares estavam cheios de monstros terríveis. De onde teria vindo então a informação de que era possível encontrar um novo caminho para o Oriente? Possivelmente dos templários, que durante as Cruzadas, além de se especializarem no transporte marítimo de peregrinos para a Terra Santa, mantiveram intenso contato com viajantes de toda a Ásia.
Aventura religiosa
A proposta visionária recebeu o aval do papa Martinho V, em 1418, na bula Sane Charissimus, que deu caráter de cruzada ao empreendimento. As terras tomadas dos infiéis passariam à Ordem de Cristo, que teria sobre elas tanto o poder temporal, de administração civil, quanto o espiritual, isto é, o controle religioso e a cobrança de impostos eclesiásticos.
Entre o lançamento oficial da empreitada e a conquista do objetivo último decorreria um longo tempo, precisamente oitenta anos. Apenas em 1498, o cavaleiro Vasco da Gama conseguiria chegar à Índia. Morto em 1460, D. Henrique não assistiu ao triunfo da sua cruzada. Mas chegou a ver como, no rastro dela, Portugal ia se tornando a maior potência marítima da Terra.
Um porto aberto na encruzilhada do mundo
D. Henrique sagrou-se cavaleiro em 1415, na batalha de Ceuta, no Marrocos, em que os portugueses expulsaram os muçulmanos da cidade. No ano seguinte, o príncipe virou comandante da Ordem. Como a sucessão do trono português caberia a seu irmão mais velho, D. Duarte, Henrique assumiu o cargo de governador do Algarve. Solteiro e casto, dividia o seu tempo entre o castelo de Tomar, sede da Ordem, e a vila de Lagos, no Algarve. Em Tomar, cuidava das finanças, da diplomacia e da carreira dos pilotos iniciados nos segredos do empreendimento cruzado. O castelo era um cofre de recursos e informações secretas. Lagos era a base naval e uma corte aberta. Vinham viajantes de todo o mundo, de "desvairadas nações de gentes tão afastadas de nosso uso", escreveu o cronista Gomes Eanes de Zurara, na Crônica da Tomada de Guiné. Os personagens desse livro revelam um pouco do cosmopolitanismo do porto de Lagos: havia gente das Ilhas Canárias, caravaneiros do Saara, mercadores do Timbuctu (hoje Mali), monges de Jerusalém, navegadores venezianos, alemães e dinamarqueses, cartógrafos italianos e astrônomos judeus.
Uma das regras de ouro da diplomacia era presentear. Assim, o príncipe juntou uma biblioteca preciosa. Entre mapas, plantas e tabelas havia um exemplar manuscrito das Viagens de Marco Polo. Não por acaso a primeira edição impressa dessa obra foi feita não em latim ou em italiano, mas em português, em 1534.
A Cruzada do Descobrimento e a Ordem dos Templários
A Ordem combatente dos padres-soldados
Cavaleiro TemplárioConquistada pelos cristãos na Primeira Cruzada, em 1098, Jerusalém estava de novo cercada pelos árabes em 1116. Foi quando os nobres franceses Hugo de Poiens e Geoffroi de Saint-Omer juraram, na Igreja do Santo Sepulcro (o templo dos cristãos), viver em perpétua pobreza e defender os peregrinos que vinham à Terra Santa. Nascia a Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo, renomeada, em 1119, como Ordem dos Cavaleiros do Templo - a Ordem dos Templários.
Na época, várias organizações católicas congregavam devotos sob regimento próprio. A dos Templários, entretanto, era diferente: seus membros eram monges-guerreiros. As normas da Ordem eram secretas e só conhecidas, na totalidade, pelo comandante-em-chefe (o grão-mestre) e pelo papa. Desde o início, os templários foram desobrigados de obedecer aos reis. Podiam, assim, ter interesses próprios. Ao entrar na companhia, o novato conhecia só uma parte das regras que a guiavam e, à medida em que era promovido, sempre em batalha, tinha acesso a mais conhecimentos, reservados aos graus hierárquicos superiores. Ritos de iniciação marcavam as promoções. Foi essa estrutura que permitiu, mais tarde, à Ordem de Cristo manter secreto os conhecimentos de navegação no Atlântico.
Banqueiros pobres
Enquanto as cruzadas empolgaram a Europa, os templários receberam milhares de propriedades por doação ou herança e desenvolveram intensa atividade econômica. Nos seus feudos, introduziram métodos racionais de produção e foram os primeiros a criar linhagens de cavalos em estábulos limpos. Uma rede de postos bancários logo se espalhou por vários países. Peregrinos a caminho da Terra Santa depositavam seus bens no ponto de partida e ganhavam uma carta de crédito com o direito de retirar o equivalente em moeda local em qualquer estabelecimento templário. Daí para gerirem as finanças de reis como o da França foi um passo.
Mas a sua exuberância gerou inveja. Enquanto houve cruzadas, os templários exibiram orgulhosamente o manto branco com a cruz vermelha - a mesma que depois as naus portuguesas usariam. Com a queda da Cidade Santa, em 1244, e a expulsão das tropas cristãs da Palestina, em 1291, a mística se dissipou e a oposição monárquica tornou-se explícita. Nas décadas seguintes, a confraria seria extinta em toda a Europa. Com a exceção de Portugal.
Calúnia e difamação contra os guerreiros
O rei da França, Felipe IV, o Belo, devia dinheiro à Ordem dos Templários. Os templários franceses eram os mais poderosos da Europa. Controlavam feudos e construções no interior e em Paris. Entre eles, o Templo, um conjunto de igrejas e oficinas que, reformado em 1319, virou o presídio da Bastilha, mais tarde destruído durante a Revolução Francesa.
As derrotas no Oriente Médio alimentaram uma onda de calúnias segundo as quais os cavaleiros teriam feito acordos com os muçulmanos, fugido de campos de batalha e traído os cristãos. Aproveitando o clima, em 13 de outubro de 1307, Felipe invadiu, de surpresa, as sedes templárias em toda a França. Só em Paris foram detidos 500 cavaleiros, muitos sendo degolados.
Dois processos foram abertos: um dirigido pelo rei contra os presos e o outro conduzido pelo papa Clemente V contra a Ordem. O papa era francês, morava em Avignon e era aliado do rei. Torturas brutais e confissões arrancadas pela Inquisição viraram peças difamatórias escandalosas. O sigilo da Ordem foi usado contra ela e as etapas dos rituais de iniciação foram convertidas em monstruosidades. Os santos guerreiros foram acusados de cuspir na cruz, adorar o diabo, cultuar Maomé, manter práticas homossexuais e queimar crianças. Todos os seus bens foram confiscados. Esperava-se uma fortuna, mas, como pouco foi efetivamente recolhido, criou-se a lenda de que tesouros teriam sido transferidos em segurança para outro país.
Santuário de fugitivos
Para muitos, esse país teria sido Portugal. O rei D. Diniz (1261-1325) decidiu garantir a permanência da Ordem em terras portuguesas: sugeriu uma doação formal dos seus bens à Coroa, mas nomeou um administrador templário para cuidar deles. Nem o processo papal nem a execução do grão-mestre Jacques de Molay, em 1314, o intimidaram. Em 1317, reiterando que os templários não haviam cometido crime em Portugal, D. Diniz transferiu todo o patrimônio dos cruzados para uma nova organização recém-fundada: a Ordem de Cristo.
Assim, Portugal virou refúgio para perseguidos em toda a Europa. De vários países chegavam fugitivos, carregando o que podiam. O castelo de Tomar virou a caixa-forte dos segredos que a Inquisição não conseguiu arrancar. Dois anos depois, em 1319, um novo papa, João XXII, reconheceu a Ordem de Cristo. Começava para os cavaleiros uma nova era, com uma nova missão.
De cavaleiros a funcionários do Estado
Nas primeiras décadas de existência da Ordem de Cristo, os ex-templários estabeleceram estaleiros em Lisboa, fizeram contratos de manutenção de navios e dedicaram-se à tecnologia náutica, aproveitando o conhecimento adquirido no transporte marítimo de peregrinos entre a Europa e o Oriente Médio durante as cruzadas. Ao mesmo tempo, preparavam planos para voltar à ação, contornando a África por mar e, aliando-se a cristãos orientais, expulsar os mouros do comércio de especiarias.
Em 1416, quando assumiu o cargo de grão-mestre, D. Henrique lançou-se à diplomacia. Passaram-se cem anos desde que os templários haviam sido condenados nos processos de Paris e o Vaticano estava preocupado com a pressão muçulmana sobre a Europa, que crescera muito no século XIV. Com isso, em 1418, o Infante consegue do papa um aval ao projeto expansionista. Daí em diante, cada avanço para o sul e para o oeste será seguido da negociação de novos direitos. Em um século, os papas emitiram onze bulas privilegiando a Ordem com monopólios da navegação na África, posse de terras, isenção de impostos eclesiásticos e autonomia para organizar a ação da Igreja nos locais descobertos.
Até a metade do século XV, os cavaleiros saíram na frente, sem esperar pelo Estado português. Uma vez iniciada a colonização, eventualmente doavam à família real o domínio material dos territórios, mantendo o controle espiritual. À corte, interessada em promover o desenvolvimento da produção de riquezas e do comércio, cabia então consolidar a posse do que havia sido descoberto.
Pilhando mouros
No Marrocos, os novos cruzados atacaram Tânger, em 1437, e Alcácer-Ceguer, em 1458. O ímpeto guerreiro preponderou sobre o mercantilismo real até 1461, quando o cavaleiro Pedro Sintra encontrou ouro na Guiné. Aí, a pressão comercial da monarquia começou a ficar maior. Mesmo assim, ainda houve expedições contra os mouros marroquinos em Asilah e Tânger, outra vez, em 1471. Mas à medida que foi sendo consolidado o comércio na rota das Índias, a partir da sua descoberta em 1498, a coroa foi absorvendo gradualmente os poderes da Ordem. Até que em 1550 o rei D. João III fez o papa Júlio III fundir as duas instituições. Com isso, o grão-mestre passa a ser sempre o rei de Portugal, e o seu filho tem o direito de sucedê-lo também no comando dos cruzados.
Outros parceiros entram no jogo
A Ordem de Cristo controlou o conhecimento das rotas e o acesso às tecnologias de navegação enquanto pôde. Mas com o ouro descoberto na Guiné, em 1461, o monopólio da pilotagem passa a ser cada vez mais desafiado. A partir de então, multiplicaram-se os contratos com comerciantes e as cessões de domínio ao rei para exploração das regiões descobertas. Aos poucos, a sabedoria secreta guardada em Tomar foi sendo passada para mercadores de Lisboa, Flandres e Espanha. Portugal naquela época fervilhava de espiões, especialmente espanhóis e italianos, que procuravam os preciosos mapas ocultados pelos cruzados.
Enquanto o tesouro de dados marítimos esteve sob a sua guarda, a estrutura secreta da Ordem garantiu a exclusividade para os portugueses. Em Tomar e em Lagos, os navegadores progrediam na hierarquia apenas depois que a sua lealdade era comprovada, se possível em batalha. Só então eles podiam ler os relatórios reservados de pilotos que já haviam percorrido regiões desconhecidas e ver preciosidades como as tábuas de declinação magnética, que permitiam calcular a diferença entre o pólo norte verdadeiro e o pólo norte magnético que aparecia nas bússolas. E, à medida que as conquistas avançavam no Atlântico, eram feitos novos mapas de navegação astronômica, que forneciam orientação pelas estrelas do Hemisfério Sul, a que também unicamente os iniciados tinham acesso.
Competição acirrada
Mas o sucesso atraía a competição. A Espanha, tradicional adversária, também fazia política no Vaticano para minar os monopólios da Ordem, em ação combinada com seu crescente poderio militar. Em 1480, depois de vencer Portugal numa guerra de dois anos na fronteira, os reis Fernando, de Leão, e Isabel, de Castela, começaram a se interessar pelas terras d'além- mar. Com a viagem vitoriosa de Colombo à América, em 1492, o papa Alexandre VI, um espanhol de Valencia, reconheceu em duas bulas, as Inter Caetera, o direito de posse dos espanhóis sobre o que o navegante genovês havia descoberto. E rejeitou as reclamações de D. João II de que as novas terras pertenceriam a Portugal. O rei não se conformou e ameaçou com outra guerra. A controvérsia induziu os dois países a negociarem, frente a frente, na Espanha, em 1494, um tratado para dividir o vasto novo mundo que todos pressentiam: oTratado de Tordesilhas.
Vitória da experiência em Tordesilhas
Na volta da viagem à América, em 1493, Cristóvão Colombo fez uma escala em Lisboa para visitar o rei de Portugal, D. João II. Um gesto corajoso. O soberano estava dividido entre dois conselhos: prender o genovês ou reclamar do papa direitos sobre as terras descobertas.
Para sorte de Colombo, decidiu pela segunda alternativa. Como a reivindicação não foi atendida, acabou sendo obrigado a enviar os melhores cartógrafos e navegadores da Ordem de Cristo, liderados pelo experiente Duarte Pacheco Pereira, a Tordesilhas, na Espanha, para tentar um tratado definitivo, mediado pelo Vaticano, com os espanhóis. Apesar de toda a contestação a seus atos, a Santa Sé ainda era o único poder transnacional na Europa do século XV. Só ela podia mediar e legitimar negociações entre países.
O cronista espanhol das negociações, frei Bartolomeu de las Casas, invejou a competência da missão portuguesa. No livro História de las Indias, escreveu: "Ao que julguei, tinham os portugueses mais perícia e mais experiência daquelas artes, ao menos das coisas do mar, que as nossas gentes". Sem a menor dúvida. Era a vantagem dada pela estrutura secreta da Ordem.
Não deu outra. Portugal saiu-se bem no acordo. Pelas bulas Inter Caetera, os espanhóis tinham direito às terras situadas mais de 100 léguas a oeste e sul da ilha dos Açores e Cabo Verde. Pelo acordo de Tordesilhas, a linha divisória imaginária, que ia do pólo norte ao pólo sul, foi esticada para 370 léguas, reservando tudo que estivesse a leste desse limite para os portugueses - o Brasil inclusive.
Trabalhando em silêncio
Graças à Ordem e à sua política de sigilo, os portugueses sabiam da existência das terras na parte do globo onde hoje está o Brasil sete anos antes da viagem de Cabral. E, trinta anos antes da viagem de Colombo, todos os mapas lusitanos mostravam ilhas com o nome de "Antílias", a oeste de Cabo Verde. O mais famoso cartógrafo italiano da época, Paolo Toscanelli, escreveu a um amigo português, em 1474, falando da "Ilha de Antília, que vós conheceis". Nesse ano, também houve notícia de que o navegador cruzado João Vaz da Corte Real explorou o Caribe e foi até a Terra Nova (o Canadá). Mas os documentos comprobatórios dessa viagem, como quase tudo da Ordem, nunca foram encontrados.
O mistério da origem do nome Brasil
Diz a tradição que o nome Brasil vem de pau-brasil, madeira cor-de-brasa. Mas a tradição é insuficiente quando se sabe que, desde 1339, o nome Brasil aparece em mapas. No século XIV, os planisférios dos cartógrafos Mediceu, Solleri, Pinelli e Branco mostravam uma Ilha Brasil, sempre a oeste dos Açores. O historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda acreditava que a origem do nome é uma lenda céltica que fala de uma "terra de delícias", vista entre nuvens.
A primeira carta geográfica onde aparecem referências seguras ao Brasil real é o mapa de Cantino. Nele se podem ver papagaios, florestas e o contorno do litoral desde o norte até o sudeste. O trabalho foi encomendado pelo espião italiano Alberto Cantino, em 1502, a um cartógrafo de Lisboa e enviado ao seu senhor, o Duque de Ferrara. É um mistério como ele foi feito. Afinal, as únicas viagens oficiais de espanhóis e portugueses ao Brasil até 1502 foram as de Vicente Pinzón, ao estuário do Amazonas, e Pedro Álvares Cabral, até onde hoje é a Bahia. Como explicar, então, a presença, na carta, do desenho do litoral desde Cabo Frio até o Amazonas?
Quem andou por aqui?
Fruto provável do suborno do cartógrafo, a se julgar pela conta salgada apresentada por Cantino ao duque, o mapa deixa claro que já havia conhecimento profundo das terras a oeste do Atlântico. Além de 4000 quilômetros de litoral brasileiro aparecem no mapa a Flórida, a Terra Nova (hoje Canadá) e a Groenlândia. Historiadores portugueses modernos, como Jorge Couto e Luciano Pereira da Silva, acham que Duarte Pacheco Pereira, o navegador que negociou Tordesilhas e autor do importante livro Esmeraldo de Situ Orbius, sobre as navegações portuguesas, escrito em 1505, deixou indicações de que esteve no Brasil. Teria visitado a costa do Maranhão e a foz do Amazonas, em 1498, quatro anos depois de Tordesilhas. Mesmo assim há questões do mapa de Cantino não-respondidas. A única certeza é que entre a versão e o fato agiam em sigilo os cavaleiros da Ordem de Cristo - cuja documentação jamais foi encontrada.
Do outro lado do Mar Tenebroso
Águas fervilhantes, ares envenenados, animais fantásticos e canibais monstruosos espreitavam a imaginação dos que desciam o Atlântico em direção ao sul.
Quando o navegador da Ordem de Cristo, Gil Eanes, passou o Cabo Bojador, um pouco ao sul das Ilhas Canárias, em 1434, mais do que realizar um avanço náutico, estava desmontando uma mitologia milenar. Acreditava-se que depois do cabo, localizado no que é hoje o Saara Ocidental, começava o Mar Tenebroso, onde a água fumegaria sob o sol, imensas serpentes comeriam os desgraçados que caíssem no oceano, o ar seria envenenado, os brancos virariam pretos, haveria cobras com rostos humanos, gigantes, dragões e canibais com a cabeça embutida no ventre.
O estrondo das ondas nos penhascos do litoral, que podia ser ouvido a quilômetros de distância, as correntes fortíssimas e as névoas de areia reforçavam o pânico dos pilotos. Quando finalmente reuniu coragem e viu que do outro lado não havia nada de especial, Eanes abriu o caminho para o sul.
A vanguarda do ideal cruzado
Dois cavaleiros em um só cavalo era o símbolo do voto de pobreza dos templários. As regras da Ordem obrigavam-os a combater mesmo quando estivessem em minoria. Toda a sua carreira era um treinamento para lutar em condições desvantajosas.
Na Palestina, os padres-combatentes da Ordem dos Templários participaram de numerosas batalhas, como a de Daniete, em 1229, retratada na gravura de Gustave Doré. Na pintura medieval, Felipe IV, o Belo (1268-1314), rei da França, recebe leis enviadas pelo papa francês Clemente V. Os dois conspiraram juntos para extinguir os templários.
Em 18 de março de 1314, depois de torturas infames e confissões forjadas pela Inquisição, o grão-mestre Jacques de Molay e vários líderes templários foram queimados em praça pública em Paris.
Os dois cavaleiros em um só cavalo também apareciam no sinete da Ordem, usado para identificar as mensagens oficiais da organização. A maior parte dos documentos, no entanto, jamais foi encontrada.
Um símbolo milenar
Os cruzados tomaram como emblema uma das cruzes mais antigas da cristandade.
Cruz copta: No século II, uma dissidência cristã, chamada copta, adotou esta cruz.
Cruz templária: Em 1119, a Ordem dos Templários criou um distintivo derivado da cruz copta.
Em busca do reino perdido
Com a ideia de reconquistar Jerusalém, os portugueses passaram décadas procurando o lendário reino do Preste João, que seria um núcleo cristão remanescente em terras orientais. Por fim, em 1492, encontraram, na Etiópia, uma monarquia cristã.
O rei D. João II, que governou de 1481 a 1495, estimulou a atividade mercantil e a colonização dos territórios africanos, contendo o ímpeto guerreiro dos cruzados da Ordem de Cristo.
Em 1541, os cristãos etíopes pediram ajuda a Portugal contra os turcos. O rei português mandou uma expedição de 400 soldados, liderada por Cristóvão Gama. Gama morreu, mas os cristãos venceram. Os portugueses foram recompensados e muitos ficaram na Etiópia. Em 1544, o rei etíope, Galawdewos, escreveu a D. João III, agradecendo a ajuda.
Os descobridores do Novo Mundo
Chineses no Brasil? Vikings na América? Exploradores fenícios?
No outono de 2001, em uma pequena loja de antiguidades na cidade portuária de Xangai, na China, estava pendurado na parede, entre outras relíquias, um velho mapa-múndi acumula poeira. Os olhos atentos de Liu Gang, um dos mais respeitados advogados corporativos da China e colecionador de antiguidades nas horas vagas, examinando o achado, logo notou algo estranho. O mapa estava coberto de anotações em caracteres chineses e uma delas continha a data em que foi desenhado - 1763. Mais abaixo, lia-se: "O cartógrafo Mo Yi Tong copiou este mapa a partir de um original de 1418". A informação era um contra-senso - pelo menos no que dizia respeito à história que se aprende nas lições escolares. Porque o mapa mostrava, com riqueza de detalhes, as Américas e a Austrália. Ou seja, todo o "Novo Mundo", supostamente descoberto por exploradores europeus a partir de 1492, na aventura de conquista que ficou conhecida como Era dos Descobrimentos.
Liu Gang pagou US$ 500, uma pechincha no mercado de antiguidades chinesas, e levou o mapa para casa. Durante os 3 anos seguintes, ficou se perguntando se o documento não seria uma farsa. Até que um dia leu o livro 1421 - O Ano em Que a China Descobriu o Mundo, do ex-oficial da Marinha britânica e historiador diletante, Gavin Menzies (escrita em 2002, a obra também foi lançada no Brasil). Embora nunca tivesse ouvido falar do mapa de Liu Gang, Menzies defendia uma tese que lhe caía como uma luva. A partir de uma pesquisa feita ao longo de 14 anos em diversas partes domundo, o ex-marinheiro concluiu que aquilo que os historiadores ocidentais diziam há centenas de anos estava errado: foram os chineses os primeiros exploradores a alcançar o Novo Mundo - e isso quando Cristóvão Colombo nem era nascido.
Revelado à comunidade científica em janeiro de 2006, o mapa do honorável Liu Gang incendiou manchetes e controvérsias ao redor do mundo. Para alguns, não passava de farsa; para outros, era mais uma entre muitas chibatadas no velho mito dos descobrimentos europeus. Hoje, evidências arqueológicas comprovam que pelo menos uma parte do Novo Mundo já tinha sido descoberta pelo menos 500 anos antes de Colombo - e isso sem falar nas lendas e documentos que falam de viagens transatlânticas na Antigüidade. Mas antes de se voltar na história e analisar cada uma das possíveis descobertas, recapitule a história oficial, contada pelos cristãos europeus, brancos e "civilizados", que desbravaram e colonizaram o globo entre a metade do século 15 e fins do século 18.
A Idade dos Descobrimentos
Cristóvão ColomboAté os últimos anos da Idade Média (que acabou em 1453 com a queda de Constantinopla), a geografia era quase um gênero de literatura fantástica. Em sua maioria, os mapas feitos na Europa repetiam as idéias dos antigos gregos e romanos: o mundo era formado por apenas três partes - a Europa, a Ásia e a África - e dois mares navegáveis, o Índico e o Mediterrâneo. Esse era o Velho Mundo, que, bem ou mal, estivera conectado durante 5 mil anos anteriores de história. Fora disso, o que havia era trevas, superstição e dragões assassinos.
A invenção que abriu os mares aos exploradores europeus surgiu por volta de 1430: a caravela, obra-prima de marujos e engenheiros portugueses. Até então, a maior parte das navegações ocorria perto do litoral ou em águas conhecidas e mapeadas de antemão. Singrar oceanos e "águas nunca dantes navegadas" era perigoso demais: os barcos só flutuavam com segurança se estivessem a favor dos ventos e uma súbita mudança na circulação do ar podia causar naufrágios e fazer até o comandante mais exímio perder o rumo. A caravela era projetada exatamente para superar esse obstáculo. Tinha um sistema que rotacionava as velas de acordo com a direção do vento e assim permitia a navegação mesmo quando o ar soprasse na direção contrária.
A primeira grande descoberta da era das caravelas não foi um continente, mas uma apavorante península de rochas, castigada por tempestades e ondas gigantes. Era o Cabo das Tormentas, depois rebatizado de Cabo da Boa Esperança - o último limite no sul da África, onde as águas do Atlântico e do Índico se encontram, que foi desbravado por Bartolomeu Dias em 1487. Estava aberto o caminho marítimo entre a Europa e a Ásia, que logo se tornou uma movimentada rota comercial e deu origem ao primeiro processo de globalização em larga escala.
Pouco a pouco, as sombras nos mapas antigos foram clareadas. Em 1492, o genovês Cristóvão Colombo, a serviço da Espanha, atravessou o Atlântico. Sua missão era fazer a volta ao mundo pelo oeste e chegar à Ásia - já que a rota que contornava a África pelo sul era dominada pelos portugueses. Em vez disso, Colombo deu com suas caravelas nas ilhas do Caribe - na época, ninguém falou em descobrimento, já que o próprio Colombo acreditava ter chegado a algum arquipélago no leste asiático. E, em 1500, como você já ouviu milhares de vezes, Pedro Álvares Cabral deparou "por acaso" com o monte Pascoal, no litoral da Bahia - mero "desvio" no meio de uma viagem cujo destino oficial também eram os reinos opulentos do Extremo Oriente. A Idade dos Descobrimentos continuaria por mais dois séculos: o último grande explorador dos mares foi o britânico James Cook, que descobriu oficialmente a Austrália em 1771.
Tudo isso é o que todos aprendemos na escola - mas pesquisas modernas, muitas delas baseadas em documentos bem antigos, mostram que todas as "descobertas" citadas aqui são verdades relativas. Começando pelo "terra à vista" de 22 de abril de 1500.
Quem descobriu o Brasil?
Pedro Álvares CabralVerdade seja dita: nosso ilustre e oficial descobridor, o fidalgo Pedro Álvares Cabral, até 1500, nunca tinha pilotado um navio (os detalhes técnicos da viagem ficaram por conta de seus subordinados). Também há indícios de que não fosse um sujeito dos mais brilhantes. E hoje, quase ninguém acredita que ele tenha sido o primeiro navegador a chegar ao Brasil - e muito menos que ele o tenha feito "por acaso".
O maior concorrente de Cabral ao título de descobridor foi um personagem digno de romances de aventura: o também português Duarte Pacheco Pereira. Ele ficou famoso exercendo uma das profissões mais requisitadas da época, a de cosmógrafo, mistura de geógrafo, matemático e marujo - desenvolveu cálculos que lhe permitiam localizar melhor do que ninguém a posição de longitude da embarcação. Era também um guerreiro famoso pela valentia no campo de batalha, como na ocasião em que derrotou exércitos na Índia comandando um punhado de guerreiros. Celebridade lusa, foi transformado em personagem de Os Lusíadas. Em 1498, o rei dom Manuel encarregou esse marinheiro multifunção de uma missão ultraconfidencial: descobrir se as terras encontradas por Colombo do outro lado do Atlântico faziam mesmo parte da Ásia. Pacheco deveria navegar até a linha de Tordesilhas, fronteira diplomática traçada por portugueses e espanhóis para dividir as terras recém-descobertas - ou ainda por descobrir.
Durante séculos, ninguém soube por onde andou Pacheco. Até que, em 1882, foi publicado em Portugal o Esmeraldo de Situ Orbis, ou Tratado dos Novos Lugares da Terra, obra assinada pelo próprio Pacheco mas desconhecida até então. "No ano de Nosso Senhor de 1498, Vossa Alteza nos mandou descobrir a parte ocidental, passando a grandeza do Mar Oceano, onde é achada e navegada uma vasta terra firme, grandemente povoada", relata o navegante, que diz ter avistado nas praias desconhecidas uma multidão de "gente parda, mas quase branca". "Mar Oceano" era outro nome para o Atlântico e a descrição dos nativos bate com a tribo dos aruaques, que tinham pele parda, mas bem mais clara que a de povos considerados "escuros" pelos europeus na época, como africanos, indianos - mesmo entre os indígenas brasileiros, os aruaques são considerados os que têm a pele mais próxima do branco. Pesquisas arqueológicas feitas nos anos 90 revelaram que a tribo era muito numerosa no século 15, o que explicaria também a menção a "terras grandemente povoadas". Outro detalhe: os aruaques povoavam o litoral do Maranhão, por onde passava o traço invisível do Tratado de Tordesilhas.
A tese de que Pacheco esteve no Brasil em 1498 foi defendida pelo português Jorge Couto emA Construção do Brasil, de 1995 - na época, muitos historiadores reclamaram que a teoria estava baseada em um punhado de frases ambíguas. Ainda hoje, não há 100% de certeza quanto às andanças. "É plausível que Pacheco tenha estado no Brasil antes de Cabral e que a Coroa Portuguesa tenha preferido manter o achado em segredo", diz Leandro Karnal, especialista em História da América Latina, da USP. "Os reis de Portugal mantinham em grande sigilo as navegações. Divulgar rotas marítimas era crime punido com pena de morte".
Outro aventureiro famoso que pode ter lançado âncoras em nossas praias antes de Cabral foi o geógrafo e marujo italiano Américo Vespúcio, que entrou para a história ao desmentir as teorias de seu conterrâneo Colombo. Em 1504, Vespúcio publicou um texto chamado Novus Mundus, garantindo que as terras no oeste do Atlântico não eram parte da Ásia, mas um continente completamente desconhecido - "um novo mundo", como diz o título em latim. Você já deve ter notado que a região foi batizada como América - e não, digamos, Colômbia - em homenagem a Vespúcio, o verdadeiro descobridor do Novo Mundo para seus contemporâneos. Já Colombo jurou até o fim da vida que havia chegado à China ou à Índia - a teimosia arruinou sua carreira e ele morreu pobre, esquecido e amargurado.
O que pouca gente sabe é que o rival de Colombo pode ter desembarcado no Brasil em 1499. Pelo menos, é o que Vespúcio dá a entender em uma de suas cartas - cujo conteúdo é questionado por alguns pesquisadores. Em 27 de junho daquele ano, ele diz ter avistado "uma terra cheia de grandíssimos rios", a 5 graus de longitude sul - ou seja, o litoral do Maranhão. Outra viagem, a dos espanhóis Yanez Pinzón e Diego de Lepe, tem evidências mais sólidas - os dois marujos foram condecorados pelo rei da Espanha por terem "descoberto o Brasil" em janeiro de 1500, dois meses antes de Cabral - empate técnico, portanto. Em abril de 1500, o rei português teria simplesmente decidido tomar posse oficial das terras que muitos já sabiam existir. Um "acaso" bem planejado, portanto.
Todas essas hipóteses datam a descoberta do Brasil em algum momento no fim do século 15. Para o britânico Gavin Menzies, porém, a costa do país havia sido mapeada 80 anos antes. Vamos voltar para o ano 1421, quando a China dominava os mares.
A Armada do Dragão
Almirante Zheng HeNo início do século 15, a China era, de longe, a nação mais avançada da Terra: seus exércitos já empunhavam armas de fogo quando ingleses, portugueses e espanhóis ainda se espetavam com lanças e flechas. E o maior contraste entre o avanço da China e o atraso europeu estava na engenharia naval. Por volta de 1400, Zhong Di, o imperador que levou a dinastia Ming ao seu auge econômico, construiu uma frota de 300 ba chuan ou "navios de tesouro" - monstros náuticos com 150 metros de comprimento. Relatos da época dizem que, ao serem lançados ao mar, os navios colossais pareciam uma cidade flutuante. Eram, sem dúvida, as maiores e mais mortíferas embarcações já feitas pelo homem até então.
A armada fantástica fez várias viagens pelo oceano Índico, entre 1400 e 1430. A mais famosa partiu de Nanquim no dia 3 de março de 1421, sob o comando do bravo almirante Zheng He, chinês de família muçulmana e eunuco. Os relatos oficiais dizem que o capitão eunuco navegou pela costa da África e deu meia volta nas proximidades da Tanzânia, no leste do continente. Isso não é pouco: o percurso, de 16 mil quilômetros, é praticamente o dobro da distância entre Brasil e Portugal. Mas, desde 2002, quando lançou o livro 1421..., Gavin Menzies vem divulgando a teoria de que a armada de Zheng He seguiu adiante e contornou o Cabo da Boa Esperança, 60 anos antes que Bartolomeu Dias fizesse o mesmo no sentido contrário. Dali, os chineses teriam se lançado à descoberta do Novo Mundo.
Contornar o cabo não seria um desafio tão grande para o ba chuan. A travessia ali é muito mais uma questão de força do que de jeito - não bastava ser um grande navegador, mas era preciso ter uma embarcação capaz de suportar a força dos ventos e das ondas nas "tormentas". A partir dali, a jornada seria facilitada graças à corrente de Bengala, que sobe pela costa da África, começando no Cabo da Boa Esperança. "O navegante que chegasse ao cabo, vindo do leste, seria levado pela corrente para o norte por 4 800 quilômetros", escreve Menzies. Nessa altura, o navio pegaria carona em outra corrente marítima - a Sul-Equatorial, que faz uma curva para o oeste e desemboca exatamente no norte do Brasil. Menzies calculou que a armada chinesa tenha passado pelo litoral do Maranhão ou de Pernambuco em setembro de 1421. Não há como saber se houve desembarque, mas Menzies apostou que os chineses toparam com os índios brasileiros e inclusive ficaram bem íntimos das índias: pesquisas feitas por geneticistas americanos no ano 2000 encontraram semelhannças entre genes chineses e de tribos do Mato Grosso do Sul. Além disso, sabe-se que tribos da Bacia Amazônica sofrem de uma doença chamada chimbere, que causa marcas concêntricas na pele, parecidas com tatuagens. A doença só ataca pessoas com predisposição genética, é passada de pai para filho, e o único lugar onde a situação se repete é o leste da Ásia - lá, a enfermidade se chama tokelau. "O chimbere sul-americano e o tokelau asiático são provas de que houve contato entre as regiões antes da chegada dos europeus", escreveu o geógrafo francês Max Sorre em A Luta Contra o Meio, ensaio científico publicado em 1967 - bem antes de Menzies começar suas pesquisas.
Depois de espalhar seus genes pelo Brasil, os chineses teriam entrado no Pacífico pelo sul da Argentina. Dali, foi só fazer a volta ao mundo. E ainda, bem no finzinho da viagem, Menzies acreditou que eles desembarcaram na Austrália. Em 1965, exploradores desenterraram um enorme leme de navio, com cerca de 12 metros da altura, no estado australiano de Nova Gales do Sul. "Somente um ba chuan teria um leme tão grande", escreveu Menzies, que também apostou no encontro entre os descobridores chineses e os nativos da Oceania. Tanto os aborígenes da Austrália quanto os maoris, povo que vive na Nova Zelândia, contam lendas sobre um grupo de navegantes, "vestidos em longas túnicas", que teria desembarcado em suas terras antes dos europeus (por sinal, há relatos chineses sugerindo que a Austrália já tinha sido descoberta até antes de 1421).
Mas, se tudo isso aconteceu, então por que Brasil e Austrália não falam mandarim e por que não comemos nossos pratos com a ajuda de pauzinhos? A resposta está no amargo regresso de Zheng He à China em 1423. Zhong Di, patrono das navegações, fora derrubado por uma rebelião - e o novo soberano decidiu que conquistar o mundo estava onerando os cofres imperiais. A marinha chinesa foi praticamente desativada e a maior parte dos documentos relativos à viagem de Zheng He foram queimados pelos censores do novo imperador, que queria desestimular extravagâncias futuras apagando os vestígios das passadas. A China desistiu de conhecer o mundo e decidiu se voltar para dentro, transformando a figura de Zheng He num tabu nacional, representante das tendências expansionistas e contrárias à idéia confuciana de que a China tinha de ficar fechada à influência dos "bárbaros". Abandonadas ao léu, as colônias chinesas no Novo Mundo definharam, e sua memória se perdeu. Pelo menos até agora.
Os navegantes de Odin
Leif ErikssonA teoria de Menzies não é muito popular entre historiadores profissionais - embora nela tudo se encaixe, as provas concretas para apoiá-la são poucas, frágeis e todas fortemente contestadas por historiadores. Mas, se for verdadeira, preencheria muitas lacunas - entre elas, documentos inexplicáveis como o Planisfério de Fra Mauro, desenhado por um monge italiano em 1459 e que repousa na Biblioteca Nazionale Marciana, em Veneza. Nele, aparece a localização exata do Cabo da Boa Esperança mais de 30 anos antes da descoberta oficial de Bartolomeu Dias. Menzies apostou que o monge cartógrafo copiou uma carta náutica desenhada pela armada de Zheng He no início do século 15.
Entre tantas dúvidas, há alguns consensos. Por exemplo: a primeira descoberta da América aconteceu no século 9, séculos antes da dinastia Ming subir ao poder na China. Era a época em que os vikings, antigos habitantes da Escandinávia, exploravam o litoral da Europa e o norte do Atlântico. A Saga dos Groenlandeses, épico viking escrito por volta do século 13, fala das navegações de Leif Eriksson, que teria partido da Groenlândia por volta de 970 e fundado uma colônia no noroeste do Atlântico - a Vinlândia. Conta a saga que o entreposto foi destruído por ataques dos skraelingar - povo misterioso que "disparava flechas, vestia jaquetas de couro e remava botes cobertos de peles".
A lenda da Vinlândia era bem conhecida na Europa na época dos descobrimentos, mas durante séculos acreditou-se que o relato era pura mitologia - até que, em 1960, um grupo de arqueólogos desenterrou uma fazenda tipicamente viking na província de Newfoundland, no litoral do Canadá. As casas estiveram soterradas por centenas de anos, mas um rigoroso trabalho de recuperação arrancou da terra uma quantidade assombrosa de vestígios. "A estrutura de madeira das construções, com pilastras retangulares, é idêntica à de sítios arqueológicos na Islândia e na Groenlândia - que eram colônias vikings", explica o historiador Johnni Langer, que há anos pesquisa as viagens vikings às Américas. "Também foram encontrados vários objetos de metalurgia, como pregos, alfinetes e fusos de tecelagem. E os indígenas que habitavam a região não trabalhavam o ferro." A datação do carbono 14 (teste químico que determina a idade de peças arqueológicas) revelou que tudo isso foi produzido e construído por volta do ano 1000 - ou seja, a data bate com a história da Saga. E os tais skraelingar são a cara dos indígenas beothuk, que viviam na região nos séculos 10 e 11.
Uma questão permanece em aberto: será que os vikings exploraram o interior do continente ou ficaram só na pequena fazenda no litoral? "Hoje, não resta a menor sombra de dúvida de que os vikings navegaram à América no século 10 e ficaram alguns anos por lá. É uma questão de bom senso: seria estranho se não tivessem explorado terra adentro. Mas, por enquanto, faltam provas", diz Langer.
Fenícios e celtas
Diodorus SiculusAs primeiras navegações confirmadas à América foram mesmo as dos vikings - mas séculos antes de Leif içar suas velas, já circulavam no Velho Mundo lendas sobre grandes terras desconhecidas do outro lado do Atlântico. Contam historiadores antigos que o primeiro povo a procurar esse continente remoto foram os fenícios - os maiores navegadores da Antigüidade, antepassados dos libaneses. Na obra Bibliotheca Historica, escrita no século 1 a.C., o romano Diodorus Siculus conta que o capitão fenício Himilcon singrou o "Oceano Ocidental" por volta de 500 a.C. e chegou a uma "grande terra, fértil e de clima delicioso". A descoberta foi mantida em segredo para evitar que outros povos explorassem o lugar - revelar sua localização era crime punido com a morte.
No início da Idade Média, começaram a circular rumores de que o misterioso país do ocidente era uma espécie de paraíso terreno, imagem do Éden descrito na Bíblia. Entre os celtas da Irlanda, a terra encantada ganhou o nome de Hy Brazil. A palavra céltica Brazil tem origens incertas, mas alguns acreditam que derive do termo fenício "barzil", que significava "ferro" - sabe-se que fenícios e celtas comerciaram na Antigüidade e podem ter trocado vocábulos além de mercadorias. Outros tradutores acham que Brazil vem do celta "bress", raiz da palavra inglesa "bless" - abençoar. A história oficial, como se sabe, conta que nosso país foi batizado em homenagem ao "pau-brasil", a madeira "da cor da brasa" que abundava no litoral do Nordeste e cuja casca dava uma tintura vermelha, usada para tingir as vestes mais luxuosas de Lisboa. Essa versão esquece, claro, que a palavra Brasil é mais antiga que existência da própria língua portuguesa, cujos documentos mais antigos só surgiriam no século 9.
Um descobridor alternativo das Américas pode ter sido um religioso celta em busca do paraíso terrestre: A Navegação de São Brandão, obra escrita na Irlanda por volta do ano 900, conta a história de um monge irlandês que em 556 teria partido pelas águas do Atlântico em um currach - pequeno barco de madeira, coberto de peles e usado por pescadores. Reza a lenda que São Brandão, com uma pequena tripulação de monges-marinheiros, encontrou a fabulosa terra de Hy Brazil, "cheia de bosques e grandes rios recheados de peixes", e voltou à Irlanda para contar a história.
Nenhuma evidência arqueológica confirma que fenícios ou celtas tenham estado no Novo Mundo - mas a chance, segundo alguns pesquisadores, não é de desprezar. "Mesmo na falta de provas definitivas, é ingênuo negar a possibilidade de que povos antigos tenham navegado à América", diz Luiz Galdino, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que pesquisa as descobertas alternativas do Novo Mundo há mais de 30 anos. Galdino aponta para a corrente Sul-Equatorial (a mesma que pode ter trazido os chineses ao Brasil) como o caminho mais provável para exploradores antigos. "Os fenícios tinham navios capazes de carregar mais mantimentos que as caravelas portuguesas. Sabemos que eles navegaram pela costa da África até o século 4 a.C. - e, se um de seus barcos tivesse entrado por acaso na corrente Sul-Equatorial, iria diretamente para as praias de Pernambuco", diz Galdino, que planeja lançar um livro sobre "as descobertas do Brasil". "O mesmo caminho pode ter sido seguido porceltas, romanos, árabes. O Brasil e as Américas foram descobertos várias vezes ao longo dos séculos".
Novo Mundo ou fim do mundo?
James Cook"E Deus quis que o Novo Mundo fosse descoberto pelos reis cristãos e seus vassalos, e que eles aceitassem alegremente o trabalho de converter e conquistar os idólatras. Bendito seja o Senhor!" Assim o espanhol Gonçalo Fernandes de Oviedo descreve o espírito de sua época, na obra Historia General de las Indias e de las Tierras del Mar Oceano, escrita em 1535. Tempo em que os espanhóis invadiam e dominavam as terras descobertas por Colombo, "para maior Glória de Deus". E foram os próprios conquistadores que começaram a transformar sua aventura em história: Oviedo, um fidalgo que veio às Américas para colonizar, foi o primeiro "cronista de Indias" da coroa espanhola - em outras palavras, historiador oficial encarregado de justificar e glorificar a conquista. A "descoberta" foi descrita como uma vontade divina. Os índios eram infiéis sem civilização, como os negros africanos: deviam se converter ou virar escravos.
Cronistas da época também esculpiram a versão de que nenhum outro povo "civilizado" alcançara o Novo Mundo antes dos ibéricos. Não à toa: o dono, claro, era quem chegou primeiro e a ele cabia o direito de ficar rico com isso. O mesmo raciocínio foi adotado uns dois séculos depois pelos colonizadores ingleses da Austrália: embora a ilha já tivesse sido avistada pelos portugueses em 1522, pelos holandeses em 1614 e talvez pelos chineses bem antes disso, o "descobridor oficial" foi o britânico James Cook, que tomou posse da terra em nome da Coroa inglesa. (De todos os possíveis descobridores da Oceania, só os chineses vestiam "longas túnicas", como os misteriosos visitantes das lendas aborígenes e maoris).
No Brasil, a transformação de Pedro Álvares Cabral em herói só ocorreu no século 19. Até então, livros de história mal falavam nele. Em Portugal, também era pouco lembrado: a casa que pertencera à sua família, na cidade de Santarém, ficou abandonada por séculos e chegou a virar um prostíbulo, até ser restaurada em meados do século 20. "Depois da Proclamação da República, em 1889, o país buscava uma identidade nacional, precisava de um herói em suas origens", diz Leandro Karnal, da USP. Colombo também permaneceu nas sombras por séculos e só foi reabilitado em 1866, quando americanos de origem italiana inventaram o Columbus Day, ou Dia de Colombo. O objetivo era sublinhar o papel da Itália na colonização da América - truque ideológico numa época em que os imigrantes italianos eram desprezados e até linchados pela elite anglo-saxã.
Com o tempo, a celebração da "descoberta" foi exportada para a América Central e do Sul e até hoje faz parte de muitos calendários nacionais. É um bom exemplo de história contada pelos vencedores: europeus, brancos e cristãos. Se nossos livros tivessem sido escritos pelos perdedores, talvez todos esses relatos não fossem contados como épicos, mas em tom apocalíptico. No México e no Peru, sacerdotes indígenas decretavam que seus deuses nativos estavam mortos e anunciavam o fim da civilização. O que os "descobertos" pensavam sobre a tal Idade dos Descobrimentos pode ser resumido em um verso, escrito por um poeta indígena do México na aurora do Novo Mundo: "Oh meus filhos, em que tempos detestáveis vocês foram nascer!"
Os primeiros moradores
Fóssil batizado de LuziaDiscutir se foram chineses, vikings ou espanhóis os primeiros a chegar ao Novo Mundo guarda um certo equívoco histórico. Afinal de contas, as Américas já tinham sido descobertas havia pelo menos 15 mil anos - e a Oceania, há cerca de 46 mil! Os pioneiros vieram da Ásia, quando os ancestrais dos portugueses ainda viviam na Pré-História.
Os primeiros australianos, ancestrais do povo que os colonizadores ingleses batizaram de aborígenes, eram caçadores e pescadores de pele escura, originais do Sudeste Asiático. Chegaram à Oceania caminhando - naquela época, havia ligações por terra entre as ilhas do Pacífico e o litoral da Ásia. O que pouca gente sabe é que os primeiros habitantes da América não foram os ancestrais dos nossos índios de pele avermelhada e olhos puxados, mas parentes dos australianos antigos. Em 1999, o arqueólogo brasileiro Walter Neves examinou um crânio feminino encontrado em Minas Gerais e descobriu feições aborígenes (ou "australo-melanésias", para usar o termo científico). O fóssil foi batizado de Luzia e data de 12 mil anos atrás - a primeira brasileira de que se tem notícia. Os tataravôs de Luzia devem ter chegado à América vindos do Sudeste Asiático.
Já os ancestrais dos nossos tupiniquins, dos astecas mexicanos e dos apaches dos EUA só começaram a chegar ao Novo Mundo há 12 mil anos. Vieram da Sibéria, atravessando o estreito de Bering e se espalharam para o sul. Como o interior da América do Norte estava congelado na época, os prototupis teriam navegado até a América Central e, a partir daí, desbravado o interior, chegando até os confins da Terra do Fogo, no extremo sul do continente. Segundo Walter Neves, devem ter entrado em conflito com os australo-melanésios, na disputa por caça e território. "Não se sabe ao certo quando o povo de Luzia foi extinto, mas é possível que alguns poucos ainda existissem na época do descobrimento português".
Como se enfrentava o mar bravio?
Currach
O pequeno barco irlandês feito de madeira era coberto com peles animais e tripulado por até 10 pessoas. Em 1978, um britânico construiu uma réplica do currach e viajou da Irlanda ao Canadá parando nas ilhas do norte do Atlântico.
Knorr
O barco viking era comprido e esguio, com linhas de remos nas laterais e uma única vela. Seu casco deslizava sobre ondas bravias em vez de perfurá-las - um truque de engenharia náutica para driblar as tempestades do norte.
Caravela
Ao contrário de todos os barcos acima, a invenção portuguesa não tinha velas quadradas, mas triangulares. Isso permitia navegar a "barlavento" (quer dizer, na direção contrária aos ventos) com muito mais rapidez e segurança.
Birreme
O navio fenício era a melhor embarcação da Antiguidade. Tinha 2 ou 3 fileiras de remos - daí o nome birreme ou trirreme - e até 35 metros. Foi copiado por gregos e romanos, que o usaram para dominar a navegação no Mediterrâneo.
Ba chuan
O navio chinês foi a mais potente embarcação construída até o século 20. Levava 200 toneladas de carga, o que garantia autonomia de 7 mil quilômetros - o suficiente para cruzar o Atlântico sem paradas.
Histórias oficiais e histórias alternativas
Quem descobriu a América? Aprende-se: Em 1492, Cristóvão Colombo foi o primeiro navegante a chegar à América.
As outras versões: A grande armada da China imperial teria descoberto a América em 1421. Mas arqueólogos afirmam que vikings aportaram no Canadá por volta do ano 1000. E há relatos de que fenícios descobriram uma "grande terra no Ocidente" por volta de 500 a.C.
Quem dobrou o Cabo da Boa Esperança? Aprende-se: O navegador português Bartolomeu Dias foi o primeiro navegante a contornar o promotório no sul da África, segundo os relatos oficiais, em 1487.
As outras versões: De novo, a taça seria dos chineses. Gavin Menzies disse que um ba chuan superou as fortes ondas e ventos do cabo cerca de 60 anos antes de Dias realizar a façanha.
Quem descobriu o Brasil? Aprende-se: Um mero acaso a caminho das Índias. Assim Cabral descobriu o Brasil, em 1500.
As outras versões: Em missão secreta Duarte Pacheco Pereira teria chegado em 1.498. Outros ibéricos a aportar aqui antes de Cabral podem ter sido Américo Vespúcio, Yanez Pinzón e Diego de Lepe. E há quem defenda que chineses não só estiveram aqui, como fizeram filhos com as índias.
Quem descobriu a Austrália? Aprende-se: Em 1771, o britânico James Cook mapeou a Oceania, então último continente habitado e desconhecido.
As outras versões: O português Cristóvão de Mendonça pode ter passado pela Austrália em 1522 - mas a primeira "descoberta" confirmada foi a do holandês Willem Janszoon, em 1605. Menzies garante que os chineses descobriram tudo em 1421.
Quem contornou o Estreito de Magalhães? Aprende-se: O nome já entrega a história - a passagem entre o Atlântico e o Pacífico foi encontrada em 1520 pelo português Fernão de Magalhães.
As outras versões: Em 1421, a armada chinesa teria navegado pela costa da América do Sul até a Patagônia e dali seguiu rumo ao Pacífico.
Quem fez a primeira volta ao mundo? Aprende-se: Após descobrir o estreito que leva seu nome, Magalhães navegou o Pacífico e tornou-se o primeiro europeu a dar a volta no globo. Morreu nas Filipinas, em combates com indígenas.
As outras versões: O circundamento completo da Terra já teria sido feita sob o comando do navegador Zheng He 100 anos antes da expedição de Magalhães.
Fonte:
Revista Superinteressante
Alegoria da Caverna
Humberto Zanardo Petrelli
Para explicar o movimento de passagem de um grau de conhecimento para o outro, no Livro VII da República, Platão narra o Mito da Caverna, alegoria da teoria do conhecimento e dapaideia platônicas. Para conhecermos esse mito, precisamos retomar, noutro nível, a exposição da teoria do conhecimento feita nas aulas anteriores, pois essa versão apresentada deixou de lado a beleza, a dramaticidade e as metáforas que tecem o Livro VI da República.
Para dar a entender ao jovem Glauco o que é e como se adquire o conhecimento verdadeiro, Sócrates começa estabelecendo uma analogia entre conhecer e ver.![]()
Todos nossos sentidos, diz Sócrates, mantêm uma relação direta com o que sentem. Não é esse, porém, o caso da visão. Para que a visão se realize, não bastam os olhos (ou a faculdade da visão) e as coisas coloridas (pois vemos cores e são elas que desenham a figura, o volume e as demais qualidades da coisa visível), mas é preciso um terceiro elemento que permita aos olhos ver e às coisas serem vistas: para que haja um visível visto é preciso a luz. A luz não é o olho nem a cor, mas o que faz com que o olho veja a cor e que a cor seja vista pelo olho. É graças ao Sol que há um mundo visível. Por que as coisas podem ser vistas? Porque a cor é filha da luz. Por que os olhos são capazes de ver? Porque são filhos do Sol: são faróis ou luzes que iluminam as coisas para que se tornem visíveis. A visão é, assim, uma atividade e uma passividade dos olhos. Atividade, porque é a luz do olhar que torna as coisas visíveis. Passividade, porque os olhos recebem sua luz do Sol.
Conhecer a verdade é ver com os olhos da alma ou com os olhos da inteligência. Assim como o Sol dá sua luz aos olhos e às coisas para que haja mundo visível, assim também a ideia suprema, a ideia de todas as ideias, o Bem (isto é, a perfeição em si mesma) dá à alma e às ideias sua bondade (sua perfeição) para que haja mundo inteligível. Assim como os olhos e as coisas participam da luz, assim também a alma e as ideias participam da bondade (ou perfeição) e é por isso que a alma pode conhecer as ideias. E assim como a visão é passividade e atividade do olho, assim também o conhecimento é passividade e atividade da alma: passividade, porque a alma precisa receber a ação das ideias para poder contemplá-las; atividade, porque essa recepção e contemplação constituem a própria natureza da alma.
Assim como na treva não há visibilidade, assim também na ignorância não há verdade. A
e a
são para a alma o que a cegueira é para os olhos e a escuridão é para as coisas: são privações (privação de visão e privação de conhecimento).
Sob a analogia da luz, a diferença entre o sensível e o inteligível se apresenta assim:
MUNDO SENSÍVEL MUNDO INTELIGÍVEL
Sol
Luz
Cores
Olhos
Visão
Treva, cegueira
Privação de luz Bem
Verdade
Ideias
Alma racional ou inteligência
Intuição
Ignorância, opinião
Privação de verdade
Essa analogia é o tema do Mito da Caverna, narrado por Sócrates a Glauco para fazê-lo compreender o sentido da paideia filosófica, isto é, da dialética e do conhecimento verdadeiro.
Imaginemos, diz Sócrates, uma caverna subterrânea separada do mundo externo por um alto muro. Entre este e o chão da caverna há uma fresta por onde passa alguma luz exterior, deixando a caverna na obscuridade quase completa.
Desde seu nascimento, geração após geração, seres humanos ali estão acorrentados, sem poder mover a cabeça na direção da entrada, nem se locomover, forçados a olhar apenas a parede do fundo, vivendo sem nunca ter visto o mundo exterior nem a luz do Sol, sem jamais ter efetivamente visto uns aos outros, pois não podem mover a cabeça nem o corpo, e sem se ver a si mesmos porque estão no escuro e imobilizados. Abaixo do muro, do lado de dentro da caverna, há um fogo que ilumina vagamente o interior sombrio e faz com que as coisas que se passam do lado de fora sejam projetadas como sombras nas paredes do fundo da caverna.
Do lado de fora, pessoas passam conversando e carregando nos ombros figuras ou imagens de homens, mulheres, animais cujas sombras também são projetadas na parede da caverna, como num teatro de fantoches. Os prisioneiros julgam que as sombras de coisas e pessoas, os sons de suas falas e as imagens que transportam nos ombros são as próprias coisas externas, e que os artefatos projetados são seres vivos que se movem e falam.
Nesse ponto, Glauco diz a Sócrates que o quadro descrito por ele lhe parece algo estranho, incomum e inusitado. Sócrates, porém, diz-lhe que os prisioneiros "são semelhantes a nós". E prossegue. Os prisioneiros se comunicam, dando nomes às coisas que julgam ver (sem vêlas realmente, pois estão na obscuridade) e imaginam que o que escutam, e que não sabem que são sons vindos de fora, são as vozes das próprias sombras e não vozes dos seres reais. Qual é, pois, a situação dessas pessoas aprisionadas?
Tomam sombras por realidade, tanto as sombras das coisas e dos homens exteriores como as sombras dos artefatos fabricados por eles. Essa confusão, porém, não tem como causa a natureza dos prisioneiros e sim as condições adversas em que se encontram. Por isso Sócrates indaga: que aconteceria se fossem libertados dessa condição de miséria e, "retornando à sua natureza, pudessem ver as coisas e ser curados de sua ignorância?".
Essa pergunta é um tanto grave. De fato, para os prisioneiros, o único mundo real é a caverna, portanto, a obscuridade na qual não podem se ver nem ver os outros não é percebida como tal e sim experimentada como realidade verdadeira. E a caverna é para elestodo o mundo real, pois não sabem que o que vêem na parede do fundo são sombras de um outro mundo, exterior à caverna, uma vez que não podem virar a cabeça para ver que há algo lá fora e que é de lá de fora que outros homens lhes enviam imagens e sons.
Ora, se para os prisioneiros o mundo real é a caverna, como poderiam sair da ilusão se não sabem que vivem nela?
Um dos prisioneiros, inconformado com a condição em que se encontra, decide abandoná-la. Fabrica um instrumento com o qual quebra os grilhões. De início, move a cabeça, depois o corpo todo; a seguir, avança na direção do muro e o escala. Enfrentando as durezas de um caminho íngreme e difícil, sai da caverna. No primeiro instante, fica totalmente cego pela luminosidade do Sol, com a qual seus olhos não estão acostumados. Enche-se de dor por causa dos movimentos que seu corpo realiza pela primeira vez e pelo ofuscamento de seus olhos sob a ação da luz externa, muito mais forte do que o fraco brilho do fogo que havia no interior da caverna. Sente-se dividido entre a incredulidade e o deslumbramento. Incredulidade porque está obrigado a decidir onde se encontra a realidade: no que vê agora ou nas sombras em que sempre viveu. Deslumbramento (literalmente: ferido pela luz) porque seus olhos não conseguem ver com nitidez as coisas iluminadas. Seu primeiro impulso é retornar à caverna para livrar-se da dor e do espanto. Embora esteja reconquistando sua verdadeira natureza, o sofrimento que essa reconquista lhe traz é tão grande que se sente atraído pela escuridão, que lhe parece mais acolhedora. Além disso, precisa aprender a ver e esse aprendizado é doloroso, fazendo-o desejar a caverna, onde tudo lhe é familiar e conhecido.
A descrição platônica é dramática: o caminho em direção ao mundo exterior é íngreme e rude; o prisioneiro libertado sofre e se lamenta de dores no corpo; a luz do Sol o cega; ele se sente arrancado, puxado para fora por uma força incompreensível. Platão narra um parto: o parto da alma que nasce para a verdade e é dada à luz.
Sentindo-se sem disposição para regressar à caverna por causa da rudeza do caminho, o prisioneiro permanece no exterior. Aos poucos, habitua-se à luz e começa a ver o mundo. Encanta-se, tem a felicidade de finalmente ver as próprias coisas, descobrindo que estivera prisioneiro a vida toda e que em sua prisão vira apenas sombras. Doravante, desejará ficar longe da caverna para sempre e lutará com todas as suas forças para jamais regressar a ela. No entanto, não pode evitar lastimar a sorte dos outros prisioneiros e, por fim, toma a difícil decisão de regressar ao subterrâneo sombrio para contar aos demais o que viu e convencê-los a se libertarem também.
Assim como a subida foi penosa, porque o caminho era ingrato e a luz, ofuscante, também o retorno será penoso, pois será preciso habituar-se novamente às trevas, o que é muito mais difícil do que se habituar à luz. De volta à caverna, o prisioneiro fica cego novamente, mas, agora, por ausência de luz. Ali dentro, é desajeitado, inábil, não sabe mover-se entre as sombras nem falar de modo compreensível para os outros, não sendo acreditado por eles. Torna-se objeto de zombaria e riso, e correrá o risco de ser morto pelos que jamais se disporão a abandonar a caverna. Impossível aqui não identificar a figura de Sócrates na do prisioneiro que se liberta, retorna e é morto pelos homens das sombras.
A caverna, explica Sócrates a Glauco, é o mundo sensível onde vivemos. O fogo que projeta as sombras na parede é um reflexo da luz verdadeira (do Bem e das ideias) sobre o mundo sensível. Somos os prisioneiros. As sombras são as coisas sensíveis, que tomamos pelas verdadeiras, e as imagens ou sombras dessas sombras, criadas por artefatos fabricados de ilusões. Os grilhões são nossos preconceitos, nossa confiança em nossos sentidos, nossas paixões e opiniões. O instrumento que quebra os grilhões e permite a escalada do muro é a dialética. O prisioneiro curioso que escapa é o filósofo. A luz que ele vê é a luz plena do ser, isto é, o Bem, que ilumina o mundo inteligível como o Sol ilumina o mundo sensível. O retorno à caverna para convidar os outros a sair dela é o diálogo filosófico, e as maneiras desajeitadas e insólitas do filósofo são compreensíveis, pois quem contemplou a unidade da verdade já não sabe lidar habilmente com a multiplicidade das opiniões nem se mover com engenho no interior das aparências e ilusões.
Os anos despendidos na criação do instrumento para sair da caverna são o esforço da alma para libertar-se. Conhecer é, pois, um ato de libertação e de iluminação. A paideia filosófica é uma conversão da alma voltando-se do sensível para o inteligível. Essa educação não ensina coisas nem nos dá a visão, mas ensina a ver, orienta o olhar, pois a alma, por sua natureza, possui em si mesma a capacidade para ver.
O Mito da Caverna apresenta a dialética como movimento ascendente de libertação do olhar intelectual que nos livra da cegueira para vermos a luz das ideias. Mas descreve também o retorno do prisioneiro para convidar os que permaneceram na caverna a sair dela, ensinando-lhes como quebrar os grilhões e subir o caminho. Há, assim, dois movimentos: o de ascensão (a dialética ascendente), que vai da imagem à crença ou opinião, desta para as matemáticas e destas para a intuição intelectual e a ciência; e o do descenso (a dialética descendente), que consiste em praticar com outros o trabalho para subir até às ideias.
Os olhos foram, portanto, feitos para ver, a alma foi feita para conhecer. Os primeiros estão destinados à luz solar, a segunda, à fulguração/revelação da ideia. A dialética é a técnica que liberta os "olhos do espírito".
O relato da subida e da descida expõe a paideia como dupla violência necessária para a liberdade e para a realização da natureza verdadeira da alma: a ascensão é difícil, dolorosa, quase insuportável; o retorno à caverna, uma imposição terrível à alma libertada, agora forçada a abandonar a luz e a felicidade. A dialética, como toda técnica, é uma atividade exercida contra uma passividade, é um esforço para obrigar uma dÚnamij
a se atualizar, um trabalho para concretizar um fim, forçando um ser a realizar sua própria natureza. No Mito da Caverna, a dialética leva a alma a ver sua própria essência ou forma (
), isto é, conhecer, vendo as essências ou formas, para descobrir seu parentesco com elas, pois a alma é parente da ideia como os olhos são parentes da luz.
Bibliografia
PRÉ-SOCRÁTICOS, Col. "Os Pensadores", vol. 1, seleção de textos e supervisão do prof. Dr. José Cavalcante de Souza, São Paulo,
Abril Cultural, 1978.
Bibliografia Complementar
CHAUI, M. Filosofia, Série Novo Ensino Médio, Volume Único, São Paulo, Editora Ática, 2004.
CHAUI, M. Introdução à História da Filosofia - dos pré-socráticos a Aristóteles, Volume 1, São Paulo, Cia. das Letras, 2002.
COTRIM, G. Fundamentos da Filosofia: História e Grandes Temas, São Paulo, Ed. Saraiva, 7a tiragem, 2005.
KIRK, G.S., RAVEN, J. E. & SCHOFIELD, M. Os filósofos pré-socráticos, Lisboa, Fund. Calouste Gulbenkian, 1994.
